Sunday, September 08, 2013

Limbo

Depois de eu ter falado a respeito de um certo autor a um (ótimo) professor, ele ergueu as sobrancelhas e me disse assim: "Hmm, percebo aí uma certa influência de pessoas mais velhas na formação da senhorita..." Minha reação durou exatos dois segundos, que pareceram dez minutos de exame de consciência antes da confissão: "O que eu disse de errado? Por que ele está me qualificando? Será que pareço uma velha falando dessas coisas?" Soltei minha angústia com uma única pergunta: "Como assim?" Ele riu (devo ter feito alguma cara engraçada) e me respondeu devagar: "Já fazia anos que eu não ouvia alguém mencionar esse autor. Achei curioso uma pessoa jovem que nem você falar dele."

Homens.

Não esqueci daquela breve conversa. Eu, influenciada por velhinhos misteriosos, lendo autores que estão no limbo.

Certa vez fui passear numa biblioteca. Pesquei por acaso (tá bom) um livro qualquer de história. Autor: José Honório Rodrigues. Livro: História da História do Brasil. Uma historiografia sobre a época colonial. A prometida segunda parte não faço a mínima idéia se já foi publicada. Curiosa, resolvi folheá-lo. E meus olhos julgaram tudo bom, e levei-o para casa. Já em casa, estirada na cama, paquerando o livro, eu soube que o J. H. Rodrigues tinha publicado algumas coisas que pareciam interessantes (exemplo: Teoria da História do Brasil). Teve uma vida bem ativa como pesquisador, participando inclusive de sociedades acadêmicas internacionais. Pensei na hora: "Pô, nunca ouvi falar nele na faculdade." Ok. Mas não que eu seja o Flagelo Sacrossanto da Faculdade. Olha, se você visse minhas notas, pensaria que são coisa de maníaca-depressiva ou que refletem aquele tererê de ou-tudo-ou-nada. Mesmo assim, a Constituição me reserva o direito de livre expressão. Cacei informações sobre o cara no Google (salve Internet!). Vi que ele tinha sido membro da Academia Brasileira de Letras, um historiador respeitado nos círculos acadêmicos internacionais, assunto de alguns trabalhos acadêmicos e de divulgação... Agora, trombei com afirmações do tipo: "Os principais estudos realizados sobre os trabalhos e perspectivas de Rodrigues são poucos" ou "[existem] poucos estudos sobre ele." (Dou um truque para a obra dele passar a ser muito estudada. Façam o seguinte. Traduzam para um alemão truncado alguma coisa dele. Encham de notas de rodapé bizarras. Entreguem para alguém da EHESS. Conforme houver divulgação lá, haverá divulgação cá.)

Engraçado que meu dáimon depois me sussurrou que eu já tinha visto uma longa citação do Teoria no livro História de Roma, do M.G. Curtis. No início achei que o dáimon estava de sacanagem. Por via das dúvidas, catei o livro do Curtius na biblioteca e.. lá estava a citação, toda pimpona, na parte sobre Cristianismo. Que aliás vale a pena conhecê-la e só não menciono agora porque não estou com o livro.

Se um dia eu me encontrar de novo com meu professor, vou mencionar por alto o J. H. Rodrigues. Pura intenção maligna. Dessa vez estarei melhor preparada se ele levantar as sobrancelhas.