Wednesday, May 12, 2010

Operação Barbarossa

Crise na Grécia. Pedofilia na Igreja. Primeiro-Ministro conservador na Inglaterra. Vulcão na Islândia. Eleições no Brasil. Copa na África. Questões atuais. Questões impostantes. Agora, o que vem me incomodando mesmo é o seguinte. Nunca ouvi falar de uma latinização do apelido "Barbarossa" do Frederico de Hohenstaufen (Quico da Alemanha, aos íntimos). Nem é que eu tenha certeza de que jamais o latinizaram. Só sei que nunca ouvi. Será que ninguém latinizava apelidos? E quanto aos vários "Magnos"? Se bem que também não conheço epítetos latinizados para o Afonso o Sábio, nem para aquele rei (que agora me esqueci o nome) conhecido como "o Gotoso"... Nome-nome mesmo era latinizado. Um exemplo famoso? O astrônomo John of Holywood. Nomezinho vulgar. Aos mais chiques, Johannes de Sacrobosco. (Quer ser erudito esnobe? Diga comigo: "Desprezo a produção cinematográfica sacroboscense.)

Andei pensando numa solução erudita bem chique. Um exemplo histórico foi a minha inspiração. Como todo mundo sabe, o epíteto Aenobarbo se referia à família dos Domícios. Um dos membros mais famosos dessa família foi o Nero. Este nome não era o de nascimento dele. Ele nasceu Lúcio Domício Aenobarbo. Bem antes do imperador maluco, houve uma cacetada de (Lúcios/Cneus) Domícios Aenobarbos ocupando altos cargos em Roma. Vou dar só um exemplo. Depois que o Emílio Paulo deu uma cacetada no Perseu, uma das pessoas enviadas pelo Senado para ajudar na administração da Macedônia foi (Cneu) Domício Aenobarbo. Tempos depois, ele se tornaria cônsul. (O pai e o filho dele também foram cônsules, cada um em épocas distintas. Legal é que todos os três tinham o mesmo nome. Parece até com o caso que deu na tv outro dia. A mãe batizou as nove filhas com o mesmo nome e sobrenome! Isso seria demais até para os romanos.) Agora que já apresentei a família dos Domícios, vamos ao que interessa. Aenobarbo é uma palavra composta, aeno+barbo. O significado do segundo termo é bem óbvio, não? O primeiro ("aenus") significa "de bronze" ou "de cobre". Aqui, o termo se refere à cor da barba. Então encontramos uma solução ma-ra-vi-lho-sa. Apresento a você Fredericus Aenobarbus.

A solução é divertida (pelo menos para o meu senso de humor). Mas pode ser que exista uma solução mais simples. Será? Vamos ver. "Ruivo" é termo de origem latina. Vem de "rubens". No sentido literal, significa "vermelho". (No figurado, pode ser "estar envergonhado"). Então Barba-Ruiva já é uma palavra bem latina. Vamos adotar o critério de colocar o adjetivo na frente do substantivo. Ficaria... Rubeobarbus? Eita! Eca! Abrenúncio! Tarrenego! Ô troço mais feio. Sem contar um grave problema. E se a barba do Frederico tiver sido ruivo-alaranjada? Ficaria esquisito manter o "rubeo". A não ser que você entenda no mesmo sentido de "aeno". Mas nesse caso, porque não substitui-lo de uma vez?

Aenobarbo soa melhor que Rubeobarbus. Fora a conotação clássico-esnobe. É chique ter um parentesco ancestral com uma família tradicional romana. Mesmo que seja só por causa de um apelido. Se bem que a origem daquela família era caidinha. pra chuchu. Só que o pai do Lex Luthor (era Luthor pai aenobarbo?) ensinou para gente que crescer na vida implica dissimular o passado tenebroso. Não que os Domícios negassem o passado plebeu. Mas e aquele papo de os próprios Castor e Pólux terem tocado e modificado a cor da barbinha de um Domício? Claro que dava um tchan à família. Ainda mais porque aquilo estava ligado a acontecimentos importantes na história de Roma. Só o que tem valor nos pertence. Agora, tudo degringolou de vez com o Nero. E se qualquer coisa que se aproxima daquele cara não pega bem, vamos ser obrigados a descartar o Aenobarbo.

Sabe de uma coisa? Desisto. Certos estavam os medievais. O negócio é "Barbarrossa" mesmo. Chega de encheção de saco.

6 comments:

Bdelykleon said...

Tanja,
Acredite ou não, Fredericus Aenobarbus é o nome latino do nosso Barbarruiva (Barbarroxa é um pirata turco do século XVI).

Olha aqui
http://tinyurl.com/352d8rm

E traduz-se Frederico Barbarruiva, imperador que se lnaçou a uma expedição a Jerusalem, quando certa vez já tinha tomado uns castelos da Armênia, morreu ao cruzar um rio.

Tanja K said...

Maravilha! A gente nunca deve subestimar ninguém! :-)

E Hohenstaufen? Já foi latinizado?

Nicolau said...

Olha que curioso. Eu cheguei a conhecer um senhor que morreu em Teresópolis no começo dos anos 90, tio-avô de um grande amigo meu. Ele era alemão e se chamava Erwin. O sujeito, que tinha uma história de vida maravilhosa, havia se formado em música em Viena na década de 20 (veio para Brasil para fugir do nazismo).

Nesse diploma de graduação, seu nome estava escrito...ERVINUS. Não me lembro se o sobrenome, Janowitzer, também tinha sido latinizado.

Mas veja que ainda no século XX em grupos mais tradicionais, ainda se latinizavam os nomes para efeitos de determinados documentos. Fantástico, não?

Abraços

Bdelykleon said...

Se não me engano, a latinização de Hohenstaufen é "staufi, -orum", no plural mesmo (sem graça né?).

DD said...

Tanja:

Holly não é holy: não quer dizer "sagrado", a não ser que estejamos diante de uma grafia antiga da palavra. Holly é um tipo de planta, conhecido como ílex ou azevinho. "Sacrobosco" é um latinismo forjado numa tradução errônea.

A melhor tradução para Hollywood, portanto, é "azevedo". Se tiver algum amigo com esse sobrenome e quiser anglicizá-lo, pode fazer isso. Mas você vai ter que explicar tudo, hehehehe.

Tanja said...

Oi, Dee Dee Ramone! :-)

Você tem toda a razão. Eu é que errei a grafia! O nome do Sacrobosco é Holywood. Já vou consertar. Mea maxima culpa. A piada sobre Hollywood vai perder a graça agora. :-)

Valeu pelo toque!