Friday, October 30, 2009

Às 2h13

O Pedro mencionou o Memórias do subsolo. Conheço a fama do Dostoiésvki, afinal civilizada sou. Agora, é bom a gente ficar de olho. Desde Rousseau e as Confissões, nós (quero dizer, Paul Johnson e eu e talvez você) sabemos que falar mal de si mesmo pode ser sinônimo de golpe. Muitas vezes não deixa de ser outra forma de orgulho. (Algum santo já disse isso, não? Não lembro qual.) No caso do Rousseau, a dica é a opinião que ele tem do Pecado Original. Se a culpa não é do indivíduo, é da sociedade. Se é da sociedade, ele (Rousseau) é só uma vítima. Se a sociedade é a causa do mal, o mal pode ser combatido na sociedade. Aí chegamos num estágio bizarro, onde você pode se chamar de cocozão à vontade. Por quê? Quanto mais você se xingar, mais você estará afirmando sua inocência. Porque a culpa será sempre da societé. Malvada.

Já que o Pedro tem gostado tanto do Girard, seria legal ele comentar o Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Do ponto de vista do Rousseau, o desejo mimético (até onde pude entender as explicações do Pedro) não é natural. É causado pela civilização. (Pelo que entendi desse post, Rousseau mesmo poderia ser analisado pela a teoria do duplo angélico. Mas isso é outro assunto.)

Blogueiro

Carl Spitzweg, O poeta pobre. Ou Blogueiro preparando um post.

Sunday, October 25, 2009

Influência esotérica

Então chega o professor e diz: "Porque vocês sabem... Qualquer estudo não deixa de ser uma tentativa de manipulação da sociedade. Diz muito do cara envolvido." Ok. Boa parte da aula era sobre a influência da concepção de Providência calvinista na teoria política de Althusius (1563-1638). Se o professor fosse um calvinista, beleza. Seria uma tentativa bizarra de influenciar a sociedade. Mas eu até que entenderia. Agora, o homem é ateu. Já disse mil vezes que não é ateu militante. Que tipo de influencia ele procura exercer? Para mim, é como estudar cinemática para dar um pedala-Robinho.

É um mistério. Soa como o Petrarca e o seu amor estranho. Já que não conquistou a Laura-concreta, ele vai escrever trocentos poemas sobre a Laura-idéia. Então se o cara não consegue nem se tornar síndico do prédio, ele se vingará ensinando às gerações mais jovens as idéias políticas de um calvinista holandês do tempo do ronca.

Pode ser uma manipulação às avessas. Como se dissesse: "Não quero saber nada de você, [sociedade] nojentinha." Aí o carioca vai falar sobre os diferentes usos da palavra "soma" na Grécia entre os séc. IX e IV a.C. Ou vai se preocupar com a concepção de verdade na Etiópia entre 312-528. Tudo como se estivesse se mandando para a Arcádia. Não tenho nada contra. Pelo contrário. Universidade tem que ser mesmo o abrigo do inútil. (Entenderam isso de formas um pouquinho diferentes, até pessoais. Deixa quieto.) Seria uma manipulação esquisitinha. Método passivo-agressivo? Não seria mais fácil pensar que o estudioso pesquisa sem grandes motivos ocultos? Por que se apegar ao mais inusitado? É tão maluco imaginar que alguém estuda pelo prazer do estudo?

Saturday, October 24, 2009

Vivo sin vivir en mí

Da flor de Ávila. Modelo para todos nós.

(Versos nacidos del fuego del amor de Dios que en sí tenía)

Vivo sin vivir en mí,
y de tal manera espero,
que muero porque no muero.

Vivo ya fuera de mí
después que muero de amor;
porque vivo en el Señor,
que me quiso para sí;
cuando el corazón le di
puse en él este letrero:
que muero porque no muero.

Esta divina prisión
del amor con que yo vivo
ha hecho a Dios mi cautivo,
y libre mi corazón;
y causa en mí tal pasión
ver a Dios mi prisionero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué larga es esta vida!
¡Qué duros estos destierros,
esta cárcel, estos hierros
en que el alma está metida!
Sólo esperar la salida
me causa dolor tan fiero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué vida tan amarga
do no se goza el Señor!
Porque si es dulce el amor,
no lo es la esperanza larga.
Quíteme Dios esta carga,
más pesada que el acero,
que muero porque no muero.

Sólo con la confianza
vivo de que he de morir,
porque muriendo, el vivir
me asegura mi esperanza.
Muerte do el vivir se alcanza,
no te tardes, que te espero,
que muero porque no muero.

Mira que el amor es fuerte,
vida, no me seas molesta;
mira que sólo te resta,
para ganarte, perderte.
Venga ya la dulce muerte,
el morir venga ligero,
que muero porque no muero.

Aquella vida de arriba
es la vida verdadera;
hasta que esta vida muera,
no se goza estando viva.
Muerte, no me seas esquiva;
viva muriendo primero,
que muero porque no muero.

Vida, ¿qué puedo yo darle
a mi Dios, que vive en mí,
si no es el perderte a ti
para mejor a Él gozarle?
Quiero muriendo alcanzarle,
pues tanto a mi Amado quiero,
que muero porque no muero.




Bernini, O êxtase de Santa Teresa.

De torrente

Nós, pessoas-maravilhosas-amantes-de-filosofia-clássica-e-literatura-estrangeira-e-tudo-de-bom-gosto (de Bach a cristianismo highbrow), combatemos putinhas a breguice atmosférica. Os tradicionalistas de Internet fazem coisa parecida. (O seu coração queima pela missa dos tempos de Dom João Charuto? Só a Idade Média presta. A verdade está subtendida na doutrina perene implícita em todas as civilizações tradicionais. Tudo revelado nos manuscritos de Prestes João, grande intelectual. Não sabia? Pague uma Internte a cabo já. Está tudo na rede, 2009. Leia comendo chokito.)

Prestes João, nosso modelo de intelectual.

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A abstração liberal exorciza os demônios. Lá no fundo, todo demônio passou num concurso público infernal. O negócio é descer o porrete austríaco nos energúmenos, como fez A. Schwarzenegger contra o Predador. (Se o negócio for na base do vale-tudo, dá até para usar o sistema comunista. Afinal, Marx era satânico-liberal e não sabia.) Sejamos reacionários. Podemos copiar o modelo da Federação de Estados da Micronésia.

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Vamos ver de All-Star (ou não) o último filme do Q. Tarantino? Dá boas discussões sobre história. De preferência, nas comodidades do shopping. Se você preferir, podemos esperar a próxima segunda. Aí a gente desconstrói a razão usando argumentos racionais na a.k.a.demia.

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Mas o intelectual tem que passar bem a roupa. Tem que saber dobrar também. (Lavar a louça e cozinhar pegam bem.) Como preparação para a faculdade de humanas, prova de habilidade específica do lar. No exame específico, limpar a bundinha de um neném e trocar a fralda. Você acha que THEODOR LUDWIG WIESENGRUND-ADORNO passaria?

Se o cara nem sabe lavar a roupa direito, vai lá saber os mistérios ensinados por Prestes João?

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A cultura é uma gorda enorme. Ainda por cima, carregada de maquiagem. Olhando assim, ela é modelo para o quê/de quem? Qual o sentido de gastar a maior bufunfa para ficar assim? É melhor trabalhar como atendente de telemarketing. Boa tarde, o que o senhor deseja?

Cultura.


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Enquanto isso, a gente vai zoando nos blogs. Isso sim é atividade séria. Sem ironia. Quero dizer, não muita. Até acho que o Nietzsche daria um bom blogueiro.

Thursday, October 22, 2009

Menino passarinho acha que vivemos na "era da transparência"

Foi o que disse um tal de Flávio Castro, segundo o Comunique-se.

“A crise financeira aumentou a pressão para uma clareza nas empresas. Essa é a era da transparência”, declarou o jornalista Flávio Castro, especialista em gerenciamento de crise e reputação Castro, durante o evento "Efeito Obama", em São Paulo. Ele mencionou o resultado de pesquisa publicada pelo The Economist e realizada junto a executivos de grandes empresas. (A redação não é culpa minha.)


Você consegue entender o que ele quis dizer com "pressão para uma clareza"? Se ela "aumentou", significa que já havia? Mas quem pressiona/vem pressionando? (Ah, essas atribuições genéricas...) E de que crise estamos falando mesmo? Para mim, esse F. Castro está dizendo "blábláblábláblá" e ganhando prestígio com isso. Afinal, deve ser bonito ser conhecido como "especialista em gerenciamento de crise e reputação". Sem contar essa história de vivermos numa "era de transparência". Como assim? Como pode haver tanta transparência com tantas fraudes? Ou será que corrupção governamental não conta? Se houvesse tantas pressões por transparência (o jornalista acha que a gente é trouxa), por acaso o Lula continuaria com a popularidade que tem?

Na menos pior das hipóteses, o Flávio Castro é o Menino Passarinho da música do Luiz Vieira.

Exposição positivista do Rio de Janeiro II

O mais engraçado é que a contagem contínua do número dos mortos só acontece depois das ações da polícia.

Mas tem algo ainda mais estranho. (Nem é estranho. Mas vá lá.) Um problema policial é tratado como problema político. Ou então é tratado como questão educacional. Você pode até perceber que existe uma ligação entre a política, a educação e a bandidagem. Só que são domínios diferentes. Se é assim, então o método de um não serve para o outro. Você não combate o crime ensinando Camões a gente armada! Se está difícil de entender, vou dar um exemplo didático. De um lado, um bandido portando um revólver. Do outro, você e as Rimas. Se você for assaltado, recitar as Rimas não vai adiantar muita coisa. Agora, ignorar uma coisa dessas não é só questão de burrice mortal. É premeditação. Meio suicida, mas é.

Sunday, October 18, 2009

Exposição positivista do Rio de Janeiro


Traficantes abateram a tiros um helicóptero da polícia. O piloto ainda conseguiu pousá-lo num campo de futebol. Mas ele explodiu, matando parte da tripulação. A última vez que vi coisa parecida foi em Falcão negro em perigo.

Em outro ponto da cidade, atearam fogo em dez ônibus. É bom lembrar que já queimaram ônibus com gente dentro.

Enquanto isso, tem quem se preocupe com o que vão falar do Brasil. Ainda mais por causa das Olimpíadas.

Por quase três dias seguidos, houve uma série de tumultos em estações de trem. Vários feridos. O Muniz Sodré fez uma análise impressionante a respeito. Ele acha que "o acontecimento foi descrito [pela imprensa] como uma anomalia (corroborada inclusive por algumas evidências de sabotagem) dentro da factualidade urbana." Mas como esse cara é um "observador atento", ele percebeu algo a mais. O que aconteceu foi uma "ruptura de um pacto implícito entre o poder de Estado e a massa trabalhadora." Foi "um fenômeno molecular capaz de suscitar reações violentas no nível do conflito urbano continuado a que já se deu o nome de 'guerra civil molecular'." Não sei quanto a você. Com uma explicação dessas, dá vontade de sair depredando tudo mesmo.

Saturday, October 17, 2009

A Espectadora recomenda (ou não)

Num comentário qualquer, eu disse alguma coisa sobre ver uma "maratona Fassbinder". Mas não é que está rolando no Rio uma apresentação dos filmes desse cara quinta (15/10), no CCBB? Nome da mostra: Filmes libertam a cabeça. Aí você já percebe a pretensão da coisa.

Recomendar eu recomendo não. Mesmo sendo de graça. Agora, às vezes é bom assistir só para poder falar mal depois. Todo mundo precisa sofrer um pouquinho com os diretores mezzo conhecidos, mezzo cults (by Nicolau).

(Se é para recomendar uma experiência bizarra, veja Cobra verde. É do W. Herzog. Ai, meu santinho! O Klaus Kinski faz um papel de cangaceiro no séc. XIX. Vai parar na África e ainda lidera um exército de amazonas contra um rei maluco. Tudo em alemão. Cheio de pretensões artísticas. Claro que tem gente que acha o filme uma beleuza. Tive até que pedir desculpa à minha mãe quando assistimos juntas.)

Muito mais recomendável é o festival Ópera na tela, até o dia 29/10. Disponível para o pessoal do Rio, Manaus, Belém e São Paulo. Agora, se as montagens são decentes ou não... Vai na fé, amigo.

Sunday, October 11, 2009

Continuação

Mas nada de radicalismos. Não é que política não serve para nada. O que acho (é tão importante o que acho, não concorda?) é o seguinte:

1) Política é participação, não falatório. Ainda bem que não vivemos mais em Atenas (república dos barbudinhos não-petistas). Mas pelo menos a participação era ativa. Em democracias representativas de verdade, você tem várias formas de participação. Nem que seja apenas do ponto de vista local. (Opinião pública não é forma de exercer democracia. Se for por aí, até a Alemanha nazista era uma democracia. Por que você acha que os nazi se preocupavam tanto com propaganda?)

2) É preciso haver uma circulação de informações. Mas não adianta se há um consenso fundamental! Jornalismo nenhum deve funcionar na base de um credo. Nada de "unidade na multiplicidade". Jornalismo não é religião. Vou citar aqui um trecho interessante do livro Hitler, do J. Fest (o negrito é por minha conta):

Desde a primavera de 1933, a censura no meio radiofônico já era efetuada em larga medida, tanto em relação aos assuntos ventilados quanto a seus produtores e apresentadores. Dos três mil jornais em circulação (número aproximado), inúmeros foram fechados (em especial os diários regionais), fosse devido a uma pressão financeira ou a uma guerra de subscrições realizada com o apoio do governo. Outros órgãos foram confiscados. Apenas alguns grandes jornais, cujo prestígio lhes assegurava certas regalias, sobreviveram em parte, como por exemplo o Frankfurter Zeitung, até os anos da guerra. Seu campo de ação tornou-se, desde o início da tomada do poder, estritamente limitado. Um rigoroso sistema de instruções e de regulamentações de estilo, estabelecido principalmente no decorrer dos contatos diários dos jornalistas com as autoridades estatais, zelava pela manutenção da ordem política e social, e aboliu, por assim dizer, nas entrelinhas, toda liberdade de imprensa. Ao mesmo tempo, Goebbels estimulava, apesar de tudo, as diferenças formais e estilísticas e tratava de minimizar o monopólio estatal, ou melhor, de disfarçá-lo por meio da variedade e quantidade de jornais editados. Como ocorria com a cultura em geral, a imprensa devia, segundo a palavra de ordem que lhe fora dada, ser "uniforme em suas intenções, multiforme na apresentação dos objetivos".

3) A política não deve ser um assunto "macro". Só em exceções muito bem justificadas (como invasão estrangeira). Ela serve é para resolver problemas pontuais. Fora disso, o governo vai se comportar como uma entidade abstrata impondo normas a sujeitos concretos. Mas não deveria ser o contrário? Como é que uma entidade abstrata pode se achar no direito de concretizar o que quer que seja? Quem deve determinar o Estado é uma pessoa! Uma execução do governo federal sempre tende a ser um mandamento arbitrário do ponto de vista do indivíduo. Pode ter certeza que ele não pedirá para você licença. Se você não obedecer, tá ferrado;

4) As leis precisam ser claras. Quanto mais gerais, mais simples. Uma constituição federal não pode ter mais de quinze páginas. Se um camarada não conseguir decorar a constituição federal, então ela não presta! A constituição será concretizada de duas formas. Uma é pelas instâncias inferiores de administração. A outra é pelos usos e costumes. O metrô está lotado de tarados? Está mesmo. Agora, tarados de metrô são mais toleráveis que burocratas legislando sobre comportamento. Falando de outro jeito, o legislador tem que legislar a contragosto. Toda lei tinha que começar com um pedido de desculpas;

5) Para mim, a coisa mais linda é o direito natural a não querer saber de coisa nenhuma. Por que você se acha tão importante a ponto de eu ser obrigada a votar em você?

Saturday, October 10, 2009

Honduras

Outro dia me perguntaram: "Como é que você pode ignorar o que está acontecendo em Honduras?" Oxe! Até uns três meses atrás, ninguém sabia bereguendém nenhum sobre Honduras. Eu só sabia que a capital se chama Tegucigalpa (sempre fui boa para gravar o nome de capitais). E que fica na Am. Central. Por que agora sou obrigada a ter uma opinião sobre a política de El Salvador? Não preciso saber nada sobre o tal do Zelaya. Eu sempre soube que todo bigodudo é picareta.

"Porque o Brasil está envolvido". Ah tá. Brasil. Na verdade, "governo federal". Aquilo que nos governa, mesmo lá do quinto dos infernos. Olha bem. Minha influência nas decisões do governo federal são nulas e/ou irrelevantes. O máximo que faço é (ser obrigada a) apertar um botão a cada quatro anos. Tem gente que ama fazer isso. Eu não dou a mínima. Tanto que sequer paguei ainda a multa por abstenção da última eleição (para prefeito, é verdade).

Agora, já me preocupei bastante com política. Já cansei de discutir sobre. Hoje em dia, meu interesse está mais na base de: a) curiosidade mórbida; b) gandaia.

(Acho maligno o interesse por administração pública. Tem quem goste. Taí o Visconde de Cairu que não me deixa mentir. Mas participar de discussões sobre Petrobrás e tal... Mesmo uma seqüência de filmes do W. Fassbinder é melhor.)

Só acredito em participação política se o governante estiver a um tiro de flecha. Se até um monstro como o Ipupiara podia ser atacado, como é que o político não pode? Como é que você pode ser governado por alguém que nunca viu cara a cara? Que nem se dá ao trabalho de dar uma satisfação! "Ah, mas não tem como. O Brasil é enorme." Então pior para o Brasil. Ou para o governante. Senão é como ser governado pelo (e discutir sobre as ações do) Diabo do Inferno, inimigo da Patrine.


Esse homem pode ser o verdadeiro governante do Brasil, sabia?


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Só uma coisa é pior que discutir sobre a política do Diabo do Inferno. É ler A escrita da história do Michel de Certeau. Li só um capítulo. Quê? I-le-gí-vel. Deve ser por isso que tem quem goste. Sou mais jogar Super Punch-Out.

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Cheguei a chamar Honduras de El Salvador. Para você ver como estou por dentro do assunto. Já corrigi. Valeu.