Friday, March 19, 2010

Vivência

Ora, direis (a mim): "sois liberal." Não sou. "Como? Por causa de quê, maninha?"

Início de texto frenético? Explico. Vez ou outra, me escrevem perguntando se sou liberal. (Quero dizer, do ponto de vista político. Não vá pensar mal de mim.) Ou me dizem alguma coisa como se eu fosse libertária ou algo do tipo. Acontece que não sou liberal, nem libertária, nem algo do tipo.

A última vez que busquei definir a minha vida política faz uma década. Não fiz uma escolha muito boa. Nunca mais tive sequer esboço de vontade de buscar qualquer definição. Mas se eu tiver que dizer alguma coisa, eu diria que tendo a ser conservadora. Sei que mais de 30 mil pessoas já analisaram o que significa o conservadorismo. Confesso que não entendo bem o que isso significa. O que sei é que tendo a fechar com Platão. A pólis é uma extensão da alma. Tal psicologia, tal cidade. Por que eu disse "tendo"? É que nunca parei para analisar isso a fundo. Mas vendo de relance como as coisas funcionam (ou deveriam funcionar), não me parece muito estranha a idéia de que a cidade é como um homem enorme. Veja, a questão não é muito complicada. Basta você pensar no seguinte. Até que ponto uma sociedade lotada de gente que não presta pode ser boa? Se todo mundo é canalha, como a cidade vai ser boa? A ruindade política depõe contra os cidadãos. É preciso tratar da psicologia humana. Antes, é preciso desenvolver e usar ferramentas filosóficas. É por isso que toda política deve ser orientada a partir de uma antropologia metafísica. Tal concepção do homem, tal política*.

O trabalho filosófico exige um esforço reflexivo. Você transpõe para o campo conceitual as experiências vividas. A partir dos conceitos, elas se tornam mais claras. Tornar os conceitos vivos é formulá-los com base na própria experiência. Eles serão fonte de inteligibilidade da própria experiência**. A palavra-chave então é vivência. Agora, imagina o forrobodó desgraçado que não vai ser caso alguém trabalhe com conceitos mortos! Tratar como seu o produto de uma experiência que não é sua só pode dar ziriguidum. Não praticar o trabalho reflexivo necessário só leva a artificialismos bocós, pomposos.

Uma coisa bem chata em discussão política é o vazio conceitual (no sentido de falta de vivência). Tudo se torna abstrato. Tudo pode ser, como pode não ser. A discussão política cai no mundo da imaginação. O que acontece então? As expressões políticas não passam de desejos. Podem ser justificadas com mil argumentos legais. Racionalizações. As palavras só servem como enfeites chiquérrimos de sensações simples! É como recitar J. Donne só para comer bananas.

Na baderna da fantasia, ganha no final quem gritar mais alto a loucura mais conveniente.

Quando vejo discussões sobre democracia, liberdade e tal, desconfio logo. É muito fácil patinar no abstrato. Essa é uma tendência que noto nos liberais. (Atenção, amigo. Estou me referindo ao liberalismo brasileiro atual. Ainda mais quando defendido por quem tem menos de 35 anos.) Se bem que não falta conservador viajando na maionese...***



*É possível a gente colocar a questão numa perspectiva ainda mais radical. É só nos perguntarmos quem somos nós. Quem sou eu? A discussão política deve adquirir um fundamento pessoal. Como tudo que fazemos ou pensamos pressupõe um eu, é de se imaginar que colocá-lo em evidência será um processo bem complicado!

**Essa dinâmica é como uma espiral ascendente. É a característica de toda alma aberta. A sabedoria é ascese.

***Se o número de liberais e conservadores brasileiros militantes encher no máximo quatro kombis, qualquer preocupação a respeito deles vai parecer uma besteira danada. Qual a relevância dos conservadores e liberais na política brasileira? Qual a relevânca de ambos na sua vida? Agora, é verdade também que a qualidade de um problema não é sempre proporcional ao número de pessoas que se preocupam com ou são afetadas por ele. Não sei se vai soar pomposo o que vou dizer, mas o testemunho da verdade não exige multidões. Exige apenas uma única pessoa.

19 comments:

R. B. Canônico said...

Quanto aos liberais, até concordo Tanja. Mas o brasileiro é, na média, conservador. Só que politicamente não é representado.

Aqui no interior do PR logo se percebe isso. O PT é praticamente inexistente, Lula recebeu sempre votações pífias - nas últimas eleições a proporção foi de 7 a 3, uma derrota fenomenal. A grande concentração de produtores rurais por aqui explica, em parte, essa mentalidade. A influência católica por aqui ainda é nítida e forte também. Recentemente, na Câmara de minha cidade, uma figura marcante da cidade foi protestar contra uma vereadora do PC do B e disse que ela era uma comunista que apoiava o MST. Fosse em alguma universidade, isso seria um elogio. Par um pé vermelho, pelo menos na média, significa exatmente isso: tanto o MST quanto o comunismo são muito ruins.

Mas, realmente, politicamente esse amplo setor não é representado, e realmente não tenho muito ideia do porquê disso.

Desconfio que a aprovação do governo Lula seja pura e simplesmente em função de interesse próprio da pessoa. O cara ganhou mais grana do que nunca nos últimos anos, logo este é o melhor governo.

Mr. Almost said...

Olá, Tanja.

... Pois eu tenho pensado muito em você, justamente porque você é daquelas raro tipo de pessoa que eu tenho dificuldade em apreender, em catalogar, digamos assim. Chego a pensar que estou a ficar mais burro, claro, mas que você é estranha, muito estranha, eu acho que sim.

Não tenho comentado no teu blog, mas tenho-o acompanhado como observador: para ver se do outro lado, somente como espectador, te entendo melhor. Por falar nisso, por que se diz "espectadora", hein?

Dias atrás, por exemplo, dei por mim a reflectir nas razões porque você gosta daquele tipo de música considerada erudita, mas que me soa a falsete, nomeadamente a do sujeito que canta todo esbugalhado para um cachimbo de pau ou dessas danças palacianas com os homens vestidos como donzelos e as mulheres com uns saiotes esquisitos, tanto mais estranho que você refere depois que gostaria de ter vivido naquele tempo...

(Aqui entre nós, Tanja, aquilo era um tempo fedorento: as pessoas tomavam banho apenas uma vez por ano, escondiam a sujidade entranhada na pele borrifando-se com uma espécie de pó de arroz, tinham os dentes podres, bafo a cebola no estômago, andavam pelas ruas com chagas e eczemas que não curavam, as casas fediam a mofo e a penicos por despejar, as ruas fediam a fezes despejadas ao ar livre, os alimentos podres contaminavam o ar que se tornava pestilento, etc... enfim, era um tempo que pouca gente dos dias de hoje quereria ter vivido, menos você...)

Ora bem: pensei que você gosta de gente erudita e de temáticas consideradas eruditas, gosta de debates conceituais, de debates sociais, morais e religiosos... Ok, isso se insere no contexto do conservadorismo e da virtuosidade artística, tudo bem. Só que depois, declara que o teu arquétipo de homem (o Chabal) tem a aparência de um homem das cavernas e um rosto comparável ao do bisonte, joga profissionalmente um game baseado na brutalidade muscular e em grunhidos de intimidação, ou eu te vejo escrevendo em estilo bem pop, distanciando-se através da escrita do classicismo dos temas.

E eu penso: Putz! Como? Quem é esta guria, hein? Hum...

Well,

melhor eu não dizer mais nada, antes que você me diga que, por eu não entender o ponto, precise de passar no psicólogo... ou no exorcista.

Bom fim-de-semana para você.

bdelykleon said...

Ué, para gostar de Bach e Schubert tem que escrever igual a advogado?

R. B. Canônico said...

Ora, Mr. Almost, é bem mais simples do que vc imagina.

Tanja, tenha uma ótima semana!

Ah, fiquei profundamente lisonjeado com o link do meu blog neste espaço. Mto obrigado!

Mr. Almost said...

Bdelykleon:

Quem disse que tem?

Canônico:

Sei não, rapaz, sei não... A minha costela de São Tomé só acredita depois de conhecer.

Tanja:

Uma boa semana para você e uma provocação, gata.

R. B. Canônico said...

É que, sei lá, para mim é natural sair de uma apresentação de 'Giselle', entrar no carro e colocar um cd do Iron Maiden para escutar.

As coisas as vezes são simples assim.

Ou não, Tanja?

Mr. Almost said...

Rsss... Acredito que sim, Canônico. Tu tem cara disso e um vago ar de mormon.

Ou não.

Evelyn Mayer de Almeida said...

Mormon???

kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Ô, Gatão (saudades!), o Dia que o Canônico tiver ar de mormon, nem sei do que eu teria.

Saudades das tuas linhas, Gata! Some não!

Mr. Almost said...

Olá, Evelyn Gatona,

Quase não reconhecia você! Cortou praticamente o cabelo todo, ganhou um novo visual e agora tá com a cabeça de lado.

E que grande argola que você tem, menina! Redondinha! Hummm... Que interessante... Fica-lhe bem, fica, fica.

Bom fim-de-semana, para você, para vocês, para a Tanja e para mim também, que também sou filho de Deus - dizem.

César Miranda said...

Hallo!

Evelyn Mayer de Almeida said...

"E que grande argola que você tem, menina! Redondinha! Hummm... Que interessante... Fica-lhe bem, fica, fica."

Ficou um tanto ambígua esse negócio de argola, não?
Ou minha mente anda poluída demais...

Pax! =)

trombone com vara said...

O Brasil é conservador mas não é liberal. Um tipo de deitado eternamente. Lula é hiper-conservador ( e conservante ), ele representa aquele brasileirão macho, churrasqueiro, corinthiano, um ser da era getulista.
Não há uma tradição liberal por aqui. O que pensamos ser liberalismo tupiniquim é apenas um exibicionismo classe média. Nossa cabeça é uma cabeça saudosa de líderes personalistas e mecenato estatal. Lulas. Puro anos 40.
Então gostar de música erudita é ser conservador ? Mas em Moscou não se ouvia só Tchaikovski e Prokofiev ?

Mr. Almost said...

Gatona,

Não vejo nada do ambíguo. Só vejo o seu rosto, juro!

A culpa de tudo é da poluição, sim. Esse fenómeno que tanto preocupa os actuais governos é uma catástrofe do presente e uma hipoteca em relação ao futuro. Há que, urgentemente, identificar as causas dos problemas e encontrar soluções.

Nesse sentido, julgo que o problema não está na "argola" propriamente dita, mas no adjectivo "grande", que é o vector mais dúbio da equação. Utilizei-o não no sentido de "vasto", mas no sentido figurado(*), sendo sinónimo de notável, magnífico, respeitável. O resto é poluição.

(*) Se eu disser que o Lula é um grande Presidente, "grande" não quero dizer que ele é de tamanho maior que o normal, mas sim que é um presidente notável, admirável, não é?...

É?...

Beijo com sabor a Pax (Imperatriz Mundi) e não liga muito para o que eu falo porque sou um brincalhão incorrigível e meio canastrão.

Putz! Eu disse "falo"! Vês, vês?

betoqueiroz said...

Tanja,
Ah, que pena que não sei discutir.
Bom te ler aqui e mais ainda nas Conversas...
Fraternellement,
Beto.

Evelyn Mayer de Almeida said...

Hei,Gatão!!!

Adoro teus comentários! Tô te esperando lá na minha capela!

Tanja, obrigada por este espaço. É muito bacana a gente poder conversar e conhecer um bocado de gente bacana. E tu tb. Passa lá em casa. Ontem mesmo eu tava perambulando pelos posts antigos e vi que tu participavas mais lá. Saudades dos teus comentários cheios de inteligência e humor.

Bju, Gato!
Bju, Gata!

Tanja Krämer said...

Tô sumida porque tenho trabalhado muito. Nas horas de folga, aproveito para... jogar Europa Universalis II. :-P Pois é. Desde que vi pela primeira a apresentação desse jogo, gamei: http://www.youtube.com/watch?v=H9S_xlmZVvQ . Tudo bem que a arquitetura daquela (suposta) catedral na apresentação é meio estranha, mas... quem importa? Tudo é muito belo, tudo é muito belo. :-)

Tanja Krämer said...

(Fora de ordem.)

Eve, agradeça a mim não. Tenho lá culpa de aparecer gente legal? :-) Olha, ando devendo visita até ao meu próprio blog! :-P

Beto, e quem sabe? :-) Obrigada pelas suas visitas!

Mr. Almost, tem coisa mais conservadora do que gostar de homem das cavernas? :-) Em relação a catálogos de pessoas, só servem de modo aproximativo. Se é para falar de alguém, só a descrição (parcial) salva. Questões políticas são a epiderme da vida. Agora, é engraçado o seu estranhamento. Em parte, deve ser por causa das circunstâncias brasileiras. No que escrevo, acho que tem muita coisa nas entrelinhas. Um brasileiro (pelo menos um certo tipo) deve perceber na hora. Mas é o tipo de coisa difícil de expressar. Aqui no Brasil falta uma literatura que aborde bem a nossa época atual. Eu amaria explicar melhor (estou sendo obscura por amor à brevidade, como diria um amigo meu). Agora não dá. Ah! Espectadora é homenagem ao Ortega y Gasset. Ele tinha uma publicação chamada El Espectador. Embora fosse de periodicidade irregular, ele publicou artigos ali por quase 20 anos.

Heil, Kaiser! Wie geht's? :-)

Seu Trombone, ponto interessante. Mas tem outra coisa. Moscou detestava música moderna. Questão política. Bizarrice total. Agora, e que tal as opiniões do sr. Adorno a respeito?

Obrigada pelas visitas, beijos a todos e boa páscoa!

betoqueiroz said...

Tanja K,
Volto pra desejar a você e a seus queridos uma Feliz e Santa Páscoa!
Fraternellement,
Beto.

Mr. Almost said...

Tanja, baby muito trabalhadora,

Páscoa Feliz pra ti.

Beijos na epiderme, não tão breves quanto as suas explicações, que, aliás, nem precisava. Gosto de ti assim, exactamente como é e sem saber exactamente como é: gosto de ti assim e da sua circunstância assim, como diria o Ortega.

Kisses, honey.