Wednesday, November 21, 2012

A Andaluzia é aqui (II)

O diálogo a seguir está em La feria de los discretos. Se passa em Córdoba:

- ¡Pero sin moralidad no se puede vivir!
- Qué quiere usted, vivimos sin ella. Para nosotros, robar un bastón o pegarle una puñalada a un amigo son cosas sin importancia.
- Asi nun puede haber orden.
- Claro.
- Ni disciplina.
- Es cierto.
- Ni sociedade.
- Seguramente; pero aquí vivimos sin esas cosas.

Repito. A Andaluzia é aqui.

Tuesday, November 20, 2012

Magnanimidade

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. O versinho do F. Pessoa sempre me vem à cabeça quando leio alguma coisa sobre Churchill ou de Gaulle. Eram dois grandes homens que amavam demais seus países. A época em que eles viveram foi muito difícil. Mas ambos estiveram à altura dos desafios. Sabiam que era necessário ter grandeza de alma. É por isso que Charles de Gaulle uma vez disse: "Face aos grandes perigos, só na grandeza se encontra a salvação" (face aux grands périls, le salut n'est que dans la grandeur). Só grandes países podem lidar com os maiores desafios. Nessa toada, C. de Gaulle também disse: "A França não pode ser França sem a grandeza" (France ne peut être la France sans la grandeur).

Pode haver grandeza até na derrota. Quando Churchill visitou P. Reynaud em 31 de maio de 1940, afirmou: "Seria muito melhor se a civilização da Europa Ocidental, com todas as suas realizações, tivesse um fim trágico, mas esplêndido, do que se as duas maiores democracias continuassem a existir desprovidas de tudo o que torna a vida digna de ser vivida". (It would be better far that the civilisation of Western Europe with all of its achievements should come to a tragic but splendid end than that the two great democracies should linger on, stripped of all that made life worth living.)

Não são palavras vazias. São as expressões sinceras da grandeza de alma desses dois homens. Isso fica mais evidente ao vermos as observações que fizeram um sobre o outro. Em 13 de junho de 1940, Churchill disse que viu "o general de Gaulle de pé, impassível, junto à porta. Saudando-o, disse em voz baixa, em francês: L'homme du destin. Ele permaneceu imutável". Em 16 de junho de 1940, novo encontro entre os dois: "Sob sua atitude impassível, impertubável, pareceu-me possuir notável capacidade para suportar o sofrimento. Conservei esta impressão, em contato com esse homem, muito alto e fleugmático: 'Eis aí o Condestável da França'". Nada mal. A boa impressão era recíproca. Veja o comentário de de Gaulle sobre o Churchill, quando se encontraram em 9 de junho de 1940:

Era a primeira vez que entrava em contato com ele. (...) A firmeza do seu julgamento, a sua grande cultura, o conhecimento que tinha da maior parte dos assuntos, das terras e dos homens que se achavam em causa, enfim, a sua paixão pelos problemas próprios da guerra, manifestavam-se nele sem constrangimentos. Acima de tudo, era, pelo seu próprio caráter, feito para agir, para arriscar, para representar o papel, decididamente e sem escrúpulos. Em suma, achei-o bem assente no seu lugar de guia e de chefe. Estas foram as minhas primeiras impressões.

Ambos tiveram sérias divergências ao longo do conflito. Na troca de correspondência entre Roosevelt e o Primeiro-Ministro, várias vezes eles se queixavam de de Gaulle, em especial do temperamento dele. Roosevelt em especial parecia se mostrar mais cauteloso, talvez influenciado pelo Departamento de Estado. Mas Churchill em geral manteve a aposta no francês. E anos depois da guerra, de Gaulle continuou a tê-lo em alta estima:

Os incidentes violentos e penosos que freqüentes vezes se verificaram entre nós, em conseqüência dos atritos dos nossos dois caracteres, da oposição de certos interesses dos nossos respectivos países, dos abusos que a Inglaterra cometeu em detrimento da França ferida, influíram sobre a minha atitude relativamente ao Primeiro-Ministro, mas não sobre o meu juízo. Winston Churchill apareceu-me, de um extremo ao outro do grande drama, como o grande campeão de uma grande empresa e o grande artista de uma grande História.

Só uma última palavra. Acho divertido ver como sacaneiam D. João VI, embora sempre se esqueçam da visão do homem. Palavras de O. Lima: "Foi afinal no Brasil que o rei D. João VI buscou refúgio e fundou seu governo - suas palavras foram, repetimo-las, ao desembarcar - que ali vinha fundar um império." Alguém decidido a fundar algo assim não poderia ter a alma pequena, não?

Thursday, October 25, 2012

Peripécias burocráticas

Veja esse trecho de um artigo que está em Pontos e bordados: escritos de história e política, do J.M. de Carvalho:

Anos atrás, tive que revalidar diploma de doutorado obtido na Universidade de Stanford. Percorri, então, itinerário kafkiano que agora tive que refazer para mandar para o Brasil uma prosaica procuração. Em benefício dos incautos e como desopilante pessoal, divido com o leitor a experiência.

O fato serviu de ilustração viva de certas tendências básicas da burocracia brasileira, senão do próprio sistema político nacional. E permitiu-me formular o que se poderia chamar a lei básica do comportamento burocrático no Brasil. Com licença de Millôr Fernandes, esta lei poderia ser formulad num hai-kai: ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO / TODO MUNDO / É SALAFRÁRIO. Nesta premissa se baseia a estrutura e o funcionamento de nossa burocracia. O cidadão não é o constituinte, não é a razão de ser do aparato administrativo. É antes o súdito que precisa ser fiscalizado, o inimigo potencial que precisa ser contido. Esta desconfiança universal leva à obsessão do controle universal. Como todos são potencialmente desonestos, como todos estão à procura de como burlar as leis, de como lesar o Estado, é necessário multiplicar os controles, bloquear todas as possíveis válvulas de escape.

O resultado final desta paranóia institucional é uma profecia que se auto-realiza. O excesso de controle derrota-se a si próprio. A desconfiança da fraude provoca a própria fraude, restando de permeio uma enorme rede de instituições, cargos e procedimentos inúteis que, se faz o ganha-pão de alguns, faz também o pesadelo da maioria. Para os poucos privilegiados e iniciados, há sempre os possíveis curtos-circuitos de eficiência, frutos da corrupção, da amizade ou do poder. Para o resto, há apenas a via-sacra das tramitações normais. Ou, reformulando a velha lei do coronelismo: "Para os amigos, o jeito, para os outros, os canais competentes."

Mas vamos aos casos do diploma e da procuração. Misturo os doiso para simplificar a estória. No caso do diploma estava envolvido o Consulado de Los Angeles, no caso da procuração, o de São Francisco. O primeiro se deu em 1973, o segundo, em 1977.

De posse de meu diploma de doutor que, se não valia muito, pelo menos tinha excelente visual, procuro saber como revalidá-lo. O itinerário me é dado, e inicio a longa peregrinação, de carimbo em carimbo, por uma dezena de repartições dos dois países. Primeiro tenho que procurar um notary public, ou tabelião, para que reconheça a firma do reitor da Universidade. Depois de três anos de Estados Unidos, era a primeira vez que ouvia falar aqui desta figura, graças ao zelo de nosa legislação. Na Califórnia, o tabelião é licenciado pelo governo estadual para exercer o cargo por determinado período de tempo. Perguntei a vários amigos americanos sobre os tabeliães e a maioria deles jamais tinha procurado tal figura. O que no Brasil é rotina, aqui é uma exceção. Lá fui eu, e em dois minutos a firma foi reconhecida. De graça. Mas já o primeiro carimbo manchava a beleza de meu diploma.

Perguntei ao tabelião qual achava ele dever ser meu próximo passo. Disse-me ele ser o Consulado. Mas era um ingênuo. Nosso burocrata cabloco é mais vivo. Quem garante, raciocina ele, que o tabelião é um verdadeiro tabelião e não um enganador? Quem garante que ele, ou ela, não falsificou a licença? Não, é necessário que alguém reconheça a firma do tabelião. Sou mandado pelo Consulado ao county clerk, ou escrivão do condado, que, por sinal, fica em outra cidade. O escrivão me atende em cinco minutos e me cobra um dólar. E grampeia o primeiro pedaço de papel em meu diploma, que sofre um pouco mas em sua estética.

Mas o escrivão é um gringo desconhecido e portanto se faz necessário que uma autoridade verde-amarela no país garanta a autenticidade desse senhor. O cônsul brasileiro deve reconhecer a assinatura do escrivão. Dirijo-me ao Consulado, no caso o de São Franciso. Sou atendido com gentileza: a taxa, meu senhor, é de apenas seis dólares. Não, lamentamos mas não podemos aceitar cheques. Sentimos muito, mas não temos troco para sua nota de dez dólares. Quando fica pronto o reconhecimento da firma? Podemos garantir-lhe que em três dias o senhor poderá vir buscar o documento. Infelizmente, não é possível entregar antes, há muito trabalho acumulado. (O Consulado reabrira três dias antes. Tinha sido fechado há alguns anos aparentemente por excesso de "imaginação criadora" do cônsul em suas transações comerciais. O horário de funcionamento era de 11:00 às 15:00 horas).

Desta vez o papel grampeado e colocado com dois grandes selos vermelhos era maior do que o diploma que teve um de seus lados totalmento encoberto.

Mas o burocrata continua a raciocinar. Quem garantea autenticidade do cônsul? Não há tantos cônsules por aí? Não há até geladeira cônsul? É necessário que alguém ateste a veracidade desse funcionário. O diploma vai, então, ao Itamaraty em Brasília onde a firma do cônsul é reconhecida. Tudo pronto, afinal? Absolutamente. Quem garante que o funcionário do Itamaraty é realmente um funcionário do Itamaraty? O ministério não estará infiltrado de oposiocionistas a fim de sabotar a ação do governo? A assinatura do funcionário tem que ser reconhecida em cartório. Lá vou em para mais um carimbo. Não me lembro de quanto paguei.

Poupo ao leitor os passos seguintes de meu diploma que teve de ser traduzido por tradutor juramentado e passou ainda por quatro órgãos da Universidade Federal de Minas Gerais para exame e aprovação. Hoje, ele teria que ir também ao Ministério da Educação e Cultura, pois, afinal, quem disse que uma universidade federal é capaz de julgar acertadamente sobre a conveniência da revalidação? Ao final, outro pedaço de papel é colado do lado ainda livre do diploma, desaparecendo por completo o outrora lindo atestado de minha sabedoria.

Pronto. Salvou-se a pátria. Evitou-se mais uma possível fraude. Os trâmites legais foram seguidos.


Não é uma maravilha a burocracia a serviço do cidadão? Quem não tem várias histórias lindas sobre peripécias burocráticas? Vou contar duas pessoais.

Uma prima minha veio morar comigo por algum tempo. Certo dia ela quis ser atendida no posto de saúde do bairro. Mas houve o seguinte problema. De acordo com as normas administrativas, só podiam ser atendidos moradores do bairro ou quem trabalhasse ali. Porque os postos tinham sido divididos em zonas administrativas, e o atendimento só era destinado a quem estivesse na área do posto. Tudo em nome da eficiência a serviço do povo, mesmo que o próprio povo fosse lesado, como ocorreu com minha prima. Não adiantou nada espernear. Havia um modo de proceder, no entanto. Minha prima trouxe do posto um formulário para eu preencher, no qual eu atestaria que ela morava comigo."Eu, Tanja, identidade tal, cpf tal, moradora da rua tal, atesto para os devidos fins que fulana, identidade tal, cpf tal, habita em minha residência etc etc." Por um motivo qualquer, eu em pessoa tinha que entregar o papel. Ótimo, fui lá na manhã seguinte. Logo que fui atendida, tive que fazer a seguinte pergunta: "Por que não é suficiente eu apenas vir aqui e dizer que minha prima mora comigo?" A funcionária: "Ah, eu também acho, mas sabe como é, né? É uma exigência que fazem, não se pode fazer nada." O modo de falar dela me deixou meio encucada. A primeira frase era pessoal, até meio crítica, mesmo que se desfizesse num princípio de justificativa. Já a segunda frase era indeterminável, impessoal e assertiva. "Exigência que fazem", "não se pode fazer nada". Quem fez aquela exigência, diabo? Quem não pode fazer nada? Por quê? Qual a razão da exigência? Não perguntei nada. Só entreguei o formulário. Mas o monstrengo burocrático era um fanfarrão. "Faltou autenticar em cartório", disse a funcionária. Fiquei desconcertada. Não esperava aquela exigência. Perguntei o que significava aquilo. Ela só disse: "A gente só pode aceitar esse formulário se ele tiver sido autenticado em cartório." Não adiantou porcaria nenhuma eu insistir. Mostrei meu comprovante de residência e minha identidade. Nada. O formulário tinha que ser abençoado num cartório para a minha prima ser atendida.

Vamos recapitular. Eu, Tanja, falei em pessoa que minha prima morava comigo. Preenchi um formulário. Mostrei minha identidade e comprovante de residência. Mesmo assim, não bastou. Um tabelião tinha que autenticar perante o Estado as minhas informações.

Lá fui eu ao cartório. Assim que fui atendida, nova decepção. O coitado do tabelião gostaria muito de autenticar a minha folhinha e tal, mas o problema é que eu não tinha firma! Era preciso regularizar minha situação num cartório especializado. Eu não tinha a menor idéia do que era abrir uma firma. Como parecia ter a ver com criar uma empresa, aí que não entendi mais nada. Fui obrigada a descobrir o mistério. Depois de esperar mais um tempinho no outro cartório, me pediram para assinar um papel. Pronto. Eu acabara de abrir uma firma. Nada mais era que uma assinatura pública a ser consultada em cartório sempre que necessário. Fiquei meio passada, mas mordi a língua. Por via das dúvidas, pedi uma cópia autenticada do formulário. No final das contas, paguei uns R$30.

Voltei correndo ao posto. As pessoas só tinham direito de tirar dúvidas e coisas do tipo até às 13h. Não me explique as razões. Uma observação. Eu mesma fui testemunha da vez em que uma funcionária chegou com uma hora de atraso para nos atender, portanto às 9h. Porque as pessoas só tinham o direito de tirar dúvidas e coisas do tipo das 8h às 13h. Mas cheguei a tempo. Consegui *mostrar* o papel. Sim, sim, sim! Me informaram que só aquilo bastava. Nada tinha que ficar no posto. A felicidade da funcionária consistia em apenas vislumbrar o papel autenticado pelo órgão competente. E só para frisar, na prática paguei uns R$30 pela consulta da minha prima num posto de saúde.

Vamos resumir a história. Aquelas exigências todas foram para comprovar as informações que passei. Como a única suposição para tal era eu ser considerada uma mulher de inclinações malignas (no que havia e há alguma verdade), era necessária a tutela do Estado. Só que isso pressupõe que os servidores estatais sejam pessoas ungidas pelo Senhor, agindo em nome da simplicidade redentora do coração. Não creio nisso, até porque as leis exigem a separação entre Igreja e Estado. Também não creio que o servidor esteja au-dessus de la mêleé, enquanto nós vulgares nos estapeamos por um prato de farofa. Mesmo que tudo parecesse tão pimposo, havia um problema. Em nenhum momento me exigiram qualquer tipo de comprovação do que eu informava! Apenas preenchi um papel e prestei uma assinatura em cartório. No fundo, o beato estatal não ligava para a minha propensão à iniqüidade. Veracidade do que afirmo? Já não se perguntava o funcionário público Pôncio Pilatos: quid est veritas? A tradição romana continua até hoje na burocracia estatal brasileira. Importa é a ostentação de um poder quase discricionário mediante concessões régias e beneplácitos estatais.

Reflito, reflito e reflito, mas acho muito difícil de entender essas coisas. O procedimento inteiro é um absurdo patente, a ponto de ser um escândalo. Sem contar o apêndice da bizarrice. Nem todos os postos de saúde têm as mesmas especialidades. Um exemplo. Vamos supor que um cara tenha problemas circulatórios. Ele tenta ser atendido no posto do bairro onde mora ou trabalha, mas em nenhum deles há angiologistas. Como fica o infeliz que não encontra o atendimento adequado ao problema que tem? A princípio, ele não pode ser atendido em postos fora das áreas onde mora ou trabalha. O cara vai ter que buscar algum encaminhamento junto à autoridade competente. Ou seja, uma norma que tinha sido criada para melhorar a eficiência do atendimento ao cidadão criou um problema desnecessário aos dois principais interessados: o cidadão e o próprio Estado. O cidadão encontra problemas para ser atendido, o Estado é obrigado a se preocupar com a emissão de encaminhamentos desnecessários e a eficiência vai para as cucuias. Que algo de conseqüências tão óbvias não tenha sido criticado assim que proposto é triste. Que tenha se tornado prática é revoltante. Não consigo imaginar como é possível que o sr. secretário de saúde fique satisfeito com esse tipo de gestão, a menos que seja louco ou incompetent... perdão, impotente diante das circunstâncias. Não precisa ser um grande administrador para entender o óbvio. Se nem isso consegue, melhor para todos nós que ele ficasse na praia jogando frescobol.

A segunda história tem a ver com a primeira. Fui visitar uma biblioteca municipal. No instante que me inscrevi para pegar um livro, falou a burocracia pela boca do atendente: "Ah, mas só pessoas que moram ou trabalham no bairro é que podem fazer empréstimos." Outra vez a história das zonas administrativas! Acabei lançando mão de um expediente vergonhoso, a única arma que eu tinha. Fiz dengo e choro. Talvez porque o atendente fosse alguém ligado à cultura humana (diferente da impessoalidade de funcionários da saúde), ele acabou se sensibilizando comigo e me deixou levar o livro. Confesso que meu expediente foi uma vergonha. Mas o livro era tão bacana... Os responsáveis pela secretaria de cultura não deviam servir para facilitar o acesso aos livros? Mais parecem doutores da lei que dificultam ao máximo algo tão simples como empréstimos numa biblioteca municipal!

Sou cidadã. Mas sou tratada feito uma palhaça. Por que alguém ainda se choca quando digo que é perda de tempo votar? "Mas é a arma do cidadão" Uma pinóia! Sequer vale a pena votar nulo. Burocracia por burocracia, a única que me satisfaz hoje em dia é quando pago uns trocadinhos pela minha abstenção eleitoral numa repartição pública qualquer.

Tuesday, October 23, 2012

Tropa de Elite (comentário de dois comentários)

Ontem eu disse que passei o blog em revista. Comentei que em geral gostei do que li. Mas também afirmei que encontrei muitas tronchices. O texto a seguir é um exemplo que busquei remediar só agora. É uma crítica que fiz em 2007 a duas críticas despropositadas sobre o filme Trope de Elite. Reescrevi sem alterar a substância do texto. Na época eu nem tinha visto o filme. Só que as críticas do Arnaldo Bloch e do João Paulo Cuenca cheiraram tanto a chulé que me vi obrigada a manifestar minha repugnância.

          
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Hoje foi um dos poucos dias que pude ficar em casa pelo menos durante a hora do almoço. Aproveitei para tirar o atraso da leitura de O Globo de terça (25/09/07). É, amigo... Pode não parecer, mas às vezes até arrumar tempo para ler um jornal é complicadinho!

Vi logo na capa um bafafá por causa desse filme Tropa de Elite. Olha, se você quer saber de uma coisa, bem que eu gostaria de ficar impassível a respeito desse tipo de assunto. Meu negócio é outro. Só que é fogo. É que nem você estar no elevador e, sei lá, alguém soltar um pum. Você gostaria de ficar na sua. Queria chegar logo em casa ou sair para a rua. Você gosta de cheirinho bom. Mas o fedor incomoda muito. Você só fica pensando em quem foi o infeliz que soltou o pum, doido pra reclamar com ele. Essa polêmica é decorrente do pum mental de dois articulistas do jornal. Vale a pena comentar umas coisinhas.

Me chamou a atenção um dos atores se defender de uma crítica infeliz que considerava o filme fascista. Na capa havia uma chamada para outro artigo, dizendo que ele era reacionário. De cara, até confesso que fiquei animada de assistí-lo. Se a crítica considera algo fascista e reacionário, é porque deve ser algo que vale a pena. Há um jeito de saber se um cara que critica alguma coisa vem da terrinha do Golias. É a maneira como ele se sente livre para usar o termo "fascista" das formas mais irresponsáveis. Me deixa explicar rapidinho um negócio antes. Existe alguma coisa como estética fascista. Mas na verdade não é bem estética. É propaganda. Como “arte soviética”. Não é arte, é propaganda só. O valor da obra não é visto por si. Ele é condicionado a pressupostos políticos. Caem os pressupostos, some o valor da obra de arte. Isso é horrível! Se você casa a qualidade da obra com o aspecto político, você tem uma visão propagandística da arte. Seria melhor que você não escrevesse nada sobre o assunto. Agora, só uma curiosidade. Há uma cena do Gladiador que é quase igual a uma de Triunfo da vontade. É aquela em que o novo imperador é saudado pelos senadores, com as tropas em formação ao lado. Não dá para deixar de associar à cena clássica do Hitler e mais uns carinhas andando entre as tropas. Só por isso o Gladiador seria fascista? Se for por aí, daqui a pouco até o Senhor dos anéis é fascista. E nem acho que só porque uma obra foi feita num regime fascista ela não tenha o menor valor. A Chancelaria do Reich *eu* acho um prédio bem interessante. O documentário Olímpia é mesmo muito bom. Até algumas obras do Hitler não são ruins. Existe qualidade em algumas de suas pinturas. Porém é no mínimo duvidoso dizer que elas sejam fascistas, pois quando foram feitas o Hitler não estava nem aí para a política! Mais curioso é analisar do ponto de vista ideológico a obra de um artista sem nenhuma incinação política em especial, ou quando a obra dele não reflete o posicionamento político dele. Um Picasso. Boa parte da fama dele é porque era esquerdista e pintou Guernica. Muita gente gosta dele por isso. Eu gosto dele também, mas não por esses motivos. O curioso é que o Partido Comunista Russo tolerava a posição política dele mas não o estilo... E Richard Strauss, que parece não ter tido opinião de nada a não ser a de aproveitar qualquer oportunidade que lhe surgisse? Deveriam jogar a obra dele no lixo porque se permitiu trabalhar para os nazis? Mesmo não tendo nada que justificasse o movimento nazi em sua obra? Uma parte da antipatia contra ele vem desse tipo de questão. É compreensível. Mas não deixa de ser equivocada. É um problema quando condicionam demais uma obra às opiniões políticas do autor! Só que fazem isso com muita freqüência.

Nada disso quer dizer que o fator “política” sempre tenha que ser omitido. Dois exemplos. A tragédia grega tem relações muito próximas com o desenvolvimento do Estado de Atenas. E também com a transição de um regime político mais arcaico para a democracia da pólis. Antígona é um ótimo exemplo da tensão entre o poder público (Creso) e os laços de parentesco (Antígona). É um problema também político. Eumênides é outra peça que possui uma questão política. O Areópago se converte em tribunal pela vontade dos deuses. A coisa só fica feia quando você hipertrofia a política. De repente, nada mais passa de disputa de partidos. Sinal disso é a intromissão de jargões políticos polêmicos nas áreas mais indevidas. Como gostar de Einstein porque ele é revolucionário, enquanto Newton é reacionário. (Eu tinha um amigo que gostava de brincar com essas coisas. Ele me dizia que havia uma beleza “conservadora”, uma “reacionária” e uma “revolucionária”. Ou seja, havia gente que ELE achava bonita mas sem sal ("conservadora"), antipática ("reacionária") e “exótica” ("revolucionária"), que era o tipo que ele mais gostava.)

Agora uma oportunidade para escrever algo sobre a esquerda. Tudo o que ela faz é político. Ela analisa tudo pela ótica do embate conservador-progressista-revolucionário-reacionário. Eu tinha um professor que me contou que a irmã dele, ao saber que ele estudaria latim, disse que ele estava virando reacionário. Pois é, até estudar língua clássica é atitude contra-revolucionária. Só faltava criarem uma outra Cheka só para prender latinistas!

Voltando à vaca fria. E então o compadre do Golias disse que o filme era fascista. (Mais adiante vou escrever sobre o outro compadre que tachou o filme de reacionário.) Uma pergunta. O filme faz apologia da onipotência do Estado? Outra. O filme prega um nacionalismo belicoso? Mais uma. O filme faz apologia da censura? Agora essa. O filme faz apologia de um salvador da pátria? Mais essa. O filme força a barra para alguma mitologia nacional? Penúltima. O filme critica a “burguesia internacional”, o capitalismo etc? Última, embora coubessem mais perguntas. O filme faz propaganda de alguma elite revolucionária? Se o filme apóia todas essas coisas, então beleza. Está fazendo propaganda fascista. E se não apóia nada disso? Então quem o acusa é no mínimo maluquete! Se você viu o filme, pode responder. Não o vi.

Mas eu nem preciso ter visto para ter uma noção da qualidade da crítica, cujo título bizarro é Tropa de Elite é fascista?. N'O Globo há um texto sobre ela, segundo o qual o autor

chamava a atenção para a heroicização do personagem, que não tem escrúpulos em torturar e apavorar moradores da favela, comportamento justificado (e aprovado por parte da platéia, aos gritos de “caveira”, símbolo do Bope) para vingar o colega assassinado pelo chefe do tráfico no morro. Outro ponto abordado pelo colunista [quase que transcrevo “comunista", no mais puro ato falho] foi o das relações promíscuas entre o tráfico e as ONGs (“organismos-títeres de alta bandidagem”, escreve) que atuam em comunidades carentes – incluem-se aí estudantes universitários de classe média alta, os quais, aponta ele, são o alvo principal do roteiro quando trata de responsabilizar o consumidor final pela guerra que inferniza morro e asfalto no Rio de Janeiro. [Mas ué, e essa gente não tem responsabilidade? O Arnaldo Bloch escreveu isso em tom de crítica negativa. Parece desconhecer uns princípios do mercado. Oferta e procura. Sobre ONGs, não sei. Sempre tive lá umas desconfianças.] E, por último, ele observa que no filme não há uma menção sequer ao assunto que está na ordem do dia [isto é, dentro da pauta da galera de esquerda] quando se trata da questão da violência ligada ao comércio de drogas: o da liberação do consumo. [Quer dizer, ele critica o filme porque mostra universitários de classe média alta que compram droga. Depois o critica por não ter tratado da conexão entre a repressão das drogas e violência urbana. Ou seja, para o A. Bloch, os jovens tinham que comprar drogas à vontade, pelo menos no filme. Como o roteiro não foi esse, o cara ficou chateadinho. Me dá vontade de dizer que parece até que o A. Bloch está advogando em causa própria ou dos cumpichas dele.]

A partir disso que o Arnaldo Boch escreveu, você, você mesmo, ô amiguinho, acha que o filme é fascista? Ou o crítico é um lesado?

Só mais uma coisa sobre a mania de tachar tudo de fascista. É que não foi comigo. Se viessem me chamando de fascista e tal, eu mandaria é tomar lá naquele lugar onde o sol não bate. Pô, que safadeza é essa de sair acusando do nada um filme assim? Um ator chegou a responder de um jeito que eu jamais faria. Ele disse ter sido “instigado pelo bom texto do Arnaldo Bloch sobre a sessão de estréia de Tropa de Elite." Ô cara, acorda! O sujeito escreveu que seu filme é coisa de gente fascista e tal. Gente que trata quem discorda dos lindos ideais deles com prisão e tiro. Ser chamado de fascista é pior que de filho da puta. Aí você diz escreve uma resposta "instigado pelo bom texto" dele? Parece até que o ator é masoquista ou saco de porrada ambulante. É irritante essa mania que muitos têm de buscar a polidez a todo custo. Essa conduta só serve para transformar a gentileza numa fingimento, numa forçação de barra. Essa que teria que ser a resposta: "Arnaldo Bloch, você vai ter que provar por A+B que esse filme é fascista. A crítica que você fez é muito grave. Do contrário, você não passa de um tratante irresponsável que só sabe reagir ao que não gosta dando chiliques histéricos. Antes que eu me esqueça, fascista é a pqp, seu zé ruela!"

Usar com tanta promiscuidade esses termos é sintoma de filisteísmo. Dos brabos. Uma vergonha essa crítica.

Ah, mas a ciranda não terminou por aí! No caderno Magazine do mesmo O Globo, um cara chamado João Paulo Cuenca tentou dar mais um show. Foi na coluna Sobretudo.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer um negócio sobre a foto do caveirão cheio de sangue no piso que estampava a página. Eu não sei quem falou para esses caras que mostrar *a* verdade é publicar foto de um carro cheio de sangue, ou qualquer brabeira do gênero. Eu quase ia dizer que isso é coisa de esquerdista. Só que teve uma vez que no Mídia sem Máscara me fizeram o grande favor de publicar uma foto de um polícia morto com um tiro de fuzil na cabeça numa viatura. Porra, e tem gente que reclama quando eu digo palavrão! Aqui no Rio tinha um jornal que ficou famoso por causa desse tipo de foto. Era O Povo. Sei lá se existe ainda. Mas parece que fez escola. Na tevê é a mesma merda de vez em quando. Fico pensando no seguinte. Será que essa gente que adora mostrar *a* verdade já participou dela in loco? É mole eu dizer que temos que mostrar as coisas como elas são e ficar sentadinha aqui em casa. Ou fazer no máximo uma viagem chinfrim a uma favela perigosa, que nem me contaram que o Paulo Henrique Amorim fez ao Complexo do Alemão. Ou sair ao redor do mundo tirando foto de nego estropiado (que nem aquele carequinha que agora me esqueci o nome.) Dar uma de John Cornwell e dizer que investigou ultra-super-bem os arquivos do Vaticano, para agora dizer que mudou um pouco de opinião sobre Pio XII (e só disse isso depois da enxurrada de críticas ao livro dele, mas pelo menos é um indício de decência). Tudo isso me lembra de um maluco que conheci há um tempinho. O cara vivia me falando que o mundo era uma merda. Que no Brasil havia coisas tão terríveis que ninguém tinha coragem de dizer. Me contava alguma história toda escabrosa sem eu pedir. O mesmo sujeito morava numa cidadezinha bunda onde não acontecia nadinha. Ele vivia bem. Nunca aconteceu nadinha com ele. E teimava em me dizer que tinha visto a verdade e que ela era maligna. Essa gente parece que bebe. Esse frisson é uma reação típica de beatas, só que às avessas. No lugar de se escandalizar com o que viu de longe, sente um furor. Então a beata com espírito de moleca resolve esfregar na cara de todo mundo a causa do furor. Já me disseram que durante a Guerra do Vietnã foi mais ou menos assim. Era preciso assustar “aquelas famílias que se reuniam em frente a uma tevê na hora do jantar”. Note o valor político dessa chantagem emocional.

Mas então. Peguei o jornal na hora em que estava almoçando. Muito obrigada, hein!

Esse Cuenca já revelou o show que daria logo no primeiro parágrafo. De cara ele reclamou da anistia, que “não somente livrou a cara dos perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1979, mas que também abriu as asas da liberdade aos perseguidores e criminosos ‘oficiais’” A seguir ele me veio com isso aqui, ó:

Neste país de consciência livre, estupradores, torturadores e assassinos hoje jogam peteca na praia de Copacabana e curtem sua tranqüila aposentadoria. [É, eles vivem ganhando dinheiro do governo. Ao contrário daqueles pobretões tipo Heitor Cony, que não ganham um centavo do governo. E os “estupradores, torturadores e assassinos” de esquerda? Um virou deputado federal, outro presidente da Petrobras, outro professor universitário...] Depois de encher os bolsos, mandar bater e lotear estatais por duas décadas com sobrinhos com dificuldades de aprendizado, os milicos têm a vida que pediram a Opus Dei.

Cara, o que tem a ver Opus Dei com milicos aposentados? Só consigo imaginar que ele raciocinou (finge que é raciocínio) assim: “Militares são reacionários. Militares são católicos. Igreja é reacionária. Opus Dei é da Igreja. Opus Dei é *muito* reacionária. ENTÃO militares têm ligação com Opus Dei.” Aposto que esse cara só ouviu falar na ordem por causa d'O Código da Vinci e pelo que leu (muito mal) em alguma revista por aí. E “vida que pediram a Opus Dei”? Ai, ai... O que ele quis dizer com isso? A impressão que me dá é que o verdadeiro sentido do que ele escreveu só pode ser captado nas entrelinhas. Só os iniciados no cuenquismo podem entender.

Depois ele voltou a dizer as tolices sobre anistia geral do Brasil, “o país mais atrasado do continente quando se fala em punir os responsáveis pelos abusos cometidos pelo regime militar”. Outra idéia oculta. Os militares seriam os únicos responsáveis por todos os crimes políticos. Porque todo mundo sabe o que aconteceu na história. Aqueles milicos eram um bando de Dom Quixote a lutar durante quase vinte anos contra moinhos de vento comunistas. Claro que não havia terrorista, torturador, assassino, do outro lado. F. Gabeira? Genuíno? Eram idealistas, pessoal! Porque o ideal justifica, apesar de o marxismo dizer que é parte da ideologia burguesa alienante... O pessoal do Partido dos Socialistas Revolucionários da Rússia tinha um raciocínio ótimo. Uma coisa é roubar. Outra é expropriar. Cada ato era caracterizado segundo a finalidade política. O próprio Gabeira, em O crepúsculo do macho, mostrou bem como funciona a cuca desse povo. Ele e os amigos dele roubavam roupas da fábrica onde trabalhavam na Europa para “compensar a mais-valia”. Embora fosse um exilado político borra-botas, o camarada retribuía a hospitalidade que lhe foi concedida por um país estrangeiro com furtos no local de trabalho. E ainda reclamava de ser vítima de exploração econômica hedionda, quando mal precisava trabalhar para se sustentar. Não é lindo esse código moral? Agora posa como crítico do Mensalão e tal... Mas enfim. Para um revolucionário, crime político não é a mesma coisa que assassinato comum. A morte de uma autoridade num atentado seria apenas uma crítica ao sistema político. Qualquer grupo terrorista pensa desse jeito. Quando o iate em que se encontrava Lord Mountbatten, acompanhado de alguns familares e inclusive crianças, voou pelos ares, você acha mesmo que o IRA pensou que tinha praticado um crime covarde contra um homem de quase 80 anos, herói de guerra? Claro que não! Aquilo foi crítica política, propaganda de conscientização das massas para a causa da Irlanda do Norte... Mesmo Lênin só criticava assassinatos por conveniência tática do momento. Também pudera. Ele recomendava jogar ácido em policiais e a prática de atentados.

Só no mundo idealizado (e portando burguês, na acepção marxista) de gente como J. P. Cuenca os militares agiram contra fantasminhas durante vinte anos. Fantasminhas que não hesitavam em roubar e matar.

Tantos absurdos são apenas uma parte da crítica sobre o Tropa de Elite. É bom eu avisar caso você já tenha se esquecido. O que tudo isso tem a ver com o filme? Pois é. Quando um sujeito tipo o Cuenca vai realizar uma crítica, é bom a gente se preparar. É que nem carro de palhaço, onde sempre cabe mais uma coisa. É crítica aos milicos para lá, à polícia para cá, alfinetada no Opus Dei... Mais adiante você vai ver que tem mais. Por enquanto, a introdução foi o salamaleque do bom mocinho. Só agora ele pode começar a escrever, “como vocês devem imaginar, movido pela experiência de assistir à pré-estréia de Tropa de Elite, na última quinta-feira, no Odeon.” Lindo. Quanta reflexão espúria a partir da experiência de uma pré-estréia, hein? Uma pergunta. Só pessoas convidadas puderam participar? Porque não sei como alguém pode dar tanto chilique sendo paparicado. Esse pessoal chique é muito ingrato.

Lá pelas tantas, ele me vem com essa: "o filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelo na história do cinema nacional." Observação carrega de filisteíce da grossa! Pô, é muito pedir para fazer uma crítica mais decente? Sem essa babaquice estereotipada? Observações sobre o que é ruim, o que é bom, alguma coisa sobre atuação... Qualquer coisa, menos esse papo-furado de velho caduco. Chega de querer opiniar de cima de um caixote com a mão na cinturinha, por favor. O que é mais engraçado é que parece que o filme lhe provocou algumas dores, porque ele diz assim:

O texto é claro como pó de mármore: o tráfico de drogas é um câncer, a elite branca é hipócrita, a PM é corrupta, e o Bope é incorruptível. Só o Bope, através de seus imaculados princípios, nos salvará das trevas. E para isso, tem certas licenças nada poéticas – a tortura é a principal delas. Eles, que são puros, fazem o serviço sujo que nós, hipócritas de classe média, não encaramos. A lógica do discurso policial que Tropa de Elite reproduz é cristalina. [Eu que negritei.]

Eu não tomo as dores de ninguém. Nem estou entre os “hipócritas de classe média” nem entre os caras do Bope. Não defendo legalização das drogas nem afirmo que sou contra. Eu sei lá! Só posso dizer que já vi gente se fodendo. Eu tinha um conhecido que de preto virou branco de tão pálido por causa dessas coisas! O mesmo cara passou a vender tudo que tinha. Um dia a mãe dele chegou em casa e descobriu que não tinha nem mais geladeira! Diziam que ele perdia o controle, gritava, essas coisas. Ele era um cara tranqüilão. Ficou pirado. Durante uma época eu achava que tinham que descriminalizar (é o termo da moda) tudinho. Cheguei a tentar convencer neguinho disso. Acho que fui meio inconseqüente e me arrependo. Ideas have consequences. Bom, mas afinal a elite é a classe média e portanto o Cuenca é da elite? Ou existem duas classes hipócritas? O Cuenca é branquinho? A única coisa certa é ele quer passar a imagem de alguém esclarecido. Que audácia a do Bope! Que atrevimento ao lhe considerar um hipócrita de classe média! Supor que ele, tão iluminado, precisa de socorro? Ao contrário! É ele quem está incumbido de nos mostrar a luz, decifrando a lógica do discurso do que quer que seja. Agora, o que significa o termo “lógica do discurso policial”? Tudo hoje em dia virou “discurso”. Qual a lógica disso? Não estou ironizando. O que sei é que existem leis e a polícia é um braço da justiça. Polícia não tem opinião. Segue leis e pronto. Se há algum problema, é no tocante à execução de leis. Não é raro a força policial se ressentir das ações da Justiça. Descontando problemas como corrupção, a relação entre eles é sempre marcad por uma dupla queixa: "nós prendemos os criminosos mas vocês os soltam" e "queremos agir mas vocês atam as nossas mãos". Porém o Cuenca parece ter encontrado um porta-voz oficial da "ideologia policial", ainda que seja um personagem de ficção. É um crítico muito mágico. Na absoluta falta de gente de carne e osso, ele se dá por satisfeito com essa gambiarra. Voilà! O personagem do Capitão Nascimento lhe revela a verdadeira lógica de uma instituição concreta.

Você acha que esses são os principais problemas do filme? Nãããão! O negócio encuenca mesmo quando “esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores”. Hm, não resisto a uma pergunta. O cuenca faz parte desse “monstro disforme chamado opinião pública” ou o mal está só nos outros? Veja o meu texto. É uma opinião. É pública. Faço parte da opinião pública? Sou parte do monstro? E qual deveria ser *a* “leitura do filme”, ô bonitão? Uma que não "corrobora esses métodos e valores"? A do nobre Cuencão? E que mania de transformar tudo em leitura, viu. E escrever que “esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores” é o jeito mais pedante possível de dizer o simples: "o público se entusiasmou com o filme".

Vou me esforçar para captar a mensagem do amável mestre. O Brasil é um país cheio de bandidos de farda à solta. (Notou que ele só reclama da polícia e dos milicos?) A violência é tolerada pela massa, desde que dirigida contra a ralé. É óbvio que a turba vai delirar com a iniqüidade do filme (porque ser reacionário é mal pra chuchu). Já o mestre é o bebê Johnson do aprumo cultural.

Eu, que sou maligna, vou reclamar disso: "[Tropa de Elite] pode perigosamente entrar para a história como o filme da geração “Cansei”. Vou repetir. A crítica do Cuenca é igual a carro de palhaço. Sempre cabe mais um. Agora é a "geração Cansei”. Que lindeza! Eu mesma não me canso de me espantar com essa crítica iluminada. O que é “geração ‘Cansei’”? E por que o "perigosamente"? Uma coisa é engraçada. Num trecho ele diz assim: “Poderia entrar no mérito exclusivo do filme e dizer que é impecável no que se propõe”. É impecável por ser reacionário? Qual a proposta? Se é "impecável no que se propõe", o filme não seria bom? Ou devo entender a crítica assim: o filme é impecável, mas é uma bosta? E se o filme é impecável e conquistou "o monstro disforme da opinião púbica", parece que ele é mesmo muito bom, certo? Não, não. O Cuenca gostaria que todos estivessem reclamando de um filme impecável. Mas afinal de contas o que o J. P. Cuenca está dizendo? Não dá para entender direito. A única coisa que sabe fazer é expressar uma série de associações disparatadas que sentiu durante a experiência mágia da pré-estréia. Reacionários! Milicos! Opus Dei! Monstro disforme! Torturadores aposentados! É como se ele se indignasse tanto que repetisse durante uns vinte minutos só mimimimimimimimis.

Ele se chocou porqueo público “aplaude cada porrada”. Ué, nego aplaude até hoje Cidade de Deus, Carandiru, Assassinos por natureza, Pulp fiction, Full-Metal Jack... Dessas coisas eu não reclamo. Não me faço de rosinha ofendida. Já cansei de jogar Mortal Kombat. Já me esqueci do que é mesmo um polinômio, mas ainda me lembro de como fazer alguns fatalities. Também gostava de um jogo de moto que você dava correntada nos outros competidores. Kill Bill é muito divertido. Gosto de boxe. Agora mesmo meu pai está lá na sala gritando para o Holyfield dar na cara do Bowie, e eu mesma quero ver também a luta. Para usar um termo do Cuenca, quem "aplaude cada porrada" são os "torturadores de gabinete”. Deus do céu. Da mesma forma que o A. Bloch foi ridículo ao ponto de tachar os outros de fascistas, o Cuenca é babaca o suficiente para dizer que quem gostou do filme é chegado a uma tortura. Essa gente tem ou não idéia do que escreve? São umas bestas que caíram de pára-quedas em O Globo caso não tenham, ou cretinos que não hesitam em caluniar aqueles que têm opiniões divergentes. Aliás, como se chama mesmo aquele grupo político que costumava prender quem discordava deles? Pois então eu diria que tanto o Cuenca como o A. Bloch apenas exercem um fascismo cultural e jogam a culpa nos outros. E eu ainda gostaria de saber por que no mundo mágico do Cuenca os militares passaram quase vinte anos perseguindo moinhos de vento comunistas.

Como não podia deixar de ser, a crítica terminou coroada com uma presepada. Não é que o Cuencão fez questão de dizer que o pessoal aplaudia o filme comendo pastel de carne moída e tomando uisquínho? Coitado do Cuenca. Todo choroso em meio a trogloditas famintos e entusiasmados. Pior que até consigo imaginar com que cara de aflição o bebê Johnson suportou aquela situação.


Sunday, October 21, 2012

Seis anos

Sou rústica. Não dou lá muita bola para datas de comemoração. O mais das vezes entro no embalo para agradar aos outros (porque sou rústica, mas nem tanto). Mas por acaso eu estava fuçando aqui e acolá meu blog e notei que... há seis anos mantenho essa bodega! Um chatinho pode dizer: "Grande coisa. Há blogs com mais de dez anos." Ok, seu mala. Acontece que não é você que vai me impedir de dizer que há seis anos mantenho essa bodega (e ainda esfrego em itálico na sua cara enjoada, seu mala). |Já terminei a faculdade. Arrumei outros empregos. Mudei de casa. Fiquei velha. Até contos me aventurei a escrever! Enfim, ainda estou aqui. (E ouvindo outra vez Giulio Cesare do Händel. Caraca, algumas coisas são insistentes mesmo!) Olha que nem mencionei o meu outro blog, Conversas Bizantinas, criação anterior a essa aqui.

Sempre tive a tendência de escrever sobre o que gosto, sem nunca deixar de me posicionar. Agora, isso merece uma explicação. Não é posição no sentido crítico. É no sentido pessoal mesmo. Por isso que gosto de misturar vários assuntos à minha própria vida pessoal. Não é no íntimo da vida humana que a verdade se revela? Toda a especulação que se preza tem que partir de experiências concretas, vitais. Veja o exemplo de Sócrates. Viver, depois filosofar. Sem contar que é mais divertido apresentar essas experiências com uma cor mais viva. Ao menos é o que me sussurra meu dáimon zombeteiro! Já no segundo post, me apresentei e disse do que trataria por aqui. Claro que evitei de entrar em muitos detalhes pessoais. Mas segui tão contente por essa trilha sórdida que não me impedi de escrever sobre meus hábitos&costumes mais chinfrins. Tive até um leve probleminha em meu trabalho por certa coisa que eu disse aqui. E conforme o tempo passava, resolvi assustar quem passava por aqui com as minhas fotos no perfil. (Peço desculpas se a minha cara de boba alegre assustou alguém.)

Blog é uma coisa mais pessoal, não? E há assunto desprovido de interesse? O Chesterton que encabeça o blog diz que não. Escrever algo sobre cultura e o Brasil em geral parece mais relevante do que escrever sobre um dia de pura vagabundagem minha. Ou sobre as minhas idas ao circuito trash da cidade. Mesmo assim, levo fé no gordinho inglês. Se há algo de interessante a ser dito (nem que seja uma distração), que seja dito então. Ainda mais se a palavra estiver unida à alegria da autenticidade, quero dizer, se ela for a expressão de quem a gente é de verdade. É uma delícia! Por isso que detesto formalização postiça, disfarce chique da maior tosquice. Minha afirmação vale tanto para a pomposidade acadêmica quanto para a cultura de tia-avó. O que importa mesmo é a adoção de um ponto de vista pessoal e proporcional às coisas e às pessoas.

Um dos motivos que faziam o Churchill gostar de escrever memorandos era organizar o pensamento. Escrever ajudava-o a trabalhar as idéias. O prazer e a capacidade de arredondar o que se passa na cabeça e no peito são características de um bom escritor. Ter idéia de adequação é mais um ponto fundamental, coisa que o Primeiro-Ministro tinha bastante noção. (Se você quiser fazer uma comparação interessante, leia alguns discursos dele e compare com outros tantos do Hitler. O alemão, no máximo, se tornou peça de um passado estranho. O inglês tem o que nos dizer de positivo até hoje.) É por isso que o uso de um tom postiço falsifica desde a raiz até mesmo aquilo que possa parecer correto. Não foi à toa que Churchill se revelou um prosador tão bom quanto orador. Ainda mais sendo de uma raça tão inclinada à literatura!

Escrevi muitas tronchices. É, eu sei. Ao reler muita coisa, topei com várias coisas erradas. Outras continuei gostando. O que posso dizer é que em geral vi tudo e achei bom. (É feio elogiar a si mesmo, mas vai, me dê um desconto.) Digo que gostei por causa do tom e dos assuntos tratados. Sobretudo da argamassa que uniu ambas as coisas e que se chama sinceridade e espontaneidade. Por mais que as tronchices fossem medonhas, mesmo assim senti prazer com o que li em geral. Como dizia o Ortega, a gente é feliz quando segue atrás de nossa inclinação.

Não custa lembrar que o título A Espectadora é homenagem ao filósofo espanhol. Ele próprio nos presenteou com os volumes incríveis de El espectador (que agora os tenho aqui na minha estante num único volume, ao contrário de seis anos atrás, quando eu só os lia no computador ou na biblioteca) Ali também ele tentou escrever sobre as coisas tal como as via, em cumplicidade sincera com o leitor. A diferença é que, bem, não sou genial nem tão sabida! O que não me impede de ter a liberdade de escrever sobre o que gosto, do jeito que mais me agrada.

Não sei se já agradeci a todos que por acaso passaram por aqui. É muito gostoso compartilhar com os outros daquilo que amamos. Não deixo sequer de agradecer àqueles com quem tive os maiores arranca-rabos. Creiam, não foi nada pessoal. Sempre registrei o tom segundo o que li. Enfim, obrigada a todos. Como dizem os paulistas, é nóis.

Thursday, October 11, 2012

Conto infanto-juvenil

A Srta. Baratinha queria um namorado. Ficava remoendo aquele querer, querer, querer. Às vezes ia para a janela, pensativa: "Deve ser tão bom namorar... Minhas amigas até já casaram. Por que eu não consigo alguém?" Parou em frente ao espelho: "Até que não sou tão feia. Não dizem que tenho um sorriso bonito?" Lembrou das vezes em que conversava no MSN: "Todos gostam de me ver. Mas qual é o meu problema? Sou chata? Mas todo mundo diz que sou tão simpática! Eu sei que sou boa de papo. Será que não basta? Ah, mas eu me acho meio chata..."

O telefone tocou:

- Sim?

- Oi, Srta. Baratinha!

Era a Joaninha Sorridente.

- Oi, Jô! Como você está?

- Vou bem. E você? Escuta, vamos sair?

- Ah, sei não... Ando tão cansada...

- Você parece a sua tia! Vai ficar toda cascudona de tão velha.

- Você sabe que trabalho bastante.

- Adianta trabalhar bastante se você não tem vida social?

- Eu lá tenho idade de ficar na farra?

- Você é nova e gostava de sair! Agora parece uma barata velha.

- Essas coisas perderam o encanto.

- Pára com esse desânimo, hein? Todo mundo fica dizendo: "Estou cansado de chamar a Srta. Baratinha para sair. Ela sempre arruma uma desculpa." Poxa! Amiga, eu sei do que você precisa.

- Já sei o que você vai dizer...

- Você precisa de um barato!

- Os caras só querem zoação.

- Não entendo você, amiga. Você é inteligente, bonita... Sabe que morro de inveja de você, né?

- E eu de você. Mas adianta ser inteligente (não me acho) e bonita (muito menos)? Se eu fosse assim, teria um namorado. Supondo que os caras estejam em busca disso. Mas não. Você se lembra da Tanajura Saliente? Da Camarão Desinibida? É esse o tipo de gente que os caras querem. Às vezes até encontro alguém que parece bacana na Internet, mas...

- Ai, pára! Você tem que parar com esse negócio de bate-papo.

- Nem te conto! Outro dia, fui falar com um cara. O nick era "Porquinho Sonhador". Parecia bacana. Como eu disse que gostava de poesia, ele falou que era poeta e que me mostraria uma poesia dele. Aí sabe o que o ridículo me disse? "Estou só de toalha. Posso poetar pra você?"

- Que ridículo! Se você saísse mais, com certeza arrumaria alguém. Até eu consigo! E olha como estou fora de forma. Já viu a minha cintura como está? Pareço uma bolinha, amiga!

- Seu namorado já reclamou? Duvido.

- Você precisa sair para ser vista. Adianta ficar trancafiada? É fim de semana! O que você está fazendo?

- Estava lendo Camões.

- Você tem muito tempo para ler! Largue esses livros e vamos sair. Passo aí daqui a uma hora.

Duas horas e meia e após vários telefonemas, chegou a Joaninha Sorridente:

- Amiga, como você está linda! Vai arrasar!

- Você também. O que o Percevejo Baladeiro vai dizer?

- Ele que se vire! Não consegui falar com ele. Na certa deve estar aprontando.

- Não entendo esses relacionamentos.

Lá foram as duas.

Chegaram ao bairro do agito. Era um daqueles lugares ideiais para as criaturas da noite. Num cantinho, dava para ver o Vampiro atracado no pescoço de alguém.

- Está vendo aquilo, Joaninha? Que horror! - disse a Srta. Baratinha.

- Que que tem? Até parece que você não gostaria de levar um chupão desses.

- Jô!

Ambas pararam numa barraquinha. Tinha um monte de bebidas. Perguntou a Joaninha Sorridente:

- Vamos tomar uma caipirinha?

O Jumento e o Cabrito, que estavam também por ali, ouviram a Joaninha e se aproximaram:

- E aí, tudo bem? - perguntou o Jumento cheio de malícia.

- Oooooooii... - acompanhou o Cabrito.

- Oi! - respondeu a Joaninha.

Continuou o Jumento:

- Aí, eu e meu parceiro aqui, o Cabrito... Sabe como é, a gente estava aqui de bobeira e tal. Aí eu ouvi que vocês iam tomar uma caipirinha, né? Olha, pode deixar que a gente paga.

- Não precisa, temos dinheiro. - respondeu um pouco ríspida a Srta. Baratinha.

O Jumento ficou meio desconcertado:

- Ah, foi mal aí. Eu não quis dizer que vocês precisavam de dinheiro, não. Me desculpa, princesa.

- Eu quero um mééé! - falou o Cabrito.

- Amiga, se eles querem pagar, então deixa! - falou toda animada a Joaninha Sorridente.

A Srta. Baratinha não gostou muito, mas preferiu não discutir. Mas disse que só queria um refrigerante.

- Tu num bebe? - perguntou o Jumento.

- Não estou com vontade. - foi a resposta atravessada da Srta. Baratinha.

A Joaninha Sorridente estava mais sorridente ainda depois de tomar a caipirinha. O Cabrito também estava feliz, ainda mais por ter tomado várias doses de algo azul. Os olhos até estavam vermelhos. Ele ofereceu a bebida à Joaninha:

- Toma aí, é muito bom.

- Ah, obrigada! Mas é que não quero, não.

O Cabrito se aproximou a uma distância de beijo da Joaninha Sorridente:

- É que a bebida é das boas. Adoro um mééé!

Que hálito etílico! Aquilo desagradou a Joaninha Sorridente.

- Hm, sai pra lá. Que bafo de bode!

O outro casal também não se dava muito bem.

- Tu tá na minha, princesa? - perguntou o Jumento malicioso.

- Hã?

- Sério. Tu é muito gatinha.

- Sei.

- Aí, eu se amarrei em tu.

- Como é?

- Eu se amarrei em tu! - gritou o Jumento, sem necessidade.

A Srta. Baratinha começou a rir. Não fazia a mínima questão de resistir ao riso de escárnio. Ainda remedava o infeliz "eu se amarrei em tu." E desatava de rir mais. As pessoas ao lado também começaram a rir. O Jumento não entendeu as risadas. Mas entendeu o suficiente para saber que debochavam dele:

- Coé, mina!? Tu tá me gastando.

- É que "eu se amarrei em tu" - e voltava a rir a Srta. Baratinha.

- Só porque é toda patricinha fica se achando. Já peguei muitas dessas. Sabe do que elas gostam? Tu sabe?

Um grupo de gorilas passou a prestar atenção às palavras cada vez mais antipáticas do Jumento. Um deles falou ao grupo: "Vou lá para acabar com a onda daquele palhaço". E foi. Só que ao chegar, ignorou a natureza do Jumento. Bateu nos ombros dele, dizendo: "Valentão, vem tirar onda comigo!" Digo que ignorou porque o instinto do Jumento era forte. Deu-lhe um coice! Pegou o gorila desprevinido. Ele foi arremassado bem numa barraquinha, onde o Camundongo Atendente trabalhava. Quando aquela massa imponente de músculos foi arremessada para lá, o coitadinho do Camundongo só pode dar um suspiro: "Ai, vixe!" É até difícil de descrever a violência do choque, a destruição da barraca, o estrondo da queda do gorila... O Camundongo voou tão longe, mas dava tantas piruetas no ar, que parecia desafiar a natureza. Parecia mais dar um show performático. Houve quem achasse aquilo um espetáculo. Muitos disseram "oohh!", outros "uuui!". Só quem não se admirou foi o Pitbull Valentão. Ele estava paquerando a Poodle Prosinha quando o cachorro-quente de alguém, que tinha sido atingido na queda do gorila, voou bem no focinho dele. Que bicho raivoso! Pulou no primeiro que estava em frente dele. Por azar, era o Cabrito. Foi o início da maior confusão. Cada um usava da arma que a natureza lhe proveu. O Canguru dava socos. O Touro chifradas. Os mais experientes de briga já sabiam de antemão das fraquezas dos adversários. O Coelhinho Mulherengo deu um sossega-leão no primeiro bicho de juba que viu. O Siri foi pego à traição, como sempre. O Boi Caprichoso mugia em lamentos. Acima de tanta confusão, ainda piruetava o Camundungo Vendedor, quase como um bailarino do ar.

A Joaninha Sorridente estava fascinada, um pouco em virtude do que bebeu (era tão fraca com bebida!):

- Caraca! Parece filme!

A Srta. Baratinha puxou a amiga para longe. Foram para casa. Só Deus e os envolvidos sabem como terminou o troca-socos.

Dia seguinte, as amigas voltaram a conversar, mas pelo MSN:

Srta. Baratinha: amiga, você está bem?

Joaninha Sorridente: tô só com dor de cabeça :-(

Srta. Baratinha: que loucura foi ontem!

Joaninha Sorridente: desculpa amiga

Srta. Baratinha: não foi culpa sua.

Joaninha Sorridente: é né

Srta. Baratinha: foi até engraçado ver aquele Jumento palhaço tomando um soco. :-)

Joaninha Sorridente: rsrsrsrsrs


Joaninha Sorridente: queria só q vc encontrasse alguém

Srta. Baratinha: nem sempre é bom pressionar o tempo, né? a gente acaba deformando as coisas por ser afoito.

Joaninha Sorridente: tendi rs

Joaninha Sorridente: miga posso apresentar vc pra um amigo do msn? o nome dele é ratón, veio da argentina

Foi o começo do namoro entre a Srta. Baratinha e Don Ratón, que veio de Buenos Aires para estudar medicina no Rio. Agora, como foi o namoro? Será que Don Ratón era bonito e cheiroso? Era inteligente? Beijava bem? Eis uma outra história. Como tantas.

Conto infantil

Dona Baratinha enfim arranjou um noivo e iria se casar. Mamãe centopéia recebeu uma carta convidando-a para o casamento. A filha, que adorava dançar, ficou animada:

- Mamãe, mamãe! Será que poderei dançar?

- Acho que sim. Vai ter festa no final.

- Oba! Mas mamãe, não tenho sapatinhos novos!

- Minha filha, você tem tantos...

- Mas quero sapatinhos novos!

- Filha...

- Eu quero muito, muito!

- ... acho que...

- Quero muito, muito, muito!

- ... não precisamos...

- Muito, muito, muito, muito!

- Ai, ai, ai! Está bem. Vamos comprar então sapatinhos novos.

Mamãe Centopéia e a Centopeiazinha Dançante se arrumaram e saíram para fazer compras. No meio do caminho encontraram a Cigarra Mágica, amiga da Centopeiazinha Dançante:

- Aonde vocês vão? - perguntou a Cigarra Mágica.

- Comprar sapatinhos para eu dançar na festa de casamento da Dona Baratinha! - disse a Centopeiazinha Dançante, quase aos pulinhos.

A Cigarra Mágica começou a bater animada as asinhas:

- Sabiam que fui convidada para cantar uma música bem bonita no casamento? Só preciso comprar um vestido. Posso ir com vocês? Seria tão maravilhoso!

Foram todas juntas fazer compras. Elas andaram muito (a Cigarra Mágica voava e cantarolava) até acharem uma loja, onde havia um magnífico par de sapatinhos vermelhos exposto na vitrine.

- Que sapatinhos lindos! - exultou e bateu as asinhas a Cigarra Mágica.

- Mamãe, mamãe! Quero esse!

Mamãe Centopéia colocou os óculos para ver o preço. Que assustador!

- Filhinha, talvez se procurássemos mais...

- Mas é esse que eu quero!

- Eu sei, mas...

- Mamãe, mamãe!

O Grilo Falante, dono da loja, foi ao encontro delas:

- Olá, bom dia! Como estou agradecido por encontrar tão amáveis pessoas por aqui! Não pude deixar de notar o interesse de vocês por esse esplêndido par de sapatinhos. Olhem bem o talhe. Olhem bem a cor. Que par! Que felicidade de feitio! Posso lhes pedir licença para testemunhar meu apreço pela sensibilidade de todas vocês? Quanta ternura! Quanta fineza! A sua adorável filha deve lhe proporcionar muito prazer, Mamãe Centopéia. E que dizer dessa cigarra encantadora, cuja voz é tão melíflua? Eu me sinto enobrecido ao lado de companhia tão aprazível. Aliás, hoje o dia está tão magnífico que...

- Quero os sapatinhos! - interrompeu a Centopeiazinha Dançante.

Mamãe Centopéia estava meio embaraçada. Disse enfim:

- O senhor é muito gentil. Gostaríamos de ver os sapatinhos.

- Gentil senhora, me permita dizer que sou o seu mais leal servidor. Posso ter a honra inenarrável de lhes conduzir para minha humilde loja?

Todos entraram.

O Grilo Falante foi chamar a Formiguinha Trabalhadeira, que estava ocupada com qualquer coisa:

- Ei, você aí! Tenha a fineza de atender essas amáveis pessoas.

A Formiguinha Trabalhadeira se aproximou rápido:

- Em que posso ser útil?

- Sapatinhos! - falou ansiosa a Centopeiazinha Dançante.

- Minha filha gostaria de experimentar aqueles sapatinhos da vitrine. - disse meio constrangida a Mamãe Centopéia.

- Aqui tem vestido? - perguntou a Cigarra Mágica.

- Adorável donzela, é com muito pesar que devo lhe dizer que não trabalhamos com tal produto. Temos só sapatinhos, belíssimos, belíssimos.

- Poxa, mas eu queria tanto um vestido...

- Quero também, mamãe!

- Meu Deus, crianças! - respondeu a Mamãe Centopéia.

A Formiguinha Trabalhadeira correu logo para providenciar os sapatinhos vermelhos, que estavam guardados na parte de cima da loja. Lá foi ela subir, pegar, descer, subir, pegar, descer, subir, pegar, descer, subir, pegar, descer, subir, pegar, descer... Mais uma vez, subir, pegar, descer. Quanto trabalho! Ela se cansou, mas arranjou tudo.

Enquanto a Centopeiazinha Dançante provava os sapatinhos, a Cigarra Mágica viu uns azulzinhos. Eram mais lindos ainda! Não se conteve:

- Amiguinha, olha aqueles azulzinhos. Não são mais lindos?

- Quero os azulzinhos!

E lá foi a Formiguinha Trabalhadeira buscá-los. Voltou a subir, pegar, descer, subir, pegar, descer, subir, pegar, descer... subir, pegar, descer... subir, pegar, descer... subir... pegar... descer... As pernas dela já tremiam por causa de tanto esforço. Mas lá foi mais uma vez. Subiu. Pegou. Desceu.

O Grilo Falante estava emocionado:

- Senhora, não posso deixar de testemunhar a graciosidade dessa menina. Devo confessar que esses sapatinhos azuis admiráveis realçaram ainda mais o encanto único da sua filha. É uma fonte de felicidade constante servir a pessoas tão adoráveis. Que feliz o seu apurado gosto, amável cigarra! Tão jovem, e no entanto...

- Mas eu queria um vestido. Aqui não tem mesmo?

- Conforme eu já tive oportunidade de lhe dizer, amável senhorita...

- Também quero um vestido! - não se conteve a Centopeiazinha Dançante. - Mamãe...

- Obrigada, Senhor Grilo - interrompeu a Mamãe Centopéia. - Ficaremos com os sapatinhos azuis. Quanto custam?

- Magnífico, magnífico! Tão belas pessoas só podem despertar os meus mais generosos sentimentos. Não há valor comparável à graça de o mundo presenciar...

- Mais uma vez agradecida, Senhor Grilo. Qual o preço?

- Gentil dama, gostaria de lhe informar que todos esses sapatinhos, que tão bem se ajustaram nos pés delicados dessa bela flor que é sua amável filha, custarão a ínfima quantia de...

Mamãe Centopéia não gostou muito do valor. Mas como resistir aos olhinhos tão felizes da filha? Comprou.

- Como você está bonita com esses sapatinhos, amiga! - falou a Cigarra Mágica, batendo as asinhas.

- Oba, oba! Estou tão feliz! - respondeu animada a Centopeiazinha Dançante. - Vou dançar muito com eles!

Ao saírem da loja, a Mamãe Centopéia ainda disse:

- Minhas sete irmãs iriam adorar comprar sapatinhos também. Se eu falar com elas logo, quem sabe não vêm hoje? Pode ser que tragam as filhas.

O Grilo Falante não poupou palavras amáveis à Mamãe Centopéia. Já a Formiguinha Trabalhadeira tremeu ao ouvir aquilo e até desmaiou. Pobre Formiguinha!

Tuesday, September 25, 2012

Antonio Machado

Trechos de Proverbios y cantares (em Campos de Castilla).

       VI
 
De lo que llaman los hombres
virtud, justicia y bondad,
una mitad es envidia,
y la otra no es caridad.
 
      XII 
 
¡Ojos que a la luz se abrieron
un día para, después,
ciegos tornar a la tierra,
hartos de mirar sin ver! 

       XXIV 
 
De diez cabezas, nueve
embisten y una piensa.
Nunca extrañéis que un bruto
se descuerne luchando por la idea.

           XXX 
 
«El que espera desespera»,
dice la voz popular.
¡Qué verdad tan verdadera!
La verdad es lo que es,
y sigue siendo verdad
aunque se piense al revés.

        XLIII 
 
Dices que nada se pierde,
y acaso dices verdad;
pero todo lo perdemos,
y todo nos perderá.


      XLIV
 
Todo pasa y todo queda;
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.
 
         XLVI 
 
Anoche soñé que oía
a Dios gritándome: ¡Alerta!
Luego era Dios quien dormía,
y yo gritaba: ¡Despierta! 

Tuesday, July 10, 2012

ALERJ vai homenagear Olavo de Carvalho

Eis:

Olavo de Carvalho receberá a Medalha Tiradentes, homenagem da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (11), durante a transmissão do True Outspeak, talk show semanal apresentado pelo filósofo. Com início às 20 horas, a solenidade poderá ser assistida ao vivo na seção do Mídia Sem Máscara destinada ao programa. A honraria será entregue pelo deputado estadual Flávio Bolsonaro, autor da proposta.

Sunday, April 08, 2012

Exsultet iam angelica turba caelorum

Et resurrexit!



 Exsultet iam angelica turba caelorum

Saturday, March 03, 2012

Burocrata fanfarrão

Você sabe direitinho o que é um burocrata fanfarrão? Vou dar um exemplo do tipo de coisa que se ocupa um ambicioso:


04/03/2012 - Eles entram na lista ao lado das baianas do acarajé, bate-bolas, bares tradicionais e da Festa de Iemanjá como símbolo da cidade


8h – O prefeito Eduardo Paes se encontra com grupo de vendedores de mate, limonada e biscoito de polvilho, neste domingo (04/03) na Praia do Leme, e assina decreto que os declara Patrimônio Cultural Carioca. A partir da publicação do texto, na segunda feira, os ambulantes que já se tornaram personagens das praias cariocas serão considerados bem imaterial da cidade.


Local: Praia do Leme (em frente à Praça Júlio de Noronha).

Entendeu? Um burocrata fanfarrão é um Rei Momo que se leva a sério. Por isso que alguém de espírito carnavalesco como Eduardo "Momo" Paes deve ficar que nem pinto no lixo no gabinete da Prefeitura.

Tuesday, February 21, 2012

Para o carnaval

Dizem que o nosso carnaval é exótico. Acho que existe coisa mais exótica ainda, e de melhor qualidade. Que tal música barroca?

I - Lumi, potete piangere, de Giovanni Legrenzi.



II - Piangete, afflitti lumi, de Orazio Michi dell'Arpa.



III - Io t'abbraccio, de Händel.



IV - Zefiro torna, de Monteverdi.



V - Ciaccona di Paradiso e dell'Inferno, autor anônimo. Muito boa para essa época de carnaval.



VI - Mas é carnaval! No espírito da época, nada melhor que essa parte de O burguês fidalgo! A música é de Lully.

Bocejo

Estou com raiva de mim mesma. Quero dizer, do dáimon. Ele tem me perturbado: "Escreve sobre o carnaval! Escreve, escreve, escreve!" Não consigo nem dormir.

O que você quer saber, dáimon? Vou ser sincera. Não consigo entender essa festa. Pelo menos aqui no Rio. A única diferença do carnaval para o resto do ano é o aglomerado de pessoas. As pessoas se comportam o ano inteiro mais ou menos desse jeito.

Ok, vamos enfatizar o "mais". Veja o que ocorreu semana passada no meu trabalho. Fizeram uma eleição da melhor fantasia. (A minha era de mera funcionária.) Uma das garotas resolveu se fantasiar de periguete. Ao menos foi o que entendi da roupa. Ela estava com um vestido vermelho bem justo, do tipo que se peidar rasga tudo. E tinha uma área equivalente a um lencinho. A garota calçava um par de luvas longas, vermelhas. Estava de salto alto. A novata do RH tentou se assanhar também. Foi com um shortinho preto e saltinho. Na hora lembrei de quando fui a uma festa a fantasia como odalisca. Perto delas, eu teria parecido a Viúva Perpétua. Mas conta ao meu favor eu não ter me vestido assim em ambiente de trabalho. Calhou que quem venceu foi um cara vestido de mulher. Gostei de ver as duas sendo derrotadas. Nem foi só por despeito. Refletindo na hora, pensei na palhaçada de tudo aquilo. Não me refiro à palhaçada da fantasia. Digo do problema de se esparramar vaidade. Quando alguém se veste com um lencinho, quer passar a sensação de ser uma maravilha. "Olhem para mim, vejam com sou especial!" Deixar os carinhas embasbacados é uma forma de provocar admiração. Você se torna o centro das atenções. É a mais desejada. Influenciar tanto a todos faz com que você se sinta mais viva. No caso da (fantasiada de) periguete, o negócio foi tão brabo que até uma magrinha sapatona ficou toda ouriçada. Para mim, nada daquilo tinha graça, e não só porque não sou sapatona. Tanta vaidade me aborrece. Daí que por mais que eu considere normal a reação imbecilizada dos caras (e até da magrinha sapatona), no fundo não sei como ninguém boceja diante de coisas assim.

Sono é o que sucede à bronca quando penso no carnaval. Ele me enche o saco por todas as mais óbvias razões. (Nessa época, acho mais fácil amar a Deus com todas as minhas forças e com todo o meu entendimento do que amar ao próximo mijão bêbado desbocado como a mim mesma.) Agora, o exercício abnegado de vaidade atinge um nível tal que me dá sono. No passado, todo mundo sabia que era a festa do burro. Era a época invertida. As pessoas sabiam que durante um período o ridículo tomava conta. Terminando o período, tudo voltava ao normal. Hoje não é mais assim. As pessoas levam a sério a farsa. Algumas até choram orgulhosas após sambarem por mais de uma hora. A vontade de chorar pode ser é sincera, mas não o choro. É uma baita forçação! No fundo, qualquer um (ou pelo menos a maior parte das pessoas) sabe que se exibir com um tapa-sexo por cerca de uma hora não é lá motivo de orgulho, muito menos de profunda realização pessoal. Por mais que a gente viva numa era carnavalesca (a reviravolta dos valores nada mais é que um carnaval sem fim), existe ainda algum rastro de senso da medida. Existe ainda uma diferença entre sinceridade e afetação. Uma coisa é a manifestação de alegria, outra é querer aparecer. Às vezes manifestar alegria pode parecer ridículo, mas querer aparecer sempre o é. Mas querer ser admirado no instante em que se é ridículo é a apoteose da babaquice, e não por acaso o final do Sambódromo é chamado de Praça da Apoteose. Considerando as coisas assim, pelo menos em mim cessa a bronca e advém o bocejo. É babaquice demais.

Wednesday, January 04, 2012

Militância escatológica

Estava pra lá e pra cá na Internet, quando tive a sorte de cair num site militante. Nem me refiro a partido. Digo um desses sites que servem para extrair a nossa banha das "trevas do conhecimento" (olha o linguajar teológico que não me engana). Um site de alerta. Um site de gente supimpa.

Havia uma denúncia. Era contra dirigir bêbado. Como alertavam? Com fotos. De gente. Trucidada. Entenda bem o que nem mesmo eu entendi. Fotos de pessoas que mais pareciam do avesso, com avisos como VEJA O QUE ACONTECE QUANDO SE DIRIGE EMBRIAGADO! Não, não entendi a proposta. Isso não causa revolta, mas nojo. É como se alguém esfregasse um bife sangrento na minha cara, gritando: "TOMA ESSE PEDAÇO SANGRENTO DE REALIDADE NA CARA, SUA PIMPONA ALIENADA!"

O engraçado é que gente assim assume uma postura do tipo lutei-na-frente-oriental-enquanto-você-caçava-framboesas. É um fingimento que só.

Sempre que vejo coisas desse tipo (como nos pacotes de maços de cigarro com fotos de cadáveres no necrotério), a impressão que me dá é que algum histérico babão quer escandalizar aos berros a vovó que (por supuesto) vive em meu coração. Querem me (nos) chocar. Para usar um termo dos povos da minha cidade, querem deixar a galera bolada. Veja, não entendo qual a outra razão de se colocar foto de gente do avesso nessas campanhas. Se você botar a foto de um cara com a cabeça estourada e a legenda OLHA O QUE ACONTECE QUANDO SE TROCA TIROS COM A POLÍCIA, isso vai servir mesmo para diminuir a criminalidade?

Essa histeria é meio escatológica e meio estética. Fico com a impressão que querem fazer denúncias provocando o nojo e a sensação de feiúra.

A Internet é uma desgraça. Mas bem feito para mim. Tive ócio e fui punida.

Sunday, January 01, 2012

Ano Novo

Vamos começar o ano com música. E uma que vem bem a calhar. É a cantata de Ano Novo Jesus seja louvado (BWV 41), sob a regência do maestro Nikolaus Harnoncourt. Você pode acompanhar a tradução aqui.