Friday, January 08, 2010

Bóris Casoy

A essa altura do campeonato, todo mundo já deve estar cansado de ouvir alguma coisa sobre a história do Bóris Casoy e os garis. Espero não encher ainda mais o saco. Mas eu gostaria de dizer o seguinte. O B. Casoy se tornou o bode expiatório do momento. Nada mais natural que alguém ser pego para Judas no Brasil.

Aqui existe uma sensação esmagadora de desconforto. Tudo por causa de um enorme ressentimento. As pessoas se sentem muito incomodadas. Só que ninguém sabe muito bem por quê. É como se houvesse uma injustiça afetando a todos, que demanda reparação imediata. O que torna a injustiça absurda é que ninguém sabe direito quem é o responsável. Como falta compreensão, não há limites para a extensão. A raiva é difusa. É a coisa mais fácil do mundo arrumar *o* vilão do momento, nem que seja um grupo. Quando alguma coisa excita o ressentimento, as pessoas ficam mesmo alteradas. Todo mundo se torna histérico. Contra o vilão do momento (ele se torna a encarnação do mal), tudo é permitido.

Eu poderia passar uma década dando exemplos. Só nos últimos tempos, houve histeria por causa da tal da loira do Uniban, da piada do Gentili, do que o B. Casoy falou... Acontece que tanta comoção é sempre fingida. Os fatos por si não justificam tanta histeria. De maneira nenhuma! Os clamores por reparação são sempre desproporcionais. Demais. São produto da demência. Olha que não escolhi o termo por acaso! Embora as pessoas sejam histéricas, elas se esforçam para manter uma postura racional. O único tipo de gente que fala com toda a calma do mundo uma absurdidade atroz é o demente. Isso significa que ser justo no Brasil é se esforçar bem para ser lelé da cuca.

As reações das pessoas acabam se tornando mais interessantes do que os próprios fatos. A violência se reflete mais entre os acusadores que entre os acusados.

10 comments:

Mr. Almost said...

Num incidente ocorrido na Guatemala há tempos, meio milhar de índios atacaram um grupo de turistas japoneses, matando dois deles. Os turistas tinham parado para fotografar umas crianças que envergavam trajes tradicionais, mas os índios pensaram que as fotografias se destinavam a figurar num catálogo utilizado por raptores de crianças ou de traficantes de orgãos.

Alguns relatórios da ocorrência referiram a "loucura colectiva", a "histeria" e o "delírio" para explicar o comportamento dos índios, característico de linchamentos. Trata-se de uma psicose colectiva suportada pela ignorância, o preconceito e a sandice, um resquício da ideia que o mito do "bom selvagem" ainda justifica o ócio da sociedade em confiar e permitir às instituições da justiça e outras estruturas sociais as funções que lhes cabem.

bdelykleon said...

Isso é uma coisa que muito me assusta é que isso acontece não somente na esfera pública, mas até na particular. Uma vez um amigo meu da UFPR resolveu falar alguma coisa que foi vista como "preconceituosa", vários de seus colegas esquerzóides ficaram em volta dele gritando palavras de ordem na reitoria (uma situação semelhante, acho, ao famoso evento da Puc-rj). Como se ele falar alguma coisa como 'Shakespeare é melhor do que Patativa do Assaré' fosse matar nordestinos...

Só não sei se isso é coisa do brasil dos anos 2000 ou se é um pouco de espírito de manada. Mas me falta o conhecimento sociológico para isso.

DD said...

O que a maioria dos brasileiros não consegue entender é a diferença entre uma tolice e uma canalhice. O dito do Bóris Casoy enquadra-se na primeira categoria. Desnecessário dizer que, enquanto muitos se indignavam (hipocritamente, muita vez) com o comentário infeliz, várias canalhices verdadeiras estão passando despercebidas.

Jorge Fernandes Isah said...

Tanja,

o Boris errou feio; mais propriamente pela declaração infeliz ir via satélite, país afora. Como o DD disse, foi tolice, infelicidade.

Enquanto isso, o presidente Lula viaja pelo mundo desfilando toda a sua tolice e despudor; dizendo o que não sabe por não saber mesmo, e não dizendo o que sabe por cinismo.

Não seria o caso, ao menos nesse episódio, do Boris ser indicado como candidato à sucessão do Lula?

Abraços.

Mr. Almost said...

Well,

Não liga ao meu português lá em cima, ok?...

(Meio milhão... atacaram...! Grrr! Justos Céus, é pior do que um três invertido!)

Não fique de saia justa como a Maitê Proença...

http://www.youtube.com/watch?v=xK_b8R8_x6I&NR=1

... embaraçando aqui o portuga, ok?

(Mas até que eu gostaria que o fizesse só para depois escutar...

http://www.youtube.com/watch?v=l5laQamJIQo

... qual Maitê, qual Casoy, um pedido de desculpas de você.

Rá!

bdelykleon said...

Bem lembrado!
A reação dos portugueses à Maitê Proença foi um exemplo internacional dessa cultura da indignação. O vídeo dela foi grosseiro e burro,as reações que a gente vê no comentário, são ainda mais grosseiras e xenófobas do que o que ela faz...

Mr. Almost said...

bdelykleon,

Certo. Certo. Você está certo. "Reacções xenófobas". It means: xenófobas, grosseiras; ou seja: xenófobas. I agree, you are right, são reacções burras...

Agora: se um conceituado repórter de uma TV portuguesa fosse ao Rio de Janeiro e escarrasse na cara do Cristo Rei como a Maitê cuspiu no Mosteiro dos Jerónimos, e fotografasse simbolizando a zona sul do Rio o indigente que dorme na Av. Princesa Isabel como fotografou o três invertido de Sintra, classificada como "património da humanidade",

ainda queria ver o fair-play dos cariocas...

Tanja K said...

Ué, basta ver a reação do pessoal aqui quando se deparam com um infeliz dizendo que "no Rio só tem tiroteio e bunda/carnaval". Mas só vai rolar indignação se quem disser for estrangeiro... Quando um jornalista (estrangeiro) disse que o nosso presidente é um pé-de-cana, até o governo federal (!) se meteu.

Tanja K said...

Outro dia, alguém me lembrou de uma cena *antológica* do Tropa de elite:

http://www.youtube.com/watch?v=DOqjGzYC4dA

É o que me chama a atenção. Acho característico no Brasil a padronização desse tipo de atitude nos meios intelectuais.

Luciano P. Garrido said...

Vamos lá. O caso Boris Casoy é emblemático pelo quantum de hipocrisia que carrega (entenda hipocrisia como o elogio que o vício faz a virtude). Quando um arauto da moralidade e inquisidor da vergonha nacional pisa na bola e esculacha uns podre garis, isso causa revolta, naturalmente.
Ninguém gosta de ser diminuído por um apresentador babaca com cara de vovozinha...