Saturday, March 29, 2014

Disse Lima Barreto (II)

Mais um trecho interessante de Vida e morte de J. M. Gonzaga de Sá.

— Lês a «Gazeta de Uberaba»? indaguei.

— Leio. Um amigo, político lá, manda-me.

— Que elle te mande, não é de admirar; mas que a leias!..

— Leio. Gosto dos jornaes obscuros, dos jornaes dos que iniciam. Gostos dos começos, da obscura lucta entre a intelligencia e a palavra, das singularidades, das extravagâncias, da livre ou buscada invenção dos principantes.

— Estás como o meu amigo Domingos Ribeiro Filho, que diz: todo o victorioso é banal.

— Concordo com elle, mas unicamente no meu estreito ponto de vista pessoal.

— De certo.

— Eu assigno a «Pesquiza», de Cascadura. Está alli um exemplar. Tira. E apontou uma estante junto de mim.

— Esta?

— Sim. Lê o summario.

Tinha em mãos a «Pesquiza», de Cascadura, em cuja capa, feia e suja, a envolver uma má brochura de sessenta paginas, li vagamente: Literatura subjacente; Teixeira de Souza, o estylista e o romancista, por Gualberto Marques; Halos, poesia por Beltrando F de Souza; O pintor Manuel da Cunha e os coloristas fluminenses do Século XVIII, por Aymbiré Salvatore; O temperamento na sciencia, por I. K.; A mathematica dos árabes e hindus e o calculo differencial em face da geometria grega, por KarI von Walposky da Costa; Da necessidade de corromper a lingua portugueza falada no Brasil, por Bruno Uricury Furtado; A desassociação da matéria e o inabalevel scientifico, por Frederico Balspoff de Mello; Os casos do mez e os seus commentarios, chronica por Baldonio Flaron.

Em seguida puz-me a folhear, lendo aqui e alli as paginas da suburbana publicação mensal. Não o fiz sem surpresa. Causava admiração que em tão detratado subúrbio, se agitassem tantas idéias differentes e novas. Gonzaga manteve-se calado, sem perder um só dos meus gestos. Gozava...

— Cascadura dando a nota, hein?

— E' verdade.

— A' vista dos nossos grandes jornaes e revistas catitas, a «Pesquiza», de Cascadura, é uma bella publicação intellectual.

Folheei ainda uma vez a brochura; li trechos aqui e alli e depois disse:

— Curioso é que haja tanta gente obscura capaz de escrever sobre assumptos tão elevados. Conheces algum?

— Nenhum; mas o que te surprehende?!... Ha entre nós muito talento. O que não ha é publicidade, ou antes, a publicidade que ha é humilhante, além de completamente destituída de vistas superiores.

— Como?

— Muito simplesmente . . . Analysemos: quaes são os meios de publicidade?

— O jornal e a revista.

— ... e o livro, concluiu Gonzaga de Sá.

— O livro também.

— Um jornal, dos grandes, tu bem sabes o que é: uma empreza de gente poderosa, que se quer adulada e só tem certeza naquellas intelligencias já firmadas, registradas, carimbadas, etc, etc. Demais, o ponto de vista limitado e restricto dessas emprezas, não permitte senão publicações para os leitores medianos, que querem política e assassinatos. Os seus proprietários fazem muito bem, dão o que lhes pede o publico... Se não consultam as médias, têm que lisongear os potentados, os graúdos, porem-se a serviço delles — gente, em geral, perfeitamente estranha ao tênue espirito brasileiro e que não quer saber de coisas de pensamento desinteressado... Além disso, são necessárias mil curvaturas, para chegar até elles, os grandes jornaes; e, quando se chega, para não escandalisar a media e a grande burguezia, onde elles têm a sua clientella, é preciso atirar fora o que se tem de melhor na cachola.

— E as revistas?

— São a mesma coisa, tendo a mais as photographias.

— Não ha entre nós, continuou elle, aquella procura que estimula a argúcia dos editores e empresários de publicade do estrangeiro — a da intelligencia viva e nova. Qual o que! Satisfazem-se os nossos negociantes de livros e jornaes com o ramerrão e para variar mandam buscar a novidade em Portugal. Soffreiam o nosso pensamento, porque, quem não apparece no jornal, não apparecerá nem no livro, nem no palco, nem em parte alguma — morrerá. É uma dictadura.

— Você deve dividir a culpa... E o publico? e os autores?

— O publico é malleavel, é dirigivel; os autores, estes sim, têm culpa.  Entretanto, eu achei um meio de travar conhecimento com a joven intelligencia de minha terra: leio as revistas obscuras e alguns jornaes de província. Se a dôr da rima e do metro augmentam a belleza da poesia, a escassez do espaço dá um grande realce aos artigos das pequenas revistas. Adivinha-se muito do que os autores não puderam dizer; inventando-se também muito do que nem siquer lhes passou pela mente . . . Suggere?

— É possível que tenhas raras emoções na leitura das pequenas revistas, mas nos jornaes de província — tão cheios de política e intriga!

— Engano! Este numero da «Gazeta de Uberaba» é um desmentido perfeito ao que asseveras.

— Ora! Questiunculas!

— Questiunculas! Hom'essa! Altas questões sociaes, meu amigo! Cuida da industria pastoril e diplomacia!

Palavras que me fazem pensar em tantas coisas... Mas me lembrei de um professor meu da faculdade, que dizia preferir acompanhar monografias e outros trabalhos de graduandos a participar de congressos acadêmicos... Dizia (sem ironia) que havia investigações bem mais originais e interessantes. E se você um dia resolver folhear monografias ou alguns trabalhos de pós-graduação, vai ver que meu professor não estava tão enganado.

Tuesday, March 25, 2014

Disse Lima Barreto


Há muita gente que, sem quéda especial para medico, advogado ou engenheiro, tem outras aptidões intellectuaes, que a vulgaridade do publico brasileiro ainda não sabe apreciar, animar e manter. São philosophos, ensaistas, estudiosos dos problemas sociaes e de outros departamentos da intelligencia, para os quaes a nossa gente que lê, não se voltou e de que são amadores poucos da élite, e sem echo na nação, em virtude dessa pasmosa differença de nivel que ha entre a intelligencia dos grandes homens do Brasil e da sua massa legente.

Certos de que as suas aptidões não lhes darão um meio de vida, os que nascem tão desgraçadamente dotados, se pobres procuram o funccionalismo, fugindo ao nosso imbecil e botafogano doutorado. Não são muitos; são raros em cada Repartição, mas consideraveis em todo o funccionalismo federal.

Em começo, procuram-no com o fim de manter a integridade do seu pensamento, de fazel-o produzir, a coberto das primeiras necessidades da vida; mas, o enfado, a depressão mental do ambiente, o afastamento dos seus iguaes e o estupido desdem com que são tratados, tudo isso, aos poucos, lhes vae crestando o viço, a coragem e mesmo o animo de estudar. Com os annos, esfriam, não lêem mais, embotam-se e desandam a conversar.

Eu me dei com um escripturario que conhecia o zend, o hebraico, além de outros conhecimentos mais ou menos communs.

Seu pae, que tivera fortuna, mandou-o para Europa muito moço, pelos quatorze annos.

Lá, onde se demorara perto de dez annos, apaixonou-se pela critica religiosa e estudou com afinco estas linguas sagradas. Perdendo a fortuna, voltou e viu-se, com tão inestimavel sabedoria, nas ruas do Rio de Janeiro, sem saber o que fizesse della.

Nesse tempo, o folhetim estava na moda, e a repetição de umas cousas vulgares de mathematica.

O futuro escripturario não dava para o roda-pé; declarou-se besta, e fez um concursosinho de amanuense, e foi indo. Ficou como um escolar que sabe geometria, a viver numa aldeia de gafanhotos; e, quinze annos depois, veio a morrer, deixando grande saudades na sua Repartição. Coitado, diziam, tinha tão bôa letra!

A passagem está em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Quase um triste miniconto sobre a (falta de) vida intelectual brasileira.

Saturday, March 01, 2014

Prefeito Xing Ling

Para quem não sabe, xing ling é o nome que o povo dá para produtos falsificados. Com isso na cabeça e cheio de bronca no coração, enviou um leitor do G1 Rio o seguinte comentário sobre o nosso prefeito Eduardo Paes: "Jumento de primeira e imitação barata de Pereira Passos. Xing Ling do Paraguai." Entenderam? "Xing Ling do Paraguai". Soa como a falsificação da falsificação. Tipo foto de foto adulterada.

(Uma observação. *Todo* prefeito do Rio que começa a fazer uma pá de obras é logo comparado com Pereira Passos. E todo prefeito morre de vontade de ser lembrado como o novo P. Passos. Como diria Marx, é o replay histórico e bufão.)

A população está iracunda. Se um dia insultaram o Prefeito num restaurante ("Falei pra ele que [ele que] é um bosta", confessou o sujeito que terminou sentindo literalmente o braço forte da autoridade), noutro deram um Mega Pedala-Robinho no Secretário de Obras. Não faltou quem louvasse no G1 Rio a agressão. Alguém chegou a dizer: "Não sei porque, mas isso me fez sentir bem". E não é só a população do Rio que está indignada. Conheço gente da região metropolitana que por um motivo ou outro *detesta* o nosso prefeito. O homem virou parâmetro de ruindade ("jumento de primeira", conforme o leitor do G1). Um amigo meu de Niterói chegou a dizer: "E eu que achava que o nosso prefeito anterior era horrível..."

Que fazer? Eduardo Paes continuará abusando de nossa paciência. Só 2016 expulsa o presepeiro do governo...