Tuesday, March 25, 2014

Disse Lima Barreto


Há muita gente que, sem quéda especial para medico, advogado ou engenheiro, tem outras aptidões intellectuaes, que a vulgaridade do publico brasileiro ainda não sabe apreciar, animar e manter. São philosophos, ensaistas, estudiosos dos problemas sociaes e de outros departamentos da intelligencia, para os quaes a nossa gente que lê, não se voltou e de que são amadores poucos da élite, e sem echo na nação, em virtude dessa pasmosa differença de nivel que ha entre a intelligencia dos grandes homens do Brasil e da sua massa legente.

Certos de que as suas aptidões não lhes darão um meio de vida, os que nascem tão desgraçadamente dotados, se pobres procuram o funccionalismo, fugindo ao nosso imbecil e botafogano doutorado. Não são muitos; são raros em cada Repartição, mas consideraveis em todo o funccionalismo federal.

Em começo, procuram-no com o fim de manter a integridade do seu pensamento, de fazel-o produzir, a coberto das primeiras necessidades da vida; mas, o enfado, a depressão mental do ambiente, o afastamento dos seus iguaes e o estupido desdem com que são tratados, tudo isso, aos poucos, lhes vae crestando o viço, a coragem e mesmo o animo de estudar. Com os annos, esfriam, não lêem mais, embotam-se e desandam a conversar.

Eu me dei com um escripturario que conhecia o zend, o hebraico, além de outros conhecimentos mais ou menos communs.

Seu pae, que tivera fortuna, mandou-o para Europa muito moço, pelos quatorze annos.

Lá, onde se demorara perto de dez annos, apaixonou-se pela critica religiosa e estudou com afinco estas linguas sagradas. Perdendo a fortuna, voltou e viu-se, com tão inestimavel sabedoria, nas ruas do Rio de Janeiro, sem saber o que fizesse della.

Nesse tempo, o folhetim estava na moda, e a repetição de umas cousas vulgares de mathematica.

O futuro escripturario não dava para o roda-pé; declarou-se besta, e fez um concursosinho de amanuense, e foi indo. Ficou como um escolar que sabe geometria, a viver numa aldeia de gafanhotos; e, quinze annos depois, veio a morrer, deixando grande saudades na sua Repartição. Coitado, diziam, tinha tão bôa letra!

A passagem está em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Quase um triste miniconto sobre a (falta de) vida intelectual brasileira.

1 comment:

Gabriel Andrade Alves said...

Interessante a identificação com os dias atuais. Sensacional.