Monday, March 11, 2013

Mauricius savaresis jecundus

Adorei o artigo do Maurício Savarese para o blog no Noblat. Das costumeiras enormidades publicadas por jornalistas quando se referem ao Vaticano, esta é admirável. É a pura tosquice resplandecente, a supernova da bobajada. O mau conteúdo é visível até em Alfa Centauro. É bem possível que um alienígena comovido até venha nos visitar em breve.

Na verdade, mesmo com todo o esplendor da enormidade, nem todos se deram conta. Foi o caso do próprio Noblat. Diante desse maravilhoso portento jornalístico, ele conseguiu manifestar uma maravilhosa indiferença. Magnífico! Permitiu a publicação do atentado, sem mesmo uma única observaçãozinha crítica. Terá sido por amor ao habitual, por preguicite ou por vocação de lixeiro? Será que ele conversou algo com o pobre repórter? Vai saber. Só posso dizer que pela atitude ele parece gostar de sentar em bombas. Portanto, que não chore com o efeito da explosão. Responsabilidade maior é a dele. Afinal de contas, quem deu aval para a publicação da peça aloprada foi ele. Mais impressionante ainda isso ter saído num veículo de comunicação famoso. (Só digo por dizer. De impressionante tem nada.)

A bomba foi plantada pelo tal do M. Savarese durante seu passeio no Vaticano. Sim, passeio. O que deveria fazer lá? A desculpa é a cobertura para o blog do Noblat de tudo relacionado ao conclave. O que ele faz de fato? Lê jornal, vê televisão, conversa com duas ou três pessoas... Em suma, nada que eu mesma não faço, quilômetros de distância do Vaticano. Mesmo durante uma coletiva no Vaticano, o trabalho do cara se resume a ficar “vendo pela TV, como a maioria dos repórteres presentes.” Palavras do Maurício. Pura mordomia. Como nem o jornal nem o dinheiro de quem banca o passeio do jornalista são meus, por mim ele pode fazer o que quiser na Itália.

Se ele estivesse apenas satisfeito com a mordomia, seria uma maravilha. Bastaria enviar artigos anódinos. Mas não. Esses jornalistas sofrem de uma estranha comichão. Eles precisam dizer uma jequice para justificar o trabalho e o diploma. Quanto mais inacreditável a jequice, mais satisfeitos ficam. Admito que ele tem todos os motivos para se sentir bastante feliz.

A simples leitura do artigo mostra que o sujeito está tão à vontade num Vaticano às vésperas do conclave como uma velhinha no meio de uma dança frenética de Charleston. Um trechinho:

Importante lembrar que os novatos bastante perdidos nunca estão ali – ficam na Sala Stampa B sem exceção, com um acesso semelhante ao que todo católico ou curioso pode ter pela internet. A maioria dos novatos bastante perdidos tampouco fala italiano, algo impensável para um vaticanista.

 (Atenção para o termo “vaticanista”. Daqui a pouco vou tratar disso, até porque é o assunto principal do atentado do repórter.)

Engraçado que o sujeito parece ter vergonha de assumir às claras a qualidade de newbie. É duro admitir ter sido enviado para cobrir um evento que não entende direito? Pode parecer vergonhoso mesmo. E é. Mas não seria melhor admitir de vez do que dar voltinhas? A toda hora ele se trai:

Aqueles que não têm presença permanente no Vaticano também podem fazer perguntas ao chefe da assessoria de imprensa do papa. Com duas condições: que sejam enviadas por escrito e que isso aconteça até uma hora antes do briefing.

Óbvio que é o caso dele. Aliás, por que não enviaram o imortal do L. P. Horta? Será que foi para poupá-lo de vexames? E cadê você, imortal? Não que eu esteja sentindo falta. Só acho esquisito o nosso vaticanista acidental não publicar muita coisa sobre o conclave.

Eu não o criticaria (tanto) se fosse apenas um problema de simples ignorância ou o fato do cara ser novato. Também sou ignorante numa porção de coisas. E quem nunca foi novato? Mas é triste ver um profissional lidando com algo acima das próprias capacidades. Constrangedor até. Isso é motivo de críticas por si, ao menos na minha cabeça. Acontece que o M. Savarese é um desses tipos vaidosos. Ele não apenas joga a própria ignorância no ventilador como faz pouco-caso de quem parece saber mais. Não tem a menor noção do que diz e está muito feliz. É a ciranda dos erros. Um defeito puxa alegre outro.

Quem foi a vítima do pouco-caso? Os vaticanistas.

Ele mesmo chama-os de “esquisitos”. Ou seja, sente desconforto. Por quê? Considerando que ele próprio está perdido no Vaticano, deve ser meio chato perceber que outras pessoas se movem tão bem por lá. Ele se sente inferior àqueles caras que “costumam conhecer de história o bastante para saber que raramente há ineditismo na Igreja Católica. Muitos são intelectuais. Estranhos, mas intelectuais.” Se não há ineditismo nem nada, por que meio mundo está tão intrigado com o que há? Por que meio mundo ficou eletrizado durante o Vaticano II? E nossa, os caras sabem italiano! Têm bagagem intelectual propícia para o ramo! E o repórter do Noblat? Nada tem, entende nada. Só percebe irrelevâncias como a seguinte:

Vendo pela TV, como a maioria dos repórteres presentes, o clima no 'creme de la creme’ não parece tão diferente daquele que vi em vários eventos papais no nosso país – palmas dos vaticanistas para comentários sagazes do relações públicas papal, risadas estridentes deles e perguntas sobre detalhes de detalhes que deixam os novatos bastante perdidos.

Destaquei em negrito as bobagens. Pois como não entende porcaria nenhuma, ele fica com a sensação de que as perguntas são “tão específicas que parecem voltadas a satisfazer o chefe da assessoria de imprensa”, em “tom rococó”. Deus do céu. Só lhe resta fazer pouco-caso dos outros. E que dizer de um repórter que confessa não entender nada do que está relatando? E que dizer do chefe que publica na maior cara de pau artigos péssimos de um subordinado infeliz?

Maurício Savarese diz que os tais vaticanistas gostam de “vaticanizar por aí, em faculdades católicas, cafés e mosteiros” e que “ali acham fontes”. Nem imagino o que seja “vaticanizar por aí”. Se for conversar sobre o próprio trabalho longe da redação, qual o problema? Há quem goste do que faz. E se “vaticanizar por aí” significa apenas uma continuação do trabalho? Nossa, que barbaridade encontrar jornalistas fazendo trabalho de campo! Não sei se o M. Savarese é do tipo que só tira a bunda da cadeira da redação para ir ao banheiro, pegar café ou ir embora. Mas trabalho de campo não faz parte do ofício do jornalista? Por acaso é tão mágico e intrigante colher fontes em tal ou tal lugar? Cadê o repórter brasileiro percorrendo as mesmas faculdades católicas, os cafés e mosteiros também? Nem o básico o camarada faz. Só me falta achar que jornalistas especializados no Vaticano teriam que encontrar fontes em casebres abandonados ou ruelas. Ou que é melhor ver tudo na TV ou no jornal (opção escolhida por ele). É mais cômodo.

Todas as afirmações são banais e gratuitas. É um beicinho em forma de texto, cujo tom é o da carvoeira indignada porque nem todos são da mesma condição que ela.

Agora, há outro elemento no artigo que talvez seja ainda pior.

Desde o início do texto, o repórter do Noblat não sabe bem até que ponto os tais vaticanistas são beatos fazendo jornalismo ou jornalistas se fazendo de beatos:

Estar perto dos vaticanistas traz aos estrangeiros [i.e, a ele mesmo] uma grande inquietação. Afinal de contas, que universo frequentam? O da especialização em assuntos religiosos ou o da reverência incondicional à Igreja Católica?

Sendo um repórter, ao menos ele poderia fazer matérias sobre os tais vaticanistas. Quem são? Que pensam? Por onde andam? Ao menos poderia surgir um texto interessante. Mas não. Ele está satisfeito em lançar essa dúvida, que perpassa todo o artigo. A “especialização em assuntos religiosos” o repórter reconhece (do jeito troncho dele). Porém lhe chama ainda mais a atenção a hipótese da “reverência incondicional à Igreja Católica”. Ah, tudo faz sentido agora! Por isso que batiam palmas para os comentários das autoridades eclesiásticas! Por isso que riam satisfeitos do que elas diziam! Por isso que “estão diariamente na Sala Stampa do Vaticano”. Estamos diante de especialistas no assunto E beatos!

Então fica bonito ser feio. Afinal de contas, para estar por dentro do bafafá em torno da Igreja é preciso ser uma espécie de crente mais ou menos puxa-saco. É verdade que “a convivência deles com a Santa Sé nem sempre é a mais pacífica”, mas esse povo tem “crédito para especular.” No fundo, vaticanistas e membros do clero são indiscerníveis. Tanto que o Maurício Savarese achou que os vaticanistas “eram membros da Igreja Católica” durante a visita do Papa Bento XVI ao Brasil. (Na realidade, eu sequer sei o que ele quis dizer com “membros da Igreja Católica”. Todo fiel batizado não faz parte da Igreja?)

Essa visão tão distorcida reflete antipatia e inveja. Mas o comportamento dos outros dá mais barato que avaliar a tosquice do próprio. É mais fácil desfazer dos outros do que de si mesmo. O bizarro é sempre o vizinho. Ainda mais se for católico.

O Pedro fez comparações boas com futebol. Vou reaproveitá-las. Imagine um jornalista esportivo dizendo o seguinte: “Para ser um comentarista esportivo é preciso amar futebol. Nada impede você de torcer para um time. Claro que é necessário comprometimento com o jornalismo. Mas há regras próprias no meio, como acontece em qualquer área.” Há algo demais nessas palavras? Poderíamos imaginar exemplos semelhantes a respeito de música, culinária, tourada e por aí vai. Só que existe uma única palavrinha no mundo que é exceção para tudo. Ela se chama Catolicismo. Tudo o que é válido no mundo não é válido para o Catolicismo. Ou qualquer coisa é válida quando o assunto é Igreja. Sem dúvida nenhuma que quem tem esse tipo de opinião carece de discernimento. É o caso do próprio M. Savarese, que nos oferece carradas de provas de insensatez. Veja o que ele mesmo escreveu:

Muitos [dos vaticanistas] estão no Vaticano há décadas e são católicos fervorosos. ‘Para ser vaticanista tem de ser católico. E não pode ser um católico qualquer, é importante ser um católico dedicado’, me disse um deles, de um grande veículo internacional.

‘É claro que nosso primeiro compromisso é com o jornalismo, mas temos regras próprias, como qualquer área.’ Quando ameacei perguntar sobre os aplausos, ele me interrompeu. 'Boa sorte na sua cobertura.'

 (Ok. Tá bom que o sujeito fugiu diante da ameaça de uma pergunta embaraçosa. Cara, você quer enganar quem?)

Aquele exemplo do futebol mostra como o espanto desse repórter é furado. Sem contar o preconceito bobo de supor que um católico devoto não tem condição de fazer reportagens decentes sobre a Igreja sem ser tiete. Quer dizer que só fulaninhos ignorantes e bobos é que podem escrever bem a respeito? E vamos combinar uma coisa. Quando o tal do M. Savarese diz que os vaticanistas são “católicos fervorosos”, ele quer apenas dizer que são uns beatos que aplaudem discursos do Papa. Aí está a imagem fundamental de um vaticanista segundo uma opinião enviesada.

Se ele reclama da falta de decoro profissional de um lado, nada me impede de reclamar dele também. Até parece que presepeiros presunçosos criados numa faculdade de jornalismo a leite de jumenta e suportados por um jornal irresponsável são exemplos de profissionalismo jornalístico. Um ótimo exemplo de que não é assim que a banda toca é a própria existência (quase fantástica) do repórter Maurício Savarese. O sujeito é tão mal equipado do elementar que nem mesmo teve a idéia de *inventar* uma só linha escrita por um dos beatos em pele de jornalista, o que serviria para ilustrar qualquer das afirmações dele. Mas não. Ele preferiu apostar no genérico e no gratuito. No máximo, uma lembrança vaga de uma breve conversa. Não temos um só nomezinho, uma só indicação de artigo, livro ou mesmo site. Como diria uma certa banda de hardcore, nada, nada, nada! Só soube reparar (de forma distorcida) no comportamento de alguns indivíduos vistos pela TV, observando que por acaso alguns estiveram no Brasil durante a visita do Papa Bento XVI. Repórter fantástico esse. Mais fantástico ainda o chefe dele.

Como eu disse no início, não é porque estamos diante de um atentado dessa natureza que ele não deixa de ser exemplar. Além de ser uma ótima indicação do que não deve ser feito, a presença daquele repórter infeliz no Vaticano até me fez bolar um novo termo: jecundo. É a mistura de jeca com fecundo. Como é evidente que ele está por aqueles lados feito um caipira, então é natural o comportamento de jeca. E como ele diz com tanto conforto tanta besteira, não deixa de ser uma criatura fecunda. Espero ter feito uma contribuição científica pela descoberta desse espécime de animal. Até o batizo: Mauricius savaresis jecundus.

Em homenagem à cobertura desse repórter e de O Globo, eu gostaria de terminar com uma citação de Juvenal (sempre a calhar nesses tempos de besteirol na imprensa). Como sou implicante, vai em latim mesmo. Qualquer coisa é só pedir para um vaticanista traduzir:

Semper ego auditor tantum? numquamne reponam
uexatus totiens rauci Theseide Cordi?
inpune ergo mihi recitauerit ille togatas,
hic elegos? inpune diem consumpserit ingens
Telephus aut summi plena iam margine libri
scriptus et in tergo necdum finitus Orestes?

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