Saturday, May 15, 2010

Masculino e feminino

Concordo com cada letra desse texto. (Só nunca tive atração por homem tímido e tal.)

Na ficção, uma das criaturas mais representativas da nossa época é a figura (a-bo-mi-ná-vel) do cozinheiro romântico. Bonito, temperamental, impulsivo, bem de vida, sofisticado, meio trintão, meio solteirão. Tempos atrás, essas qualidades eram indícios de bichice*. Hoje, são atributos de um homem cobiçável. Em alguns filmes, o cara é até rival de uma chefe (que vai ser a futura namorada dele). Pô! Raciocina comigo. Onde já se viu uma mulher se sentir atraída por um cara que se coloca na posição de *rival* dela? Isto non ecziste. Só as perturbadas é que sentiriam atração!**

Depois de assistir a três filmes desse tipo, dá vontade de virar sapata.

É nosso dever feminino e nossa salvação (re)ensinar macheza aos homens. É isso aí. Não é que vamos ser a partir de agora exemplos de macheza para eles. O negócio é a gente dar indicações na prática de como eles devem agir. Digo "indicações na prática" por causa das palavras do Ortega em Estudios sobre el amor:

El ideal, el diseño exaltado que del hombre tiene la mujer, actúa como un aparato de selección sobre la muchedumbre de los varones y destaca los que con él coinciden. He aquí precisamente la marcha de la historia, que es, de buena parte, la historia de los ideales masculinos inventados por la mujer. Así las damas de Provenza decidieron que el hombre debía ser prou e courtois. ¡Proeza y cortesía! Crearon el ideal del "caballero" que, si bien decaído e malparado, sigue aún informando la sociedad europea. (p.15)

Diríase que hay dentro del alma feminina un imaginario perfil, eo cual aplica sobre cada hombre que se aproxima. Y yo creo que es así: toda mujer lleva en su intimidad preformada una figura de varón, sólo que ella no suelle saber que lo lleva. El fuerte de la mujer no es saber sino sentir. Saber las cosas es tener sus conceptos y definiciones, y esto es obra del varón. La mujer no sabe, no se ha definido ese modelo de masculinidad, pero los entusiasmos y repulsas que siente en el trato de los hombres equivalen para ella al descubrimiento práctico de esa carga ideal que insospechada traía en su corazón. (p.21)

Dizem que repudiar a natureza é provocá-la à toa. Veja o caso dessas músicas no estilo um-tapinha-não-dói. Depois de tanto neguinho falar de tratar mulher com delicadeza e tal, agora ouvimos esse tipo de coisa (e outras bem piores). São uma ode pública à safadeza? Sim. Mas veja só um detalhe. Não deixam de ser também um baita de um pedido tosco para que o homem seja homem. Quando uma dessas piriguetes berra que homem tem que ter pegada/disposição, ela quer dizer o seguinte: "Se é para sair com alguém sensível, já tenho minhas amigas." Claro que ninguém (que seja normal) deseja namorar um búlgaro feroz não-cristianizado. Mas também ninguém quer um man without balls, para usar uma expressão de um amigo meu. O cara-legal-que-tem pegada é o equivalente dos tempos bárbaros ao proudhomme da Provença. A (óbvia) diferença é que a piriguete está bem longe de ser uma "mujer exigente, que no se contenta con la vulgar manufatura varonil, que exige raras calidades en el hombre" (p.22). Ela não exerce "el oficio peculiar de mujer", "su genuina colaboración en la historia."


As figuras do cozinheiro romântico e da piriguete demonstram que estamos bem longe de viver numa época de cultura feminina genuína***.


*Ou pode ser que o Seinfeld tenha me causado uma profunda impressão. Os fãs devem lembrar do episódio em que o Kramer desconfia da macheza do Seinfeld. Argumento principal: "Você é solteiro, bem-sucedido, continua magro depois dos trinta..."

**Atenção, atenção. Meninos e meninas não rivalizam. Onde houver rivalidade para valer, vamos ter homem sendo biba e mulher sendo jacaré.

***Um trecho do livro Da reviravolta dos valores, do M. Scheler:

Como a 'pudiquice' simula o valor incomensurável da vergonha legítima através do ressentimento, inversamente a vergonha legítima assim também é depreciada através do ressentimento, e isto tão mais intensamente em um corpo social onde o juízo da puta se torna função representativa da 'moral vigente'. A tipologia da puta difama a vergonha legítima da mulher verdadeira - que não é mesmo bela apenas na expressão, mas que envolve o belo secretamente, de modo consciente, enquanto algo valorativamente positivo - tomando-a como mero 'temor' por entregar sorrateiramente defeitos no corpo e na toilette. O que ela mesma possui enquanto disposição natural pouco preparada ou artificialmente reformada, vem a ser para o ressentimento um mero 'dado da educação e do hábito'. É interessante ver como esse ressentimento das putas do final do séc. XVIII, especialmente na França, não determinada apenas o juízo universal da opinião dominante, senão também inspira as teorias dos moralistas e filósofos."

O que isso tem a ver com "cultura feminina"? Tudo! Só é possível haver tantas piriguetes onde a "tipologia da puta" for vigente. Se a vergonha feminina for encarada como joguinho de cena ou hipocrisia (como em Cosi fan tutte, maravilhoso reflexo do espírito do séc. XVIII), o tipo comum feminino vai ser cada vez mais o da "piriguete". Isso vai ser cada vez mais valorizado. Fulana ou beltrana vai achar bem legal dizer (ainda por cima em público!) que "entre quatro paredes vale tudo", que é "dama na sociedade e puta na cama" e tal. O homem vai se entusiasmar pelo que há de mais vulgar na mulher. Já ela vai fazer o possível para satisfazer esse entusiasmo. Vai andar de roupa justa. Vai enviar fotos pelada por e-mail. Vai achar honesto rebolar feito uma aloprada na tv. E assim por diante. Lógico que a vigência da tipologia da puta e a cultura feminina genuína são incompatíveis entre si. Nesse aspecto, o surgimento do "cozinheiro romântico" se torna a reação caricatural a esse estado de espírito. Nossa época é masculinizada até não poder mais.

11 comments:

Bdelykleon said...

Mas Tanja,
Boa parte das mulheres sempre gostou de homens meio efeminados. Olha os heróis da Jane Austen, são todos uns bolhas, e ainda assim milhares de mulheres suspiram por um Mr. Darcy ou um Willoughby.

Cláudio said...

O mais engraçado de tudo isso é que ficam as mulheres reclamando que não há mais homens como antigamente e os homens reclamando que não há mais mulheres como antigamente. Tá faltando mediação... :-)

Anonymous said...

O que eu vejo é uma feminista de sexta geração (você) reclamando, provavelmente com justa causa, do quanto a mulher se vulgariza. Mas você não discorre muito bem sobre os porquês. Por exemplo, estou olhando para a sua foto ali, à direita. Você não é feminina nessa foto. É andrógina. Você fuma. Isso, para alguns (não para mim!), pode ser vulgar esteticamente, mas não tem a ver com sexo, necessariamente, certo? Errado. Tudo o que se fala hoje em dia sobre homens e mulheres fala não de desejos, e sim de representações. Repare que seu texto fala sobre corpo e roupa e "atitude" em sociedade. Essas coisas são circunstanciais, não são essência de "cultura feminina genuína" nenhuma. Nem masculina.

O ponto é: até que ponto as pessoas que reclamam das tais distinções sexuais nos dias de hoje conseguem fazê-lo sem parecer que estão falando do que elas mesmas acham vulgar, daquilo que fere sua estética?

Você pode não "dar pra qualquer um" e nem "rebolar na TV com a bunda de fora", mas pode fazer algo que, para uma mulher de fato pudica e tradicional, é igualmente chocante. E aí? Ela que é a filistéia, a pudica demais?

Os homens que reclamam de "Peter Parkers", como diz o texto linkado, costumam sempre ser sujeitos que não tem filhos, moram com a mãe e que provavelmente dividem as contas dos jantares com as namoradas.

Você não pode querer ter todas as liberdades democráticas de hoje e ao mesmo tempo reclamar do fato de que mulheres usam, infelizmente, desde tempos imemoriais, o sexo como moeda de barganha, exatamente porque este é o papel de grande valor da mulher. Se ela for bonita, jovem e sexy, ela pode ser modelo ou atriz pornô. Adivinha qual dessas profissões paga melhor? Curioso, não?

Entende o problema?

Mr. Almost said...

Rssssss...

Que cabeças confusas, Jesus Cristo!
Todo o mundo reclamando, reclamando, reclamando, e filosofando, filosofando, filosofando... A Ieda se queixa da falta de homens bons(e ela, ainda que afiadinha, nem é má, nem é má, aposto que dá uns caldinhos gostosos!); a Tanja concorda com a Ieda e se queixa do "Estado da Nação", dos estereotipos modernos, dos rótulos; o Anónimo se queixa da Tanja, das feministas andróginas (e do tema "Boy George"), do papel actual da mulher...

Que é isso, pessoas? Que filosofia é essa, hein? Estão malucos?Traumatizados?

Tudo isso que vocês falam é invenção: nada mudou. As mulheres são as mesmas e os homens são os mesmos e tudo funciona como antigamente. Só mudou o figurino: os princípes encantados não são mais os ulisses e os cavaleiros medievais - são bruces willis, deeps, bogarts, connerys, clooneys, chabais, e, sim, cozinheiros sensíveis por causa de uma boa fatia do mercado que adora o homem fazedor de tartes; e as cinderelas não são mais princesas encerradas em castelos, fionas e penélopes preocupadas em bordar as rendinhas para o enxoval - são shakiras, stones, shaparovas, jolies, madonnas, ladys gagás, com poucas rendas e pouco pano nas calcinhas...

Mas agora, como outrora, a tensão entre o masculino e o feminino se resolve da mesma forma: com tesão, digo, instinto, vontade, cheiro, toque, libido, testosterona, hormonas, calcinha pelos joelhos. O resto é moda e filosofia da infelicidade, da perseguição, do neurótico.

Well, não se preocupe, Tanja. Tem homem que ama as perseguidas, as inseguras, as que dão topadas, as que não se encaixam, ó:

http://www.youtube.com/watch?v=nIv4F8IFHfU

Beijinhos!

trombone com vara said...

Então nada mudou? Observe : hoje quem exibe seu belo corpo é o homem. Barriguinha sarada, boquinha sorridente, bumbum empinado. O homem é hoje sim, o passivo objeto de desejo. A mulher é ativa, ousada, desejante. Mudou tudo. Em mundo que não precisa mais de homens, ele confunde desejos e passa a pensar que ser desejável é ser feminino. Trabalho em escola. O que mais me choca é ver que hoje quando a música rola, os meninos dançam e as meninas olham rindo. Eles acham que para atrair as meninas devem ser sexys como elas são. E elas se conformam. Meninos atraentes são meninos "bonitos". Existe uma enorme diferença entre Cristiano Ronaldo e George Best.

Anonymous said...

"E elas se conformam."

Não se conformam, não. Acham legal. Taí o número de adolescentes aparecendo grávidas que não me deixa mentir.

Um sexo é e sempre foi objeto sexual do outro. Nessa época fantasiosa da cabeça dos conservadores, o homem também era objeto sexual das mulheres na época em que o homem era "muito mais macho" e era objeto de desejo por usar roupas e ter comportamento típico de homem. Os heróis de Jane Austen são o quê, hein? Só muda o referencial.

"Mudou tudo."

Mudou nada. Não sei em que mundo vc vive, mas conte o número de homens pelados se mostrando de maneira sexy em filmes e na televisão e compare com o número de mulheres. Se o número for igual, ou for maior no caso dos homens, você vive em outro planeta, não neste.

Cesar said...

Gosto dos seus textos, mas este não foi o mais feliz.Entendo o que vc. quis "passar", mas não está elegante nem logicamente bem construido.
Acho que o problema da construção da identidade masculina e femenina está conturbado pelo processo da busca do espetacular ou do ser comentado.No passado a maoria se contentava em ser um mísero ser no meio dos poucos deuses. Agora todo mundo é obrigado a ter uma postura polêmica em qq. assunto para poder se distinguir e ser comentado, sinônimo de ter sucesso.
E para ter sucesso vc. precisa se encaixar em alguns estereótipos mais bem aceitos na atualidade: A puta na cama (quem disse que a puta é a mais sensual das mulheres?).
O macho sensível, que domina a cozinha francesa.( Qual a relação causal entre o fato de vc. cozinhar e as as suas qualidades machísticas ou bichaísticas?)
Estou com saudade das digressões mais profundas
Cesar Evora

DD said...

Tanja:

Acho que uma distinção é necessária. O mundo das piriguetes não é, exatamente, o dos solteirões efeminados mestres do preparo do steak au poivre. As piriguetes são mais comuns nos extratos mais baixos da sociedade, ao passo que os chefs amadores são mais numerosos nas camadas mais altas. As mulheres mais favorecidas só se comportam como piriguetes por vingança, para sentir-se alforriadas de algum tipo de opressão que, hoje, revela-se totalmente imaginário ou, ainda, para celebrar a própria independência (Sex and the City). Homens de baixa extração teriam dificuldades para alçar-se à condição necessária para dominar os segredos da alta gastronomia.

De todo modo, em ambos os casos, estamos diante de estratégias para atrair pelos apetites.

Parafraseando algum daqueles grandes gregos, digo que nada é pior do que uma mulher cruel e despudorada.

Evelyn Mayer de Almeida said...

Amiga, "roubei" a foto do seu blog e pus num álbum que criei no meu orkut chamado: "Porque fumar não é pra quem quer." Uma homenagem aos amigos e às pessoas que adimiro e que fumam elegantemente.

Bjus;

Tanja Krämer said...

Olha, não sei se fumo de modo elegante. O que sei é que topo ser garota-propaganda de qualquer propaganda pró-fumo. :-)

Ah, deixa eu aproveitar para dizer uma coisa. Gente, leio sempre todos os comentários. Só que às vezes não dá para responder. Não é por falta de vontade! Como é melhor dizer alguma coisa do que não dizer nada (by Goethe), aqui vão algumas coisas genéricas:

1. Dandy não é boiola, ué; :-)

2. Homens e mulheres fazendo mútuas reclamações não é exclusividade nossa. Mas na escala e no estilo atual, é. Sinal dos tempos; :-)

3. Sou sim uma feminista aguada. Com prazer; :-)

4. Nós mulheres não temos mais um "padrão social de retaguarda". Pelo menos não como havia antes. Por exemplo, solteiros se visitam sem que isso seja motivo de escândalo;

5. O que dá valor à mulher não é ser quenga. Muito pelo contrário. Quantos homens gostariam de se casar com uma? Só o fato de uma quenga custar x diz muita coisa, não? Pode ter certeza que todo homem prefere uma santinha. Ou que se pareça com uma; :-P

6. Liberdade política não tem nada a ver com liberdade sexual. E ser pudica é só uma degeneração da vergonha natural;

7. Nunca sequer pensei que homem não fosse motivo de cobiça sexual feminina (e vice-versa). Muito menos que tenha havido uma época assim. Pô, só se eu fosse trouxa. :-) Acontece que somos gente. Então não basta constatar como o molequinho do filme Um tira no jardim de infância, e dizer: "Meninos têm pênis e meninas têm vagina." Temos mais diferenças;

8. A falta de pudor feminino incomoda os homens. Claro que há os que são mais brutos e tal. Acho até que uma parte considerável é bruta; :-)

9. Gente, não escrevi um tratado. Isso aqui é um blog, pô. :-) Nem o texto foi uma exposição minuciosa sobre um tema qualquer.

10. Querer ser diferenciado, modelo, é o normal. Um versinho da Ilíada: "Quero ser o primeiro dentre todos e dos demais me distinguir." (Por sinal, o Aquiles preferiu morrer jovem e se destacar para sempre, né?) Todo mundo é até incentivado a isso. Como sempre nos guiamos por modelos, sempre existiram arquétipos. Isso não é novidade. A questão é o tipo de modelo a se buscar. Quando a moral da puta prevalece, adivinha qual o tipo de conduta feminino?

10. O homem não tem muito interesse pela mulher hoje. (O que não quer dizer que nunca isso tenha acontecido.) Não é que ele tenha virado boiolão. Acontece que o interesse se tornou periférico. Homens não jogam bola para cair nas graças de uma mulher... Para a mulher chamar a atenção do homem, ela tem de participar da área de interesse masculino . Vai para a política. O esporte. Vai falar das coisas que ele gosta. E assim por diante. Parte do feminismo se explica pela necessidade de a gente querer chamar a atenção do homem. Como se disséssemos: "Ei, estamos aqui!"

Tanja Krämer said...

A numeração do último item saiu errada. Tá na cara, né? :-)