Monday, September 28, 2009

Essencial

O que é essencial, para mim? Um bom condicionador. Cuidar do olhar. Sessões eternas de Händel-Bach-Couperin. Tentar ser menos asna para Deus. Rir sem perder a reverência. Amigos melhores que eu. Trabalhar. Ao Goethe, suspiros. Ao Rousseau, zoação. Nem conto o resto.

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Se sou insignificante para a macro-história do mundo (não é, seu Braudel?), não estou nem aí. Azar. Azar total. Se a História se faz de superior para cima de mim, tem problema não. Me faço de superior para cima dela também. Quem risca com um giz o círculo da minha vida sou eu. Quem lida com meus problemas sou eu.

Ela pode ser a cheerleader dos devaneios adolescentes de muitas pessoas. Pode até ser da beleza idéia, uma linda e pura semidéia. Supimpa. Agora, é musa de papel. Por isso, sou mais eu. Clio é uma adaptação dos homens. É um problema mais ou menos conveniente. Eu já existo sem querer saber de você, um problema muito maior que qualquer história-problema.

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Um homem que tende a ser determinado. Isso que é um homem atraente. Essencial.

Sunday, September 20, 2009

Originalidade artística

Quanto mais ouço compositores dos idos do séc. XVIII, mais me convenço de que esse negócio de arte "original", "radical", escolha-o-epíteto-que-você-acha-mais-bacaninha, é a maior furada. Esses critérios são a maior bolha de sabão. É transformar a arte num monte de intuições mais ou menos destrambelhadas.

Os músicos dos idos do séc. XVIII eram verdadeiros mestres-artesãos. Formavam linhagens de músicos. Pega aí os Couperin, os Bach, os Scarlatti, os Purcell... A arte deles era muito bem trabalhada, clara. Mas a criatividade não era por isso prejudicada. Nenhum pouco. Pelo contrário! Sobrava inventividade. Afinal, é importante ter imaginação. Eles sabiam explorar muito bem as variações melódicas, sem deixar de criar harmonias muito legais (e dissonâncias ainda mais interessantes). Tudo dentro das possibilidades da técnica. É muito instrutivo que tantos virtuoses tenham surgido enquanto a arte da música se consolidava de forma cada vez mais clara. Estão aí as sonatas do D. Scarlatti (um mundo musical espantoso!) que não me deixam mentir. Claro que esgotar uma música em combinações de variações* não esgota, por sua vez, as próprias possibilidades da música. Por isso, aos poucos o leque técnico se expandiu. Daí veio (para dar um exemplo) a sonata-forma. Isso só foi possível graças a um espírito de experimentação intensa. Não deixa de ser interessante esse contraste, o trabalho artesanal bem claro e a experimentação constante. Só depois vieram as regras "clássicas" da música, com as sistematizações práticas (Bach, Cravo Bem-temperado) e teóricas (Rameau, Tratado de harmonia). Pode ser que aí sim a experimentação se tornasse cada vez mais complicada. Mas na arte, a prática é abusada por natureza! (Tenho vontade de fazer algumas considerações sobre duas coisas bacanas, cuja articulação seria bastante útil para entender a criação artística. Uma é a idéia orteguiana da formação da ciência como problema pessoal. A outra é a expansão de um domínio artístico, graças a um auctor (em latim mesmo, para conservar o sentido de aumento de possibilidades). Fica para depois.)

Para exemplifica o que eu disse, a Sonata em sol maior K 141, do D. Scarlatti.



Agora, a originalidade. Os músicos daquela época não ligavam tanto para isso. Não como nós. Ninguém tinha muita vergonha de reaproveitar temas. Até mesmo os dos outros! Às vezes, certas melodias que tinham se tornado "patrimônio público" eram retrabalhadas por todo mundo. Foi o caso famoso do tema da Folia. Ele foi tantas vezes visitado que se tornou quase um gênero musical. Igual a mulher fácil, todo mundo alguma vez na vida se meteu com ela. Outra coisa interessante (que com certeza influenciava a produção musical) era tanto a necessidade de produzir bastante, como não haver muitas reapresentações (tirando alguns casos). A liberdade artística possuía limites circunstanciais bem claros.

Um exemplo famoso de reaproveitamento? Ouça a ária "Zion hört die Wächter singen" e o coral Wachet auf, ruft uns die Stimme.





Na verdade, tudo é um problema religioso. Você não pode pensar em originalidade, radicalidade ou individualidade absolutas. Não na arte! Tudo é feito a partir de algo que já existe, por meios que (pelo menos em princípio) já estão dados. Nesse domínio, nada surge do nada, nem possui uma existência única em absoluto, não-comunicável com (nem compreensível por) nada mais. Nem é possível que a arte seja em si o dispêndio mais gratuito de energia, a negação de tudo o que pareça estático. Essas coisas só fazem sentido se você pressupor ser um deus, agindo que nem deus e compreendido (talvez, não importa) por outro deus. Me desculpe, mas isso não faz sentido nenhum. É só o mais puro fogo no rabo.


*Acho que os tópicos "variação" e "improvisação" são relacionados. São tantos os grandes improvisadores que compuseram grandes variações, que não dá para negar que uma coisa deve ter relação com a outra. Como na música barroca (mas não só nela) a capacidade de improvisar fazia parte do métier, talvez por isso as variações acabaram se tornando uma parte integrande das músicas. Tanto a capacidade de improvisar como a de variar exigem bastante inteligência musical. Nem preciso dizer nada sobre o nível de inteligência exigido para articular vários temas. Aliás, por essas e outras Beethoven é um gênio tão imenso que chega a ser inacreditável. A mesma coisa com Haydn, embora sob outros aspectos (não menos espantosos). Música é mesmo uma coisa boa demais.

Grimmelshausen

Hans Jakob Christoffel von Grimmelshausen. Não parece meio doidinho?


Olha só que legal. Saiu uma tradução do O aventuroso Simplicissimus, do Grimmelshausen. É um clássico romance barroco alemão. O pior é que já tem quase um ano que foi traduzido. Só agora fui saber. Nem preciso dizer muito sobre o assunto. A barroquice do título ajuda: O aventuroso Simplicissimus, isto é: A descrição da vida de um singular vagante chamado Melchior Sternfels von Fuchsaim, onde e com que aspecto ele veio a este mundo, o que nele viu, aprendeu, experimentou e sofreu, e também por que voluntariamente o abandonou. De leitura sumamente divertida e a todos proveitosa. Dado a lume por German Schleifheim von Sulsfor. A tradução é de Mario Luiz Frungillo. (Obrigada, Seu Mario e UFPR.)

Monday, September 07, 2009

Conversa com N.

O Nicolau escreveu há semanas um texto sobre a relação entre arte e comida, que continuava o que discutíamos aqui. Vamos lá.

(É só uma resposta, que não caberia na caixinha de respostas do blogger e nem, acho eu, combinaria muito com o meu blog, de modo que resolvi fazer isso aqui só para que eu possa, com mais vagar, pensar em algumas boas provocações suas.)

Ele abriu um blog chamado Conversas com T. Vamos deixar as coisas bem claras. T é de Tanja. Não pensem besteiras!

Há uma pegadinha na discussão. Na verdade há duas discussões simultâneas. Uma é a relação entre comida e religião e outra é o possível status de “arte” que se pode dar à comida. Mas as duas discussões se resolvem numa única questão: qual o valor que se pode dar à comida.

Vou começar discordando. Desculpe mas o vinho não foi utilizado por Cristo à toa. Não poderia ter sido qualquer outra bebida. No way. Toda a vida de Cristo é símbolo. O vinho pode muito bem ser símbolo de sangue pura e simplesmente. Desde que seja vinho tinto, e ninguém nunca soube qual é a cor do vinho que se bebia…porque a tintura do vinho depende de um processamento posterior à sua própria fermentação (o vinho tinto fica tinto porque depois se acrescenta a casca da uva – antes disso todo vinho é branco). É possível que o vinho que Cristo tenha bebido fosse menos tinto do que se imagina, provavelmente mais marron, e certamente doce e com alto teor alcóolico.

Como diria o cancioneiro do rock brasileiro, opa, peraí, caceta. Tem uma coisa precisa ser esclarecida logo. Me incomoda dizer que "toda a vida de Cristo é símbolo". Talvez tenha faltado um "também". Pode ser. Bom, na missa do domingo passado, fizeram a leitura do Evangelho segundo São Marcus. A passagem foi aquela sobre a cura do surdo-mudo. Claro que dá para extrair dela um monte de imagens/símbolos/metáforas/alegorias/sei lá o quê. Você pode até fazer uma interpretação simbólica da saliva de Cristo no ouvido do surdo-mudo. Mas o fundo é histórico. É preciso martelar essa idéia. Toda a vida de Cristo não é símbolo (ou só um símbolo). Faço questão de enfatizar isso. Se você perder de vista esse ponto fundamental, os evangelhos perdem o sentido! A vida de Cristo foi um acontecimento, ponto. Jesus Cristo não simboliza nada. É Ele a fonte de tudo. Faço questão de bater nesse ponto, porque daí para maluquices esotéricas é um pulo.

Sobre Caná. Você não pode se esquecer que o sentido do sacrifício de Cristo é salvífico. Se é salvífico, é motivo de júbilo. O sangue de Cristo é motivo de alegria! O banquete nas Bodas de Caná é um presságio do banquete celeste. Mas só seremos convidados se provarmos o sangue de Jesus Cristo. Essa interpretação ("sacrificial") ajuda a entender até porque Jesus disse assim à Santa Maria, depois que ela falou que tinha acabado o vinho: "Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou." Como assim, "minha hora não chegou"? É que Ele está se referindo ao sacrifício, que preparará o banquete celeste. Mas é bom eu dizer também que o vinho sempre teve valor sacrificial mesmo entre os judeus também.

Não é novidade nenhuma a relação que existe, desde sempre, entre comida e religião. Das cerimônias antropofágicas da polinésia às orações dos cristãos antes de cada refeição, a sacralidade da comida está presente. Você consegue se imaginar almoçando uma lasanha à bolonhesa da Sadia no Domingo de Páscoa? Duvido. Não sabia do suco de cacau. Mas muitas bebidas rituais são fermentações sem coloração escura – até porque os duplos fermentados (aguardentes de um modo geral) são claros ou no máximo amarelados. Nem sempre a simbologia é o sangue. Mas sempre há simbologia.

Ah, sim, já ia esquecendo: a champagne é uma invenção dos monges. Monges que eram craques em produzir, além de vinho, cerveja da melhor qualidade.

Alguém que adora cerveja (de qualidade) outro dia fez uma alusão aos monges cervejeiros. Católicos gostam de boa vida também, como disse o M. Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo.

Acho que a separação entre sagrado e profano era desconhecida até 1789. Só não vou defender cheia de manha essa idéia porque a ouvi só por alto.

Mas ok, agora vou concordar com você: a relação entre a comida e o sagrado, inclusive no cristianismo, não autoriza a conclusão de que qualquer lanche tenha que ser uma revelação divina ao paladar. Comida pode ser fútil. Mas literatura e música também. Quem gasta R$ 1.000,00 numa garrafa de vinho pode ser tão idiota quanto quem vai ao Louvre e passa batido pelas pinturas góticas só para ver a Gioconda. Toda futilidade é ridícula, mas a futilidade, que você com toda razão critica, não é culpa da comida e da bebida, é culpa da quem bebe e come.


Olha, não sei se dei a entender que só o que proporciona prazer sublime presta. Se dei a entender, quero desfazer esse mal-entendido. A história demonstra que quando você começa defendendo uma filosofia do sublime, no fim você acaba penteando o cabelo para frente, tem aparência andrógina e chora à toa no quarto. Literatura e música não são passwords para se chegar ao último estágio da realidade. Nem Goethe nem Schubert são vacinas contra a estupidez. O que mais tem é retardado que lê muito.

O paladar não é um sentido especialmente rico. O olfato é riquíssimo – quase como a audição. Os dois sentidos, porém, se misturam no cérebro. Você, quando se alimenta, sente, na verdade, uma mistura de paladar e olfato – por isso que, quando você está gripada (e com o olfato prejudicado), a comida não tem gosto, ou melhor, você só sente os gostos básicos: salgado, doce, amargo e azedo (e olhe lá).


O que interessa aqui é o "quase". Fiquei já satisfeita. Se você encara a audição num patamar mais alto que o olfato, beleza. Por que é assim? Aí é outra discussão.

Claro que comida não é arte. Comida é, antes de mais nada, uma função vital, biologicamente falando. Fiquei pensando sobre isso e achei um paralelo com o sexo (um parelelo nada original, confesso). Sexo também é uma função vital. Por melhor que se faça – sexo e comida -, nenhum dos dois jamais poderá alcançar um status artístico, estritamente falando, é lógico, mas nem por isso devem ser relegados a funções subalternas na vida. Aí é que esta.


Mas a preparação de um prato é uma arte. No sentido antigo, mas é. A culinária é uma forma de arte. A satisfação proporcionada por um bom prato é enorme! Se você sai feliz depois de uma boa macarronada, então é um prazer não só físico. Toca o espírito. A razão de ser da culinária foi cumprida. É a perfeição! Veja como não acho tão caidaço assim o papel da comida como prazer espiritual! Com o sexo, até acontece coisa parecida. Vou me explicar melhor mais a frente.

Comida e sexo são também tecné. Ambos estão intimamente relacionados com a Cultura, e ambos possuem possibilidades materiais que podem alcançar maior ou menor, hummm…..digamos, perfeição. Mas vamos falar só de comida porque senão eu vou ficar constrangido.


Se você acredita em instinto, basta tê-lo (e capacidade física) para estar apto. Do ponto de vista dos sentidos, o sexo está na ordem do tato. Tato por tato, até uma minhoca tem. E convenhamos que os objetos captados pelo tato não são lá muito variados. Lógico que não estou julgando o prazer obtido pelo tato. É bom receber o abraço de um amigo. Agora, o detalhe que eu deixei para comentar agora é que não acho que exista uma "técnica" para se fazer sexo. Não mesmo! Pelo menos não no sentido de techné. Só se for num sentido muito figurado. Isso de "profissional do sexo" é só uma figura de linguagem. O que seria a "arte do sexo"? O conhecimento bem fundamentado de regras gerais de um domínio específico, cuja aplicação é prática por excelência. É como se houvesse um manual, que você seguisse tintim por tintim. Isso não ocorre com o sexo. Até o senso comum diz que o sexo não é assim! Aqui está a diferença com a culinária. Ela sim é uma techné. Do ponto de vista do conhecimento, ela está um degrau acima. Não é à toa que um chef bem-sucedido deve ganhar mais que uma "profissional do sexo" bem-sucedida! No máximo, sexo é uma questão de experiência. (Para muita gente, é questão de memória. E chega desse assunto.)

Comida nunca pode ser arte não pela questão sensorial, nem pela questão técnica, mas pela limitação óbvia na sua expressividade. Comida não expressa porra nenhuma. Comida pode até implicar lembranças, sentimentos, passagens, mas não expressa nada. Sim, comida é para se alimentar porém não é só para se alimentar. Ter comida à mesa é motivo de agradecimento a Deus. E acho pouco provável que Deus tenha colocado à disposição do Homem tantos belos ingredientes à toa, convenhamos.


"Comida não expressa porra nenhuma." Meu Deus, como ri ao ler isso. Mas olha só. Arte também não pode ser só expressão. Expressão por expressão, um orangotando berrando (orangotando berra?) é mais expressivo que O grito do Munch. Na arte, a técnica é dos princípios fundamentais. Até porque ela permite que você manuseie os meios de expressão. Então meio que inverti as coisas. A comida pode ser objeto artístico no sentido de produção técnica. De resto, tenho o que discordar não.

Portanto, o valor que se pode dar à comida e à bebida nunca será um valor artístico stricto sensu. Mas não precisa ser um valor vulgar e ordinário, no contexto daquilo que, à falta de uma palavra melhor, se chama de Cultura. E repito: a frivolidade não é culpa da comida e da bebida. Não é porque neguinho gosta de tirar onda dizendo que pagou uma fotuna para comer o Pato Laqueado do Mr Lan que o Pato Laqueado tem culpa na história.


Não impliquei antes, porque eu quis implicar agora. Entendo que comida e sexo estejam relacionados à cultura (por que o C?). Agora, em que sentido? Só falta me dizer que sexo e comida são produções culturais!

Sim, sim. Frivolidade não é culpa da comida e da bebida. Mas eu disse que comida e bebida são coisas frívolas? O máximo que eu disse foi que "nem tudo que é bom precisa de profundidade." Quando critico o Amaury Jr's way of life, é no sentido de neguinho inverter o senso das coisas. Não estou desmerecendo os maravilhosos chefs do mundo, nem as boas comidas. Nem quero dizer que só presta o que for grandioso/sublime. Só quis dizer duas coisas. Existe uma hierarquia das coisas e tudo tem a sua perfeição.

E sim, um peixe bem feito é uma dádiva!! Hehehe, nada demais em Cristo ter multiplicado os peixes. Até porque (a) praticamente não havia carne de boi naquela região e (b) os judeus tinham restrição à carne de porco. Seria complicado se Cristo tivesse multiplicado os porcos….mas sem provocações. Concordo com você que frivolidade não é uma atitude cristã – nem com comida, nem como literatura, nem com música, nem com nada.

Beijos

PS. Acho que ficou meio confuso, e, bem, meu tempo é meio corrido. E olha que eu nem falei do lado romântico da coisa, comida e amor, do prazer social de cozinhar para a família – de preferência ouvido Pergolesi…


Eu lá vou jogar a primeira pedra em confusões alheias? Mas que tal você falar das suas audições gastronômicas de La serva padrona? Só não vai me dizer que envolve sexo. Por favor.

Beijos!

Update, 08/08/ 20h: Uma pessoa boazinha me corrigiu. Meti um Van Gogh aloprado na autoria de O grito. Corrigi já. Como diria Tati Quebra-Barraco, eu devia estar boladona quando escrevi. Boladona, boladona.

Up-Update, 20h55: Um indivíduo já tinha escrito uma coisa muito legal sobre arte. Mas que texto bom. Como é que essas coisas não se propagam, pô?