Tuesday, November 20, 2012

Magnanimidade

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. O versinho do F. Pessoa sempre me vem à cabeça quando leio alguma coisa sobre Churchill ou de Gaulle. Eram dois grandes homens que amavam demais seus países. A época em que eles viveram foi muito difícil. Mas ambos estiveram à altura dos desafios. Sabiam que era necessário ter grandeza de alma. É por isso que Charles de Gaulle uma vez disse: "Face aos grandes perigos, só na grandeza se encontra a salvação" (face aux grands périls, le salut n'est que dans la grandeur). Só grandes países podem lidar com os maiores desafios. Nessa toada, C. de Gaulle também disse: "A França não pode ser França sem a grandeza" (France ne peut être la France sans la grandeur).

Pode haver grandeza até na derrota. Quando Churchill visitou P. Reynaud em 31 de maio de 1940, afirmou: "Seria muito melhor se a civilização da Europa Ocidental, com todas as suas realizações, tivesse um fim trágico, mas esplêndido, do que se as duas maiores democracias continuassem a existir desprovidas de tudo o que torna a vida digna de ser vivida". (It would be better far that the civilisation of Western Europe with all of its achievements should come to a tragic but splendid end than that the two great democracies should linger on, stripped of all that made life worth living.)

Não são palavras vazias. São as expressões sinceras da grandeza de alma desses dois homens. Isso fica mais evidente ao vermos as observações que fizeram um sobre o outro. Em 13 de junho de 1940, Churchill disse que viu "o general de Gaulle de pé, impassível, junto à porta. Saudando-o, disse em voz baixa, em francês: L'homme du destin. Ele permaneceu imutável". Em 16 de junho de 1940, novo encontro entre os dois: "Sob sua atitude impassível, impertubável, pareceu-me possuir notável capacidade para suportar o sofrimento. Conservei esta impressão, em contato com esse homem, muito alto e fleugmático: 'Eis aí o Condestável da França'". Nada mal. A boa impressão era recíproca. Veja o comentário de de Gaulle sobre o Churchill, quando se encontraram em 9 de junho de 1940:

Era a primeira vez que entrava em contato com ele. (...) A firmeza do seu julgamento, a sua grande cultura, o conhecimento que tinha da maior parte dos assuntos, das terras e dos homens que se achavam em causa, enfim, a sua paixão pelos problemas próprios da guerra, manifestavam-se nele sem constrangimentos. Acima de tudo, era, pelo seu próprio caráter, feito para agir, para arriscar, para representar o papel, decididamente e sem escrúpulos. Em suma, achei-o bem assente no seu lugar de guia e de chefe. Estas foram as minhas primeiras impressões.

Ambos tiveram sérias divergências ao longo do conflito. Na troca de correspondência entre Roosevelt e o Primeiro-Ministro, várias vezes eles se queixavam de de Gaulle, em especial do temperamento dele. Roosevelt em especial parecia se mostrar mais cauteloso, talvez influenciado pelo Departamento de Estado. Mas Churchill em geral manteve a aposta no francês. E anos depois da guerra, de Gaulle continuou a tê-lo em alta estima:

Os incidentes violentos e penosos que freqüentes vezes se verificaram entre nós, em conseqüência dos atritos dos nossos dois caracteres, da oposição de certos interesses dos nossos respectivos países, dos abusos que a Inglaterra cometeu em detrimento da França ferida, influíram sobre a minha atitude relativamente ao Primeiro-Ministro, mas não sobre o meu juízo. Winston Churchill apareceu-me, de um extremo ao outro do grande drama, como o grande campeão de uma grande empresa e o grande artista de uma grande História.

Só uma última palavra. Acho divertido ver como sacaneiam D. João VI, embora sempre se esqueçam da visão do homem. Palavras de O. Lima: "Foi afinal no Brasil que o rei D. João VI buscou refúgio e fundou seu governo - suas palavras foram, repetimo-las, ao desembarcar - que ali vinha fundar um império." Alguém decidido a fundar algo assim não poderia ter a alma pequena, não?

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