Sunday, January 31, 2010

Infância

Hoje eu estava pensando em algumas diversões minhas de infância.

Desde pequena, gosto de bichos. Quando digo "bichos", não é só os nossos bichinhos fofos de estimação. Para usar um termo discoveriano, adoro a vida selvagem. O que não quer dizer que eu lá conheça muito do assunto. Mas isso sempre despertou a minha curiosidade. Quando eu era picurrucha, meus pais compravam para mim fascículos de O reino animal. Era uma coleção (acho que) da Editora Abril. Sempre tinha um deseínho do bicho, mais uma descrição sumária dele, hábitos alimentares, habitat e tal. Na introdução da revista nº1, havia até uma explicação bem sumária sobre a diferença entre vertebrados e invertebrados, teoria da evolução e coisa e tal. Foi assim que conheci bichos como o cachalote, o náutilo, o boi almiscarado e os lêmingues super-fofos. Depois lançaram outra coleção, Animais em extinção. Essa não era tããão legal.

Talvez você possa ter pensado assim: "Ah, ela devia gostar de biologia." Mas sabe que nem tanto? Eu era até uma boa aluna de biologia (exceto no 3ºano). Porém não me lembro de ter estudado com prazer uma única vez. Pelo contrário! Se não me engano, a primeira vez que percebi como o conteúdo escolar é maluco foi por causa da coitada da biologia! O problema nem era tanto a decoreba. Era o conteúdo a ser decorado. Dava nos nervos saber que o nosso futuro dependia da lembrança do nome dos tecidos das águas-vivas. Ou como minhocas se reproduzem. Eu só era boa aluna porque ela moleza.

É impressionante como conseguem transformar num saco medonho uma coisa tão interessante como biologia. Claro que o problema é mais amplo. Se o pessoal do MEC levasse o Hegel a sério, eles saberiam que há uma necessidade de o saber ser sistêmico. Não dá para você ensinar como se estivesse jogando resto de comida para uns vira-latas coitadinhos. Sem contar outras duas coisas. Uma é a justificação do que é ensinado. Da mesma forma que a necessidade de um imposto deve ser clara (a princípio) a um cidadão, a razão de se ministrar tal ou tal matéria também deveria ser clara (a princípio). Nada desse negócio de "porque é". Deveria ser clara para todo mundo até a estruturação do ensino como um todo. A outra coisa é a básica. Só deveria estudar algo mais avançado quem quer. Do contrário, o ensino vira mais um monstro burocrático. Veja o fogo no traseiro que é essa história de certificados. A pessoa faz um curso porque gosta. Ao mesmo tempo, ela sente a necessidade de provar à burocracia que fez o danado do curso. Isso é de matar. 

Eu também tinha interesse pela Bíblia. Taí uma coisa que nunca entendi bem. Quando cresci mais um pouquinho, o interesse sumiu. Nem queria saber de mais nada. Mas ter folheado-a quando pequena imprimiu uma forte impressão em mim. Pode parecer estranho, mas o Apocalipse era o livro que eu mais gostava! (Os outros eu conhecia muito pouco. Isso quando tinha chegado a folhear algum deles.) Anjos abrindo selos, rios se tornando sangue, os Quatro Cavaleiros, a Mulher e o Dragão, a Nova Jerusalém... Essas coisas todas me desconcertavam! O engraçado é que não me lembro de ter pedido que me explicassem aquelas coisas. Só ficava pensando em como devia ser assustador uma estrela cair nas águas e transformar a terça parte em absinto. Ou aquele negócio da marca da besta. Li com menos empolgação os primeiros capítulos de Gênesis (a criação e a queda). A tradução era do Pe. Antônio de Figueiredo. A edição tinha várias imagens de quadros com temas bíblicos. Caramba, eu adorava vê-los! Alguns ficaram na minha cabeça. Rembrandt (Lamentações de Jeremias, Sansão cegado, Cabeça de Cristo), Carl Bloch (Sansão move as rodas de uma azenha), Bosch (Coroação de espinhos), mais Giotto (Jesus abençoando no Trono) e Rubens (Anunciação e aquele do Daniel na cova dos leões).

Ninguém chegou para mim e disse: "Toma esse livro aí." Peguei porque estava ao meu alcance. Quero dizer, não só isso. Um livrão daquele, cheio de imagens legais, era bem convidativo... Não me lembro de meus pais me empurrarem muitos livros. Eles me davam de acordo com meu interesse. Só quem me empurrava livros era a escola. Quase sempre desagradáveis. Como deve ter acontecido com você.

O único livro que meus pais me empurraram foi um chamado Mamãe, como eu nasci?. Isso quando eu tinha uns 10 anos. Se eu tinha manifestado desejo de saber como nasci, nem faço idéia. Só sei que um belo dia eu estava folheando esse livrinho. Ele tinha vários desenhos. Era muito engraçada a parte em que o menino e a menina se, hm, examinavam (não juntos, é bom explicar). Havia um desenho de um rapaz com cara de bobo na banheira, segurando o próprio pinto. Na outra página, a moça se examinava com um espelhinho. Era engraçada também a parte em que um espermatozóide piscava (ele tinha uma carinha) para um óvulo (que não lembro se tinha carinha). Não sei se foi por causa desse livro que acabei arrumando o Relatório Hite, dois anos mais tarde. Não deixa de ser doido eu ter saído do Apocalipse para acabar em relatórios sobre sexualidade.

7 comments:

Evelyn Mayer de Almeida said...

Sabe que hoje mesmo eu tava falando com meu marido sobre infância?

Aqui no sul tá fazendo um calor desgraçado! Ai deite no piso pra ver se refrescava um pouco... lembrei quando criança eu adorava dormir no chão! Nossa, era tudo! Brincava tanto...
E a minha mãe me insentivava um monte a ler. Lembro de ter ganho tantos livros... lps... e também tinha a Bíblia da Criança. Adorava as imagens, mas gostava mais da "Bibliona", que tinha imagens de santos e do Vaticano.

Sobre o estudo, eu concordo que essa tal "burrocracia" incomoda. Tenho uma amiga mega culta fazendo faculdade comigo. Mulher viajada, já morou na Europa e USA, e foi fazer LEtras só pra ter um diploma e sustentar seu discurso. Sim, isso mesmo! Por que numa roda com intelectuais, ao dizer que não era formada em nada, sua opinião virava esterco. E a maioria das pessoas que entram hoje nas universidades querem mesmo é ter diploma. Foda-se se vão aprender algo. Tanto é que alguns alunos que observei na aula de estágio ano passado entraram na faculdade este ano. Eles, no ano passado, em aulas de literatura, lendo Veríssimo (Pai), apoiavam veemente o MST sem ao menos saber o que é. Pode? E a Professora? Bem... ela só anotava...

Ai, minha Linda, como seria bom se a cultura e a liberdade fossem fortemente prestigiada às crianças na infância... teríamos (talvez) adultos tão menos sádicos...

HenriqueSantos said...

Querida, boa noite!

Da minha infância, lembro-me que tinha uma coleção com estórias com os personagens da Disney, eram 365 estórias, uma por dia, não li todas, lia e relia somente dos personagens que gostava (Donald e seus sobrinhos, tio patinhas, etc. Nunca gostei muito do Mickey, não sei porque...).

Tinha também uma coleção do Sítio do Picapau Amarelo, adorava o volume com fábulas famosas, em que as mesmas eram contadas e depois discutidas por Emília e os outros personagens.

Naquela época (20 a 15 anos atrás) ainda existiam vendedores de livros de porta em porta, minha mãe quase sempre comprava. Agora nem sombra...
Meus pais nunca mandaram ou mesmo sugeriram nada para ler. Compravam os livros e deixavam na estante, eu pegava e lia quando quisesse.
Apenas uma vez minha mãe me deu um livro, Doidão de José Mauro de Vasconcelos.

Sempre gostei de ler, e leio tudo (tudo mesmo, livro, revista, outdoor, livro que uma pessoa está lendo [abelhudo mesmo])...

Sexualidade aprendi com um livro chamado "O que está acontecendo com meu corpo", a biblioteca da escola (pública) tinha sido inaugurada (sim, não tinha antes) e a professora nos levou lá, ví o livro na estante, peguei e li, devia ter uns 11 a 12 anos. Bom livro, acredito que atualmente não seria considerado apropriado (não seria aprovado pelo Ministério do Sexo) pois não tem nada de explícito e não fala destas formas "alternativas" de sexualidade...

TV só fui ter quando já tinha uns 11 anos, ainda continuari a ler, mas agora menos que antes. Só voltei a ler mais e mais seriamente quando me dei conta de como era burro (mesmo formado em engenharia elétrica!).

Em biologia só gostei de genética, eu era muito bom naquilo (AA x aa, etc...), praticamente uma matemática, tirando isto o resto era uma decoreba.

É isto, ah!!! Bonita nova foto; além de bonita, inteligente e espirituosa (os seus ensaios sobre pessoas boazinhas, [Napalm Death] e [.. sobre pessoas boazinhas...], são impagáveis) você fuma também (ou será apenas pose para foto? bem, não importa!)... ;-)

beijos,

Henrique Santos

ps.: devo já ter disto isto; seus 2 blogs estão entre os meus favoritos...

Batman é Proust said...

Essa bíblia sua era uma da Abril, da década de 70, em 7 volumes?

Mr. Almost said...

Tanja,

Sobre a sua nova foto:

Eu gostava mais da outra, mais doce e mais feminina. Nessa aí você tem um ar andrógino e faz lembrar o Boy George sem chapéu.

Sobre o post:

na infãncia sempre me diverti com outras coisas que não livros. Não li nenhum. É certo que um tio que era padrinho ofereceu-me um livro sobre o corpo humano, mas desisti de ler na segunda página quando os cientistas que o escreveram dividiram o ser humano em "cabeça, tronco e membros". Pensei: «E o pescoço? Pescoço acaso é cabeça? É um membro? Pescoço é tronco? Ué, os homens usam gravata na cabeça? Apertar o pescoço a alguém é o mesmo que apertar o tronco? Não eram dois membros superiores e dois inferiores?» Vi logo que estava tudo errado, que os cientistas não entendem nada do corpo humano, desisti de ler e fui jogar à bola com os amigos.

Deve ter sido por isso que não cheguei àquela parte do "desenho de um rapaz com cara de bobo na banheira, segurando o próprio pinto". Era obviamente um desenho muito realista uma vez que isso é algo que todos os rapazes fazem todos os dias pelo menos para fazer xixi, e sim, nesses momentos fazemos cara de bobo, fechamos os olhos, erramos o alvo, e outras bobices. Mas isso é normal, e estranho seria desenhar um rapaz na banheira segurando um pinto alheio.

Boa semana pra ti.

Tanja said...

Ixi, Eve! Eu mesma durmo no chão às vezes. :-) Aqui tem estado um inferno. Agora mesmo (0h08), está um calor horrendo.

Oi, Henrique! Sempre assisti à TV. Hoje em dia não vejo tanto. Mas olha, também já percebi como sou burra. Dá vontade de chorar. :-) Muito obrigada por me favoritar! (Ah, fumo sim. É pose também, mas fumo sim. :-))

B=P, não. Era um volume único mesmo. Troço pesadão. Sabe aquelas super-Bíblias que ficam abertas num apoio? Coisa desse tipo. Mas a tenho ainda. Estou até olhando para ela, coisa mais fofa. :-)

Mr. Almost, vou explicar melhor o desenho. O cara estava estirado na banheira, segurando o bingolim em riste. Se ele fizesse xixi naquelas condições, a fonte jorraria nele mesmo. Tirando a hipótese de o desenho ilustrar alguma perversão sexual, acho que a cara de bobo era por outro motivo. :-) Mas antes de desejar uma boa semana para você, deixa eu subir no caixotinho para cantar:

Do you really want to hurt me?
Do you really want to make me cry?
Do you really want to hurt me?
Do you really want to make me cry?

Mr. Almost said...

Tanja,

Claro que não quero te ferir ou te fazer chorar. Estava a brincar contigo, mulher! Que cabecinha a tua, hein?...

Vá, coloca aqui na minha palminha da mão os teus pensamentos maus, anda! E agora, veja, vou soprar:

- Voooooooohhhhh!

Voaram, viu? Rsss...

(Era um teste para eu saber se você era ou não uma pessoa segura e confiante como aparenta ser. Grrr!)

Hum... Tô entendendo... Não acho realmente que o menino com o bandolim em riste tivesse alguma perversão sexual. Era um simples voyeur, espreitando a menina na página do lado. Normal, normalíssimo.

Beijos, boa semana! Você é linda. E sexy.

Nicolau said...

Eu ganhei o "Mamãe Como Eu Nasci?" e depois mais tarde o "O Que Está Acontecendo Comigo"?, cujo autor, aliás, é o mesmo daquela série sobre a Provence. Quer dizer, eu acho.

Beijos