Sunday, January 09, 2011

Inspiração (falta)

Eu queria escrever algo. Bem que eu queria. Juro. Inspiração, cade tu? Tanta gente invocou as Musas... Agora elas nem querem saber de mais nada não. O que me faz lembrar de uma das Elegias de Duíno. Antes, os anjos visitavam Tobias. Tudo tranqüilo. Agora, a mera presença de um deles nos aniquilaria.

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.

(Tradução: Dora Ferreira da Silva)

Ou como diz uma tia minha, sobre os tempos de Cristo: "Naquele tempo, tinha tanta confusão... era tanta gente pra lá e pra cá. Acontecia tanta coisa... Hoje em dia, não tem mais nada." Quero dizer, ela se refere a milagres. Entende? Claro que entende.

Nesse calor, penso em praia. É madrugada, mas meu coração bóia feito caquinha nas águas do Oceano. (Sabe, me dá um orgulho mongol viver às margens do oceano. Dizer que gosto do Rio por causa do mar seria presepada. Mas ele está ali (ou lá, não sei como dizer), como lembrança de que nem tudo se passa. Fora que tomar banho de rio é legal, mas um tanto jeca.)  Hoje mais cedo, até que dei uma passeadinha no Aterro. Embora eu não quisesse falar com ninguém, parece que mau humor, livro e cigarro atraem carniceiros. Às vezes, andar no Rio é pior do que (dizem) andar sozinha em Marrocos. À propos (ai, que chique, ui), determinadas cantadas parecem mais "abuso das convenções, dos artifícios e das nigromâncias mais esdrúxulas" (by João Ribeiro). Enfim. Corei, mas pelos efeitos do claro Hiperiónio (com agudo, sim, viva a tradição literária etc.). O resto mal dá para a vaidade.

Era esquisito ler Stalingrado na praia. Não sei se é o tipo de livro que se deve ler como Maquiavel, que lia os clássicos de pijama à luz de candeia. Sei lá como deveríamos ler. O que sei é que o contraste entre a minha situação na praia e o amontoado sofisticado de miséria que foi aquela batalha era estranho. Olha, ler que neguinho morria com freqüência afogado em latrina por cair exausto de fome e doença é brabo. Ou que em 1944 ainda se enterravam mortos na cidade. Ver essa foto de um soldado alemão capturado por um russo já diz muito. (Também passei a virada do ano correndo os olhos em Stalingrado. Pipocavam os fogos e eu lendo sobre a Operação Urano e coisa e tal.)

O que viria a ser "leitura de praia"? Nietzsche? P. Coelho? D. Brown, segundo uma americana conhecida de uma amiga minha? Nos idos de 2000, li O príncipe de biquíni. Na praia, claro. (Vocês modelos lêem o pequeno. Sou mais adulta.) Daquela leitura, ficou a impressão que eu tinha que maneirar na exposição ao sol. Por sinal, foi um tempo em que instintos bárbaros corriam em meu sangue. Não só lia como destruir inimigos políticos, como perambulava feito nômade. Quero dizer, perambulava não. Bicicletava. Uma das minhas leituras de praia favoritas era O complexo de Portnoy. Enchi de sal também Fahrenheit 451. Li também História Antiga e Medieval, um didático do J.J. de A. Arruda (oh, até onde ia (ou vai) minha perversidade?). Alguns anos depois, foi a vez dos Atos dos Apóstolos (tradução do J. F. de Almeida). Então eu acho que não existe bem isso de "leitura de praia". Tem é gente que curte ler, e ponto. Como não existe "leitura de viagem", "leitura de fila de banco" e tal.

Não comemorei a virada do ano, como eu disse. Isso me parece mais deslumbramento neolítico de quem acabou de descobrir a agricultura (quem leu História das crenças e idéias religiosas do M. Eliade deve saber do que estou falando). Se bem que tomei uma sidra maledicta em honra ao boitatá; concessão maligna. O máximo de alegria de ano-novo que posso ter é ouvir a cantata Jesu, nun sei gepreiset. Você pode até ler uma tradução.



Agora está tarde pra cacete. Preciso dormir. Meu espírito está kaputt. Sem contar o calor. Ainda vendem Dragão Chinês? Ah, estou kaputt, kaputt.

5 comments:

José Roldão said...

Olá, Tanja.

Acompanho as suas publicações (aliás, excelentes - parabéns) e escrevo para perguntar se você tem conta no Facebook. Como acompanho mais os blogs por ali, ficaria mais fácil. Procurei por seu nome, mas existem centenas de milhares de Tanja Krämer no Facebook (assustei-me com isso, com esse nome para mim tão diferente e, no entanto, clonado ao extremo, com ou sem trema), das mais diversas partes do mundo.

Se tiver conta lá e quiser, adicione-me: http://www.facebook.com/joseroldao

Tenho uns amigos aqui em Portugal que curtem muito os seus textos, aqueles que partilho no meu mural do Facebook. De certa forma, como nasci e vivi no Rio por muitos anos, ler os seus textos e a sua linguagem fluída, bem escrita, tornou-se um elo mnemónico.

Obrigado.

José Roldao
http://cidadesolitaria.com

Tanja Krämer said...

Oi, José! Obrigada! Espero que você e seus amigos continuem a visitar meu blog.

Na verdade, meu sobrenome é assim: KrAEmer. É que tenho mania de umlautizar tudo. Göthe. Händel. Jäger. E por aí vai. Agora, não tenho Facebook.

Érica said...

Fazia tempos que eu não passava por aqui. Feliz 2011!

Bem, sempre que passo férias na praia (sim, férias porque moro em Brasília), pergunto-me qual livro combina com "praia".
Procuro os meus autores preferidos que, por sinal, são detalhistas em suas descrições.
Foi assim que li "Anna Karenina" durante meus dias de férias na Praia dos Carneiros. Enquanto eu morria de calor, pensava em invernos rigorosos.
Recentemente, li "O coração é um caçador solitário" da McCullers, em Arraial d'Ajuda.
Enfim, não sei se você tem a mesma impressão que eu, mas o melhor de ler um bom livro na praia, na montanha ou em qualquer outro lugar onde se esteja passando dias de ócio, é que tudo aquilo - animação típica de verão, ruas lotadas, o frenesi da virada do ano, etc etc - passa a receber um valor diferenciado dado por aquele livro que levamos para todos os cantos. Apesar de selecionar o livro "de praia", você tem razão ao dizer que não existe muito isso. Afinal de contas, "Ortodoxia" vai bem na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê (segundo o lendário Kid Abelha).

p.s. desconexo: você toca algum instrumento?

Beijo

Tanja Krämer said...

Érica, oi! Feliz 2011 procê também!

Às vezes, penso que ler em tal ou tal ambiente é como ler o saltério. Lemos os salmos meio que independente do nosso estado de ânimo. Não é bem uma leitura subjetiva, entende? Da mesma forma, você pode estar numa fila enorme do banco e ler, sei lá, o Catecismo. Ou as Elegias de Duíno. O máximo que pode acontecer é você preferir ler tal ou tal coisa em tal ou tal lugar por um motivo prático. Imagina alguém lendo a Bíblia do Pe. A. de Figueiredo na praia de Ipanema, domingo, 13h.

Puxa, não toco nada! Mas quando eu era mais nova, queria aprender a tocar bateria.

Tanja Krämer said...

Ah, se bem que tem outra coisa interessante. Muitas vezes, a gente lembra de uma leitura e a associa a um lugar, época e coisa e tal. Vou dar um exemplo. Embora não seja uma leitura de livro, sempre que penso em várias cantatas do Bach me lembro de viagens de metrô! Cansei de andar de metrô lendo os poemas das cantatas. E ficava cantarolando, baixinho. E os Atos dos apóstolos? Lembro dos fins de tarde em praia de Cabo Frio. O Século do nada me lembra de um friozinho gostoso, porque li durante um inverno muito agradável.

E beijos!