Wednesday, January 13, 2010

Notícia (III)

Ainda na série "A obsessão de Tanja pelo ressentimento, essa notícia me chamou muito a atenção: "Hong Kong: Ataque com ácido faz 30 feridos". Já é "o sexto ataque com ácido registado desde o final de 2008, a maior parte dos quais foi cometida em bairros comerciais."

Taí um ótimo exemplo de crime que pode ter sido motivado pelo ressentimento. Mas é melhor deixar o sr. Max Scheler falar:

Somente em certos subtipos de crime, caracterizados como puros crimes de maldade, onde os criminosos não retiram nenhuma vantagem particular de seus negócios, apenas infringindo penas aos outros, somente nestes casos o ressentimento se encosta como rasgo fundamental da constituição da alma criminosa. O incendiário pode vigorar aqui como o mais puro destes tipos; mas isto somente enquanto ele não for determinado no modo de sua lida através do caso raro do impulso psicológico dos piromaníacos, ou por algum motivo ganancioso, a fim de arrecadar uma certa soma de seguro. Este tipo tem uma circunscrição notavelmente sólida. Na maioria das vezes quieto, lacônico e tímido por essência, sério e inimigo de todo desvario alcoólico, ou de qualquer outro que o valha, seu ato criminoso é quase sempre a explosão repentina de anos a fio de impulsos de vingança ou inveja reprimidos (assim, por exemplo, quando a bela e grandiosa fazenda do vizinho, vislumbrada continuamente, desempenha uma pressão ininterrupta sobre seu sentimento próprio). Determinadas formas de expressão criminosas, recentemente em crescimento, também pertencem a este tipo. Deste modo, por exemplo, o caso do crime do automóvel, executado no ano de 1912 em Berlim, quando um cabo bem tenso e rígido foi estendido na escuridão da noite entre duas árvores, por sobre a rua, tendo como conseqüência necessária a decepação dos que primeiro passassemm sentados em um automóvel qualquer. A indeterminação das vítimas, que aqui são caracterizadas apenas como quaisquer "passageiros de automóvel", bem como a falta de um motivo que trouxesse proveito próprio, dão aqui a estes casos o caráter típico do ressentimento. No caso do insulto degradante, o ressentimento também desempenha freqüentemente um papel em nada diminuto. (Da reviravolta dos valores, pp.70-71)

5 comments:

Mr. Almost said...

Há muitos anos li um livro (já não recordo do título) que consistia em relatos verídicos, depoimentos, confissões, explicações de homicidas acerca dos seus crimes. Existem muitos motivos que explicam os actos criminosos, muito além dos que nos faz crer esse Scheler (era um dos amigos do Nietzche que ficou maluco, não era?). Nesse livro, por vezes o motivo não era sequer motivo, era simplesmente tédio, como a minha memória reteve:

"Matei-a porque estava aborrecido";
"Matei-o porque de repente me apeteceu, mas eu não tinha nada contra ele, que era até muito meu amigo".

No meu modo simples de olhar para as coisas, o ressentimento é um sentimento natural, expresso no provérbio "Quem não sente não é filho de boa gente": ficamos feridos por um mal infligido, por uma afronta feita, por uma desconsideração, por um insulto, e acho justo e humano sentirmo-nos assim.

O que é mau, é usarmos esse ressentimento como alavanca de uma vingança, de um novo mal.

Igor T. said...

Oi, Tanja, off-topic: brigadão pelo linque, principalmente vindo de onde vem.

Um abraço,

Luciano P. Garrido said...

Caro Almost,
relatos vindos desse tipo de criminoso não são confiáveis, na minha opinião. São comportamentos tão patológicos, tão irracionais e absurdos, que os motivos alegados são apenas uma forma de racionalização a poteriori (no sentido freudiano).
É a mesma coisa que você perguntar a um diabético os motivos psicológicos pelos quais o organismo dele não produz insulina.
Você pode chamar de ressentimento, sadismo, ódio enrustido, mas no final fica algo de non sense irredutível...

Tanja said...

Mr. Almost, os dois exemplos que você deu podem ser explicados pelo ressentimento. Olha o que o Scheler disse: "seu ato criminoso é quase sempre a explosão repentina de anos a fio de impulsos de vingança ou inveja reprimidos", "pressão ininterrupta sobre seu sentimento próprio". E: "A indeterminação das vítimas, que aqui são caracterizadas apenas como quaisquer "passageiros de automóvel", bem como a falta de um motivo que trouxesse proveito próprio, dão aqui a estes casos o caráter típico do ressentimento." O que isso quer dizer? Duas coisas. Primeiro, que certas explosões de raiva homicida são o fim de uma longa série de aborrecimentos. Segundo, que quanto mais indeterminada for a vítima, mais a motivação do crime tende a ser um desdobramento do ressentimento. Não custa também lembrar que o Scheler está falando de "certos subtipos de crime, caracterizados como puros crimes de maldade, onde os criminosos não retiram nenhuma vantagem particular de seus negócios, apenas infringindo penas aos outros".

Jogar ácido nos outros é um ótimo exemplo de um ato criminoso pautado no ressentimento. Ou então sair metralhando alguém numa escola (e depois se matar).

Tanja said...

Oi, Igor! Precisa agradecer não! :-)

Luciano, concordo com você em pelo menos um ponto:. "no final fica algo de non sense irredutível". Isso se a gente se perguntar: por que existe o mal? Nesse sentido, o mal é um mistério sim.