Tuesday, June 30, 2009

Lição hondurenha

O Diogo e a analista política M. Montes estão desinformados. Eles consideram o golpe em Honduras "sui generis". Diogo até diz assim:

a imprensa está tendo dificuldade em compreender a possibilidade do uso de força militar contra um violador do Estado de Direito.


Dá para desculpar a ignorância da M. Montes. Ela não deve conhecer nada da história do Brasil (se bem que desconfio que de outros lugares também, como direi mais para frente). É mais difícil de engolir o comentário do Diogo. Será que ele se esqueceu do que aconteceu no Brasil em 1964? Não tem nada de novo nisso aí. Até a marcha do povo a favor do golpe é imitação! Nenhum brasileiro deveria ficar surpreso, embasbacado. Honduras está atrasada 45 anos em relação ao Brasil. (Se bem que a política aqui regrediu. Mas não importa falar disso agora.)

Dizer que a imprensa se acostumou "a ver os golpes militares latinoamericanos em violação ao Estado de Direito" (by Diogo) é um problemaço. De cara, vejo três questões. Primeiro, a imprensa já se acostumou a ver também golpes comunistas. Cadê que fazem protestos? Isso tudo é fingimento. Até por isso que não existe nenhuma "dificuldade em compreender a possibilidade do uso da força militar contra um violador do Estado de Direito." Existe é tomada de partido. Meu segundo ponto é mais na base do palpite. Talvez eu esteja muito errada. Mas vamos lá. Não conheço direito a história da América Latina no séc. XIX. Só que duvido bastante que em certos países havia um "Estado de Direito", sempre vítima de militares. Acho que o exemplo da Bolívia é bom. Só começou a haver um "Estado de Direito" depois de sucessivos golpes militares. O negócio é que essa expressão é cara aos liberais. Como governos de caráter liberal na América Latina demoraram um pouco para aparecer em vários países, então aí está o motivo de minha implicância. Repito que nesse ponto talvez eu tenha escrito uma baboseira. Agora, um último ponto. Pelo menos no Brasil, o golpe militar foi uma reação aos desmandos de um governo civil. No Chile então nem se fale. Desmandos inspirados em concepções marxistas. Eram presidentes civis violando o "Estado de Direito". (Agora sim podemos falar em "Estado de Direito" violado.)

O que está acontecendo em Honduras é prova sim de que ainda é preciso enxergar a política na América Latina do ponto de vista da disputa ideológica. A colunista (e Diogo por tabela) estão de novo equivocados. Os tempos não são outros. A aliança que tem Chávez na cabeça (e Fidel no coração) é herança clara das disputas ideológicas passadas. A solidariedade dos presidentes da América Latina ao presidente deposto tem esse pano de fundo. Pior ainda se você fizer uma interpretação material do que está havendo na América Latina. Vou pegar o Brasil como exemplo (não conheço nada de Honduras). Não aconteceram mudanças econômico-sociais enormes entre 1989 e 2008. O que tem havido é um processo de estabilização das mudanças econômico-sociais que ocorreram nas década de 60 e 70. O Brasil parece estar 40 anos na frente de Honduras sim. Mas está uns 80 anos atrás da Europa. Ainda sentimos os efeitos da agora maior população urbana em relação à rural. A Europa já passou por isso faz muito tempo. É muito errado pensar que tudo mudou de uma vez. Ou então que nada é mais como foi.

Monday, June 29, 2009

Quenguice

Uma garota chamou o namorado de "amor." Eu estava perto. O jeito que ela disse? A voz? A entonação? O ritmo? Nem precisei ver. Com certeza era quenga. Naquele jeito carinhoso (?) de falar, dava para imaginar a quantidade de homem bocó que já ficou com aquela garota bocó. Charme é agora sonsice grosseira. Quenguice.

Lesbian Vampire Killers

Não inventei o título. É o nome de um filme. Agora, interessante mesmo é o que escreveram lá no IMDB:

This is a film might require a specific understanding of the Post-Modern culture we are living in to be appreciated, or it can simply be enjoyed for what it is.

Dá-lhe, intelectual! Algum voluntário para uma crítica pós-moderna de Lesbian Vampire Killers?

Wednesday, June 17, 2009

Feminismo da Canção dos nibelungos

Não deixa de ser interessante que a Canção dos nibelungos possa ser encarada como feminista. Não é um feminismo enragé, dessas coisas de voto, pró-castração masculina e tal. É um feminismo em duplo sentido.

O primeiro é no sentido medieval-cavalheiresco (séc. XIII circa). Quem atrái a ação, quem é o centro da ação, é a dama. É por causa de uma dama (Kriemihild) que Siegfried é atiçado. É a existência de Brunhild que torna necessária a aliança de Gunther com Sigfried. Mas é também em decorrência da briga das duas que Siegfried é traído e morto. E se na primeira parte da história a influência de Kriemihild é mais passiva (o que não significa não ter força nenhuma, pelo contrário), na segunda ela se torna ativa. As mulheres estão no centro dos acontecimentos. Os homens são os peões.

Mas o segundo sentido é feminino de um jeito mais obscuro. A Canção dos nibelungos mostra o que a mulher tem de pior. Quando as mulheres resolvem agir, é para alterar a normalidade das coisas de tal jeito que alguém acaba sendo destruído. Não que seja uma ação desastrada. Pelo contrário! O objetivo é a destruição pura e simples. Pela inércia das coisas, era para Brunhild ter aquietado o facho. Mas não. Assim que ela se dá conta de como foi vencida, ela evita a inércia e tenta influenciar os acontecimentos. Claro, influenciar de um jeito maligno. Até que por um lado o ódio de Brunhild é mais compreensível do ponto de vista masculino. Como ela é meio moleca, é uma adolescente que quer disputar com os homens no próprio jogo deles. O jogo é no muque? Então ela vai disputar assim com eles. Essa é a disputa que ela tem com os homens. É compreensível a irritação que ela sente por ter sido vencida. Mas o negócio se complica quando ela descobre como foi vencida. Ela foi enganada. Só a venceram pelo engano. Aí entra o feminino. É a fúria de quem foi traída. Ela antes podia esmagar a cabeça do Gunther. Podia vencer de um jeito masculino. Agora, só vencerá apelando para estratagemas... femininos. O que a move é o ódio vingativo de quem não esquece jamais a injúria. Isso é feminino. O ódio por ter sido enganada é compartilhado também por Kriemihild. Toda a fúria dela é explicada por ter sido traída por Hagen Tronje. Aí entra uma coisa bastante curiosa. Se a gente parar para pensar, Hagen Tronje roubou Siegfried dela. Esse roubar foi no sentido de matar, lançando mão de artimanhas; não de conquistar para si. Não importa. O ódio feminino de Kriemihild foi posto em ação do mesmo modo. Hagen se tornou uma espécie de rival. Tanto que ela se casa com o rei Etzel só para destruir Hagen Tronje.

Saturday, June 06, 2009

Pietà, Signore

Disse Goethe: "A arte serve para tornar a vida um pouco mais suportável."Ouvir o Franco Corelli cantando Pietà, Signore torna mesmo tudo mais suportável. E o mais incrível é que o sr. Alessandro Stradella (foi ele quem compôs) era um dissoluto*. O cara foi assassinado por um matador contratado pelo esposo de uma das amantes dele! Pietà, Signore!



*Mas dada a mentalidade barroca, de repente nem é tão admirável esse tipo de contradição.

Update: Escutem só essa versão com o Mario del Monaco. Essa que ele cantou em Tóquio deve ter sido ouvida até em Togo, de tão forte que era a voz do homem!