Saturday, August 22, 2009

Musicas americanas

Lamentations of Jeremiah. Gastei os ouvidos de tanto ouvir. Estão doendo. É de Z. Randal Stroope. Ao vivo é bem melhor! Eu agarantchu.



E Joshua fit the Battle of Jericho. Também ao vivo é bem melhor! Mas você vai ter que ouvir lá no site do Youtube mesmo.

(Eu não queria tocar no assunto, mas... isso não é mais legal do que aquelas músicas que cantam nas igrejas por aqui? Se é para fazer um negócio animado, façam aí um catholic negro spiritual, pô.)

Wednesday, August 19, 2009

Balé

Vai rolar um Giselle em algum lugar do Rio. Quem puder ir, vá.

Não sei se a montagem e a coreografia serão o de sempre. Só sei que Giselle é aquele tipo de balé que de tão clássico virou ortodoxia. Todo balé precisa ser assim. Mas caraca. O balé (or-to-do-xo) é recente demais para dar uma de velho lambreta. Não existe motivo para se petrificar. Mas em arte, sabe como é. Somos conservadores demais.

Se bem que às vezes nego exagera na reforma. O problema clássico do séc. XX é que a reforma de uma técnica traz quase sempre um auê sem precedentes. De lambuja, surge uma arte-sem-arte. Quero dizer, é quando a falta de técnica se torna a técnica. Que o digam os macacos-pintores.

O problema é o velho passo maior que as pernas. Quando fazem uma coisa legal, logo querem fazer mais. Aí emporcalham tudo. É que nem um cara que não sabe jogar xadrez. Pode até fazer ótimos lances e tal. Mas quando ele se empolga, faz burrada.

Mas Giselle é diversão "conservadora". Você não vai ser (mal) surpreendido. Se você nunca viu um balé na vida, veja esse. (Ainda mais se você for morador mesmo do Rio. Um balé desses vai servir como terapia contra a tosquice da cidade.) Nem digo que se não gostar desse, não vai gostar de mais nada. Vamos dizer que o balé se tornou mais variado desde 1850, apesar dos ortodoxos... Mas as coisas clássicas estão ali. Tem a história romântica fantástica bem no estilo séc. XIX, tem a música suave, as roupitchas, a graça... É tudo feito para agradar bastante. E agrada. Substância? Nem tudo que é bom precisa de profundidade. Exemplo? Eu podia citar os Impromptus do Schubert. Mas uma goiabinha serve. Qual é a goiabinha mais perfeita? A mais gostosinha. Pronto. Ela não precisa desvendar quem é o Primeiro Motor Imóvel. Talvez você pense assim: "Ei, um balé é mais complexo que uma... goiabinha!" Ok, ok, seu chato. Concordo. Treinar passos, manter postura, posições do pé, devem envolver um nível maior de dificuldade. Mas o balé e a goiabinha fazem parte das artes do prazer. As diferenças básicas são três. O próprio tipo de prazer é uma. A goiabinha agrada mais ao paladar. Claro que isso pode nos dar uma satisfação espiritual. Mas o prazer do paladar é mais básico e os objetos dele não são muito diferenciados. O balé nos dá uma satisfação mais espiritual. Claro que pode causar um prazer físico também. Mas é um prazer menos básico e os objetos dele são muito diferenciados. Como o prazer do paladar é mais comum, talvez por isso existem mais pessoas que gostem de goiabinha que de balé. Até porque a educação exigida para se apreciar um docinho é menos trabalhosa que para se apreciar uma obra de arte. A outra diferença é o seguinte. Como a goiabinha é uma comida, ela está mais próxima da necessidade que o balé. Se você raciocinar em termos aristotélicos, a coisa fica ainda mais clara. Como a necessidade é o que nos atormenta de cara, satisfazê-la vem em primeiro lugar. O entretenimento vem depois. Ele não é ditado pela necessidade. Está um patamar acima. A última diferença eu meio que já falei. A técnica do balé é mais complexa. (Para falar a verdade, nem faço idéia de como se faz uma goiabinha. Mas não acho que deve ser um troço mais difícil que dançar direito Giselle.)

No fundo, no fundo, legal é ver balé comendo docinho. Vai lá pegar lalguma coisa, porque vou mostrar o Mikhail "super-deus" Baryshnikov. Aposto que ninguém nem deu muita bola no dia para a Giselle! Mas também... Pô, o cara é foda. Veja.



Acabou de comer o docinho? Pega mais. Agora você vai ver a Alina Cojocaru no final do primeiro ato. É quando a Giselle se mata. Tá certo que ela mete a espada em si mesma e sai dançando e tal. Isso é arte, ok? Suspension of disbelief, cupadi. (As tias do séc. XIX acharam o suicídio pesado demais. Mudaram. Ela passou a morrer de piripaque. Mas nós somos mais descolados. Tem essa de ser pesado não. Se fosse no Brasil, ela morreria nos porões da Ditadura. Ou metralhada pelo tráfico.)

Thursday, August 13, 2009

Nham

A cabeça dói. O nariz entope. O olho arde. Tosse, tosse. Difícil postar. Enquanto isso:

1) Post legal do Nicolau sobre arte. Merece mais comentários. Quero escrever uns negócios a respeito;

2) Da série "tosquices blogueiras": "Eu me indigno com racismo, com a homofobia, mas é melhor eu não me pronunciar, porque eu só vejo o preconceito porque eu sou feia, gorda e mal comida." O legal é que os comentários são toscos também: "lindo post. chorei." "eu tenho que concordar com algumas partes. não é fácil ser gorda nesse mundinho pós-moderno. antigamente qualquer coisa que eu dizia, eu era a gorda, a porca. como se por ser gorda eu não pudesse discordar." Agora, o comentário-além-da-imaginação, cuja ortografia não é problema meu: "Eu sou velha, separada há anos, mal amada e estou mal de grana. Minha gata de estimação desapareceu aqui na frene de casa, mandei emails p vizinhos de condomínio, recebi um email anônimo me esculhambando de velha, mal comida, chata etc,fiquei arriada, além de me acharem tudo isto ainda me acusam de agredí-los insinuando q roubaram a gata. Se não fossem os filhos, juro q eu queria morrer."

3) Vamos voltar ao que é legal. Ó o blog da Fernanda. Escreve aí alguma coisa sobre o F. Couperin, pô! :-)

4) Vamos ficar felizes? Vivaldi, Il gardelino.

5) Opera chic e Art blog;

6) "Analogamente, uma música sensual e melosa que incite à imaginação de cenas igualmente sensuais e melosas é, e sempre será, algo de per si impróprio para a alma dos fiéis católicos, na exata medida em que se trata, na prática, de um convite aberto à dissipação e, também, a atos tão ou mais sensuais e melosos do que aqueles imaginados." O que é um ato meloso? Hm. Melhor deixar isso na categoria "questões proibidas de se perguntar";

7) Händel... pra... cacete;

8) Já estou cansada de visitar o blog do Adalberto de Queroz sem dizer nada. Pronto. Agora disse. :-)

9) Não deixa de ser divertida essa rápida troca de idéias entre o Carlos "não é parente da Tanja" Krämer e o Sergio de Biasi.

10) Nem li esse post ainda. Deve ser legal. Achei engraçada foi a semi-coincidência. É que estou para ler A posição do homem no cosmos do Max Scheler. Será que vou encontrar algo a ver mesmo? Agora, olha que engraçado. Eu estava procurando alguma coisa sobre M. Scheler. Caí no site desse tal de Orlando Fedeli. Ele resolveu criticar o filósofo. Ok. Mas de cara, já começou escrevendo o nome do filósofo errado. Outra coisa. Todas as críticas foram de segunda mão. E ele sai pontificando mesmo assim! Duvide-o-dó que ele tenha lido um só livro do Scheler. Parece que bebe, eu hein;

11) Até que foi muito, para quem está gripada. :-)

Tuesday, August 11, 2009

Schubert - Der Zwerg

Schubert. Ai, ai... :-)



O poema.

La Raison

Todo mundo diz que a Igreja é obscurantista porque teria perseguido Galileu. Mas ninguém diz que a Revolução Francesa é obscurantista porque mataram Lavoisier.

Monday, August 10, 2009

Feminismo terrorista

O feminismo tem fama de ser coisa de mulher histérica. Não deixa de ser verdade. Mas veja só que tipo de coisa as feministas faziam na Grã-Bretanha:

The destruction wrought in the seven months of 1914 before the War excelled that of the previous year. Three Scotch castles were destroyed by fire on a single night. The Carnegie Library in Birmingham was burnt. The Rokeby Venus, falsly, as I consider, attributed to Velázquez, and purchased for the National Gallery at a cost of £45,000, was mutilated by Mary Richardson. Romney's Master Thornhill, in the Birmingham Art Gallery, was slashed by Bertha Ryland, daughter of an early Suffagist. Carlyle's portrait of Millais [sic] in the National Portrait Gallery, and numbers of other pictures were attacked, a Bartolozzi drawing in the Doré Gallery being completely ruined. Many large empty houses in all parts of the country were set on fire, including Redlynch House, Sommerset, where the damage was estimated at £ 40,000. Railway stations, piers, sports pavilions, haystacks were set on fire. Attempts were made to blow up reservoirs. A bomb exploded in Westminster Abbey, and in the fashionable church of St George's, Hanover Square, where a famous stained-glass window from the Malines was damaged ... One hundred and forty-one acts of destruction were chronicled in the Press during the first seven months of 1914.


Isso está um pouco distante do mero histerismo, não?

Mary Richardson foi citada. Ela ficou famosa porque tentou destruir um quadro do Velázquez (Vênus ao espelho). Olha como o quadro ficou:




Hoje em dia, chamam alguém que destrói quadros assim de obscurantista, anti-humanista e tal.

Essa atitude quase não difere da do primitivo que ataca uma imagem. A diferença é que o primitivo é mais sensato. Ele ataca a imagem para atacar aquilo que é representado. Mas aquilo que é representado é uma coisa concreta. Pode ser uma pessoa. Pode ser um bicho. Não é uma idéia abstrata. Mary "Crazy Lady" Richardson era uma primitiva moderna. Quis destruir uma idéia destruindo uma representação concreta. Mas que explicação ela deu? Primeiro disse que foi uma retaliação contra a prisão de uma camarada. Muitos anos depois, ela deu outra explicação: "I didn't like the way men visitors gaped at it all day long." Ok, homens até podem ser tarados. Mas precisa ser tão puritana?

Anos depois dessa "ação direta", ela participou por um tempo do partido do Oswald Mosley. Para quem não sabe, ele era o líder do movimento fascista inglês.

Não é legal ser feminista.

Saturday, August 01, 2009

Piada sinistra

No princípio era uma piada. Não. Foi mais uma tirada. O Danilo Gentili disse assim: "King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"

Eu nunca tinha ouvido falar nesse cara. Não até essa semana. Mas veio o horror. E tomei conhecimento da comoção que a piada causou. E o horror era a piada.

Você deve saber que o Ministério Público Federal zela pela moral e pelos bons costumes. Pois é. Todo mundo cospe na Inquisição. Mas o Estado brasileiro é igualzinho ao Estado platônico. Zela por todas as almas belas. Instituição honrada. Poço de virtude. Ela suspeitou de um conteúdo racista na piada. O aparato legal do Estado brasileiro foi posto em movimento para analisá-la. Wunderbar! É para isso que pagamos 40% do PIB em impostos. Para ver o MPF analisar piadas. Esse órgão honrado (taí a honestidade do Brasil que não deixa dúvidas) tentará jogar na cadeia o Danilo caso comprovem o conteúdo racista da piada. Ele vai para a jaula feito um macaco (como o próprio Danilo já comentou).

Nada de analisar aqui a piada. Para isso é que existe o Ministério Público Federal (que é honrado). Para isso também existem as auctoritas televisivas. Na seção Ciência e Tecnologia de um jornal qualquer (ótima escolha da seção; a Folha publicou em Informática), reproduziram a opinião do Hélio de La Peña. Ele não achou a piada boa. Mas achou exagerado abrirem um processo contra o cara. A opinião na verdade foi dada no próprio blog dele.

O Danilo resolveu escrever sobre o assunto. Flashs:

"Sinceramente acredito que todo cachorro é cachorro e que toda pessoa é pessoa."

"[S]e todas raças são iguais então a divisão por raça é estúpida e desnecessária."

"Mas o que quero dizer é que na verdade não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é? Eu sou um ser humano da cor branca. O japonês da cor amarela. O índio da cor vermelha. O africano da cor preta. Se querem igualdade deveriam assumir o termo 'preto' pois esse é o nome da cor."

"Quem propagou a idéia que 'negro' é uma raça foram os escravistas. Eles usaram isso como desculpa para vender os pretos como escravos: 'Podemos trata-los como animais, afinal eles são de uma outra raça que não é a nossa. Eles são da raça negra'. Então quando vejo um cara dizendo que tem orgulho em ser da raça negra eu juro que nem me passa pela cabeça chama-lo de macaco. E sim de burro."

"Se o assunto é cor eu defendo a idéia que o mundo é uma caixa de lápis coloridos."

"Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo 'negro' ou 'afro-descendente', tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar. Na minha cabeça você será apenas preto e eu branco, da mesma raça, a raça humana. E você nunca me verá por aí com uma camiseta escrita '100% humano', pois não tenho orgulho nenhum de ser dessa raça que discute coisas idiotas de uma forma superficial e discrimina o próprio irmão."

Disse o Hélio: "E as explicações patinam, não esclarecem nada." Hm. Cobrança de explicação de piada. Estranho. Não dizem que explicá-la faz perder a graça? Essa auctoritas aí me parece meio furada.

O Danilo malhou a humanidade inteira no fim. Ninguém se sentiu ofendido. Ser preto tem mais substância que ser humano. Mas ei, sou humana! Fiquei ofendidérrima. Não tenho culpa se alguns pretos, que por acidente são humanos (ver a aplicação especial do termo acidente em Aristóteles, Metafísica, Livro A), resolveram malhar o cara. Mas nem foram só pretos, não. Teve branco no samba. Quero dizer, branquela. Daqui a pouco mostro.

Não faltou gente sagaz para descobrir perversidades adicionais na piada. O gênio foi um tal de José Vincente (ONG Afrobras). Ele falou que o Danilo desrespeitou "todos os negros brasileiros e também a democracia." (Só do cara ser ongueiro é para a gente desconfiar. Afrobras, Afrobras. Nunca te vi. Sempre te detestei.) Vou explicar a opinião do ongueiro. Ele quis dizer que a razão comum entre o King Kong atrás de uma loira e um jogador atrás de uma loira é serem ambos pretos. Sacou? Não? Para isso é que serve a auctoritas do Hélio. Comentário da piada: "O estereótipo com o qual nós, humoristas, trabalhamos com freqüência é a do jogador negro (ou pagodeiro negro) que subiu de vida e, como tem grana, consegue pegar uma lourinha." É como se houvesse um negão oculto na piada. Casseta locuta, causa finita. O J. Vincente enxergou também um ataque maligno ao regime de governo do Brasil. É como se tivessem feito pipi na Constituição. O chavão que me ocorre é o Hitler. Ele não fez pipi nas leis. Mas a piada estaria para nossas leis como Hitler estava para a constituição de Weimar. Logo, é justo que Danilo se ferre nas mãos da justiça. Esse ongueiro é gente honrada.

Tem mulher honrada também nessa história! Mesmo sendo branca do cabelo "ruim". (Calma. Você entenderá a referência mais tarde.) Quem salva a nossa turma é a Marjorie. Ela analisou todo o texto do Danilo. Qual conclusão? Ali está cheio de clichês racistas. Ora, direi eu, vi estrelas. Releia comigo as citações que fiz acima. Leia o post do cara. O cara condena várias vezes o racismo. É evidente para mim. E para você? Não para a Marjorie. Será que o problema foi o Danilo não entender por que tem gente que se emputece quando é chamada de macaco? Ele disse que já cansaram de chamá-lo de girafa:



Falando em burro, cresci ouvindo que eu sou uma girafa. E também cresci chamando um dos meus melhores amigos de elefante. Já ouvi muita gente chamar loira caucasiana de burra, gay de viado e ruivo de salsicha, que nada mais é do que ser chamado de restos de porco e boi misturados. Mas se alguém chama um preto de macaco é crucificado. E isso pra mim não faz sentido. Qual o preconceito com o macaco? Imagina no zoológico como o macaco não deve se sentir triste quando ouve os outros animais comentando: - O macaco é o pior de todos. Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos. Ser macaco é uma coisa terrível. Graças a Deus não somos macacos. Prefiro ser chamado de macaco do que de girafa. Peça para um cientista fazer um teste de Q.I. com uma girafa e com um macaco. Veja quem tira a maior nota.


Ungeheuer!

Uma pequena volta. Isso de macaco me lembrou um negócio que li do J. O. de Meira Penna. Ele disse uma vez que o Voltaire tinha cara de macaco! Não era menção à cor do Voltaire. Claro. E aí? É racismo também? Ou só valem alusões à taxa de melanina?

(Uma nota. O mesmo Meira Penna fez uma observação interessante no livro O espírito das revoluções: "[As antigas colônias britânicas no Caribe] gozam de um PIB percapita superior ao de qualquer país ibérico da América, inclusive o Brasil. A renda média individual em Barbados ultrapassa os US$7,000 dólares!" As populações desses lugares são quase todas de origem africana. Mas ei, um momento. Preto não é sempre explorado pelo branco? Não é coitado? Capitalismo não é um troço do (licencinha às religiões afro) Exu-Caveira? Como pode haver um país capitalista/ex-colônia em que um preto ganhe tanto? Mistério. Outra coisa. O Meira Penna disse também que estudos comprovaram que os pretos dessas antigas colônias são mais inteligente em média que os pretos do Haiti. Mais até que os pretos americanos. Por que será?)

Do Meira Penna à Marjorie. Ela observou que existe algo chamado "subjugação pelo riso". (Ela desconfia que já pensaram nisso antes dela. Tem razão. Vou mostrar depois um exemplo surpreendente.) O humor é "uma das ferramentas mais poderosas de subjugação e de silenciamento." Você percebeu direitinho os termos? "Subjugação" e "silenciamento". Domínio e mordaça. A piada pode ser uma das piores formas de opressão cósmica. É por isso que os regimes totalitários são engraçados de morrer.

Ela dá duas características do lado horrendo do humor. Uma é dizer algo que não se teria de outra forma coragem de dizer a serio. Você conta alguma piada de gordo? Deve ser porque no fundo você acha mesmo o gordo bem escrotão. A outra é transmitir e reforçar idéias discriminatórias de geração para geração. Pense no que os judeus passaram no Egito. No começo tinha lá o José e tal. Tudo ok. Aí um egípcio fez uma piada/observação jocosa sobre aquele bando de habiru (é como eles chamavam os judeus). Isso se disseminou, fortaleceu preconceito. Aí um dia rolou de o Faraó levar a sério a(s) piada(s). Pronto. Aquele bando de habiru foi escravizado! A Marjorie diz que as piadas "podem (e devem) ser analisadas sociologicamente." Sociologia da piada: estudo científico do humor. Não há nada na política que não tenha sido uma piada antes.

Vamos devagar. Por que é tão ruim a piada ser a suavização do sério? É melhor fazer uma piada de gordo que dizer pra valer que gordo não presta. (Hoje em dia já acham mesmo que gordo não presta. Usam até a "ciência" como prova.) Prefiro uma piada que a ONU ou a OMS. Ter senso de humor é captar o ridículo da situação. É perceber um tipo de desproporção inócua. Ninguém precisa ter lido a Poética para saber disso. É básico! Agora, levar uma piada a sério é o contrário! É não entender o humor como humor. Como a Marjorie. Ela enxerga uma perversão oculta numa coisa que não tem nada de pervertida, nem de oculta. Faltou senso de humor. Tsc. Teria nos poupado daquela história de a piada transmitir e reforçar preconceitos ao longo da história.

Você acha possível que documentos históricos reflitam uma relação direta entre o aumento do número (e do teor agressivo) de piadas de pretos e a escravidão? A Marjorie deve achar. Eu queria ver. Seria engraçado. Será que tem gente tão retardada que confunde piada com realidade? A Marjorie eu desconfio que confunde. Mas vou pegar como exemplo os portugueses e os pretos. Português era tão burro que em certo momento começou a acreditar mesmo na substância das piadas de pretos? Que budega é essa? Fora os problemas-bônus. Piadas de pretos em Portugal subtendem algum convívio entre portugueses e pretos. O tráfico de escravos começou mais ou menos no iníco da Idade Moderna. As piadas são transmitidas ao longo das gerações. Fortalecem preconceitos. Desde quando começaram com as sacanagens? Por que só portuga sacaneava os negões? Os pretos eram velhos conhecidos dos portugueses em Portugal? Ou os portugueses já viviam há muito tempo na África Negra antes da Idade Moderna? Outra pergunta. A relação piada-escravidão funciona como um princípio auto-explicativo? Tipo, algum engraçadinho sacaneou os pretos e aí os portugas montaram um tráfico atlântico de escravos? Os pretos foram dominados na base da sacanagem cômica? A escravidão foi uma anedota no fundo? Essa explicação é em si uma piada. Piada contraditória. Veja só. Se o efeito do humor é não dizer na cara o que se pensa para valer, então é de se esperar que o aumento do humor iniba cada vez mais a seridade do que se quer falar. Pô! A diminuição do humor é que levaria a um aumento da seriedade. Não o contrário. Isso está muito cafuso.

A tosquice fica assim. Primeiro se usa um termo metafórico ("subjugação pelo riso"). Depois uma explicação causal bem maluquete (aumento de piadas ao longo da história = aumento da opressão). Aí por mágica se aplica isso a um exemplo concreto que não tem nada a ver (o caso do Danilo Gentili). Show.

Insisto. A Marjorie escreveu mesmo que alguém vai ser dominado por causa de uma piada? Escreveu. Ela acredita mesmo nisso? Ela acha mesmo que os pretos são um monte de bebês chorões? Mas imagina uma luta de vale-tudo. De um lado, um fortão. Do outro, um miudinho. Vem o fortão cheio de bronca. O miudinho começa a contar uma piada. O fortão cai chorando. É finalizado pela piada. Crível? Até já testemunhei isso de subjugação pelo riso. Sério. Foi no primário. Depois a coisa foi rareando. A própria Marjorie já foi meio que subjugada era quando pequena. Não sei se pelo riso. Veremos.

Tem uma hora que o Danilo faz meio que um esbocinho de desconstrução do racismo. Ele disse que "raça" era um conceito construído pelos dominadores para legitimar a escravidão. Então os pretos que dizem ter orgulho da própria raça estão só ressuscitando um conceito morto. Um conceito que serviu para ferrar com os pretos no passado. Burrice. A Marjorie é anti-racista também. Acontece que a muié é da pá virada. A cabeça dela funciona de um jeito doido. Como anti-racista, ela tem que concordar com o Danilo. Só que ela simpatiza ao mesmo tempo com as afirmações de orgulho racial dos pretos. Acha tudo muito lindo (mesmo sendo uma questão cultural, não-biológica). Como ela se sai dessa enrascada? Do seguinte modo. Sim, o cara está certo: "Pois é, [raça] não existe mesmo." Mas os pretos estão certos em afirmar a identidade deles. Por quê? É que a afirmação de identidade é reação legítima às escrotices que eles sofreram (e sofrem). Não dá para evitar uma pergunta filosófica. Qual o princípio de identidade de um grupo de pretos? Ela diz que é e não é a raça! Deu para sacar? Pense de outro jeito. Preto é cultura. Acontece que por acaso calhou de só gente de cor preta ser preto. O conceito de raça é produto cultural fajuto. O conceito de raça é bacana quando renega o conceito de raça... O esclarecimento dessa tronchice ela mesma dá. É que serve como pretexto político: "Afinal, se eles não se reconhecerem como um grupo com uma situação específica, obviamente não vão se posicionar politicamente contra esta situação específica." (Condição específica deve significar "ferrado"). Tudo desculpinha para fazer pressão política!

Entre os ongueiros isso se chama "ação afirmativa". Aqui em casa se chama cambalacho.

Dizer "100% branco" é racismo. Dizer "100% preto" é reagir contra "este passado de escravidão e a todas as mensagens que estimulam o negro a ter baixa auto-estima" (by Marjorie). Não é supimpa? Numa frase ela nega o sentido da idéia de raça. Supõe que não existe um conceito biológico. Na frase seguinte ela diz que é legítimo, justo. Desde que seja para conseguir ganhos políticos para os pretos. É bom quando convém. Pimenta no rabo dos outros é refresco. Ou ela é trambiqueira ou é "distraída". Considere a última hipótese. Como alguém escreve uma coisa e na frase seguinte já se esquece do que disse? Pior que ela disse que o Danilo fez "malabarismo retórico"! E ainda posa de gostosona:



Mas eu duvido que Gentilli seja burro [pode crer que é ele o burrão da história] a ponto de não compreender que um cara que se orgulha de ser negro está apenas reagindo a este passado de escravidão e a todas as mensagens que estimulam o negro a ter baixa auto-estima (entre as quais as piadas de Gentilli se incluem).


Parece que não pensa no que escreve. Eu hein.

Como é que uma anti-racista implica com um cara que afirma milhares de vezes que abomina o conceito de raças? Ah tá, é por causa da piada malvada.

Acabei de demonstrar algumas tosquices da Marjorie. Ela não pensa no que escreve. Não raciocina direito. Diz uma coisa e se esquece do que disse na frase seguinte. Leseira característica. Tirar conclusões a partir de algo que não está escrito no texto, nem mesmo de forma implícita, é outra característica. Não sei de onde ela tirou que o Danilo acha "que não existam pessoas que ainda acreditam que há raças superiores a outras". Nem sei onde ele disse que "não exist[e]m discriminações com base na 'raça'". Não tem nada disso no texto dele. Não tem nem como deduzir algo assim. O que ele disse foi: "Dividir uma espécie por raças nada mais é do que racismo." E coisas do tipo. De onde ela tirou essas idéias? Não foi a partir do texto do Danilo. É o caso clássico de analfabetismo funcional. Outra característica da leseira.

Está muito bem provado que a Marjorie é mesmo bastante seqüelada. Se bem que o trambique anda junto. Não dá para saber onde acaba o trambique e começa a seqüela. A menos que só gente iniciada não-branca perceba tanta sordidez oculta.

Gente não branca? A Marjorie disse assim num comentário a um post dela mesma: "sou branca". Mas disse também: "bom, minha mãe é negra, meu cabelo saiu 'ruim', mas no Brasil o racismo não tem divisão rígida. Tem toda uma paleta que vai do negão até o mais branquelo. " Vamos lá. Será que o cabelo "ruim" dela é que a torna autorizada a analisar o racismo dos outros? Ela diz que o Danilo só acha que não existe racismo (notinha: ele não disse nada assim) porque é branco: "Queria ver se ele fosse negro." Mas ué. Ela não disse que é branca? Por que ela pode discriminar os outros pela pele? Está de licença? O cabelo "ruim" é que dá poder? Só porque tem o cabelinho "ruim" quer tirar onda. (A propósito. Já ouviu falar em Redken? Procura um que combina. Ou vai de permanente afro.) E olha o que o branquelão racista escreveu:


Eu sei que os negros sofreram mais que qualquer raça no Brasil. Foram chicoteados. Torturados. Foi algo tão desumano que só um ser humano seria capaz de fazer igual. Brancos caçaram negros como animais. Mas também os compraram de outros negros. Sim. Ser dono de escravo nunca foi privilégio caucasiano e sim da sociedade dominante. Na África, uma tribo vencedora escravizava a outra e as vendia para os brancos sujos.


Você ainda duvida que a Marjorie excedeu o direito de ser songamonga? (E vem cá, não tinha preto sujo na história? Também não precisa agradar tanto, Danilo.)

Agora, que lance é esse de "toda uma paleta" do negão ao branquelo? Existe o negão puro e o branco puro? E entre eles um monte de misturebas? O racismo no Brasil não tem uma divisão rígida? É a negação do racismo! Se ninguém o leva muito a sério, ele vira... piada. Só que a Marjorie não acha nada disso. Ou finge não achar. Porque é tudo lorota. Não tem como não saber. Se não sabe, é maluca. E uma pergunta que não quer calar. Quem foi que pediu para ela ser defensora dos pretos? Deve ser instinto materna. Ela não acha que preto é chorão? Mamãe-ganso não quer deixar as criar desamparadas.

Pode ser que alguém tenha se perguntado: "Carácolis! Por que a Tanja dá tanta atenção para as maluquices desses freaks?" Masoquismo. Gosto de encarar essas budegas. Mas veja. Quando bati o olho no texto dela, pensei: "Taí um exemplo cristalino de como andam as coisas!" É didático. A Marjorie dá muitos indícios da (má) formação dela (e por tabela da bobice reinante). Indícios não. Testemunhos. As próprias palavras dela são muito claras. Mas nem é de hoje esse tipo de coisa, não. Nem é questão de falta de estudo. Pelo contrário. É uma tosquice estudada. Burrice intelectualizada auto-imposta. Você estuda para ficar que nem um animal. É como se você aprendesse a andar para melhor ficar de quatro. O pior é que gente mais interessante já caiu nessa. Você vai ver.

Vou mostrar a quantas anda a formação da Marjorie.

Parece que o problema dela começou na infância. Não estou de sacanagem. Ela mesma contou:



(...) A falta de diversidade na representação da beleza afeta (e muito!) as crianças. Falo por experiência própria. Em um dos meus álbuns de fotografias da infância, lá estou eu, aos cinco anos, numa festa junina. Embora eu seja morena e de cabelos chacheados, meu chapéu tinha trancinhas loiras e lisas. Ficou bizarro, claro – pena que eu não tenho scanner para postar a foto aqui.

Eu achava, no alto dos meus cinco anos, que, se usasse o chapéu com trancinhas loiras, eu VIRARIA loira. Como o cabelo preto ficaria debaixo do chapéu, pensei que todo mundo acreditaria que eu era loira de verdade — assim como a Xuxa, a Barbie, a She-ra, a Cinderella e uma menina que todas as “tias” da pré-escola paparicavam e diziam que era linda.

Certa vez, já velha, perguntei para minha mãe por que raios ela me comprou aquele chapéu. Falei: “porra, mãe, você podia ter estimulado a minha auto-estima”. Ela respondeu: “Ah, na época eu não levei tão a sério assim. Você queria porque queria o chapéu. Chorou, esperneou, fez escarcéu. Eu não queria traumatizar você”. Bem, minha mãe é ótima — temos uma relação excelente e não tenho do que reclamar. Mas o fato de eu não ter me achado bonita durante boa parte da minha vida foi muito mais “traumático” do que se eu não tivesse ganho um chapéu aos cinco anos de idade. Eu não me esqueço da luta que travei com minha aparência ao longo da infância e adolescência. De um reles chapéu, no entanto, a gente se esquece fácil.


Fiquei bastante comovida. Você não? Melaram com a infância e adolescência dela. Deve ter sido ruinzão ter se achado mocoronguinha. Ainda achou um pouquinho de culpa da mãe no cartório.

Tudo sempre começa com autovitimização, autocomplacência. Nunca vi um militante que não fosse meio emo. Ela só não é emo até a cabeça porque precisa alisar o cabelo "ruim" para fazer aquele penteadinho.

E a tal coleguinha loirinha paparicada pelas tias da escola? A Marjorie queria ser que nem ela. Não conseguiu. Tadinha. Ficou se achando mocréia. Agora esperneia contra o racismo e tal. Coisa boba. Não está na cara que ela tinha inveja da coleguinha de turma? Foi tão traumático (oh!) que ainda não superou. Agora essa bobagem está servindo para justificar as bobagens atuais. Quem precisa aturá-las? Nós. Quero dizer, nós não. O negócio é mandar pastar logo.

É uma "origem fundadora". Só não dá para deixar de notar uma coisa. Isso é o que ela quer mostrar para gente. Dá para perceber que é uma explicação furada. Não para ela. Essa "origem fundadora" dá uma espécie de sentido existencial às concepções que agora ela tem. Explicação a posteriori dos absurdos atuais. O doido endoidece a própria história. Mas é uma piração auto-imposta. Primeiro, pela falta de maturidade. Uma invejinha inocente de quando era pequena não pode servir como explicação de uma postura partidária (a Marjorie no fundo só está fazendo política). É como se eu dissesse assim: "Virei anarquista porque não me deram a Susi." Lamber o próprio passado choramingando é coisa de gente ressentida também. Nem creio que ela tenha ficado ressentida só por causa da coleguinha loirinha. Creio que tenha ficado em parte porque é mimada. Tem muita gente que fica revoltada com o cosmo porque recebeu tudo mastigado. Agora, ela dá uma vernizada intelectualóide nessa porralouquice. Só para tornar tudo mais chique. É igual a um ogro que curte caviar só para parecer bacana. Mas tem que ser bastante ogro para achar legal dizer que alguém é "branco, abastado e detentor de um pênis" (palavras dela, always). Deve achar isso lindo. Uma explicação razoável por si do ponto de vista de alguém. Razoável? É tosqueira pura. Explicação materialista bizarra. (Cara, não dá para entender como ela não fica constrangida ao dizer uns troços desses por aí. É pior que soltar um peidão no elevador. Muito sem-noção. E ainda quer julgar a atitude moral dos outros.) Minha atitude é contrária. Mas não detenho um pênis (a Marjorie também não). Não sou abastada (a Marjorie também não). Não sou branquelona (a Marjorie também não). E aí? Nem por isso tenho as opiniões mamãe-caí-de-cabeça-do-berçário dela. Pelo contrário. (Se bem que meus cabelos são bons. Os dela são ruins. Ganhei.)

Ela disse que tem "privilégios porque [é] branca". Reclamou que "[o] foda é que nenhum desses privilégios é conquistado. Você nasce e a sociedade já confere isso a você." Olha do que ela está falando:



Sou privilegiada porque minha universidade é pública — eu passei num verstibular altamente excludente. Sou privilegiada porque não tenho deficiências físicas. Sou privilegiada porque tenho um salário maior do que um mundaréu de gente nesse mundão onde um quantidade incômoda de gente vive com menos de um dólar por dia. Sou privilegiada porque sou heterossexual. Mas, embora a sociedade me diga que eu tenho mais valor por causa dessas coisas, eu sei que é balela. Porra, eu sou um ser humano como qualquer outro. Eu não fiz nada para merecer ser tratada de forma melhor ou pior por causa de cor, sexo, etc etc.


É muita injustiça ao mesmo tempo.

Tudo é colocado no mesmo saco de gatos. Dá no mesmo o que é cconquista e o que é herança. Ação e paixão não se diferem. Ninguém meteu essa doida na faculdade. Foi ela que (hm) estudou. Claro, teve ajuda da sociedade (que horror!), dos pais e tal. Ação e paixão. Ela não é deficiente física (pelo menos isso). Ganha lá uma graninha. De novo, ação própria e sociedade. Só que tudo isso para ela não passa de uma herança a partir de um direito equivocado. Direito privado. Privilégio. Vou fingir que concordo. Fica uma dúvida. É gente demais privilegiada, né? Existe muito mais gente sem deficiência e heterossexual que deficiente e bicha/sapata. A raiz desses privilégios é ela ser branca. Se fosse preta, seria sapata? Não teria braço? Estudaria num lugar porco? Seria retardada? Olha o racismo enrustido aí! Olha que quem pensa assim é filha de mão preta.

Vou fazer uma pergunta a propósito. Como foi que uma mãe preta (que deve ter sido muito sacaneada pela sociedade) conseguiu dar privilégios a uma filha branca? Como alguém cuja mãe é preta conseguiu privilégio numa sociedade racista? Só se o país for menos preconceituoso do que ela diz! Mais uma perguntinha. Se ela é branca, vai explorar algum preto? Ou a mãe preta? Ela é branquela (do cabelo "ruim"). Vive melhor que a maioria das pessos. Está numa universidade muito concorrida. É da elite. E aí? Vai ver até explora mesmo. E pior que ela acha isso mesmo. Ela não reclama de ter conseguido privilégios? Se são privilégios, são às custas dos direitos dos outros. De quem? Dos pretos? Da própria mãe?

Tadinha da Marjorie. Foi posta na elite malvada contra a própria vontade. É o clássico brasileiro sou-da-elite-mas-sou-limpinha. A variação aqui é elite=branca.

Outra coisa que ela escreveu: "Nasci na periferia, mas sempre fui classe média." A-ha! Deu para notar a sutileza do mas? Ela quis dizer assim: periferia=dureza, mas eu=conforto. Preconceito contra a periferia! Mas então. Ela é uma branca não muito branca. Mora numa periferia sem ser muito de periferia. Nasceu num país racista não muito racista. Estuda numa universidade concorrida não muito criteriosa. Êta esquisitice! Algo não bate bem. O quê? São os fatos contra as concepções de sociedade.

Dizem que o Hegel falou assim: "Se os fatos contradizem minhas idéias, pior para os fatos." A Marjorie é filhote do Hegel. Pior que tem mais coisas semelhantes ao Hegel. Mas vamos com calma.

Branca. Privilegiada. Recebeu tudo de mão beijada. Mas tem cabelo "ruim". Tem mãe negra. Nasceu na periferia. Recebeu tudo graças aos esforços de terceiros. Quem? Os pretos? Os pobres? Os pretos pobres? Neca. Foram os pais dela: "Meus pais sempre se esforçaram para pagar meus estudos e uma série de confortos, mesmo que fosse em 24 prestações." (Ela contribuiu não nascendo sem perna e gostando de homem. E fingindo estudar.) Até que enfim um momento lúcido. Ela reconhece o esforço dos pais. É uma causa real da própria existência dela. A ralação dos pais ajudou pacas. Por quê? Porque pais amam os filhos e qualquer ajuda é bem-vinda, ué! A meleca toda é que ela cisma que um ente abstrato chamado "sociedade" lhe fornece tudinho de graça. Por quê? Porque é branca... Porque é escroto! É a cisão total entre a existência concreta e a compreensão de si mesma. Entre o todo e a parte. A Marjorie é alienada de verdade.

Por um lado existe o indivíduo solto. Ele não tem existência própria. Ele (e as coisas que o cercam) é só um amontoado caótico de percepções sensíveis. Doutro lado está o sistema. É o arcabouço da realidade. É ele mesmo a realidade. O indivíduo só tem existência em função do todo (que existe por si). Não existe bem uma articulação entre o todo e as partes. Nem entre as partes. Existe é uma absorção total das partes no todo. Por si só, elas são caóticas. O todo engole as partes e joga fora o que não presta. O indivíduo tem que ser sintetizado na união com o universal. (No plano político, é a servidão da pessoa ao Estado.) A Marjorie-pessoa é um amontoado caótico. Ela não tem unidade por si. Só pode ter em função do sistema. O caos ambulante chamado Marjorie só fará sentido no transcurso de um processo dialético contínuo. É uma dialética ambulante. É por isso que ela diz e se desdiz. Mal escreve que é privilegiada, aí emenda a seguir: "Tenho raiva por ser tratada como se fosse inferior só por causa do que tenho no meio das pernas."

Você acha que ela não bate muito bem? Também acho. O incrível é que é um tipo de maluquice intelectual induzida. Veja. Ela acha que os brancos oprimem a sociedade. Ela é branca? Então ela está de alguma forma oprimindo. Mas as mulheres são oprimidas. Ela é mulher? Então ela está sendo oprimida. É muita dialética. É muito fogo no forévis hegeliano.

Às vezes nossos esforços parecem desproporcionais para o que a gente consegue. Parece que fazemos pouco para ganhar tanto. Até aí tudo bem. Normal. Devemos muito a Deus e à sociedade. Mas às vezes acontece aquilo que eu disse antes. Você fica com uma fúria cósmica porque é bem tratado. Isso vai além da ingratidão. Pode muito bem ser o desejo de ter as rédeas do sistema. Não ter o controle do jogo pode parecer um insulto à propria dignidade pessoal. É como se alguém falasse assim: "Se é para não ser semelhante a Deus, então não brinco!" Existe também o problema orteguiano do "senhorito satisfeito". É a revolta de quem recebeu tudo sem saber como. Mais ainda. É a revolta de quem acha que precisa receber do melhor porque é gostosinho. A pessoa vive na mais completa irresponsabilidade. Adora fazer exigências como se a vontade própria fosse o fundamento do direito. É petulante. O problema é dar ultimatos à sociedade quando os fundamentos dos ultimatos são dados pela própria sociedade... Querer se livrar de uma coisa necessária não deve ser lá muito legal. Pensa em como fica a cabeça de alguém cujas pretensões são cósmicas. Vai ficar ressentido até não poder mais. A pose intelectualóide é só um desabafo de alguém ressentido.

Qual é a base "intelectual" dessa concepção (anormal) de sociedade? É que a riqueza é produto da exploração maligna. A classe é produto da riqueza. O privilégio é produto da classe. Então o lance é acabar com a exploração maligna. O bem que você vai receber não será mais produto do mal. É assim que a Marjorie raciocina. Ela só dá um toque "pessoal". Quem leva na cabeça são os pretos, as mulheres (menos eu), os pobres... Mas aí tem um problema. Você pode até ser uma pessoa maravilhosa semi-divina. Mas só porque fulano foi explorado. Adianta saber que a sua culpa é indireta? Pensa aí se seria um alívio ter responsabilidade indireta no assassinato de alguém. Saber que você foi forçado a ser responsável pela morte de alguém não seria ruim também? Mesmo que você adquirisse uma coisa legal? Então. É a mesma coisa com o privilégio. É assim que a Marjorie raciocina (apesar de ser tudo invenção da cabeça tosca dela): "Então eu tenho, sim, raiva desse sistema que me dá privilégios e tira dos outros, deliberadamente e com base num motivo tosco." Qual motivo? Ser branca blá blá blá. Mas é uma brancona honrada. Foi forçada a compactuar com a elite fdp. Tipo aquele pessoal que dizia ter sido forçado a matar judeu no nazismo. Quanto mais ela for forçada a receber privilégios, mais a elite será escrota. Porque estará forçando a coitadinha a agir contra a própria vontade.

Você conseguiu entender por que não adianta nada melhorar a vida de alguém que "raciocina" desse jeito? Não adianta. Se tudo piorar, é porque ele é explorado. Se ficar na mesma, é por causa da falta de vontade da elite. Se melhorar, é graças à exploração alheia. Mas o fulano é limpinho.

Eu já disse que ela não é a única que pensa assim. Disse também que gente mais interessante compartilha dos pressupostos da Marjorie. Adivinha quem? Paulo Francis! O próprio. Acredite se quiser. Pelo menos no livro O afeto que se encerra. Ele é muito mais claro que a doida:



Todo brasileiro privilegiado sabe que é cúmplice de um crime, seja praticante (minoria), omisso (maioria), ou esbravejando (minoria). Somos todos, de certa forma, "iguais". (p.134)


(Esse é o caso clássico de passagens que não deveriam ter sido publicadas jamais. É atestado de anta. Faltou bom-senso ao P. Francis. Por muito menos o Virgílio quis que jogassem na fogueira a Eneida.)

A raivinha da Marjorie ainda é muito do tipo cósmico-primitivo. É uma força esmagadora que a obrigada a compactuar com "isso que está aí". Ela é limpinha. Já o P. Francis pressupõe a participação humana. Envolve uma dimensão a mais. O mal envolve no fundo uma responsabilidade pessoal. Só que ele identifica o mal a um certo grupo (uma minoria de brasileiros). É tanta maldade a desse grupo que até respinga em todo mundo! Para ele, a inocência acaba à medida que você é privilegiado. Perto disso, a Marjorie é uma sonsa alienada. Se você é privilegiado, você é mesmo um fdp. De algum modo, mas é.

O P. Francis até que era mais corajoso. Levou adiante essas premissas bocós. Mesmo sendo branco, tendo pênis...

É interessante como eles lidam com essa culpa. A Marjorie se acha muito boa para uma sociedade tão fdp (sociedade=privilegiados). Ela está nessa sociedade mas não é dessa sociedade. Um anjinho. Lesado, mas anjinho. O Paulo Francis se reconhece às claras como sujo. É um criminoso. A diferença entre os dois é que um deles explicita mais o sentimento de culpa. A semelhança é que projetam essa culpa em toda a sociedade (=na gente).

Os dois conseguem enxergar o conjunto. Podem entender o sistema. Sabem como as coisas funcionam. A superioridade moral é conseqüência. Uma opinião equivocada não é só besteira. É uma falha moral. Não ter a visão do todo significa metade burrice, metade mau caratismo. Marjorie: "O que me dá raiva é a cegueira de muitas pessoas em relação a esse sistema. A total cegueira. Ou a pessoa não se sensibilizar com isso, a fim de proteger a sua situação privilegiada." P. Francis:



A maioria, claro, é omissa e ignorante e se enclausura nessa ignorância, defensivamente. Noutros, bem numerosos no meio intelectual e jornalístico, é puro mau caráter, a vocação irrestrita ao egoísmo e vassalagem aos poderosos, que os faz desviar os olhos do que nos cerca, nos nossos privilégios (p.135)


Acontece que não adianta chorar. Conhecer o sistema é participar do processo cósmico. Mas participar dando as cartas. Entenda bem. O sistema é a realidade. Conhecê-lo é dominar a realidade. O intelectual esta aqui para isso. Para devorar o sistema/realidade. Só que o monstrengo é made in Earth. Foi bolado pelo homem. E tem ainda uma coisa mais impressionante. Faz parte da gente. Conhecer o sistema é incorporá-lo a si mesmo! Você vira o dono dele. É preciso alguma atitude em seguida. Também não é qualquer atitude. É preciso surfar no processo. Entendê-lo e ficar parado é que não dá. É fingimento. Desonestidade. Pior ainda se tentar forçar tudo para trás. Enfim. Ou você está aquém da humanidade ou é fdp. É mais ou menos como aquela história de não querer ver a "máquina do mundo". A diferença é que a máquina é criação nossa. E é nosso dever manipulá-la. É mistura de coragem, dever e necessidade ajeitar essa paródia de máquina do mundo. Claro que isso subtende a possibilidade de a gente ser tipo um demiurgo...

É preciso saber ter essas coisas na cabeça para entender bem a passagem seguinte do P. Francis:



Em face desse monstro é compreensível que os privilegiados que não o manipulam diretamente prefiram alienar-se na "tradicional cordura do bom humor" do brasileiro, a enfrentá-lo. [A Marjorie nunca teria suspeitado que o P. Francis já tinha escrito sobre a "subjugação do riso".] O ser humano, porém, é um bicho estranho, pois o único a pensar no que constrói (Marx). Abelhas e formigas são tão hábeis ou mais que nós. Mas não padecem da consciência do que fazem. E o intelectual é o pensante in extremis. Não pode deixar de ver o custo ao próximo, às dezenas de milhões de desgraçados, que a omissão de um cérebro vivo, capaz de formular reformas, ajuda a promover. (p.136)


Alguém se lembra da famosa tese do Marx? "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo." O intelectual exerga a realidade. Entende o sistema. Não pode ficar à margem do processo cósmico (= ação humana). Não pode fingir que não acontece a exploração. Ela existe. É um entrave. O mal do mundo. Ele tem que fazer algo.

(Uma pausa. É engraçado como neguinho (opa!) interpreta essas coisas do ponto de vista moral. Não tem moralidade nenhuma, não. O negócio é captar o processo e pronto. O que você fizer a partir daí está auto-justificado. O P. Francis estava ainda bem burguês...)

Conhecimento absoluto da realidade, primado/julgamento moral superior, ação cósmica. Tudo está junto. O intelectual é obrigado a não se alienar. Seria contraditório. Imoral. Ele se tornaria inimigo do processo histórico. Trabalho intelectual é a transformação da realidade. É o reajuste de todas as calamidades. Mas se ele se alienar, vai destruir as bases do que faz. Perderá fôlego. Vai se consumir.

A auto-destruição é na verdade uma depressão total. Fruto da incapacidade de modificar a realidade. É a rebordosa do delírio demiúrgico de modificar o cosmo. Ficar batendo o pezinho cheia de raivinha (como a Marjorie faz) é nada. A coisa pode ficar bem pior. Paulo Francis:



Então o intelectual bebe e se desespera em personalismos, na mulher amada impossível (quanto mais, melhor, aumenta a ilusão da seriedade), ou tenta, se bem pago, imitar os grão-senhores. Não dá certo. É da condição do intelectual enxergar a realidade. Esnobes sociais, Proust e Fitzgerald terminaram virando a mesa grã-fina. E daí o pessimismo crônico, as explosões alcoólicas, desproporcionais à suposta causa (...), a autodepreciação masoquista, o senso opressivo de futilidade da nossa vida intelectual.


Ser intelectual pode ser trágico... Primeiro tem o projeto megalomaníaco. Seu conhecimento serve para você absorver a realidade. Você se absolutiza à medida que entende o sistema. Você se identifica com o cosmo. Ele estará à sua disposição. Só que numa hora tudo embaça. O projeto falha. Vem a depressão. Vem o fracasso existencial. Tudo começa com uma balofice hegeliana demiúrgica. O final é a subnutrição infantil das mais terríveis. Dialética suicida.

Alienação total. Um exemplozinho? A própria Marjorie. É e não é exploradora. É e não é explorada. É e não é ajudada por gente concreta. E por aí vai. E a raiva. A única coisa que unifica tudo é a raiva. Raiva cósmica. O Hitler já tinha elogiado a força do ódio. É um sentimento unificador poderoso. O que ele não viu (ou não quis saber, mas sentiu na pele) é que o ódio extremo leva ao cúmulo do paroxismo. É um veneno alienante. A Marjorie lê coisas no texto do Danilo que não existem. Enxerga perversidades que só existem na cabeça confusa dela. Não entende a realidade em que vive. Não entende a própria cabeça. É uma personalidade toda fragmentada.

Volto a me repetir. O exemplo da Marjorie é instrutivo. Não fiz nenhuma sacação psicológica. Só explicitei o que ela própria disse de si mesma. Mas por que alguém escolhe ficar aloprado? Sei lá. O que sei é que a essas pessoas podem ter uma influência péssima. Podem nos atingir. Já estão. Olha o cara sendo ameaçado por conta de uma piadinha.

Quanto mais esses aloprados tentam consertar os males que acusam, esses males aumentam na mesma proporção. É uma coisa demoníaca.

A bagunça do país vem daí. Se não vem, é piorada demais. A depressão individual dessa gente está afundando o país!

Querem transformar a realidade nas besteiras mais escabrosas. Já estão conseguindo. Vão falhar. Duvida? O mal é parasita do bem. Só que até lá dá tempo para muita escrotice. É por isso importante deixar muito claro como as idéias dessas pessoas são malucas. Esses mulambos totalitários não podem defender numa boa a prisão de alguém por causa de uma piada. É importante mostrar também que essas pessoas são malucas. Olha essa Marjorie. Uma mimada cujo sofrimento mais profundo foi não ter sido igual à coleguinha loira de escola. Uma mimada que transformou isso num problema existencial próprio. Uma mimada que agora culpa sociedade (=nós) por isso. Uma mimada que quer apagar o fogo no rabo colando rótulos odiosos na testa dos outros. É porralouquice demais. Sobre aquele negócio de o Paulo Francis sair dizendo que todo "privilegiado" é criminoso... Nem digo nada. O cara deve estar lá no Purgatório suando frenético por comentários assim.

Não dá para tolerar. É aquilo que o Olavo chama de piada sinistra. A tentativa de impor como norma o absurdo. É o cúmulo da falta de humor...