Thursday, October 11, 2012

Conto infanto-juvenil

A Srta. Baratinha queria um namorado. Ficava remoendo aquele querer, querer, querer. Às vezes ia para a janela, pensativa: "Deve ser tão bom namorar... Minhas amigas até já casaram. Por que eu não consigo alguém?" Parou em frente ao espelho: "Até que não sou tão feia. Não dizem que tenho um sorriso bonito?" Lembrou das vezes em que conversava no MSN: "Todos gostam de me ver. Mas qual é o meu problema? Sou chata? Mas todo mundo diz que sou tão simpática! Eu sei que sou boa de papo. Será que não basta? Ah, mas eu me acho meio chata..."

O telefone tocou:

- Sim?

- Oi, Srta. Baratinha!

Era a Joaninha Sorridente.

- Oi, Jô! Como você está?

- Vou bem. E você? Escuta, vamos sair?

- Ah, sei não... Ando tão cansada...

- Você parece a sua tia! Vai ficar toda cascudona de tão velha.

- Você sabe que trabalho bastante.

- Adianta trabalhar bastante se você não tem vida social?

- Eu lá tenho idade de ficar na farra?

- Você é nova e gostava de sair! Agora parece uma barata velha.

- Essas coisas perderam o encanto.

- Pára com esse desânimo, hein? Todo mundo fica dizendo: "Estou cansado de chamar a Srta. Baratinha para sair. Ela sempre arruma uma desculpa." Poxa! Amiga, eu sei do que você precisa.

- Já sei o que você vai dizer...

- Você precisa de um barato!

- Os caras só querem zoação.

- Não entendo você, amiga. Você é inteligente, bonita... Sabe que morro de inveja de você, né?

- E eu de você. Mas adianta ser inteligente (não me acho) e bonita (muito menos)? Se eu fosse assim, teria um namorado. Supondo que os caras estejam em busca disso. Mas não. Você se lembra da Tanajura Saliente? Da Camarão Desinibida? É esse o tipo de gente que os caras querem. Às vezes até encontro alguém que parece bacana na Internet, mas...

- Ai, pára! Você tem que parar com esse negócio de bate-papo.

- Nem te conto! Outro dia, fui falar com um cara. O nick era "Porquinho Sonhador". Parecia bacana. Como eu disse que gostava de poesia, ele falou que era poeta e que me mostraria uma poesia dele. Aí sabe o que o ridículo me disse? "Estou só de toalha. Posso poetar pra você?"

- Que ridículo! Se você saísse mais, com certeza arrumaria alguém. Até eu consigo! E olha como estou fora de forma. Já viu a minha cintura como está? Pareço uma bolinha, amiga!

- Seu namorado já reclamou? Duvido.

- Você precisa sair para ser vista. Adianta ficar trancafiada? É fim de semana! O que você está fazendo?

- Estava lendo Camões.

- Você tem muito tempo para ler! Largue esses livros e vamos sair. Passo aí daqui a uma hora.

Duas horas e meia e após vários telefonemas, chegou a Joaninha Sorridente:

- Amiga, como você está linda! Vai arrasar!

- Você também. O que o Percevejo Baladeiro vai dizer?

- Ele que se vire! Não consegui falar com ele. Na certa deve estar aprontando.

- Não entendo esses relacionamentos.

Lá foram as duas.

Chegaram ao bairro do agito. Era um daqueles lugares ideiais para as criaturas da noite. Num cantinho, dava para ver o Vampiro atracado no pescoço de alguém.

- Está vendo aquilo, Joaninha? Que horror! - disse a Srta. Baratinha.

- Que que tem? Até parece que você não gostaria de levar um chupão desses.

- Jô!

Ambas pararam numa barraquinha. Tinha um monte de bebidas. Perguntou a Joaninha Sorridente:

- Vamos tomar uma caipirinha?

O Jumento e o Cabrito, que estavam também por ali, ouviram a Joaninha e se aproximaram:

- E aí, tudo bem? - perguntou o Jumento cheio de malícia.

- Oooooooii... - acompanhou o Cabrito.

- Oi! - respondeu a Joaninha.

Continuou o Jumento:

- Aí, eu e meu parceiro aqui, o Cabrito... Sabe como é, a gente estava aqui de bobeira e tal. Aí eu ouvi que vocês iam tomar uma caipirinha, né? Olha, pode deixar que a gente paga.

- Não precisa, temos dinheiro. - respondeu um pouco ríspida a Srta. Baratinha.

O Jumento ficou meio desconcertado:

- Ah, foi mal aí. Eu não quis dizer que vocês precisavam de dinheiro, não. Me desculpa, princesa.

- Eu quero um mééé! - falou o Cabrito.

- Amiga, se eles querem pagar, então deixa! - falou toda animada a Joaninha Sorridente.

A Srta. Baratinha não gostou muito, mas preferiu não discutir. Mas disse que só queria um refrigerante.

- Tu num bebe? - perguntou o Jumento.

- Não estou com vontade. - foi a resposta atravessada da Srta. Baratinha.

A Joaninha Sorridente estava mais sorridente ainda depois de tomar a caipirinha. O Cabrito também estava feliz, ainda mais por ter tomado várias doses de algo azul. Os olhos até estavam vermelhos. Ele ofereceu a bebida à Joaninha:

- Toma aí, é muito bom.

- Ah, obrigada! Mas é que não quero, não.

O Cabrito se aproximou a uma distância de beijo da Joaninha Sorridente:

- É que a bebida é das boas. Adoro um mééé!

Que hálito etílico! Aquilo desagradou a Joaninha Sorridente.

- Hm, sai pra lá. Que bafo de bode!

O outro casal também não se dava muito bem.

- Tu tá na minha, princesa? - perguntou o Jumento malicioso.

- Hã?

- Sério. Tu é muito gatinha.

- Sei.

- Aí, eu se amarrei em tu.

- Como é?

- Eu se amarrei em tu! - gritou o Jumento, sem necessidade.

A Srta. Baratinha começou a rir. Não fazia a mínima questão de resistir ao riso de escárnio. Ainda remedava o infeliz "eu se amarrei em tu." E desatava de rir mais. As pessoas ao lado também começaram a rir. O Jumento não entendeu as risadas. Mas entendeu o suficiente para saber que debochavam dele:

- Coé, mina!? Tu tá me gastando.

- É que "eu se amarrei em tu" - e voltava a rir a Srta. Baratinha.

- Só porque é toda patricinha fica se achando. Já peguei muitas dessas. Sabe do que elas gostam? Tu sabe?

Um grupo de gorilas passou a prestar atenção às palavras cada vez mais antipáticas do Jumento. Um deles falou ao grupo: "Vou lá para acabar com a onda daquele palhaço". E foi. Só que ao chegar, ignorou a natureza do Jumento. Bateu nos ombros dele, dizendo: "Valentão, vem tirar onda comigo!" Digo que ignorou porque o instinto do Jumento era forte. Deu-lhe um coice! Pegou o gorila desprevinido. Ele foi arremassado bem numa barraquinha, onde o Camundongo Atendente trabalhava. Quando aquela massa imponente de músculos foi arremessada para lá, o coitadinho do Camundongo só pode dar um suspiro: "Ai, vixe!" É até difícil de descrever a violência do choque, a destruição da barraca, o estrondo da queda do gorila... O Camundongo voou tão longe, mas dava tantas piruetas no ar, que parecia desafiar a natureza. Parecia mais dar um show performático. Houve quem achasse aquilo um espetáculo. Muitos disseram "oohh!", outros "uuui!". Só quem não se admirou foi o Pitbull Valentão. Ele estava paquerando a Poodle Prosinha quando o cachorro-quente de alguém, que tinha sido atingido na queda do gorila, voou bem no focinho dele. Que bicho raivoso! Pulou no primeiro que estava em frente dele. Por azar, era o Cabrito. Foi o início da maior confusão. Cada um usava da arma que a natureza lhe proveu. O Canguru dava socos. O Touro chifradas. Os mais experientes de briga já sabiam de antemão das fraquezas dos adversários. O Coelhinho Mulherengo deu um sossega-leão no primeiro bicho de juba que viu. O Siri foi pego à traição, como sempre. O Boi Caprichoso mugia em lamentos. Acima de tanta confusão, ainda piruetava o Camundungo Vendedor, quase como um bailarino do ar.

A Joaninha Sorridente estava fascinada, um pouco em virtude do que bebeu (era tão fraca com bebida!):

- Caraca! Parece filme!

A Srta. Baratinha puxou a amiga para longe. Foram para casa. Só Deus e os envolvidos sabem como terminou o troca-socos.

Dia seguinte, as amigas voltaram a conversar, mas pelo MSN:

Srta. Baratinha: amiga, você está bem?

Joaninha Sorridente: tô só com dor de cabeça :-(

Srta. Baratinha: que loucura foi ontem!

Joaninha Sorridente: desculpa amiga

Srta. Baratinha: não foi culpa sua.

Joaninha Sorridente: é né

Srta. Baratinha: foi até engraçado ver aquele Jumento palhaço tomando um soco. :-)

Joaninha Sorridente: rsrsrsrsrs


Joaninha Sorridente: queria só q vc encontrasse alguém

Srta. Baratinha: nem sempre é bom pressionar o tempo, né? a gente acaba deformando as coisas por ser afoito.

Joaninha Sorridente: tendi rs

Joaninha Sorridente: miga posso apresentar vc pra um amigo do msn? o nome dele é ratón, veio da argentina

Foi o começo do namoro entre a Srta. Baratinha e Don Ratón, que veio de Buenos Aires para estudar medicina no Rio. Agora, como foi o namoro? Será que Don Ratón era bonito e cheiroso? Era inteligente? Beijava bem? Eis uma outra história. Como tantas.

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