Sunday, January 17, 2010

Haiti

Não tenho acompanhado o que vem sendo dito sobre a catástrofe no Haiti. Na verdade, nunca acompanhei nada sobre a presença brasileira no Haiti. Pode ser então que eu diga uma coisa que já disseram antes. O pior é que nem duvido que algum PSTU da vida já tenha dito o que vou dizer. Mas o que é que tenho a dizer? Simples. Macaco, olha o seu rabo.

O que mais a gente escuta é que os EUA só se meteram no Iraque por motivos escusos. Que mané achar as WMDs o quê! Que mané dar um pé na bunda de um ditador sangüinário o quê! Eles queriam... petróleo. Só isso. Petróleo. Sacrificaram não sei quantos milhares de pessoas por um desejo imperialista. Até me lembro de uma professora falar assim na aula: "Olha, é muito triste começar o dia sabendo de uma coisa dessas." Claro. Que coisa mais dolorosa se lamentar pelos coitados dos iraquianos numa sala de aula, de cabelo todo penteadinho, maquiagem ok, e depois gastar R$10 no almoço a quilo. Olha que essa dor toda ainda lhe renderia no fim do mês mais de R$3 mil na conta do banco. Não é de cortar o coração?

Os EUA são os príncipes da escrotice mundial. E o Brasil? Ah, nossa pátria é pacífica! Queremos só ajudar os pobres do mundo. Lembram do pessoal do Timor Leste? Então. Fomos lá salvá-los, por pura caridade. Depois nos metemos no Haiti. Não houve nem discussão pública séria a respeito. Como nunca houve sobre o Timor Leste. Sempre foi ponto pacífico. Se o governo tinha decidido ajudar o pessoal *oprimido* lá na casa do chapéu, não havia o que discutir. Ainda mais com a total aprovação da ONU. Nossa ajuda sempre foi humanitária (antes diriam "filantrópica"). Ponto. Nem o Timor nem o Haiti tinham quaisquer recursos a nos oferecer. Gastamos milhões de dólares para enviar engenheiros e soldados treinados para vacinar e dar comida pela mais pura caridade. Somos tão gentis com os haitianos que até oferecemos um espetáculo futebolístico. Tudo a troco de nada!

Com tanta boa vontade, só gente perversa teria a coragem de duvidar da filantropia brasileira. Acontece que não sou lá muito boazinha. Só uma pessoa selvagem (que nem eu) poderia pensar que esse papo de dar as mãos aos nossos irmãos haitianos é uma hipocrisia incrível. Logo diante de uma desgraça tão horrenda como esse terremoto, só uma criatura muito malvada (que nem eu) poderia lembrar da vez em que o Brasil deu as mãos para o governo genocida sudanês (também nosso irmão?) em plena ONU. Ou dos constantes elogios ao governo genocida de Cuba. Ou da vez em que nosso presidente disse que há um "excesso de democracia na Venezuela". Ou da nossa enorme simpatia pelo governo iraniano, cujo presidente quer matar judeus e já vive matando quem seja considerado inimigo da revolução islâmica. Só um monstro sem noção (que nem eu) poderia lembrar que aqui no Brasil há 50 mil homicídios por ano, embora o governo se preocupe mais em como resgatar as vítimas de um terromoto caribenho que talvez tenha matado entre 50 mil e 100 mil pessoas. Só alguém muito sacana (que nem eu) diria que é meio ridículo empreendermos esforços para construir uma hidrelétrica para Porto Príncipe, enquanto nosso próprio país vira e mexe é afetado por algum distúrbio energético. Enfim. Tanta boa vontade é para o Brasil botar a gigantesca busanfa numa cadeirinha permanente da ONU*. Só gente bem maligna (que nem eu) para criticar o Brasil, logo num momento em que o Haiti precisa tanto da nossa ajuda.

Ah, ajuda... Como não ando nada informada, não sei se já escreveram sobre os frutos da nossa intervenção no Haiti. Nem sei se alguém já a comparou com a intervenção dos EUA no Iraque. Quando uma bomba explode em Bagdá, sempre ouço: "Olha só como desestabilizaram o Iraque." Um professor mesmo já me disse algo assim. E o Haiti? É verdade que não entramos em guerra contra eles nem nada. Mas até que ponto nossa ajuda tem sido útil de verdade? Ou será que nem aqueles casos médicos em que dizem "o estado é grave, mas estável"?

Como chamar alguém que é todo indulgente para com os próprios atos, ao mesmo tempo que só atribui intenções diabólicas a quem pratica ações semelhantes às dele? Qual o nível de consciência de uma pessoa dessas? Macaco, olha o seu rabo.

*Não entendo os ganhos imediatos disso para nós. Até entendo a hipótese de os EUA tomarem o Iraque por causa do petróleo. O raciocínio é meio bizarro, mas consigo entendê-lo. Pelo menos os ganhos imediatos não são difíceis de se imaginar. Agora, e no nosso caso?

Update: Como não foi difícil de imaginar, já tinham falado coisa parecida antes de mim. E tornaram a falar.

5 comments:

Anonymous said...

O pior é que, mesmo se a intenção fosse puramente de ajudar, por que diabos com o meu dinheiro? Se meu dinheiro tem que ajudar alguém, por que não posso eu mesmo escolher a quem? Pode ser que, numa situação como essa, eu ajudasse o Haiti - provavelmente aconteceria -, mas isso não dá legitimidade ao governo pra sair ajudando com o dinheiro que EU suei pra ganhar.

Mr. Almost said...

As dádivas são coisas complicadas.

Quando a dádiva é uma ajuda (de dinheiro, de bens ou de meios) é importante que o sentimento do dador seja um sentimento bom, altruísta, solidário, fraterno, porquanto qualquer coisa que seja dada visando uma retribuição ou criando expressamente uma obrigação, pode revelar-se demasiado cara para quem recebe, embora seja gratuita no momento da recepção, e até para quem dá: Se quem recebe exprime inicialmente prazer e agradecimento, em breve sentir-se-á numa posição de desconforto, numa posição desvantajosa - tornou-se devedor e ninguém gosta de sê-lo. E se quem dá exprime inicialmente generosidade e outros bons sentimentos, em breve poderá sentir rancor (como no caso citado de Brasil / Timor Leste) por os agradecimentos não serem tão efusivos nem tão retributivos como se esperava - tornou-se credor e todo o credor adora receber na volta os juros e o que "deu".

Pô, tô virando filósofo... Rsss...

Armênio Martirizado said...

Curiosamente, as tragédias naturais no Haiti ocorrem justamente no lado macumbeiro da ilha. Que cousa, não?


Saudações do Armênio Mártirizado, Profecta, Místico e Mártir

Mr. Almost said...

Olá, Tanja.

Lembrei de você (e deste texto e daquele em que você escreve sobre "os modelos" e "as simulações")ao ler esta notícia:

"http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=1477970&opiniao=Manuel%20Ant%F3nio%20Pina

Cumprimentos.

Tanja said...

Não digo que esse cara é maluco? O pior é que esse negócio de HAARP é velho. Na época do furacão Katrina, falaram também que foi provocado por isso!

Como dizia Chesterton, o louco não é aquele que perdeu a razão. Não. Na verdade, ele perdeu tudo, exceto a razão. :-)