Tuesday, February 02, 2010

Tempos paralelos

Disse João Ribeiro, na História do Brasil (14º edição):

O trabalho da inepcia por sua vez exagerava em hipérboles gigantescas os recursos e as belezas do país, modo de cortezia própria dos parvenus. Tudo no Brasil de então (de 1810 a 1820) no dizer de Eschwege, rios, fabricas, estradas, civilização dos indios, leis e planos eram obras gigantescas do homem ou da natureza; os documentos oficiais estavam prenhes de mentiras e estrondosos milagres.

O país era o primeiro do mundo e o talento dos seus filhos não tinha igual no planeta: ainda hoje floresce com o mesmo viço essa mentira patriótica, boçal e estúpida.

Entretanto, na época de D. João VI, quasi não brilha nenhum talento de imaginação, se exceptuarmos um ou dois poetas medíocres; houve, porém, eruditos como Cayrú, Conceição Veloso, Azeredo Coutinho, Moraes, o lexicografo, Hipólito da Costa, Baltazar Lisboa, etc.

Milhares de pessoas alheias de indiferentes á religião ou aos deveres militares eram naquela época feitas subitamente cavaleiros de Santiago ou comendadores de Cristo, ofendendo-se assim o decôro da tradição, menoscabando o espírito das instituições e fazendo grande mal aos próprios agaloados, mercieiros ou rústicos que, empavesados com os novos títulos, abandonavam o trabalho util e por si ou sua descendência encostavam-se ao orçamento.

Chega a ser chato observar o poder do hábito!

O J. M. de Carvalho escreveu um ensaio bem bacana sobre "o tema nacional na historiografia brasileira". Não tem muito a ver com esse post. Mas vale a pena ler.

1 comment:

C' est moi, honey, Mr. Almost said...

Well,

J.M. Carvalho escreveu esse ensaio porque rendia dinheiro.

É claro que se a corte portuguesa não tivesse fugido para o Brasil, o Brasil não seria o mesmo...

... Mas também se não tivesse existido Pedro Álvares de Cabral, D. Afonso Henriques, Visigodos invadindo a Península Ibérica, uma era glaciar e um big-bang,

o Brasil não seria o mesmo.

Vou até mais perto, para não ir mais longe:

Se não houvessem fantásticos carpinteiros em Portugal nos séculos XV/XVI, Pedro Álvares de Cabral, hoje, era ninguém.