Tuesday, February 26, 2013

Paganismo soft

Como é difícil não ser pagã no Rio nessa época do ano. Como não adorar o sol? O mar? Nossa mãe, que dias mais lindos!

E veja, sou do tipo que adora olhar o céu à noite. Às vezes até penso no Ptolomeu. Quantas vezes ele não deve ter observado o céu e pensado: "Nossa, é tudo maravilhoso demais." Aliás, imagino que ele devia dormir tarde pra chuchu. Pelo menos a julgar o tanto que escreveu sobre as estrelas e planetas que passou a vida observando. Será que escrevia algumas observações ao longo da noite para organizá-las durante o dia? Será que tinha alguma companhia à noite? Será que a mulher dele (se é que foi casado) reclamava muito desses hábitos noturnos? Ao menos não estava ciscando com alguma gaiata egípcia (suponho).

Domingo passado mesmo eu estava na praia e comecei a imaginar um passeio do Aristóteles e do Platão por ali (ou num equivalente ático qualquer). Há tantas ilhas no Mar Egeu... Imaginei uma conversa em que debatiam sobre a beleza, numa atmosfera agradável tal como na descrita no Fedro. O chato é pensar que a musa das águas é Iemanjá. Que é coisa de macumba. Mas a Grécia era um macumbódromo. Talvez não seja tão estranho assim pensar nessas coisas de musas das águas.

Então admito que sou pagã. Mas só um pouquinho.

Sunday, February 24, 2013

Do Euterpe

"Do", e não "da", porque me refiro ao blog, não à musa.

E que vem de lá? Coisas excelentes. É dos melhores blogs que conheço, todinho voltado para música. Dessa vez,



Esquisitice acadêmica

Vou contar para você uma coisa que me deixa meio boba.

Existem muitos blogs, twitters e seja lá que mais freqüentados por gente oriunda das universidades. Muitos na faixa dos 25-35 anos (como a Espectadora). Em vários casos, a pessoa chegou a passar pela pós-graduação. Como estou mais acostumada a ler gente das Humanas, não sei dizer se há muito blogueiro ou twitteiro (ou qualquer outra função cujo nome seja tão horrendo quanto) que seja formado noutra área.

Não são pessoas que caíram de pára-quedas na área de Humanas. Bom, pelo menos o povo que costumo ler parece ter um interesse genuíno pela área. Muitos costumam até mesmo elogiar as faculdades que cursaram.

O que me deixa boba é uma única coisa. Se tantos vêm das universidades, se há aqueles que até elogiam os cursos que fizeram (ou fazem), por que ao escreverem sob diversos assuntos não costumam citar um único acadêmico brasileiro? Por que não costumam citar um único trabalho (livro, artigo)?

Certas vezes consigo perceber cacoetes acadêmicos. Percebo o uso de certos termos, de certos modos de pensar e de certas citações de autores comuns na universidade. A única coisa que não costumo perceber é a bendita presença concreta da produção acadêmica. Claro, estou generalizando. Porém é muito estranho que no meio de tantas menções a tantos autores quase não apareça um único trabalho de um acadêmico brasileiro. A presença desse pobre coitado é quase fantasmagórica, porque na maior parte dos casos está nas entrelinhas.

De meio boba fico quase doida com algo ainda mais esquisito. Uma das poucas pessoas que costumam citar acadêmicos brasileiros (até já escreveu livros sobre eles) se chama Olavo de Carvalho. Que está fora (e de propósito) do meio acadêmico institucional. Sim, um dos poucos que mais citam os nossos professores é aquele que mais reclama deles.

Se eu estiver certa (descontando um ou outro exagero), como explicar que quem esteve (ou está) no meio acadêmico e que gostou (ou gosta) dele quase não mencione nenhum trabalho ali produzido, enquanto aquele que reclama do mesmo meio vive citando vários a todo instante?

Friday, February 15, 2013

Renúncia do Papa (2)

Meu trabalho é assistir a programas televisivos o tempo todo. Quando há matérias sobre a Igreja, é normal eu me irritar. Sempre dizem alguma cretinice. Mas os últimos dias têm sido de provação excepcional. Os jornalistas estão demonstrando mais uma vez que não fazem jornalismo.

Por motivos profissionais, sou obrigada a assistir ao espetáculo deprimente do L. P. Horta&tchurma dando pitacos sobre a Igreja. Mas você só vai sofrer se quiser. O Pedro fez a caridade de criar um guia de salvação pública a todos os interessados no assunto da renúncia do Papa. É um guia com indicações de excelentes sites. Acompanhe-os e reze por mim, pois sou nova demais para ter um treco.

Monday, February 11, 2013

Renúncia do Papa

Assim que chego ao trabalho, logo me dizem: “Tanja, o Papa renunciou!” Demorei para entender. Mas como assim? O que aconteceu? E era verdade. O Papa havia renunciado. Ou melhor, anunciado a renúncia para o fim do mês.

Não só porque lido com notícias o dia inteiro (e você pode imaginar a quantidade de matérias sobre o assunto durante o dia) que não consegui deixar de pensar a respeito. Até agora estou perplexa. O fato é excepcional em todos os sentidos. A última vez que isso aconteceu foi há 600 anos! Não é nada comum.

Além da pergunta “como assim?”, me veio outra, pior: “qual o sentido disso?” Saber o propósito de certos acontecimentos é complicado. Sobretudo quando eles mal começaram. Talvez a questão seja ociosa. Não sei.

A minha, a nossa quaresma adquiriu um sentido misterioso. De repente lidamos com essa notícia. Em breve terei a oportunidade de ver a eleição de outro Papa, pela segunda vez na minha vida. A própria Jornada Mundial da Juventude também passa a ter um significado diferente, afinal será um dos primeiros grandes eventos internacionais do próximo Papa. E calhou que a Providência escolheu para tanto o nosso país. Esse 11 de fevereiro jamais vou me esquecer.

Sunday, February 03, 2013

Prevenção contra acidentes

Obras artísticas têm alguns fatores externos que nos ajudam a avaliá-la. Para o bem ou para o mal. Muita gente teria se poupado de muito sofrimento se seguisse alguns conselhos.

1. Indicação da obra

Indicações fazem parte do prestígio. Uma pessoa com bom gosto e inteligente pode errar. Mas alguém burro e bizarro erra com freqüência. A mesma coisa em relação à sala de exposição. Uma boa galeria de arte pode expor muitas porcarias. Mas um galpão xexelento com certeza vai expô-las com freqüência. Então se um gordinho de barba rala ou um andrógino pós-moderno recomendarem uma obra num lugar alternativo, você já pode imaginar que é encrenca.

2. Nome da obra

Imagino que Deus não tenha permitido a Adão batizar as coisas com nomes ridículos. Eles são frutos da Queda. Então uma obra com nome ridículo já indica que é meio pedestre. Agora, fuja quando tem conotações sexuais, ainda mais de termas (é o caso de Rio Babilônia).

3. Descrição da obra

A simples descrição da obra costuma ser muito subestimada. Você está com dúvida se um filme é bom? Apenas repita para você mesmo o roteiro. Se parecer esquisito, na maior parte das vezes é esquisito mesmo. No caso do Rio Babilônia, o MinC já nos adiantou o trabalho:

No Rio de Janeiro das praias e favelas, das atrações turísticas e da miséria, Marciano é acordado em seu apartamento pelo telefonema de uma agência de relações públicas, que o convida para recepcionar Liberato (Mr. Gold), industrial afastado do Brasil há vinte anos, que, na verdade, é um traficante internacional de ouro. Vera Moreira, jornalista, importuna Liberato com perguntas a respeito do contrabando de ouro no norte do país. Este resolve que ela deve ser eliminada o mais breve possível. Marciano procura Solange, transmite-lhe confiança e acabam se amando. Marciano inicia sua nova tarefa, encontrar Linda Lamar, que vem ao Rio lançar um produto de sua grife. Com o contrato cancelado, Linda pede a Marciano que lhe compre mil dólares de cocaína. Este vai ao morro e procura o traficante Sabará, mas são interrompidos por uma batida policial e assaltados. Solange morre num desastre com um avião monomotor. Liberato passa a festa de réveillon na casa de Cláudia e Eduardo, onde todas as extravagâncias são permitidas e termina a noite nos braços de um travesti, ao som dos versos de Pablo Neruda. Marciano amanhece o dia na praia, entre os despojos de Iemanjá.

Coloquei em negrito as passagens que mais prenunciam a shitstorm.  Então você já sabe de antemão que haverá uma suruba envolvendo travesti e fundo poético de P. Neruda, e no final o cara vai aparecer esgotado em meio à macumba. Ou seja, o filme é uma merda.

4. Ver parte(s) da obra no Youtube

Pode ser que você ainda se sinta curioso. "Será uma merda tão grande assim?" No lugar de você sofrer por mais de uma hora, então que sofra por alguns minutos vendo uma cena no Youtube.

Além da cena, você terá a oportunidade de ler comentários. Não ligue tanto para os xingamentos. Muita gente tem uma raiva insensata por qualquer coisa. Outro dia mesmo vi um cara xingando sem a menor razão um vídeo de um teste dum novo tipo de botijão de gás. Não havia o menor motivo para indignação, mas lá estava um louco furioso se debatendo todo. Enfim, não ligue para as críticas. Os elogios é que são mais sugestivos. Se você ler coisas como "aí, mó loco", "um soco no estômago da sociedade hipócrita", ou se a foto dos usuários denotar algum transtorno psicológico (seja lá de que gravidade), então desconfie da obra.

Por sinal, veja o início de uma cena de Rio Babilônia. Há um diálogo assim:

- Regina! Vem cá minha nave espacial! Minha nave Columbia!
- Vai ser discreto assim na puta que pariu, hein? Qual é?

Não é ruim por ser inverossímil. Já ouvi esse tipo de coisa várias vezes. É ruim porque é ruim mesmo, ponto.  Não precisa de argumentação nem nada.


5. Sinais inexplicáveis contra a obra

Isso é mais complexo. Às vezes, fenômenos sutis são na verdade algum tipo de sinal. Muitas das vezes, são um alerta. E costumamos ignorá-los. Se o J. César tivesse lido um bilhetinho, o mundo seria diferente. Da mesma forma, se você tivesse levado a sério o mal-estar que sentiu na véspera de ir ao teatro, teria se poupado de ver a droga que até hoje você se lamenta. Ou na hora que seu amigo indica para você uma obra, um pombo faz cocô na cabeça dele. Sabe aquele famoso algo-me-diz-que-isso-não-vai-ser-bom? Pois é, às vezes é um sinal mesmo.

Outra coisa. Pode acontecer também de alguns livros ou filmes darem azar. Quero dizer, você começa a perceber que quem gosta de determinadas coisas nunca parece se dar bem na vida. Isso é mau augúrio.

Alguma supertição faz bem. Por isso é bom levar a sério a existência de mistérios insubornáveis. Mas admito que essas coisas são muito complicadas.