Sunday, February 03, 2013

Prevenção contra acidentes

Obras artísticas têm alguns fatores externos que nos ajudam a avaliá-la. Para o bem ou para o mal. Muita gente teria se poupado de muito sofrimento se seguisse alguns conselhos.

1. Indicação da obra

Indicações fazem parte do prestígio. Uma pessoa com bom gosto e inteligente pode errar. Mas alguém burro e bizarro erra com freqüência. A mesma coisa em relação à sala de exposição. Uma boa galeria de arte pode expor muitas porcarias. Mas um galpão xexelento com certeza vai expô-las com freqüência. Então se um gordinho de barba rala ou um andrógino pós-moderno recomendarem uma obra num lugar alternativo, você já pode imaginar que é encrenca.

2. Nome da obra

Imagino que Deus não tenha permitido a Adão batizar as coisas com nomes ridículos. Eles são frutos da Queda. Então uma obra com nome ridículo já indica que é meio pedestre. Agora, fuja quando tem conotações sexuais, ainda mais de termas (é o caso de Rio Babilônia).

3. Descrição da obra

A simples descrição da obra costuma ser muito subestimada. Você está com dúvida se um filme é bom? Apenas repita para você mesmo o roteiro. Se parecer esquisito, na maior parte das vezes é esquisito mesmo. No caso do Rio Babilônia, o MinC já nos adiantou o trabalho:

No Rio de Janeiro das praias e favelas, das atrações turísticas e da miséria, Marciano é acordado em seu apartamento pelo telefonema de uma agência de relações públicas, que o convida para recepcionar Liberato (Mr. Gold), industrial afastado do Brasil há vinte anos, que, na verdade, é um traficante internacional de ouro. Vera Moreira, jornalista, importuna Liberato com perguntas a respeito do contrabando de ouro no norte do país. Este resolve que ela deve ser eliminada o mais breve possível. Marciano procura Solange, transmite-lhe confiança e acabam se amando. Marciano inicia sua nova tarefa, encontrar Linda Lamar, que vem ao Rio lançar um produto de sua grife. Com o contrato cancelado, Linda pede a Marciano que lhe compre mil dólares de cocaína. Este vai ao morro e procura o traficante Sabará, mas são interrompidos por uma batida policial e assaltados. Solange morre num desastre com um avião monomotor. Liberato passa a festa de réveillon na casa de Cláudia e Eduardo, onde todas as extravagâncias são permitidas e termina a noite nos braços de um travesti, ao som dos versos de Pablo Neruda. Marciano amanhece o dia na praia, entre os despojos de Iemanjá.

Coloquei em negrito as passagens que mais prenunciam a shitstorm.  Então você já sabe de antemão que haverá uma suruba envolvendo travesti e fundo poético de P. Neruda, e no final o cara vai aparecer esgotado em meio à macumba. Ou seja, o filme é uma merda.

4. Ver parte(s) da obra no Youtube

Pode ser que você ainda se sinta curioso. "Será uma merda tão grande assim?" No lugar de você sofrer por mais de uma hora, então que sofra por alguns minutos vendo uma cena no Youtube.

Além da cena, você terá a oportunidade de ler comentários. Não ligue tanto para os xingamentos. Muita gente tem uma raiva insensata por qualquer coisa. Outro dia mesmo vi um cara xingando sem a menor razão um vídeo de um teste dum novo tipo de botijão de gás. Não havia o menor motivo para indignação, mas lá estava um louco furioso se debatendo todo. Enfim, não ligue para as críticas. Os elogios é que são mais sugestivos. Se você ler coisas como "aí, mó loco", "um soco no estômago da sociedade hipócrita", ou se a foto dos usuários denotar algum transtorno psicológico (seja lá de que gravidade), então desconfie da obra.

Por sinal, veja o início de uma cena de Rio Babilônia. Há um diálogo assim:

- Regina! Vem cá minha nave espacial! Minha nave Columbia!
- Vai ser discreto assim na puta que pariu, hein? Qual é?

Não é ruim por ser inverossímil. Já ouvi esse tipo de coisa várias vezes. É ruim porque é ruim mesmo, ponto.  Não precisa de argumentação nem nada.


5. Sinais inexplicáveis contra a obra

Isso é mais complexo. Às vezes, fenômenos sutis são na verdade algum tipo de sinal. Muitas das vezes, são um alerta. E costumamos ignorá-los. Se o J. César tivesse lido um bilhetinho, o mundo seria diferente. Da mesma forma, se você tivesse levado a sério o mal-estar que sentiu na véspera de ir ao teatro, teria se poupado de ver a droga que até hoje você se lamenta. Ou na hora que seu amigo indica para você uma obra, um pombo faz cocô na cabeça dele. Sabe aquele famoso algo-me-diz-que-isso-não-vai-ser-bom? Pois é, às vezes é um sinal mesmo.

Outra coisa. Pode acontecer também de alguns livros ou filmes darem azar. Quero dizer, você começa a perceber que quem gosta de determinadas coisas nunca parece se dar bem na vida. Isso é mau augúrio.

Alguma supertição faz bem. Por isso é bom levar a sério a existência de mistérios insubornáveis. Mas admito que essas coisas são muito complicadas.

1 comment:

Unknown said...

Assim que fui abrir o link do Youtube naquela cena do Rio Babilônia, começou a chover. Olhaí o item 5!