Wednesday, February 26, 2014

Cynara Mimadinha

Estou com calor, cansada e faminta. Não obstante, sempre há tempo para diversão. Eu poderia me haver com, sei lá, Minha mocidade, excelente livro do Churchill. Mas não. Fui me meter a bisbilhotar o artigo A volta do filho (de papai) pródigo ou a parábola do roqueiro burguês, de Cynara Menezes. Apesar de ser de 2012, até que vale a pena ser analisado, nem que seja por alto.

Antes de tratar do assunto, vamos começar pelas aparências. Se você clicou no link, vai ver que o artigo foi publicado no blog Socialista Morena. Não posso ter nada contra o fato de a socialista ser morena, até porque eu mesma estou longe de trazer cabelos angélicos pelos ebúrneos ombros espalhados. Sou contra o socialismo, moreno ou não, mas isso é outra história. Na verdade, quero chamar a atenção para uma obviedade. O blog faz parte do site da Carta Capital, que por sua vez é uma publicação da Editora Confiança. E daí? Todas as editoras precisam de patrocínio, certo? A essa altura do campeonato, todos já sabem que essa editora está em terceiro lugar no ranking de financiamento da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República desde o início do governo da Dilma. O montante é de R$118.794,00. Dinheiro pra chuchu. Não sei quanto desse montante a Socialista Morena embolsa. De toda forma, considerando tal informação, eu gostaria de saber uma coisa. Se Lobão é filho de papai, Carta Capital e a Socialista Morena são o quê? Se é uma figura de linguagem dizer que Lobão é mimado pelo papai, não é uma figura de linguagem afirmar que a Carta Capital, que apóia o trabalho de Cynara Menezes, recebe muito dinheiro do governo. A conclusão? Carta Capital e a Socialista Morena são mimados por toda a população brasileira. E se Lobão talvez seja um roqueiro burguês, Cynara com certeza é jornalista estatal, ainda que disfarçada de independente (como muitos independentes costumam ser). Aliás, não é engraçado ver alguém que está acostumada a ser paparicada e que fez doutorado fora do país acusar fulano ou ciclano de ser burguês e filhinho de papai? Nada tenho contra o fato de alguém estudar fora do país. Só acho bizarro uma pessoa que não é das classes mais baixas acusar os outros de terem dinheiro.

Como parte do meu suor de cada dia redunda em benesses para os patrões da Cynara, tenho o direito (pelo menos moral) de continuar analisando o que ela escreveu. Preciso saber se estão aplicando bem o meu dinheiro, né? De cara, pelo que constatei no parágrafo anterior, já não gostei do que vi. Não sei se a Cynara é socialista marxista. Caso seja, deveria estudar mais o guru. Que foi que ele ensinou? A primeira função de análise consiste em investigar sempre a base econômica (que muitos chamam de infraestrutura). Legal. Agora vamos aplicar esse ensinamento à Carta Capital e à Socialista Morena. Por um acaso ambos tiram algum proveito do lucro? Qual a classe social da camarada e dos patrões delas? O Estado que financia a publicação (e por tabela os artigos dela) é socialista ou burguês? Eu poderia continuar a aplicar a dialética. Poderia até fazer a crítica da crítica. Apesar de inseridos no sistema capitalista, Carta Capital e Cynara fazem parte do processo revolucionário? Se sim, aí voltamos ao problema da base econômica. Ambos não parecem explorados pelos detentores dos meios de produção...

Vamos brincar de Ache a Mimadinha Socialista.

Eu tinha dito que começaria com as aparências e acabei nas análises dialéticas. Vamos voltar às aparências e ver as qualificações que a jornalista fez ao longo do artigo, começando pelo próprio título:

1. filho de papai (pródigo)
2. roqueiro burguês
3. duas personalidades célebres pelo derrotismo explícito e pelo direitismo não assumido (sobre Lobão e Roger Moreira)
4. reacionário
5. reaça no último
6. [Lobão] se identifica hoje com a direita brasileira mais podre
7. [Lobão] se uniu ao conservadorismo hidrófobo para perpetrar barbaridades como a frase...
8. um coroa amargo (sobre Roger Moreira)
9. um daqueles manés
10. sujeito burguês
11. filhinho mimado da mamãe (sobre Lobão)
12. causando polêmica com seu direitismo
13. imbecis politicamente incorretos

(Sei que é perda de tempo, mas não custa nada observar que é (no mínimo) esquisito alguém ser acusado ao mesmo tempo de "direitismo não assumido", ser chamado de "reaça no último" e acusado de causar "polêmica com seu direitismo". Parece contraditório. É a dialética cynariana.)

Recolhi a esmo treze qualificações. Isso num texto (incluindo o título) de uma página e meia, 786 palavras, 3978 caracteres, oito parágrafos e 62 linhas. Senti falta das expressões "fascista", "servo do capital", "alienado" etc. Se cada qualificação pejorativa equivale a um "isso me dói" ou "ai", o artigo na verdade é uma série de urros em forma de letrinhas. A base da argumentação é: "Lobão e Roger são feios; não gosto deles." Só. Nem para insultar a muié teve um dedinho de criatividade. Tudo não passa de expressão sentimental, seja de dor ou de ojeriza. Está bem longe da clave racional. Como o povo diz de sacanagem, "é tudo psicológico."


Um artigo dessa qualidade numa publicação que recebe mais de R$100 mil do Governo. Para piorar, escrito por alguém que cursou doutorado em literatura espanhola e hispano-americana na Universidade Autônoma de Madri.

A Cynara curte umas qualificações pejorativas. Será que vai se incomodar se eu disser que ela escreveu um panfleto caro e chinfrim repleto de mendacidades sequer críveis?

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