Sunday, January 31, 2010

Infância

Hoje eu estava pensando em algumas diversões minhas de infância.

Desde pequena, gosto de bichos. Quando digo "bichos", não é só os nossos bichinhos fofos de estimação. Para usar um termo discoveriano, adoro a vida selvagem. O que não quer dizer que eu lá conheça muito do assunto. Mas isso sempre despertou a minha curiosidade. Quando eu era picurrucha, meus pais compravam para mim fascículos de O reino animal. Era uma coleção (acho que) da Editora Abril. Sempre tinha um deseínho do bicho, mais uma descrição sumária dele, hábitos alimentares, habitat e tal. Na introdução da revista nº1, havia até uma explicação bem sumária sobre a diferença entre vertebrados e invertebrados, teoria da evolução e coisa e tal. Foi assim que conheci bichos como o cachalote, o náutilo, o boi almiscarado e os lêmingues super-fofos. Depois lançaram outra coleção, Animais em extinção. Essa não era tããão legal.

Talvez você possa ter pensado assim: "Ah, ela devia gostar de biologia." Mas sabe que nem tanto? Eu era até uma boa aluna de biologia (exceto no 3ºano). Porém não me lembro de ter estudado com prazer uma única vez. Pelo contrário! Se não me engano, a primeira vez que percebi como o conteúdo escolar é maluco foi por causa da coitada da biologia! O problema nem era tanto a decoreba. Era o conteúdo a ser decorado. Dava nos nervos saber que o nosso futuro dependia da lembrança do nome dos tecidos das águas-vivas. Ou como minhocas se reproduzem. Eu só era boa aluna porque ela moleza.

É impressionante como conseguem transformar num saco medonho uma coisa tão interessante como biologia. Claro que o problema é mais amplo. Se o pessoal do MEC levasse o Hegel a sério, eles saberiam que há uma necessidade de o saber ser sistêmico. Não dá para você ensinar como se estivesse jogando resto de comida para uns vira-latas coitadinhos. Sem contar outras duas coisas. Uma é a justificação do que é ensinado. Da mesma forma que a necessidade de um imposto deve ser clara (a princípio) a um cidadão, a razão de se ministrar tal ou tal matéria também deveria ser clara (a princípio). Nada desse negócio de "porque é". Deveria ser clara para todo mundo até a estruturação do ensino como um todo. A outra coisa é a básica. Só deveria estudar algo mais avançado quem quer. Do contrário, o ensino vira mais um monstro burocrático. Veja o fogo no traseiro que é essa história de certificados. A pessoa faz um curso porque gosta. Ao mesmo tempo, ela sente a necessidade de provar à burocracia que fez o danado do curso. Isso é de matar. 

Eu também tinha interesse pela Bíblia. Taí uma coisa que nunca entendi bem. Quando cresci mais um pouquinho, o interesse sumiu. Nem queria saber de mais nada. Mas ter folheado-a quando pequena imprimiu uma forte impressão em mim. Pode parecer estranho, mas o Apocalipse era o livro que eu mais gostava! (Os outros eu conhecia muito pouco. Isso quando tinha chegado a folhear algum deles.) Anjos abrindo selos, rios se tornando sangue, os Quatro Cavaleiros, a Mulher e o Dragão, a Nova Jerusalém... Essas coisas todas me desconcertavam! O engraçado é que não me lembro de ter pedido que me explicassem aquelas coisas. Só ficava pensando em como devia ser assustador uma estrela cair nas águas e transformar a terça parte em absinto. Ou aquele negócio da marca da besta. Li com menos empolgação os primeiros capítulos de Gênesis (a criação e a queda). A tradução era do Pe. Antônio de Figueiredo. A edição tinha várias imagens de quadros com temas bíblicos. Caramba, eu adorava vê-los! Alguns ficaram na minha cabeça. Rembrandt (Lamentações de Jeremias, Sansão cegado, Cabeça de Cristo), Carl Bloch (Sansão move as rodas de uma azenha), Bosch (Coroação de espinhos), mais Giotto (Jesus abençoando no Trono) e Rubens (Anunciação e aquele do Daniel na cova dos leões).

Ninguém chegou para mim e disse: "Toma esse livro aí." Peguei porque estava ao meu alcance. Quero dizer, não só isso. Um livrão daquele, cheio de imagens legais, era bem convidativo... Não me lembro de meus pais me empurrarem muitos livros. Eles me davam de acordo com meu interesse. Só quem me empurrava livros era a escola. Quase sempre desagradáveis. Como deve ter acontecido com você.

O único livro que meus pais me empurraram foi um chamado Mamãe, como eu nasci?. Isso quando eu tinha uns 10 anos. Se eu tinha manifestado desejo de saber como nasci, nem faço idéia. Só sei que um belo dia eu estava folheando esse livrinho. Ele tinha vários desenhos. Era muito engraçada a parte em que o menino e a menina se, hm, examinavam (não juntos, é bom explicar). Havia um desenho de um rapaz com cara de bobo na banheira, segurando o próprio pinto. Na outra página, a moça se examinava com um espelhinho. Era engraçada também a parte em que um espermatozóide piscava (ele tinha uma carinha) para um óvulo (que não lembro se tinha carinha). Não sei se foi por causa desse livro que acabei arrumando o Relatório Hite, dois anos mais tarde. Não deixa de ser doido eu ter saído do Apocalipse para acabar em relatórios sobre sexualidade.

Wednesday, January 20, 2010

Homenagem aos pinguços

Já que mencionei bebida no post anterior...



Não exagerem! Se ficarem cheios de fogo achando que esse tipo de coisa é "sostegno e gloria d'umanità", Il Commendatore vai cear com vocês...

Sunday, January 17, 2010

Apanhado de notícias brasileiras

Quer ter uma idéia de como é o Brasil a partir da imprensa?

Segundo reportagem de 2004, "40% dos brasileiros não escovam os dentes". Eca, eca, eca. População porquinha, hein? Não sei quanto a você, mas sempre escovo os meus. Agora, o pessoal está mais preocupado é com celular: "Segundo o IBGE, entre 2005 e 2008, o número de usuários pulou de 36,6% para 53,8%. O valor corresponde a 86 milhões de pessoas." Imagina que beleza não deve ser pegar emprestado o celular de quem não escova os dentes. Eca, eca, eca.

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Uma informação (no mínino) curiosa: "80% do orçamento das Forças Armadas custeia folha de pagamento, diz pesquisa". Forças Armadas = órgão estatal = cabide de emprego. Mas ainda há um elemento bizarro na razão dos pagamento: “'Oitenta por cento do orçamento do Brasil ao longo do período estudado foi para pagamento de folha e desses 80%, 63% para pensionistas e inativos das Forças Armadas', revela o pesquisador" (negritos meus). O que isso significa? Montamos uma máquina militar cujo objetivo primário é proporcionar o maior bem-bom para os clientes dela. Isso sem precisar dar um único tiro. É o poder estatal a serviço do ócio.

Falando em ócio, uma passagem do livro (que todo mundo tinha que ler) O espírito das revoluções, do Meira Penna :

Reparei certa vez em Salvador que, num dia da semana, se pinhavam nas praias multidões de homens ociosos, como se nada tivessem a fazer, senão gozar das delícias estupendas da música, do sol e do mar. "A Bahia é boa terra, é o único lugar do Brasil", explicou-me uma amiga baiana, "onde os brancos trabalham para os pretos..." Cada um dispõe daquilo que deseja ou daquilo que merece, se assim determina a Dama Fortuna. Quem somente aprecia a praia, o carnaval e o jogo do bicho terá sempre praia, carnaval e jogo do bicho à disposição. Mas provavelmente morará em favela, a não ser que, por excepcional acaso, faça a quina da loto ou venda cocaína sem ser preso... (p.290)

Tal Salvador, tal Rio. Vou aproveitar para contar mais algumas coisas do gênero. Dia desses, fui parada por um carinha na entrada do banco. Carinha? Ele devia ter uns 1,85m. Era fortinho. Usava boné, camisa sem manga e bermudão. Típico uniforme de gente ociosa. Estava sentado próximo da entrada do banco. Ele: "Dona, a senhora pode me dar uma ajuda?" E estendeu a mão. Isso às 15h. Vai ver tenho cara de tia de malandro! Não sei se isso foi pior do que a vez em que um cara de rua cismou de me seguir. Apertei o passo. Ele idem. Parei e perguntei o que ele queria. Ele: "Aí, dona... Tô ali com uns parceiros na esquina, sabe? A gente tá querendo comprar uma cachacinha, mas tá sem dinheiro. Eu podia tá mentindo, dizendo que quero arrumar dinheiro pra comida, né? Tem como você dar uma força pra gente não?" Ou o dia em que vejo um monte de moleque soltando pipa num viaduto no meio da semana, por volta das 14h. Ou quando vejo uns adultos às 15h numa praça abandonada no Centro brincando de skate, no meio de semana. Ou quando vejo ao meio-dia uns caras enormes jogando bola também numa praça do Centro...

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Uma vez contei quantos botecos havia numa rua. Três botecos a duzentos passos. Se eu incluísse alguns outros próximos, aí seriam no mínimo seis botecos a quinhentos passos. Todos tinham fregueses.

É pé-sujo demais. Mas os donos do bar estão apenas satisfazendo a imensa demanda: "Um levantamento realizado pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo constatou que cerca de 15% da população brasileira é alcoólatra."

Não sei o que querem dizer com alcoólatra. Nem sei que história é essa de "constatou". Mas a experiência diz mesmo que não falta pinguço por aí. Quero dizer, pinguços e ociosos. Quanto aos que não escovam os dentes, espero nunca me encontrar com eles. Eca, eca, eca.

Haiti

Não tenho acompanhado o que vem sendo dito sobre a catástrofe no Haiti. Na verdade, nunca acompanhei nada sobre a presença brasileira no Haiti. Pode ser então que eu diga uma coisa que já disseram antes. O pior é que nem duvido que algum PSTU da vida já tenha dito o que vou dizer. Mas o que é que tenho a dizer? Simples. Macaco, olha o seu rabo.

O que mais a gente escuta é que os EUA só se meteram no Iraque por motivos escusos. Que mané achar as WMDs o quê! Que mané dar um pé na bunda de um ditador sangüinário o quê! Eles queriam... petróleo. Só isso. Petróleo. Sacrificaram não sei quantos milhares de pessoas por um desejo imperialista. Até me lembro de uma professora falar assim na aula: "Olha, é muito triste começar o dia sabendo de uma coisa dessas." Claro. Que coisa mais dolorosa se lamentar pelos coitados dos iraquianos numa sala de aula, de cabelo todo penteadinho, maquiagem ok, e depois gastar R$10 no almoço a quilo. Olha que essa dor toda ainda lhe renderia no fim do mês mais de R$3 mil na conta do banco. Não é de cortar o coração?

Os EUA são os príncipes da escrotice mundial. E o Brasil? Ah, nossa pátria é pacífica! Queremos só ajudar os pobres do mundo. Lembram do pessoal do Timor Leste? Então. Fomos lá salvá-los, por pura caridade. Depois nos metemos no Haiti. Não houve nem discussão pública séria a respeito. Como nunca houve sobre o Timor Leste. Sempre foi ponto pacífico. Se o governo tinha decidido ajudar o pessoal *oprimido* lá na casa do chapéu, não havia o que discutir. Ainda mais com a total aprovação da ONU. Nossa ajuda sempre foi humanitária (antes diriam "filantrópica"). Ponto. Nem o Timor nem o Haiti tinham quaisquer recursos a nos oferecer. Gastamos milhões de dólares para enviar engenheiros e soldados treinados para vacinar e dar comida pela mais pura caridade. Somos tão gentis com os haitianos que até oferecemos um espetáculo futebolístico. Tudo a troco de nada!

Com tanta boa vontade, só gente perversa teria a coragem de duvidar da filantropia brasileira. Acontece que não sou lá muito boazinha. Só uma pessoa selvagem (que nem eu) poderia pensar que esse papo de dar as mãos aos nossos irmãos haitianos é uma hipocrisia incrível. Logo diante de uma desgraça tão horrenda como esse terremoto, só uma criatura muito malvada (que nem eu) poderia lembrar da vez em que o Brasil deu as mãos para o governo genocida sudanês (também nosso irmão?) em plena ONU. Ou dos constantes elogios ao governo genocida de Cuba. Ou da vez em que nosso presidente disse que há um "excesso de democracia na Venezuela". Ou da nossa enorme simpatia pelo governo iraniano, cujo presidente quer matar judeus e já vive matando quem seja considerado inimigo da revolução islâmica. Só um monstro sem noção (que nem eu) poderia lembrar que aqui no Brasil há 50 mil homicídios por ano, embora o governo se preocupe mais em como resgatar as vítimas de um terromoto caribenho que talvez tenha matado entre 50 mil e 100 mil pessoas. Só alguém muito sacana (que nem eu) diria que é meio ridículo empreendermos esforços para construir uma hidrelétrica para Porto Príncipe, enquanto nosso próprio país vira e mexe é afetado por algum distúrbio energético. Enfim. Tanta boa vontade é para o Brasil botar a gigantesca busanfa numa cadeirinha permanente da ONU*. Só gente bem maligna (que nem eu) para criticar o Brasil, logo num momento em que o Haiti precisa tanto da nossa ajuda.

Ah, ajuda... Como não ando nada informada, não sei se já escreveram sobre os frutos da nossa intervenção no Haiti. Nem sei se alguém já a comparou com a intervenção dos EUA no Iraque. Quando uma bomba explode em Bagdá, sempre ouço: "Olha só como desestabilizaram o Iraque." Um professor mesmo já me disse algo assim. E o Haiti? É verdade que não entramos em guerra contra eles nem nada. Mas até que ponto nossa ajuda tem sido útil de verdade? Ou será que nem aqueles casos médicos em que dizem "o estado é grave, mas estável"?

Como chamar alguém que é todo indulgente para com os próprios atos, ao mesmo tempo que só atribui intenções diabólicas a quem pratica ações semelhantes às dele? Qual o nível de consciência de uma pessoa dessas? Macaco, olha o seu rabo.

*Não entendo os ganhos imediatos disso para nós. Até entendo a hipótese de os EUA tomarem o Iraque por causa do petróleo. O raciocínio é meio bizarro, mas consigo entendê-lo. Pelo menos os ganhos imediatos não são difíceis de se imaginar. Agora, e no nosso caso?

Update: Como não foi difícil de imaginar, já tinham falado coisa parecida antes de mim. E tornaram a falar.

Friday, January 15, 2010

Músicas

Agora, não tenho tempo para nada. Quero dizer, até tenho. Dá para ouvir música enquanto me arrumo antes de sair. Ouça também!



Si dolce è il tormento é uma daquelas músicas que a gente ouve com a mão no rosto e diz no final: "Aaahhhh..." Sem contar que é bem gostosinha de cantar/recitar.



E tem essa versão do Jaroussky. É tão legal ver um conjunto desses... Essa versão tem tudo para fazer muito sucesso hoje em dia. Podiam até colocar como trilha de algum filme, série ou sei lá o quê. Seria engraçado o pessoal ver o vídeo, depois de tê-la ouvido na rádio, soltando um: "Céus! É um cara!"

Wednesday, January 13, 2010

Notícia (III)

Ainda na série "A obsessão de Tanja pelo ressentimento, essa notícia me chamou muito a atenção: "Hong Kong: Ataque com ácido faz 30 feridos". Já é "o sexto ataque com ácido registado desde o final de 2008, a maior parte dos quais foi cometida em bairros comerciais."

Taí um ótimo exemplo de crime que pode ter sido motivado pelo ressentimento. Mas é melhor deixar o sr. Max Scheler falar:

Somente em certos subtipos de crime, caracterizados como puros crimes de maldade, onde os criminosos não retiram nenhuma vantagem particular de seus negócios, apenas infringindo penas aos outros, somente nestes casos o ressentimento se encosta como rasgo fundamental da constituição da alma criminosa. O incendiário pode vigorar aqui como o mais puro destes tipos; mas isto somente enquanto ele não for determinado no modo de sua lida através do caso raro do impulso psicológico dos piromaníacos, ou por algum motivo ganancioso, a fim de arrecadar uma certa soma de seguro. Este tipo tem uma circunscrição notavelmente sólida. Na maioria das vezes quieto, lacônico e tímido por essência, sério e inimigo de todo desvario alcoólico, ou de qualquer outro que o valha, seu ato criminoso é quase sempre a explosão repentina de anos a fio de impulsos de vingança ou inveja reprimidos (assim, por exemplo, quando a bela e grandiosa fazenda do vizinho, vislumbrada continuamente, desempenha uma pressão ininterrupta sobre seu sentimento próprio). Determinadas formas de expressão criminosas, recentemente em crescimento, também pertencem a este tipo. Deste modo, por exemplo, o caso do crime do automóvel, executado no ano de 1912 em Berlim, quando um cabo bem tenso e rígido foi estendido na escuridão da noite entre duas árvores, por sobre a rua, tendo como conseqüência necessária a decepação dos que primeiro passassemm sentados em um automóvel qualquer. A indeterminação das vítimas, que aqui são caracterizadas apenas como quaisquer "passageiros de automóvel", bem como a falta de um motivo que trouxesse proveito próprio, dão aqui a estes casos o caráter típico do ressentimento. No caso do insulto degradante, o ressentimento também desempenha freqüentemente um papel em nada diminuto. (Da reviravolta dos valores, pp.70-71)

Notícia (II)

Por falar em pensamento mágico:

"O estudo permitiu simular com sucesso a rápida perda de calor nesse período de fez dias, o que ajudará no desenvolvimento de modelos climáticos utilizados para prever a evolução futura do clima da Antártida", explicou o investigador da BAS e autor do estudo, John Turner. (negritos meus)

Atenção aos termos. "Simular". "Desenvolvimento de modelos". "Prever a evolução futura".

Veja só que coisa mais espantosa. O investigador utiliza aproximações (matemáticas) para criar modelos a fim deduzir o que ocorrerá na realidade. A partir de um esquema abstrato, o cara quer demonstrar (todo pimpão) o que haverá na realidade de modo necessário. Se você até agora não entendeu o que isso quer dizer, não tem problema. Explico. É macumba de alto orçamento.

O que pode ser mais legal? Alguém querer prever uma necessidade natural a partir de um método aproximativo e abstrato ou isso ser considerado científico? As duas opções podem ser escolhidas.

Pô, isso é como aprender artes marciais e anatomia jogando Mortal Kombat 2.

Notícia (I)

Ah, as cagadas socialistas (perdão; proezas socialistas): "'O racionamento é em nível nacional e vai durar quatro horas a cada 48 horas', disse Javier Alvarado, presidente da Electricidad de Caracas, que foi nacionalizada em 2007 e antes pertencia à empresa norte-americana AES."

Veja. Nenhum gringo precisou enviar um porta-aviões para devastar a Venezuela. O próprio Chávez tem se encarregado do trabalho sujo. Deve ser agente da CIA.

Pior que ainda recorrem à macumba tecnológica: "No mês passado, Venezuela recrutou ajuda cubana para 'bombardear' as nuvens com químicos, numa tentativa de provocar chuva artificialmente sobre o maior reservatório do país e a principal fonte de energia, a represa Guri."

Se Cuba também é o paraíso na Terra, então São Pedro de repente dá uma forcinha.

Agora, nessa história toda há ainda duas boas lições. Como você já deve ter percebido, tenho andado obcecada com o fenômeno do ressentimento. As manifestações do Chávez são sempre típicas. Ele já arrumou dois culpados. Um foi o "
fenômeno meteorológico El Niño". O outro foi "o governo anterior", que "fez erros críticos ao construir a maior parte da infraestrutura energética do país sobre um rio que é afetado pela chuva." Um baita complô cósmico-social contra H. Chávez. Do cosmos, ele se vira com a macumba tecnológica. Dos inimigos sociais, ele se defende com a doutrina científica marxista, mais a bondade original dele mesmo. Dizer que a Venezuela tem sido governada por alguém que acredita mesmo em poder mágico não é loucura nenhuma. Se Honduras está atrasada do ponto de vista político cerca de 45 anos em relação a nós, a Venezuela está no mínimo 500 anos (considerando que aqui na América só havia civilização cosmológica). A outra lição é uma obviedade dita pelo Olavo. Numa aula há anos, ele disse assim: "Se você fizer uma revolução, você vai imediatamente voltar à idade da pedra! Você sabe o que é uma revolução? É retornar ao mesmo lugar. Olha o caso da Rússia. Os caras quiseram fazer uma revolução para avançar a sociedade e... retornaram ao canibalismo!" Estou citando de cabeça. Mas a lição é boa. A Venezuela já está começa a se embananar toda com a vida moderna. Eletricidade... Pra quê? Mas aí já estou voltando ao tema do ressentimento...

Tuesday, January 12, 2010

Ressentimento

Um dia, tive uma conversa com um carinha esquisito. Ele ficava falando da maldade do Brasil. Que já tinha visto tanta coisa, que era impossível deixar de ser cínico e tal. Ele falava como se fosse o maior gostosão. Parecia até que tinha lutado feito um herói ao lado do Constantino XI na defesa de Constantinopla. O engraçado era o tipo de história dele. Sempre uma bizarrice sangüinária, envolvendo fazendeiros, jagunços, meninas-moças, *O Prefeito* (entidade maligna que atuava como deus ex machina)... O carinha era um Marquês de Sade caipira. Perguntei de onde ele era. Quindim de São Brás do Sul. Ou algo assim. (Como há cidades chamadas não-sei-o-quê-do SUL! Parece que o pessoal sempre está fundando cidades mais para baixo, sei lá.) Saquei logo que era tudo para me impressionar. Me reservei o direito de sacaneá-lo. Ele me considerou uma imatura, "afastada da realidade sórdida do interior do Brasil" (palavras dele). Claro. Só vendo o ET de Varginha é que alguém adquire maturidade. O mais legal é que ele tinha só 19 anos.

Fingir ter altas experiências de vida que justificam um "cinismo estóico" é alta jequice. Não dá. É como ver um gordinho feioso ultra chato (Internet dumb ass) clamar assanhadinho contra a moralidade hipócrita da Igreja. Quando você olha a forma do cara, passa a entender tudo. Soa menos loser se dizer um cara descolado em luta contra a religião hipócrita. Melhor do que se dizer ressentido contra a balança, a carestia da cirurgia plástica e as pessoas que não deram bola para ele.

A revolução mundial dos poderosos mocinhos de carinha rosa* sempre me chamou a atenção. Veja como é curiosa a relação deles com aquilo que dizem desprezar. É sempre uma combinação de ambição com impotência. Os mesmos caras que afetam desprezo em relação a algo esperneiam ao imaginar esse algo por perto! Afetação sempre tendo em vista um público. Não é um acaso (ou contradição inexplicável) manifestações de fricote disfarçadas de heroísmo machudo. A própria escala de valor dada às coisas está subordinada a essa relação complexa. Vou tentar dar um exemplo. Eis um cara metido que se inquieta ao ver uma barata. Uma pessoa qualquer diria assim: "Ele dá fricote porque é meio molenga." O metido não pode aceitar um juízo desses! Ele fica angustiado com a própria impotência. Só que é preciso salvar as aparências. O juízo daquela pessoa é tido como opinião tola. Homem dar fricotes se torna um ato de macheza. Na verdade, um ato de profunda indignação moral (contra a barata). Não interessa o número de argumentos que sustentem essa opinião. O que importa é a reviravolta valorativa do ressentido. Quanto mais ressentido, mais afetado. É uma situação que causa um desconforto perpétuo. Agora, um dos problemas fundamentais não é tanto o objeto em si. É a própria "essência" de quem o detém. Isso é uma escada para o ódio contra uma pessoa (ou um grupo). Você passa a odiar alguém por ela ser quem é. O ressentido está sempre revoltado por causa dessa impotência fundamental.

*Eles podem se disfarçar com uma barba por fazer. Podem brincar também de sou-mongol-e-quero-chocar-as-pessoas-de-bem (ou só mongol mesmo).

Friday, January 08, 2010

Bóris Casoy

A essa altura do campeonato, todo mundo já deve estar cansado de ouvir alguma coisa sobre a história do Bóris Casoy e os garis. Espero não encher ainda mais o saco. Mas eu gostaria de dizer o seguinte. O B. Casoy se tornou o bode expiatório do momento. Nada mais natural que alguém ser pego para Judas no Brasil.

Aqui existe uma sensação esmagadora de desconforto. Tudo por causa de um enorme ressentimento. As pessoas se sentem muito incomodadas. Só que ninguém sabe muito bem por quê. É como se houvesse uma injustiça afetando a todos, que demanda reparação imediata. O que torna a injustiça absurda é que ninguém sabe direito quem é o responsável. Como falta compreensão, não há limites para a extensão. A raiva é difusa. É a coisa mais fácil do mundo arrumar *o* vilão do momento, nem que seja um grupo. Quando alguma coisa excita o ressentimento, as pessoas ficam mesmo alteradas. Todo mundo se torna histérico. Contra o vilão do momento (ele se torna a encarnação do mal), tudo é permitido.

Eu poderia passar uma década dando exemplos. Só nos últimos tempos, houve histeria por causa da tal da loira do Uniban, da piada do Gentili, do que o B. Casoy falou... Acontece que tanta comoção é sempre fingida. Os fatos por si não justificam tanta histeria. De maneira nenhuma! Os clamores por reparação são sempre desproporcionais. Demais. São produto da demência. Olha que não escolhi o termo por acaso! Embora as pessoas sejam histéricas, elas se esforçam para manter uma postura racional. O único tipo de gente que fala com toda a calma do mundo uma absurdidade atroz é o demente. Isso significa que ser justo no Brasil é se esforçar bem para ser lelé da cuca.

As reações das pessoas acabam se tornando mais interessantes do que os próprios fatos. A violência se reflete mais entre os acusadores que entre os acusados.