Saturday, February 01, 2014

Supervia

Outro dia, enquanto gastava minha simpatia tropical num trem, fiquei observando uns tipos que iam e vinham. Como era feriadão, não sei se eles estão sempre presentes, mas constatei que havia:

1. Um cara vestido de marechal (ou porteiro de hotel dos tempos do ronca) fazendo pregação evangélica;

2. Vendedores ambulantes saídos da taberna do inferno;

3. Certas simplicidades que tinham um comportamento que lembrava por alto a Remédios, a Bela, de Cem anos de solidão;

4. Um melancólico que falava sozinho;

5. Uma dupla formada por uma Moça dos Grotões do Rio&Velhinha Faladeira;

6. Casais com jeito de primos e milhares de filhos ao redor; 

7. Boitatás e inclassificáveis.


 Pregador evengélico do trem, muito condecorado pela igreja.


Passageiro fumando antes de ir para a estação, porque dentro do trem só é permitido encher a cara e gritar.

Achei tudo muito fantástico, divertido mesmo. Eu parecia uma gringa se deliciando com nossas pombagirices cotidianas. Algumas localidades por onde o trem passava tinham um ar pitoresco, como se tivessem sido eternizadas por um Debret suburbano. Houve até momentos em que eu me perguntei se por acaso havia tomado o ramal para o Brasil Colônia.


Povo assistindo à missa na Estação Augusto Vasconcelos, rezando para que não houvesse pane no trem.

Houve percalços. Pude comprovar uma barbaridade que eu já tinha visto na televisão e no metrô. Nossas autoridades (aturo-as mas não as respeito, latino-americana que sou) compraram uns trens (na China?) mais estreitos que o padrão usual. Conclusão? Todo cuidado é pouco antes de entrar ou sair das composições. Do contrário, você poderá ser engolido por um abismo ferroviário e se tornar uma versão carioca da Anna Karenina. Era como se as otoridade tivessem pensado: "Esse povo vagabundo nos fez gastar milhões por picuinhas hedonísticas, como ar condicionado e vagões salubres. Beleza. Vamos então sacaneá-lo." Parecia até que esses burocratas olímpicos quiseram estampar nos trens, nas estações e nos nossos corações o versinho do F. Pessoa: "Os deuses vendem quando dão." Propaganda literária com mau espírito. Enfim, é o velho tipo de novidade já muito bem definida pelo apresentador Alborghetti.

Coisa do tempo em que vovó andava de lambreta ocorreu no dia seguinte. Houve um desses problemas costumeiros na Supervia (que merecia ser chamada de Sobrevida*), famosa pelos capatazes-orientadores nas estações. Pelo que entendi das reportagens, a tantas horas foi emitido um "salve-se quem puder", e lá foi o povo andar sobre os trilhos rumo ao trabalho, debaixo do solzão de meu Deus. Não sei como não pediram para os passageiros rebocarem os trens.

Alguns populares incrédulos na Estação da Central do Brasil.

O problema não foi solucionado até bem tarde. Aos que voltaram para casa depois do expediente e não tinham carro (declarado inimigo do povo pela atual administração), a única solução foi apelar aos encantos inverossímeis dos ônibus de palhaço, onde sempre cabe mais um. Dada a qualidade desses veículos, quem morava lá em Guaraná de Rolha trocou Caríbdis por Cila. (Nota pessoal. Durante a JMJ, vi alguns turistas portugueses se deliciando com as sacudidelas no ônibus. V. acima o que eu disse sobre as nossas pombagirices serem a diversão dos gringos.)

Como já era de se esperar, o Secretário de Transportes (ex-apresentador e atual Homem-Samambaia, pois está no cargo para decoração) invocou as insidiosas entidades diabólicas chamadas "Décadas de Atraso" e lhes atribuiu toda a culpa pelas calamidades, in saecula saeculorum. Também fez questão de prometer que nas calendas gregas ou pouco depois do Juízo Final tudo será solucionado, amém.


Secretário de Transportes J. Lopes feliz por ter vencido o povo em mais uma rodada de pedra-papel-tesoura.

Ainda verei com esses meus olhos bovinos o dia em que inventarão a profissão de "puxador de trem". Quando houver um desses problemas mais antigos que a constelação de Órion, um batalhão de trabalhadores bem fortões será encarregado de puxar o preguiçoso Behemoth ferroviário. Se tem gente que curte puxar um carro alegórico no carnaval, por que não puxar um trem? Se isso aqui virar uma privada comunista, é bem capaz de existirem até batalhões penais encarregados disso. Caso alguém tente fugir das responsabilidades comuno-patrióticas, metralhadoras na retaguarda darão cabo do inimigo do povo. Será a versão ferroviária da famigerada Ordem nº227, um ótimo antecedente histórico. Ademais, a Sibila Espectadora diz que haverá o dia em que não haverá mais gente andando de trem, mas trem andando em gente.


*Há tantas lendas e causos a respeito dos trens do Rio que alguém poderia compilá-los em versos. Tomara que as musas inspirem algum talento como a dupla Caju e Castanha. São Paulo já tomou a iniciativa.

3 comments:

w said...

Foram vândalos petistas que apertaram o botão do pânico na supervia para derrotar o PSDB nas eleições.
Ops, o PSDB não governa o Rio, né? Então foi incompetência mesmo.

Tanja Krämer said...

O Rio tem estado assim, entre o vandalismo e a incompetência. Não está fácil...

Nicolau said...

Mas que texto delicioso.