Wednesday, December 30, 2009

Mongolian show

Deus, como gosto da Internet. Como o Youtube é legal. Teria outro jeito de ouvir um show de músicos mongóis?



Legal. E não estou zoando. Há dois anos, vira e mexe volto a procurar esse tipo de coisa no Youtube. Não costumam renovar os vídeos. Uma pena.

Disparado, o mais interessante é a estranha técnica vocal. Não sei se existe um termo equivalente em português para throat singing. O que sei é que existem vários estilos. O do vídeo a seguir é o khoomei.



(Parece que o tema das músicas é a natureza. O próprio som tenta imitar a natureza, bem estilizada.)

O legal de ver é que só assim dá para acreditar são os caras mesmo que fazem esses sons, com o instrumento só servindo de suporte!

Monday, December 28, 2009

Presente de Natal

Sempre ganho coisas legais de Natal. Mas sempre falta uma coisa. Uma só coisa.




Sempre falta o Chabal. Os anos se passam, e nada! Mas tudo bem. Como Penélope, continuarei esperando.




Se alguém souber o e-mail dele, favor avisar.

Agora, um vídeo do meu querido Chabal em ação.

Thursday, December 24, 2009

Feliz Natal

Vamos deixar (ao menos por enquanto) as bobagens de lado. Há coisas mais importantes.

Acho que eu nunca publiquei nada sobre o Natal. Não que o mundo tenha piorado por isso. Vou então ensaiar uma coisinha. Me perdoe a falta de jeito.

Quando comemoramos o Natal, às vezes nos esquecemos de uma coisinha. É uma festa religiosa! Não é encher a pança (e depois se lamentar pela gordura adquirida). Não é ficar feliz ao ganhar um presente legal. Nem se aborrecer na fila da loja, para comprar uma lembrancinha (de quê? de quê?). Não é se divertir com parentes (ou aturá-los). Muito menos dançar com o namorado! Como é o Natal? É uma festa religiosa no sentido de ser uma conversa com Deus. Conversa que se desdobra em conversão. É a hora de o coração duro ceder ao amor. É difícil abandonar os problemas, as dores de cabeça? É, pode ser. Agora, não podemos esquecer quem está conosco. Deus ordena, Jesus age, o Espírito conduz. Se os termos que usei foram felizes, não sei. O que importa é que a conversa com Deus é caminho para o convívio íntimo com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse amor íntimo é um alento. O alimento que nos salva.

O Natal é conversão, é mudança. É também memorial. Mas é também ação real de Cristo, o pão da vida. Pela mais pura graça, ele se entrega a nós.

O Natal é momento de alegria. É alegria por sermos convidados ao banquete do Senhor, mesmo não merecendo. "Felizes os convidados para a ceia do Senhor."

O Natal é comunhão com Deus. A Criancinha-Deus é o pão do céu.

O Natal é a nossa salvação, quando as trevas se dobraram ao Menino-Deus (nosso pão do céu).



Poulenc: Christus natus est.

O Natal só faz sentido se estivermos em comunhão com Deus. Ok, não somos santinhos. Sou a primeira a dizer isso! Mas... O Menino Jesus vai nascer, ora! Então nossas reclamações são mais coisa de gente velha, enjoadinha. Vamos nos dirigir alegres à missa, para ter conosco Jesus Cristo. Em meio à noite, cantemos Christus regnat, Christus vincit, Christus imperat. As trevas se dobrarão, e o Reino de Deus estará no meio de nós.

Somos uns privilegiados, enquanto membros da Igreja. Nossa procissão neste mundo sempre será triunfal.





Graças ao Nosso Senhor Jesus Cristo, podemos hoje receber um tão sublime sacramento. Hoje e sempre, e em todo lugar. Nós pecadores somos privilegiados com tão magno mistério.



Tantum ergo Sacramentum.

Eu gostaria de escrever mais, e bonito. Não tenho tempo, nem lá muita capacidade! Mas fica aí meu textinho de Natal. Não olheis para a minha tosquice, mas para minha boa vontade.

Feliz Natal a todos!

Wednesday, December 23, 2009

Sergio de Biasi e o piriri afetivo

Outro dia, escrevi um post sobre um texto do Sergio de Biasi (do Indivíduo do B). O título do meu post: De Biasi - Conselheiro amoroso. O que eu não tinha como imaginar é que ele levaria a sério a profissão! Embora autoexpressivo (ainda que o Sergio use o termo "homem médio" para se disfarçar), o texto Homens e mulheres não deixa de ter lá seus conselhos amorosos. Na verdade, ele é um produto para homens ressentidos que não conseguem namorar quem eles querem. Claro, a culpa nunca é deles. No caso, é do sistema malvadinho.

Você se lembra daquele post do S. de Biasi? A seguinte citação esclarecerá o espírito eu-me-amo do texto:

Querer ser o outro, por outro lado, nos distancia de nossas reais potencialidades e nos coloca perseguindo fantasmas, e buscando frustradamente, esquizofrenicmante (sic), mesquinhamente, futilmente, algo que só só o outro pode ser. Muito melhor é fazer as pazes com quem você é e tentar exercer essa inalienável função da melhor e mais plena forma que você conseguir.


O mesmo cara autocentrado escreveu o seguinte, em Homens e mulheres:

Então embora ambos os gêneros tendam a ter em suas mãos as ferramentas para atender às necessidades biológicas, psicológicas, emocionais e afetivas um do outro, esse enorme potencial de satisfação mútua permanece em grande parte inexplorado, fechado a cadeado por uma atitude egoísta, perdedora e miópica de “apenas as minhas necessidade importam”.


Você percebeu o problema? Ele começou com o papo do bom egoísta (como se dissesse: "Eu me basto", ou: "Eu me amo" (que nem na música do Ultraje a Rigor)). Todo pimpão. Aí depois ele me vem todo preocupado com a "atitude egoísta, perdedora e miópica de 'apenas as minhas necessidade importam'"! Como explicar essa porralouquice?

O post do S. de Biase só se torna inteligível se você se esforçar para entender a perspectiva do famoso PN (pega-ninguém). Não um PN simples, bruto, translúcido. Ele até pega alguém, mas nunca quem ele queria. Nunca como ele queria. Ele é como o Ranger verde, que só chama Dragonzord. Aí depois acaba se remoendo com o verso do A. dos Anjos: "Um urubu pousou na minha sorte!". Como não é racional reclamar da sorte, a culpa é da sociedade, das mulheres mé(r)dias...


Sergio de Biasi paquerando uma sortuda qualquer.

O texto só adquire sentido se você interpretá-lo à luz do Ranger verde. Não faltam Tommies por aí. O resto, mil palavras de racionalizações. Pretextos malucos para explicar um, digamos, desarranjo social. Uma espécie de piriri afetivo.

Então você vê que tudo não passa de um monte de blábláblá, que pode ser resumido assim: "Sou super sublime e tal. O negócio é que só pousa urubu na minha sorte! Quem eu quero, só fica com quem é mais tosco que eu. Que horrendo! Que desgosto!" É o que ele diz nessa passagem:

E se isso é extremamente frustrante para o homem médio – ter que assistir a mulheres ficando atraídas por perdedores totais que conseguem ser populares batendo no peito e dizendo uga-buga, e que claramente, obviamente vão tratá-las como lixo.


Como diria o Hölderlin, "Só agrada à turba o tumulto das feiras." O negócio é ficar com o campeão frustrado...

Agora, eis o prêmio Trecho mais embaraçoso de blog em 2010 (ou: Os sofrimentos de um jovem ressentido):

O homem médio, confuso e frustrado por um sistema que não entende e que na prática lhe nega acesso ao sexo, e que ainda por cima o trata de forma hostil quando tenta obtê-lo, acaba não raro desenvolvendo um certo nível de ressentimento com a mulher média, entre outros motivos por despejar em cima dele toda a responsabilidade de tomar qualquer iniciativa e então tratá-lo como um pervertido ou inconveniente quando tenta fazê-lo.


Barbaridade! O cara confessa que está doido para transar mas não consegue! Mas ele diz que o perdedor são os outros... Vai ver, quem sai perdendo somos nós mulheres, que preferimos "perdedores totais que conseguem ser populares batendo no peito e dizendo uga-buga". Ignoramos o sofisticado do Sergio, para namorar um jiujitero toscão. Nós, que podemos arrumar qualquer homem estalando os dedos (basta "mostrar-se minimamente receptiva a ser aproximada [que expressão esquisita!] e então dizer 'sim'” [como se as coisas fossem assim]), negamos (eu, você e o mundo/sistema) ao pobre do Sergio um fácil "acesso ao sexo". Quando ele tenta obter "acesso ao sexo", nós o tratamos de forma hostil. (Nem quero saber que tipo de coisa ele faz para ser tratado de forma hostil.) Amiga, então o negócio é o seguinte. Vamos largar os nossos homens toscos. Com tanto Ranger verde sublime e disponível, é sacanagem dificultar o "acesso ao sexo"! Seja nobre e caridosa a mulher. Facilite a vida do Sergio sublime. É a única coisa que a distinguirá das mulheres mérdias. (Faço questão aquela expressão entre aspas. Não é só porque é da lavra do Indivíduo do B. É que ela faz referência a uma coisa que o Sergio havia escrito há alguns anos. Daqui a pouco vou mostrar para você.)

Nem adianta ele afetar pose de quem só analisa o "problema" por curiosidade. Está na cara que isso é algo que ele pensa bastante. Há tempos. Mais adiante, vou dar uma indicação a respeito.

E aquela parte sobre a produção feminina? (Para quem não vive neste mundo, produção é se arrumar.) A questão-mor de quem sofre de piriri afetivo é: "Como é possível uma mulher se produzir toda e não querer dar para mim?" Pentear o cabelo? Depilação? Maquiagem? Roupa bonita? Sapatos? A menos que a gente queira pular no colo do primeiro que aparecer (ou no colo de quem estiver com piriri afetivo), qual a explicação para isso? Como os fatos femininos são esquisitos demais aos desajustados, a única racionalização que eles concebem para as derrotas seguidas que eles engolem é: "Elas só querem aparecer! Pior, para as outras! Que absurdo!" O desarranjado acaba se vendo como super-homem afetivo (ou super-homem-médio). O problema não é ele, que tem um caminhão de carinho para oferecer. O problema são as mulheres mé(r)dias. Se na realidade ele perde, dentro da cabeça dele há vitórias e mais vitórias. É a ilimitada liberdade interior do PN sublime.

(Entre os argumentos do Rousseau para a defesa da masturbação, estava o exercício da imaginação e do domínio: “esse vício, que os envergonhados e os tímidos acham tão cômodo, tem mais de um atrativo para aqueles que têm imaginação: ele os torna capazes de sujeitar todas as mulheres aos seus caprichos e faz com que a mulher bonita satisfaça o seu desejo sem o consentimento dela." Todo perdedor tem algum motivo histriônico para se gabar. Nem que seja triunfar no onanismo.)

Toda a conversa do Sergio sobre bons tratos ou "sensibilidade psicológica" é o maior papo-furado. É a superestrutura ideológica da afetividade do pega-ninguém. Como mulher, digo que já estou muito bem vacinada contra essas coisas. Não tem nada mais velho do que o golpe do homem atencioso. A estrutura real é bem outra. É a "ação direta" a serviço do sexo. Mas como ele não consegue nem isso, o triunfo se dá pela reflexão. Só faltava ele dizer: "Meu Reino não é desse mundo"!

No fundo, o pessoal da cantada do "já é" é a realização dos sonhos dos acometidos por piriri afetivo. Estes têm que aprender muito com aqueles...

Vamos voltar à história do "acesso ao sexo". Não custa lembrar que em 2007 o Sergio se deu ao trabalho de defender a prostituição. Depois de dizer que um dos efeitos da poligamia nas sociedades islâmicas é haver "homens que nunca terão esposas", ele disse o seguinte:

Aí eu pensei que uma forma de compensar (parcialmente) isso seria haver umas poucas mulheres que prestassem à sociedade o serviço público de transarem com os homens que ficassem sem esposas/parceiras. Só que tais mulheres já existem em todas as sociedades – são as prostitutas. Então em comecei a pensar sobre o papel que elas têm nas sociedades cristãs, e acabei por concluir que elas prestam um excelente e muito saudável serviço à comunidade.


Ele também disse: "Uma prostituta faz mal a alguém? Não, ela presta um serviço ardentemente desejado por seus clientes."

Como não concluir que o Sergio está advogando em causa própria? Quem deseja "ardentemente" uma puta? Aquele que fica "cavando – muitas vezes desesperadamente – uma parceira sexual"; que pensa que dar em cima de uma mulher é "extremamente estressante"; que acha "extremamente confuso e frustrante" a atitude da mulher mé(r)dia de não pular no colo dele; que se sente "extremamente injustiçado" por ser gentil e mesmo assim não pegar ninguém; quem, senão o próprio S. de Biasi, peso médio-sublime? A babaquice é tanta que ele chega a argumentar que os homens que saem com putas serão "mais sinceros e afetivos"! Você está vendo que a desculpa é sempre a mesma? Se deixassem o cara comer quem ele quisesse, ele seria feliz, maravilhoso, legal, sincero, afetuoso. Como não deixam, aí ele fica todo desesperado, maluco, aflito.

Eu já disse, mas repito. Gente boazinha é sempre uma porcaria.

O mais engraçado é que a enorme angústia do Sergio "Tommy" de Biasi é a mesma do... Sidney Silveira, do Contra Impugnantes! O Sidney não manifestou em público o nível de desespero do Sergio. Mas se confessou também um atormentado por nós mulheres. Pelo menos é o que deduzo a partir disso: "a grande apetecibilidade da beleza feminina, aos olhos do homem cristão em permanente e titânica luta contra o pecado, é que traz, para a sã doutrina, um grande risco de queda." Veja bem os termos que ele usou: "grande apetecibildiade da beleza feminina"; "permanente e titânica luta contra o pecado". O estilo rocambolesco é para tornar majestosa uma coisa bem simples. O cara (Sidney?) não pode ver um rabo de saia. Senão, endoidece mesmo. É uma confissão espantosa. A julgar pelos termos usados, a luta do Sidney para não ver foto de mulher de biquíni é tão (ou mais) brutal que a dos cruzados para defender Jerusalém. O Sergio dá um passo além. Ele não fica só doido, angustiado. Ele acha que existe uma perfídia social que lhe impede de pegar mulher bonita. Mas o ponto de partida é o mesmo do Sidney. Bem que dizem que na hora do desespero, ateu é igualzinho ao católico mais fiel.

A julgar as opiniões desses dois, vou é me vestir feito uma muçulmana a partir de hoje. Para o meu próprio bem. Se você estiver com pena deles, azar. Leva os dois para casa. Só não reclama depois.

Mulheres se preparando para lidar com homens bonzinhos.

Sunday, December 20, 2009

Razões da evasão escolar

Aprender o ciclo reprodutivo das pteridófitas ou os ciclos haplobionte, diplobionte e haplodiplobionte, cálculo de prismas, Absolutismo...

Esses assuntos fazem menos sentido que o fatality do beijo da Kitana. Por sinal, como era kitsch Mortal Kombat.

Sunday, December 13, 2009

Tuesday, December 01, 2009

CAPÍTULO XII DA MORTE QUE DÃO AOS CATIVOS E CRUELDADE QUE USAM COM ELLES

(Direto da História da província de Santa Cruz, do Gândavo. A citação é grandinha. Mas você é uma pessoa letrada.)

CAPÍTULO XII

DA MORTE QUE DÃO AOS CATIVOS E CRUELDADE QUE USAM COM ELLES

Huma das cousas em que estes Indios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens, he nas grandes e excessivas crueldades que executam em qualquer pessôa que podem haver ás mãos, como nam seja de seu rebanho. Porque nam tam somente lhe dam cruel morte em tempo que mais livres e desempedidos estam de toda a paixão; mas ainda depois disso, por se acabarem de satisfazer lhe comem todos a carne usando nesta parte de cruezas tam diabolicas, que ainda nellas excedem aos brutos animaes que nam tem uso de razam nem foram nascidos pera obrar clemencia.

Primeiramente quando tomam algum contrario se logo naquelle fragante o nam matam levam-no a suas terras pera que mais a seu sabor se possam todos vingar delle. E tanto que a gente da aldêa tem noticia que elles trazem o tal cativo, dahi lhe vam fazendo hum caminho até obra de meia legoa pouco mais ou menos onde o esperam. Ao qual em chegando recebem todos com grandes afrontas e vituperios tangendo-lhe humas frautas que costumam fazer das canas das pernas doutros contrarios semelhantes que matam da mesma maneira E como entram na aldêa depois de assi andarem com elle triumfando de uma parte pera outra lançam-lhe ao pescoço huma corda de algodão, que pera isso tem feita, a qual he mui grossa, quanto naquella parte que o abrange, e tecida ou enlaçada de maneira que ninguem a pode abrir nem cerrar senam he o mesmo official que a faz. Esta corda tem duas pontas compridas per onde o atam de noite pera nam fugir. Dali o metem numa casa, e junto da estancia daquelle que o cativou lhe armam huma rede, e tanto que nella se lança cessam todos os agravos sem haver mais pessoa que lhe faça nenhuma offensa. E a primeira cousa que logo lhe apresentam he uma moça, a mais fermosa e honrada que ha na aldêa, a qual lhe dam por mulher: e dahi por diante ella tem cargo de lhe dar de comer e de o guardar, e assi nam vai nunca pera parte que o nam acompanhe.

E depois de o terem desta maneira mui regalado hum anno, ou o tempo que querem, determinam de o matar, e aquelles ultimos dias antes de sua morte, per festejarem a execuçam desta vingança, aparelham muita louça nova, e fazem muitos vinhos do sumo de huma planta que se chama aipim de que atraz fiz mençam. Neste mesmo tempo lhe ordenam huma casa nova onde o metem. E o dia que ha de padecer pela manhã muito cedo antes que o sol saia, o tiram della, e com grandes cantares e folias o levam a banhar a uma ribeira. E tanto que o tornam a trazer, vam-se com elle a hum terreiro que está no meio da aldêa e ali lhe mudam aquella corda do pescoço á cinta passando-lhe huma ponta pera traz outra pera diante; e em cada huma dellas pegadas dous, tres Indios. As mãos lhe deixam soltas porque folgam de o ver defender com ellas e ali lhe chegam huns pomos duros que tem entre si á maneira de laranjas com que possa tirar e offender a quem quizer. E aquelle que está deputado pera o matar he hum dos mais valentes e honrados da terra, a quem por favor e preminencia de honra concedem este officio. O qual se empenna primeiro per todo o corpo com penna de papagaios e de outras aves de varias côres. E assi sae desta maneira com hum Indio que lhe traz a espada sobre um alguidar, a qual he de hum páo mui duro e pesado feito á maneira de uma maça, ainda que na ponta tem alguma de pá; e chegando ao padecente a toma nas mãos e lhe passa por baixo das pernas e dos braços meneando-a de huma parte pera outra.

Feitas estas cerimonias afasta-se algum tanto delle e começa a lhe fazer huma falla a modo de pregaçam, dizendo-lhe que se mostre mui esforçado em defender sua pessoa, pera que o nam deshonre, nem digam que matou hum homem fraco, afeminado, e de pouco animo, e que se lembre que dos valentes he morrerem daquella maneira, em mãos de seus immigos, e nam em suas redes como mulheres fracas, que nam foram nascidas pera com suas mortes ganharem semelhantes honras. E se o padecente he homem animoso, e nam está desmaiado naquelle passo, como acontece a alguns, responde-lhe com muita soberba e ousadia que o mate muito embora, porque o mesmo tem elle feito a muitos seus parentes e amigos, porem que lhe lembre que assi como tomam de suas mortes vingança nelle, que assi tambem os seus o hão de vingar como valentes homens e haverem-se ainda com elle e com todo a sua geraçam daquella mesma maneira.

Ditas estas e outras palavras semelhantes que elles costumam arezoar nos taes tempos, remete o matador a elle com espada levantada nas mãos, em postura de o matar, e com ella o ameaça muitas vezes fingindo que lhe quer dar. O miseravel padecente que sobre si vê a cruel espada entregue naquellas violentas e rigorosas mãos do capital immigo com os olhos e sentidos promptos nella, em vão se defende quanto pode. E andando assi nestes cometimentos acontece algumas vezes virem a braços, e o padecente tratar mal ao matador com a mesma espada. Mas isto raramente, porque correm logo com muita presteza os circumstantes a livra-lo de suas mãos. E tanto que o matador vê tempo oportuno, tal pancada lhe dá na cabeça, que logo lha faz em pedaços. Está huma India velha preste com hum cabaço grande na mão, e como elle cae acode muito depressa e mete-lho na cabeça pera tomar nelle os miolos e o sangue. E como desta maneira o acabam de matar fazem-no em pedaços e cada principal que ahi se acha leva seu quinhão para convidar a gente de sua aldêa. Tudo emfim assam e cozem, e nam fica delle cousa que nam comam todos quantos ha na terra, salvo aquelle que o matou nam come delle nada, e alem disso manda-se sarjar por todo o corpo, porque tem por certo que logo morrerá se nam derramar de si aquelle sangue tanto que acaba de fazer seu officio.

Algum braço, ou perna, ou outro qualquer pedaço de carne costumam assar no fumo, e te-lo guardado alguns mezes, pera depois quando o quizerem comer, fazerem novas festas, e com as mesmas cerimonias tornarem a renovar outra vez o gosto desta vingança, como no dia em que o mataram, e depois que assi chegam a comer a carne de seus contrarios, ficam os odios confirmados perpetuamente, porque sentem muito esta injuria, e por isso andam sempre a vingar-se huns dos outros, como já tenho dito. E se a mulher que foi do cativo acerta de ficar prenhe, aquella criança que pare, depois de creada matam-na, e comem-na sem haver entre elles pessoa alguma que se compadeça de tam injusta morte. Antes seus proprios avós, a quem mais devia chegar esta magoa, sam aquelles que com maior gosto o ajudam a comer, e dizem que como filho de seu pai se vingam delle, tendo pera si que em tal caso nam toma esta creatura nada da mãi, nem crêm que aquella immiga semente pode ter mistura com seu sangue. E por este respeito, somente lhe dão esta mulher com que converse: porque na verdade sam elles taes, que nam se haveriam de todo ainda por vingados do pai se no inocente filho nam executassem esta crueldade. Mas porque a mãi sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes quando se sente prenhe mata-a dentro da barriga e faz com que nam venha à luz. Também acontece algumas vezes affeiçoar-se tanto ao marido, que chega a fogir pera sua terra pelo livrar da morte. E assim alguns Portuguezes desta maneira escaparam que ainda hoje em dia vivem . Porem o que por esta via senam salva ou por outra qualquer manha occulta, será cousa impossivel escapar de suas mãos com vida, porque nam costumam da-la a nenhum cativo, nem desistirão da vingança que esperam tomar delle por nenhuma riqueza do mundo, quer seja macho, quer femea, salvo se o principal, ou outro qualquer da aldêa acerta de casar com alguma escrava sua contraria, como muitas vezes acontece, pelo mesmo caso fica libertada, e assentam em nam pertenderem vingança della, por comprazerem áquelle que a tomou por mulher, mas tanto que morre de sua morte natural, por cumprirem as leis da sua crueldade, havendo que já nisto nam offendem ao marido custumam quebrar-lhe a cabeça, ainda que isto raras vezes, porque se tem filhos nam deixam chegar ninguem a ella, e estam guardando seu corpo até que o dêm á sepultura.

La mujer barbuda

Não deixa de ser um quadro da atual situação bizarra presidencial.