Wednesday, October 26, 2011

Solapando ídolos

É como digo: largue a religião e seja farofeiro.

Vou me explicar. Num áudio de não-sei-quando, o Padre Paulo Ricardo citou uma passagem da Bíblia sobre Deus dispersar os orgulhosos. Dispersar, porque o orgulho nos prende a ídolos, que nos levam a ignorar o fundamental: Deus. Se você crê nisto, boa parte dos seus problemas vira água. O problema é crer. Agora, não pense que nós católicos somos super-ultra-mega fiéis. O chicote começa a estalar no nosso lombo. A questão é que entre nós existe pelo menos alguma noção de que sem Deus a gente se dispersa todo. E se num primeiro movimento você afirmar todo feliz a cláusula pétrea da auto-suficiência, em seguida você vai se sentir dividido, subdividido, que nem no poema Boi Morto. (Por sinal, uma coisa. É impressão minha ou esse poema é muito solene?) Você vai se decompor, perdido, destroçado. A vida primeiro começa que nem pedra, depois vira paçoca. Logo, farofeiro.

Agradeço à TV Xuxa por essas reflexões. Sim, sim. Enquanto eu via o programa (não preciso me justificar; quem paga minhas contas sou eu), apareceram uns caras, er, dançando. Mas era um povinho que estava mais para lombriga levando choque no forévis. Era tanta lindeza que me lembrei do trecho de um funk ora em desuso: "surfista zona norte esbanjando anemia". Apesar de tudo, era uma competição de dança. E quem estava lá como jurado? Silvio Essinger. Que escreveu Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira. Certa vez, até cheguei a citá-lo como um dos meus escritos de formação humanística. Se bem me lembro, o Silvio parecia gostar do assunto. Anos depois, escreveu um sobre funk. Não li, mas admito que até tenho certa curiosidade. Agora, o cidadão me aparece como jurado de uma tal de "Batalha do Passinho". Daí pensei na trajetória do cara. Primeiro namora com a subversão. Termina como jurado da "Batalha do Passinho", na quadra do Salgueiro ou qualquer porcaria do tipo. Até que de repente o Silvio nunca nem curtiu punk. Certo, mas o problema não é o sujeito ser ou não vendido. Que seja. O negócio é que esse caso tosco é aplicável a outras situações. Veja o casamento. M** se acha muito boa para casar. "Não preciso, tenho nojo." Resolve ser uma pessoa legal. "Vou é curtir, e créu." O problema é a carência de M**. Ela só aumenta. No lugar de concentrar as suas atenções num só cara, ela se dispersa entre muitos, muitos. A curtição se torna uma série de experiências que só servem para levá-la à cama do primeiro drogado que lhe der atenção. Querendo o quê, de fato? M** não sabe mais. Só sabe que se sente triste, amedrontada e vazia, apesar da pose.


Em verdade, vou revelar um dado bem pessoal. Embora não tenha sido o motivo de eu virar essa católica tatibitate que escreve nesse blog, uma das coisas que notei é que a religião me ofereceu uma liberdade que eu nem imaginava. Antes eu pensava: "Religião é prisão." Depois verifiquei que é o contrário. Prisão é você se acorrentar a uma vida atomística. É aqui que está a tal dispersão. Aos poucos, sua alma é decomposta. Você chega até a esquecer quem é você mesmo. Uma das coisas bacanas da religião é ela fornecer um centro. Depois de um tempo, você começa a sentir algo objetivo que nos protege de uma dispersão excessiva. Por sua vez, esse referencial absoluto nos dá uma liberdade enorme de movimento. Existe mesmo uma conquista vital de "espaço". Se antes você vivia se debatendo, agora os seus passos têm sempre alguma direção. Mesmo quando você erra, você tem noção de que tomou alguma direção. Sem o referencial absoluto, tudo não passa de desperdício de energia ou morte camuflada. 

Voltando para a situação exposta na TV Xuxa. Não é possível que uma coisa tão libertadora e linda faça com que você se torne jurado da "Batalha do Passinho". Nem que você termine na cama de um viciado que jura não ter HIV porque no exame está carimbado um "nada consta". Ser impávido assim é qual bosta de cavalo saudável recém expelida, dura por fora e mole por dentro. Se a autonomia individual torna a gente qual bosta de cavalo, é bem melhor ser escravo...

3 comments:

trombone com vara said...

Um centro que une nossas inconstâncias e impede que nos percamos em pó de passoca. É uma bela imagem. Desde que perdi minha arrogância de ateu, tenho sentido essa liberdade de poder admitir não ter respostas e a certeza de ter um centro.

w said...

Eu ignorava essa notícia:

http://blogdomrx.blogspot.com/2011/10/amores-suicidas.html

Você já tinha visto?

Tanja Krämer said...

Sobre o suicídio? Sim, já. Chegaram até a me pedir para retirar do blog umas coisas que eu havia escrito uma vez sobre uns textos do Sergio...