Sunday, September 08, 2013

Limbo

Depois de eu ter falado a respeito de um certo autor a um (ótimo) professor, ele ergueu as sobrancelhas e me disse assim: "Hmm, percebo aí uma certa influência de pessoas mais velhas na formação da senhorita..." Minha reação durou exatos dois segundos, que pareceram dez minutos de exame de consciência antes da confissão: "O que eu disse de errado? Por que ele está me qualificando? Será que pareço uma velha falando dessas coisas?" Soltei minha angústia com uma única pergunta: "Como assim?" Ele riu (devo ter feito alguma cara engraçada) e me respondeu devagar: "Já fazia anos que eu não ouvia alguém mencionar esse autor. Achei curioso uma pessoa jovem que nem você falar dele."

Homens.

Não esqueci daquela breve conversa. Eu, influenciada por velhinhos misteriosos, lendo autores que estão no limbo.

Certa vez fui passear numa biblioteca. Pesquei por acaso (tá bom) um livro qualquer de história. Autor: José Honório Rodrigues. Livro: História da História do Brasil. Uma historiografia sobre a época colonial. A prometida segunda parte não faço a mínima idéia se já foi publicada. Curiosa, resolvi folheá-lo. E meus olhos julgaram tudo bom, e levei-o para casa. Já em casa, estirada na cama, paquerando o livro, eu soube que o J. H. Rodrigues tinha publicado algumas coisas que pareciam interessantes (exemplo: Teoria da História do Brasil). Teve uma vida bem ativa como pesquisador, participando inclusive de sociedades acadêmicas internacionais. Pensei na hora: "Pô, nunca ouvi falar nele na faculdade." Ok. Mas não que eu seja o Flagelo Sacrossanto da Faculdade. Olha, se você visse minhas notas, pensaria que são coisa de maníaca-depressiva ou que refletem aquele tererê de ou-tudo-ou-nada. Mesmo assim, a Constituição me reserva o direito de livre expressão. Cacei informações sobre o cara no Google (salve Internet!). Vi que ele tinha sido membro da Academia Brasileira de Letras, um historiador respeitado nos círculos acadêmicos internacionais, assunto de alguns trabalhos acadêmicos e de divulgação... Agora, trombei com afirmações do tipo: "Os principais estudos realizados sobre os trabalhos e perspectivas de Rodrigues são poucos" ou "[existem] poucos estudos sobre ele." (Dou um truque para a obra dele passar a ser muito estudada. Façam o seguinte. Traduzam para um alemão truncado alguma coisa dele. Encham de notas de rodapé bizarras. Entreguem para alguém da EHESS. Conforme houver divulgação lá, haverá divulgação cá.)

Engraçado que meu dáimon depois me sussurrou que eu já tinha visto uma longa citação do Teoria no livro História de Roma, do M.G. Curtis. No início achei que o dáimon estava de sacanagem. Por via das dúvidas, catei o livro do Curtius na biblioteca e.. lá estava a citação, toda pimpona, na parte sobre Cristianismo. Que aliás vale a pena conhecê-la e só não menciono agora porque não estou com o livro.

Se um dia eu me encontrar de novo com meu professor, vou mencionar por alto o J. H. Rodrigues. Pura intenção maligna. Dessa vez estarei melhor preparada se ele levantar as sobrancelhas.

Wednesday, July 03, 2013

(In)Tolerância gay

Nem tenho muito o que descrever. Tirando a violência, fiquei mais impressionada com a loira que se comportava feito uma alucinada até os policiais chegarem. Então ela se tornou uma doce criatura, preocupada com um bebê e aberta ao diálogo sereno. Outra coisa legal foi ver a turba enfurecida desaparecendo após a chegada dos policiais. Aí está a diferença entre coragem e covardia. Você mesmo pode comparar a atitude do pregador e a do gordo, da loira e da turba. Se fosse no Brasil, não faltaria formador de opinião dizendo que a culpa foi dos pregadores e que os agressores são apenas uma minoria infiltrada no movimento gay, tão pacífico. Mas eu queria mesmo ver a repercurssão se evangélicos fizessem a mesma coisa com dois gays.

Friday, June 14, 2013

Homenagem às companheiras militantes

Homenagem singela a todas as companheiras militantes, seja na área cultural ou política.

Sunday, March 31, 2013

Tara da ruindade

Veja se isso não soa familiar:

Tem-se a impressão de que os portugueses precisam de emigrar para desenvolverem todos os recursos da sua nativa e latente capacidade. Porquê? Porque na sua Terra a casta dos políticos, a mais vil de todas as castas, como dizia Paul Adam, predomina; absorve as energias nacionais, na mísera ambição e na reles intriga de partidos; revoluciona; revolve até aos seus mais profundos alicerces o equilíbrio social; perturba e enxovalha a serenidade da aplicação e do trabalho; em nome de uma quimérica igualdade, com que incendeia a brutalidade das multidões, decapita e destrói a influência ponderadora das élites e deturpa, avilta, emporcalha tudo, afogando num cataclismo de lama a dignidade de um país inteiro. 

Poderia ter sido escrito hoje sobre o Brasil. Acontece que esse trecho é do início do séc. XX e quem escreveu foi R. Ortigão a respeito da república portuguesa em As últimas farpas.

Como você pode ver, a tara da ruindade é histórica e nos persegue.

Sunday, March 24, 2013

Canto dos elfos

(Da primeira cena do Fausto II. A tradução é da Jenny K. Segall.)

Quando do ar o eflúvio morno
Se difunde e à terra ruma,
Baixa o anoitecer em torno
Suave aroma e véus de bruma.
A sorver-lhe o brando hausto
Que a alma afaga e à paz exorta,
Ao olhar deste ente exausto,
Cerra-se do dia a porta.

Já se esparzem trevas mudas,
Vêem-se estrelas que o céu trilham;
Luzes miúdas e graúdas
Perto e no infinito brilham;
Na água espelham-se; cintila
No alto o seu clarão sereno;
E selando a paz tranqüila,
Do luar raia o brilho pleno.

Somem-se dita e pesar!
Aplacou-se a dor de outrora;
Sente-o na alma! Vais sarar;
Fia-te na nova aurora!
No val verde, nas colinas,
A noturna calma pára,
E entre vagas argentinas
Flui a semeadura à seara.

Nada anelos teus entrave,
Vê o céu que o alvor colora!
Só te envolve um torpor suave,
Põe do sono o manto fora!
Que a hesitar outrem se dobre,
Teu ser à obra se encoraje!
Tudo pode uma alma nobre,
Que o alvo entende e ao repto reage.

Saturday, March 16, 2013

Lições do conclave


Mesmo num conclave a Igreja evangeliza pelo exemplo. Um cardeal que até bem pouco tempo quase ninguém tinha ouvido falar (bom, pelo menos não era tão mencionado sequer entre os jornalistas especializados no Vaticano) se tornou Papa. Tudo conforme as velhas palavras: os últimos serão os primeiros. Claro, ele não era um zé ninguém. Mas quem não ficou surpreendido? E é bom a gente não se esquecer de outro divino ensinamento: a sabedoria de Deus é loucura para os homens.

Houve quem reclamasse da escolha. Mas eu diria que é nesses momentos que outro preceito importante não pode ser esquecido: não murmureis. Por que ter tão pouca fé? A quem estiver apreensivo, a palavra também já foi dada: Não tenhais medo! Afinal de contas, as portas do inferno jamais prevalecerão sobre a Igreja.

Thursday, March 14, 2013

Habemus Papam (3)

Me enviaram essa imagem e eu gostaria de compartilhá-la. É muito tocante.


Que Deus ajude o Papa Francisco nesse pontificado

Wednesday, March 13, 2013

Habemus Papam (2)

Coisas legais que combinam com esse momento. Viva o Papa Francisco!





Habemus Papam

Estou no trabalho vendo a cobertura do conclave. Só posso dizer uma coisa: uau!

http://g1.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/videos/v/aovivo/61910/

Monday, March 11, 2013

Mauricius savaresis jecundus

Adorei o artigo do Maurício Savarese para o blog no Noblat. Das costumeiras enormidades publicadas por jornalistas quando se referem ao Vaticano, esta é admirável. É a pura tosquice resplandecente, a supernova da bobajada. O mau conteúdo é visível até em Alfa Centauro. É bem possível que um alienígena comovido até venha nos visitar em breve.

Na verdade, mesmo com todo o esplendor da enormidade, nem todos se deram conta. Foi o caso do próprio Noblat. Diante desse maravilhoso portento jornalístico, ele conseguiu manifestar uma maravilhosa indiferença. Magnífico! Permitiu a publicação do atentado, sem mesmo uma única observaçãozinha crítica. Terá sido por amor ao habitual, por preguicite ou por vocação de lixeiro? Será que ele conversou algo com o pobre repórter? Vai saber. Só posso dizer que pela atitude ele parece gostar de sentar em bombas. Portanto, que não chore com o efeito da explosão. Responsabilidade maior é a dele. Afinal de contas, quem deu aval para a publicação da peça aloprada foi ele. Mais impressionante ainda isso ter saído num veículo de comunicação famoso. (Só digo por dizer. De impressionante tem nada.)

A bomba foi plantada pelo tal do M. Savarese durante seu passeio no Vaticano. Sim, passeio. O que deveria fazer lá? A desculpa é a cobertura para o blog do Noblat de tudo relacionado ao conclave. O que ele faz de fato? Lê jornal, vê televisão, conversa com duas ou três pessoas... Em suma, nada que eu mesma não faço, quilômetros de distância do Vaticano. Mesmo durante uma coletiva no Vaticano, o trabalho do cara se resume a ficar “vendo pela TV, como a maioria dos repórteres presentes.” Palavras do Maurício. Pura mordomia. Como nem o jornal nem o dinheiro de quem banca o passeio do jornalista são meus, por mim ele pode fazer o que quiser na Itália.

Se ele estivesse apenas satisfeito com a mordomia, seria uma maravilha. Bastaria enviar artigos anódinos. Mas não. Esses jornalistas sofrem de uma estranha comichão. Eles precisam dizer uma jequice para justificar o trabalho e o diploma. Quanto mais inacreditável a jequice, mais satisfeitos ficam. Admito que ele tem todos os motivos para se sentir bastante feliz.

A simples leitura do artigo mostra que o sujeito está tão à vontade num Vaticano às vésperas do conclave como uma velhinha no meio de uma dança frenética de Charleston. Um trechinho:

Importante lembrar que os novatos bastante perdidos nunca estão ali – ficam na Sala Stampa B sem exceção, com um acesso semelhante ao que todo católico ou curioso pode ter pela internet. A maioria dos novatos bastante perdidos tampouco fala italiano, algo impensável para um vaticanista.

 (Atenção para o termo “vaticanista”. Daqui a pouco vou tratar disso, até porque é o assunto principal do atentado do repórter.)

Engraçado que o sujeito parece ter vergonha de assumir às claras a qualidade de newbie. É duro admitir ter sido enviado para cobrir um evento que não entende direito? Pode parecer vergonhoso mesmo. E é. Mas não seria melhor admitir de vez do que dar voltinhas? A toda hora ele se trai:

Aqueles que não têm presença permanente no Vaticano também podem fazer perguntas ao chefe da assessoria de imprensa do papa. Com duas condições: que sejam enviadas por escrito e que isso aconteça até uma hora antes do briefing.

Óbvio que é o caso dele. Aliás, por que não enviaram o imortal do L. P. Horta? Será que foi para poupá-lo de vexames? E cadê você, imortal? Não que eu esteja sentindo falta. Só acho esquisito o nosso vaticanista acidental não publicar muita coisa sobre o conclave.

Eu não o criticaria (tanto) se fosse apenas um problema de simples ignorância ou o fato do cara ser novato. Também sou ignorante numa porção de coisas. E quem nunca foi novato? Mas é triste ver um profissional lidando com algo acima das próprias capacidades. Constrangedor até. Isso é motivo de críticas por si, ao menos na minha cabeça. Acontece que o M. Savarese é um desses tipos vaidosos. Ele não apenas joga a própria ignorância no ventilador como faz pouco-caso de quem parece saber mais. Não tem a menor noção do que diz e está muito feliz. É a ciranda dos erros. Um defeito puxa alegre outro.

Quem foi a vítima do pouco-caso? Os vaticanistas.

Ele mesmo chama-os de “esquisitos”. Ou seja, sente desconforto. Por quê? Considerando que ele próprio está perdido no Vaticano, deve ser meio chato perceber que outras pessoas se movem tão bem por lá. Ele se sente inferior àqueles caras que “costumam conhecer de história o bastante para saber que raramente há ineditismo na Igreja Católica. Muitos são intelectuais. Estranhos, mas intelectuais.” Se não há ineditismo nem nada, por que meio mundo está tão intrigado com o que há? Por que meio mundo ficou eletrizado durante o Vaticano II? E nossa, os caras sabem italiano! Têm bagagem intelectual propícia para o ramo! E o repórter do Noblat? Nada tem, entende nada. Só percebe irrelevâncias como a seguinte:

Vendo pela TV, como a maioria dos repórteres presentes, o clima no 'creme de la creme’ não parece tão diferente daquele que vi em vários eventos papais no nosso país – palmas dos vaticanistas para comentários sagazes do relações públicas papal, risadas estridentes deles e perguntas sobre detalhes de detalhes que deixam os novatos bastante perdidos.

Destaquei em negrito as bobagens. Pois como não entende porcaria nenhuma, ele fica com a sensação de que as perguntas são “tão específicas que parecem voltadas a satisfazer o chefe da assessoria de imprensa”, em “tom rococó”. Deus do céu. Só lhe resta fazer pouco-caso dos outros. E que dizer de um repórter que confessa não entender nada do que está relatando? E que dizer do chefe que publica na maior cara de pau artigos péssimos de um subordinado infeliz?

Maurício Savarese diz que os tais vaticanistas gostam de “vaticanizar por aí, em faculdades católicas, cafés e mosteiros” e que “ali acham fontes”. Nem imagino o que seja “vaticanizar por aí”. Se for conversar sobre o próprio trabalho longe da redação, qual o problema? Há quem goste do que faz. E se “vaticanizar por aí” significa apenas uma continuação do trabalho? Nossa, que barbaridade encontrar jornalistas fazendo trabalho de campo! Não sei se o M. Savarese é do tipo que só tira a bunda da cadeira da redação para ir ao banheiro, pegar café ou ir embora. Mas trabalho de campo não faz parte do ofício do jornalista? Por acaso é tão mágico e intrigante colher fontes em tal ou tal lugar? Cadê o repórter brasileiro percorrendo as mesmas faculdades católicas, os cafés e mosteiros também? Nem o básico o camarada faz. Só me falta achar que jornalistas especializados no Vaticano teriam que encontrar fontes em casebres abandonados ou ruelas. Ou que é melhor ver tudo na TV ou no jornal (opção escolhida por ele). É mais cômodo.

Todas as afirmações são banais e gratuitas. É um beicinho em forma de texto, cujo tom é o da carvoeira indignada porque nem todos são da mesma condição que ela.

Agora, há outro elemento no artigo que talvez seja ainda pior.

Desde o início do texto, o repórter do Noblat não sabe bem até que ponto os tais vaticanistas são beatos fazendo jornalismo ou jornalistas se fazendo de beatos:

Estar perto dos vaticanistas traz aos estrangeiros [i.e, a ele mesmo] uma grande inquietação. Afinal de contas, que universo frequentam? O da especialização em assuntos religiosos ou o da reverência incondicional à Igreja Católica?

Sendo um repórter, ao menos ele poderia fazer matérias sobre os tais vaticanistas. Quem são? Que pensam? Por onde andam? Ao menos poderia surgir um texto interessante. Mas não. Ele está satisfeito em lançar essa dúvida, que perpassa todo o artigo. A “especialização em assuntos religiosos” o repórter reconhece (do jeito troncho dele). Porém lhe chama ainda mais a atenção a hipótese da “reverência incondicional à Igreja Católica”. Ah, tudo faz sentido agora! Por isso que batiam palmas para os comentários das autoridades eclesiásticas! Por isso que riam satisfeitos do que elas diziam! Por isso que “estão diariamente na Sala Stampa do Vaticano”. Estamos diante de especialistas no assunto E beatos!

Então fica bonito ser feio. Afinal de contas, para estar por dentro do bafafá em torno da Igreja é preciso ser uma espécie de crente mais ou menos puxa-saco. É verdade que “a convivência deles com a Santa Sé nem sempre é a mais pacífica”, mas esse povo tem “crédito para especular.” No fundo, vaticanistas e membros do clero são indiscerníveis. Tanto que o Maurício Savarese achou que os vaticanistas “eram membros da Igreja Católica” durante a visita do Papa Bento XVI ao Brasil. (Na realidade, eu sequer sei o que ele quis dizer com “membros da Igreja Católica”. Todo fiel batizado não faz parte da Igreja?)

Essa visão tão distorcida reflete antipatia e inveja. Mas o comportamento dos outros dá mais barato que avaliar a tosquice do próprio. É mais fácil desfazer dos outros do que de si mesmo. O bizarro é sempre o vizinho. Ainda mais se for católico.

O Pedro fez comparações boas com futebol. Vou reaproveitá-las. Imagine um jornalista esportivo dizendo o seguinte: “Para ser um comentarista esportivo é preciso amar futebol. Nada impede você de torcer para um time. Claro que é necessário comprometimento com o jornalismo. Mas há regras próprias no meio, como acontece em qualquer área.” Há algo demais nessas palavras? Poderíamos imaginar exemplos semelhantes a respeito de música, culinária, tourada e por aí vai. Só que existe uma única palavrinha no mundo que é exceção para tudo. Ela se chama Catolicismo. Tudo o que é válido no mundo não é válido para o Catolicismo. Ou qualquer coisa é válida quando o assunto é Igreja. Sem dúvida nenhuma que quem tem esse tipo de opinião carece de discernimento. É o caso do próprio M. Savarese, que nos oferece carradas de provas de insensatez. Veja o que ele mesmo escreveu:

Muitos [dos vaticanistas] estão no Vaticano há décadas e são católicos fervorosos. ‘Para ser vaticanista tem de ser católico. E não pode ser um católico qualquer, é importante ser um católico dedicado’, me disse um deles, de um grande veículo internacional.

‘É claro que nosso primeiro compromisso é com o jornalismo, mas temos regras próprias, como qualquer área.’ Quando ameacei perguntar sobre os aplausos, ele me interrompeu. 'Boa sorte na sua cobertura.'

 (Ok. Tá bom que o sujeito fugiu diante da ameaça de uma pergunta embaraçosa. Cara, você quer enganar quem?)

Aquele exemplo do futebol mostra como o espanto desse repórter é furado. Sem contar o preconceito bobo de supor que um católico devoto não tem condição de fazer reportagens decentes sobre a Igreja sem ser tiete. Quer dizer que só fulaninhos ignorantes e bobos é que podem escrever bem a respeito? E vamos combinar uma coisa. Quando o tal do M. Savarese diz que os vaticanistas são “católicos fervorosos”, ele quer apenas dizer que são uns beatos que aplaudem discursos do Papa. Aí está a imagem fundamental de um vaticanista segundo uma opinião enviesada.

Se ele reclama da falta de decoro profissional de um lado, nada me impede de reclamar dele também. Até parece que presepeiros presunçosos criados numa faculdade de jornalismo a leite de jumenta e suportados por um jornal irresponsável são exemplos de profissionalismo jornalístico. Um ótimo exemplo de que não é assim que a banda toca é a própria existência (quase fantástica) do repórter Maurício Savarese. O sujeito é tão mal equipado do elementar que nem mesmo teve a idéia de *inventar* uma só linha escrita por um dos beatos em pele de jornalista, o que serviria para ilustrar qualquer das afirmações dele. Mas não. Ele preferiu apostar no genérico e no gratuito. No máximo, uma lembrança vaga de uma breve conversa. Não temos um só nomezinho, uma só indicação de artigo, livro ou mesmo site. Como diria uma certa banda de hardcore, nada, nada, nada! Só soube reparar (de forma distorcida) no comportamento de alguns indivíduos vistos pela TV, observando que por acaso alguns estiveram no Brasil durante a visita do Papa Bento XVI. Repórter fantástico esse. Mais fantástico ainda o chefe dele.

Como eu disse no início, não é porque estamos diante de um atentado dessa natureza que ele não deixa de ser exemplar. Além de ser uma ótima indicação do que não deve ser feito, a presença daquele repórter infeliz no Vaticano até me fez bolar um novo termo: jecundo. É a mistura de jeca com fecundo. Como é evidente que ele está por aqueles lados feito um caipira, então é natural o comportamento de jeca. E como ele diz com tanto conforto tanta besteira, não deixa de ser uma criatura fecunda. Espero ter feito uma contribuição científica pela descoberta desse espécime de animal. Até o batizo: Mauricius savaresis jecundus.

Em homenagem à cobertura desse repórter e de O Globo, eu gostaria de terminar com uma citação de Juvenal (sempre a calhar nesses tempos de besteirol na imprensa). Como sou implicante, vai em latim mesmo. Qualquer coisa é só pedir para um vaticanista traduzir:

Semper ego auditor tantum? numquamne reponam
uexatus totiens rauci Theseide Cordi?
inpune ergo mihi recitauerit ille togatas,
hic elegos? inpune diem consumpserit ingens
Telephus aut summi plena iam margine libri
scriptus et in tergo necdum finitus Orestes?

Thursday, March 07, 2013

J. Nyquist

Só uma observação sobre este artigo do J. Nyquist. Acho que vamos passar do 15º ano em que ele nos avisa que

A guerra está por vir, pois as guerras sempre estão no horizonte. Estaremos despreparados para a guerra, pois esse é o modo de sermos. É assim que funciona a história. Se isso não é percebido no Ocidente, com certeza o é no Oriente.

É como alguém repetindo o tempo todo: "olha a merda, olha a merda..." E quando enfim alguém pisa nela, o cara diz satisfeito: "não falei para olhar a merda?" Pelo menos ninguém meteu o pé num toletão. Ainda.

E me lembrei de uma coincidência esquisita. Uma vez eu estava conversando com um amigo sobre o A. Litvinenko. Meu amigo me perguntou: "Como é que não tentaram ainda matar esse cara?" Respondi que não ficaria surpresa caso um dia ele fosse envenenado. No dia *seguinte*, eis a notícia: "Morre ex-espião russo Alexander Litvinenko". Causa da morte: "envenenamento com polônio".

Tuesday, February 26, 2013

Paganismo soft

Como é difícil não ser pagã no Rio nessa época do ano. Como não adorar o sol? O mar? Nossa mãe, que dias mais lindos!

E veja, sou do tipo que adora olhar o céu à noite. Às vezes até penso no Ptolomeu. Quantas vezes ele não deve ter observado o céu e pensado: "Nossa, é tudo maravilhoso demais." Aliás, imagino que ele devia dormir tarde pra chuchu. Pelo menos a julgar o tanto que escreveu sobre as estrelas e planetas que passou a vida observando. Será que escrevia algumas observações ao longo da noite para organizá-las durante o dia? Será que tinha alguma companhia à noite? Será que a mulher dele (se é que foi casado) reclamava muito desses hábitos noturnos? Ao menos não estava ciscando com alguma gaiata egípcia (suponho).

Domingo passado mesmo eu estava na praia e comecei a imaginar um passeio do Aristóteles e do Platão por ali (ou num equivalente ático qualquer). Há tantas ilhas no Mar Egeu... Imaginei uma conversa em que debatiam sobre a beleza, numa atmosfera agradável tal como na descrita no Fedro. O chato é pensar que a musa das águas é Iemanjá. Que é coisa de macumba. Mas a Grécia era um macumbódromo. Talvez não seja tão estranho assim pensar nessas coisas de musas das águas.

Então admito que sou pagã. Mas só um pouquinho.

Sunday, February 24, 2013

Do Euterpe

"Do", e não "da", porque me refiro ao blog, não à musa.

E que vem de lá? Coisas excelentes. É dos melhores blogs que conheço, todinho voltado para música. Dessa vez,



Esquisitice acadêmica

Vou contar para você uma coisa que me deixa meio boba.

Existem muitos blogs, twitters e seja lá que mais freqüentados por gente oriunda das universidades. Muitos na faixa dos 25-35 anos (como a Espectadora). Em vários casos, a pessoa chegou a passar pela pós-graduação. Como estou mais acostumada a ler gente das Humanas, não sei dizer se há muito blogueiro ou twitteiro (ou qualquer outra função cujo nome seja tão horrendo quanto) que seja formado noutra área.

Não são pessoas que caíram de pára-quedas na área de Humanas. Bom, pelo menos o povo que costumo ler parece ter um interesse genuíno pela área. Muitos costumam até mesmo elogiar as faculdades que cursaram.

O que me deixa boba é uma única coisa. Se tantos vêm das universidades, se há aqueles que até elogiam os cursos que fizeram (ou fazem), por que ao escreverem sob diversos assuntos não costumam citar um único acadêmico brasileiro? Por que não costumam citar um único trabalho (livro, artigo)?

Certas vezes consigo perceber cacoetes acadêmicos. Percebo o uso de certos termos, de certos modos de pensar e de certas citações de autores comuns na universidade. A única coisa que não costumo perceber é a bendita presença concreta da produção acadêmica. Claro, estou generalizando. Porém é muito estranho que no meio de tantas menções a tantos autores quase não apareça um único trabalho de um acadêmico brasileiro. A presença desse pobre coitado é quase fantasmagórica, porque na maior parte dos casos está nas entrelinhas.

De meio boba fico quase doida com algo ainda mais esquisito. Uma das poucas pessoas que costumam citar acadêmicos brasileiros (até já escreveu livros sobre eles) se chama Olavo de Carvalho. Que está fora (e de propósito) do meio acadêmico institucional. Sim, um dos poucos que mais citam os nossos professores é aquele que mais reclama deles.

Se eu estiver certa (descontando um ou outro exagero), como explicar que quem esteve (ou está) no meio acadêmico e que gostou (ou gosta) dele quase não mencione nenhum trabalho ali produzido, enquanto aquele que reclama do mesmo meio vive citando vários a todo instante?

Friday, February 15, 2013

Renúncia do Papa (2)

Meu trabalho é assistir a programas televisivos o tempo todo. Quando há matérias sobre a Igreja, é normal eu me irritar. Sempre dizem alguma cretinice. Mas os últimos dias têm sido de provação excepcional. Os jornalistas estão demonstrando mais uma vez que não fazem jornalismo.

Por motivos profissionais, sou obrigada a assistir ao espetáculo deprimente do L. P. Horta&tchurma dando pitacos sobre a Igreja. Mas você só vai sofrer se quiser. O Pedro fez a caridade de criar um guia de salvação pública a todos os interessados no assunto da renúncia do Papa. É um guia com indicações de excelentes sites. Acompanhe-os e reze por mim, pois sou nova demais para ter um treco.

Monday, February 11, 2013

Renúncia do Papa

Assim que chego ao trabalho, logo me dizem: “Tanja, o Papa renunciou!” Demorei para entender. Mas como assim? O que aconteceu? E era verdade. O Papa havia renunciado. Ou melhor, anunciado a renúncia para o fim do mês.

Não só porque lido com notícias o dia inteiro (e você pode imaginar a quantidade de matérias sobre o assunto durante o dia) que não consegui deixar de pensar a respeito. Até agora estou perplexa. O fato é excepcional em todos os sentidos. A última vez que isso aconteceu foi há 600 anos! Não é nada comum.

Além da pergunta “como assim?”, me veio outra, pior: “qual o sentido disso?” Saber o propósito de certos acontecimentos é complicado. Sobretudo quando eles mal começaram. Talvez a questão seja ociosa. Não sei.

A minha, a nossa quaresma adquiriu um sentido misterioso. De repente lidamos com essa notícia. Em breve terei a oportunidade de ver a eleição de outro Papa, pela segunda vez na minha vida. A própria Jornada Mundial da Juventude também passa a ter um significado diferente, afinal será um dos primeiros grandes eventos internacionais do próximo Papa. E calhou que a Providência escolheu para tanto o nosso país. Esse 11 de fevereiro jamais vou me esquecer.

Sunday, February 03, 2013

Prevenção contra acidentes

Obras artísticas têm alguns fatores externos que nos ajudam a avaliá-la. Para o bem ou para o mal. Muita gente teria se poupado de muito sofrimento se seguisse alguns conselhos.

1. Indicação da obra

Indicações fazem parte do prestígio. Uma pessoa com bom gosto e inteligente pode errar. Mas alguém burro e bizarro erra com freqüência. A mesma coisa em relação à sala de exposição. Uma boa galeria de arte pode expor muitas porcarias. Mas um galpão xexelento com certeza vai expô-las com freqüência. Então se um gordinho de barba rala ou um andrógino pós-moderno recomendarem uma obra num lugar alternativo, você já pode imaginar que é encrenca.

2. Nome da obra

Imagino que Deus não tenha permitido a Adão batizar as coisas com nomes ridículos. Eles são frutos da Queda. Então uma obra com nome ridículo já indica que é meio pedestre. Agora, fuja quando tem conotações sexuais, ainda mais de termas (é o caso de Rio Babilônia).

3. Descrição da obra

A simples descrição da obra costuma ser muito subestimada. Você está com dúvida se um filme é bom? Apenas repita para você mesmo o roteiro. Se parecer esquisito, na maior parte das vezes é esquisito mesmo. No caso do Rio Babilônia, o MinC já nos adiantou o trabalho:

No Rio de Janeiro das praias e favelas, das atrações turísticas e da miséria, Marciano é acordado em seu apartamento pelo telefonema de uma agência de relações públicas, que o convida para recepcionar Liberato (Mr. Gold), industrial afastado do Brasil há vinte anos, que, na verdade, é um traficante internacional de ouro. Vera Moreira, jornalista, importuna Liberato com perguntas a respeito do contrabando de ouro no norte do país. Este resolve que ela deve ser eliminada o mais breve possível. Marciano procura Solange, transmite-lhe confiança e acabam se amando. Marciano inicia sua nova tarefa, encontrar Linda Lamar, que vem ao Rio lançar um produto de sua grife. Com o contrato cancelado, Linda pede a Marciano que lhe compre mil dólares de cocaína. Este vai ao morro e procura o traficante Sabará, mas são interrompidos por uma batida policial e assaltados. Solange morre num desastre com um avião monomotor. Liberato passa a festa de réveillon na casa de Cláudia e Eduardo, onde todas as extravagâncias são permitidas e termina a noite nos braços de um travesti, ao som dos versos de Pablo Neruda. Marciano amanhece o dia na praia, entre os despojos de Iemanjá.

Coloquei em negrito as passagens que mais prenunciam a shitstorm.  Então você já sabe de antemão que haverá uma suruba envolvendo travesti e fundo poético de P. Neruda, e no final o cara vai aparecer esgotado em meio à macumba. Ou seja, o filme é uma merda.

4. Ver parte(s) da obra no Youtube

Pode ser que você ainda se sinta curioso. "Será uma merda tão grande assim?" No lugar de você sofrer por mais de uma hora, então que sofra por alguns minutos vendo uma cena no Youtube.

Além da cena, você terá a oportunidade de ler comentários. Não ligue tanto para os xingamentos. Muita gente tem uma raiva insensata por qualquer coisa. Outro dia mesmo vi um cara xingando sem a menor razão um vídeo de um teste dum novo tipo de botijão de gás. Não havia o menor motivo para indignação, mas lá estava um louco furioso se debatendo todo. Enfim, não ligue para as críticas. Os elogios é que são mais sugestivos. Se você ler coisas como "aí, mó loco", "um soco no estômago da sociedade hipócrita", ou se a foto dos usuários denotar algum transtorno psicológico (seja lá de que gravidade), então desconfie da obra.

Por sinal, veja o início de uma cena de Rio Babilônia. Há um diálogo assim:

- Regina! Vem cá minha nave espacial! Minha nave Columbia!
- Vai ser discreto assim na puta que pariu, hein? Qual é?

Não é ruim por ser inverossímil. Já ouvi esse tipo de coisa várias vezes. É ruim porque é ruim mesmo, ponto.  Não precisa de argumentação nem nada.


5. Sinais inexplicáveis contra a obra

Isso é mais complexo. Às vezes, fenômenos sutis são na verdade algum tipo de sinal. Muitas das vezes, são um alerta. E costumamos ignorá-los. Se o J. César tivesse lido um bilhetinho, o mundo seria diferente. Da mesma forma, se você tivesse levado a sério o mal-estar que sentiu na véspera de ir ao teatro, teria se poupado de ver a droga que até hoje você se lamenta. Ou na hora que seu amigo indica para você uma obra, um pombo faz cocô na cabeça dele. Sabe aquele famoso algo-me-diz-que-isso-não-vai-ser-bom? Pois é, às vezes é um sinal mesmo.

Outra coisa. Pode acontecer também de alguns livros ou filmes darem azar. Quero dizer, você começa a perceber que quem gosta de determinadas coisas nunca parece se dar bem na vida. Isso é mau augúrio.

Alguma supertição faz bem. Por isso é bom levar a sério a existência de mistérios insubornáveis. Mas admito que essas coisas são muito complicadas.