Tuesday, January 12, 2010

Ressentimento

Um dia, tive uma conversa com um carinha esquisito. Ele ficava falando da maldade do Brasil. Que já tinha visto tanta coisa, que era impossível deixar de ser cínico e tal. Ele falava como se fosse o maior gostosão. Parecia até que tinha lutado feito um herói ao lado do Constantino XI na defesa de Constantinopla. O engraçado era o tipo de história dele. Sempre uma bizarrice sangüinária, envolvendo fazendeiros, jagunços, meninas-moças, *O Prefeito* (entidade maligna que atuava como deus ex machina)... O carinha era um Marquês de Sade caipira. Perguntei de onde ele era. Quindim de São Brás do Sul. Ou algo assim. (Como há cidades chamadas não-sei-o-quê-do SUL! Parece que o pessoal sempre está fundando cidades mais para baixo, sei lá.) Saquei logo que era tudo para me impressionar. Me reservei o direito de sacaneá-lo. Ele me considerou uma imatura, "afastada da realidade sórdida do interior do Brasil" (palavras dele). Claro. Só vendo o ET de Varginha é que alguém adquire maturidade. O mais legal é que ele tinha só 19 anos.

Fingir ter altas experiências de vida que justificam um "cinismo estóico" é alta jequice. Não dá. É como ver um gordinho feioso ultra chato (Internet dumb ass) clamar assanhadinho contra a moralidade hipócrita da Igreja. Quando você olha a forma do cara, passa a entender tudo. Soa menos loser se dizer um cara descolado em luta contra a religião hipócrita. Melhor do que se dizer ressentido contra a balança, a carestia da cirurgia plástica e as pessoas que não deram bola para ele.

A revolução mundial dos poderosos mocinhos de carinha rosa* sempre me chamou a atenção. Veja como é curiosa a relação deles com aquilo que dizem desprezar. É sempre uma combinação de ambição com impotência. Os mesmos caras que afetam desprezo em relação a algo esperneiam ao imaginar esse algo por perto! Afetação sempre tendo em vista um público. Não é um acaso (ou contradição inexplicável) manifestações de fricote disfarçadas de heroísmo machudo. A própria escala de valor dada às coisas está subordinada a essa relação complexa. Vou tentar dar um exemplo. Eis um cara metido que se inquieta ao ver uma barata. Uma pessoa qualquer diria assim: "Ele dá fricote porque é meio molenga." O metido não pode aceitar um juízo desses! Ele fica angustiado com a própria impotência. Só que é preciso salvar as aparências. O juízo daquela pessoa é tido como opinião tola. Homem dar fricotes se torna um ato de macheza. Na verdade, um ato de profunda indignação moral (contra a barata). Não interessa o número de argumentos que sustentem essa opinião. O que importa é a reviravolta valorativa do ressentido. Quanto mais ressentido, mais afetado. É uma situação que causa um desconforto perpétuo. Agora, um dos problemas fundamentais não é tanto o objeto em si. É a própria "essência" de quem o detém. Isso é uma escada para o ódio contra uma pessoa (ou um grupo). Você passa a odiar alguém por ela ser quem é. O ressentido está sempre revoltado por causa dessa impotência fundamental.

*Eles podem se disfarçar com uma barba por fazer. Podem brincar também de sou-mongol-e-quero-chocar-as-pessoas-de-bem (ou só mongol mesmo).

8 comments:

Luís Guilherme Fernandes Pereira said...

Mantenho o pedido de casamento! Apesar de gordinho, não sou ressentido :P

Mas, agora a sério, adoro as suas pancadas :)

Tanja said...

Mas só dei o exemplo do gordinho enjoado porque é mais dramático, clichê feito carnê. :-D

Foi bom você fazer essa brincadeira, porque vai servir de pretexto para eu dizer mais algumas coisinhas.

Ser gordinho não é ser deficiente. Agora, uma pessoa deficiente é mesmo bastante propensa a desenvolver algum tipo de ressentimento. Vai ser difícil ela ser invejosa. A inveja pressupõe ainda alguma possibilidade real de ação, de conquista do que é desejado. O ressentimento já está no nível da passividade.

O ressentimento não é propriedade exclusiva de um grupo determinado. A princípio, um cristão não deveria ter esse sentimento. Porém não só não é impossível tê-lo como até acontece com certa freqüência. Agora, é verdade que o ressentimento tende a se manifestar em determinados grupos. As sogras, por exemplo.

Também vou aproveitar para dizer (ou repetir, sei lá) que há vários tipos de ressentimento. O pior é aquele baseado numa reviravolta total dos valores. Esse é o ressentimento por excelência. Não quero entrar em detalhes agora, mas acho que algo assim tem ocorrido nos últimos tempos de forma bem manifesta (sim, estou pensando no Brasil). Quando alguém que possui um atributo de valor tem que se penitenciar por isso (quero dizer, quando precisa se desculpar por ser uma pessoa de valor), é que chegamos já a uma completa reviravolta dos valores.

(Note que uma pessoa ressentida pode muito bem usar esse mesmo argumento! Nietzsche sobre o cristianismo, por exemplo. Talvez até o Cálicles e o Trasímaco fossem ressentidos também, mas num nível mais leve. Pelo menos o Cálicles era um homem propenso à ação. Estou dizendo essas coisas para mostrar como o problema é complicado!)

Mr. Almost said...

Tanja K,

Olá!

Diz também "olá" pra mim e repare como você fica com a boca aberta no final, repara...


Pois bem: estou lendo e relendo o seu texto, tão tão determinado e tão ressentido, que somente ocorre interrogar-me:

Dizer-te o quê? Para quê? E como?...

Octavio said...

Exato, ressentimento é a cólera da nossa espécie (não é Brasil, nem etnia ao contrário do que você parece estar sempre flertando).

Na verdade, as pessoas que tomam atitudes baseadas no ressentimento são insanas e não plenamente lúcidas e esclarecidas como pensam que são.

O resultado prático desses atos, esses sim sórdidos, é sempre desastroso, pois culminam em desunião e desgraça entre os povos (principalmente os religiosos).

Saudações e meus votos de estima à elevada abstração habitual.

Tanja said...

Ei, Mr. Almost, precisa se interrogar não. Basta ter gostado. :-)

Octavio, sei lá até que ponto essas coisas são maluquices. Quero dizer, maluquices mesmo. O que mais acontece é a afetação. Como sempre, questão de vaidade. Você realça o que é estimado pelos outros, pois aí você mesmo vai se sentir mais realçado! O ressentimento entra na dança à medida em que você recalca a afetação. Não só o ressentimento, mas uma falsificação radical (má consciência). Um cristão pode fugir dessa armadilha porque ele tem consciência do perigo da má consciência. O autoengano é um problema para o cristão. Para um ateu, essa questão não é tão central.

Mr. Almost said...

Rsss... Eu gosto de interrogar-me a todo o tempo, Tanja.

Saber responder-me onde estou, com quem estou e por que estou, parece-me fundamental para me situar no mundo.

Gostei, sim. Li e achei desnecessário acrescentar fosse o que fosse ao que você já havia dito e ilustrado.

Luciano P. Garrido said...

* Acho que sou ressentido... Há quatro dias não faço a barba.
Ademais, devo ser um mongol também, pois adoro um “épater la bourgeoisie"...

Batman é Proust said...

Muito preciso, de novo. Você é uma especialista em idiotas, de fato.