Friday, March 27, 2009

São Paulo não tinha carteira de identidade

Escrevi correndo.

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Porventura não vale mais morrer mil vezes do que não poder viver na própria cidade sem escolta de gente armada? (M. T. Cícero, Filípica II, 44)

Pior que mataram o homem mesmo. Mas o que ele quis dizer é que não adianta nada viver sem liberdade. Depender da "escolta de gente armada" (seguranças públicos ou particulares) significa transferir parte da nossa liberdade a outros. Você depende para valer deles.

Eu queria mesmo é citar os Atos dos Apóstolos. O texto é da Bíblia protestante do João Ferreira de Almeida, 2ª ed.:



Quando o estavam amarrando com correias, disse Paulo ao centurião presente: ser-vos-á, porventura, lícito açoitar um cidadão romano, sem estar condenado? Ouvindo isto, o centurião procurou o comandante e lhe disse: Que estás para fazer? Porque este homem é cidadão romano. Vindo o comandante, perguntou a Paulo: Diz-me: és tu cidadão romano? Ele disse: Sou. Respondeu-lhe o comandante: A mim me custou grande soma de dinheiro este título de cidadão. Disse Paulo: Pois eu o tenho por direito de nascimento. Imediatamente, se afastaram os que estavam para o inquirir com açoites. O próprio comandante sentiu-se receoso quando soube que Paulo era romano, porque o mandaram amarrar.


Citei essa passagem bíblica porque ela é fantástica. Você encontrou alguma alusão à apresentação de identidade, CPF, título de eleitor...? Como foi que descobriram que São Paulo era cidadão romano? Porque ele afirmou! Bastou a palavra de um cidadão romano a um oficial romano. Olha que o homem estava bem distante de Roma. Um judeu na Ásia! Isso foi muito antes de Caracala expandir a cidadania para todo o império. Outra coisa. São Paulo conhecia os seus direitos. Ele não tinha sido condenado. Não podia ser açoitado. Apelou. Por acaso precisou redigir alguma petição a um tribunal? Ele teve que esperar a burocracia jurídica analisar o caso? Não! Os oficiais sabiam as leis e logo o soltaram. Precisou de alguma testemunha? Também não! O oficial bem que tentou dar uma acochambrada, do tipo: "Ah, foi mal, mas sabe como é, a gente sempre confunde as coisas pegando quem não é cidadão de nascimento." Mas São Paulo o era. Foi necessário apresentar certidão de nascimento autenticada? Também não. Pediram fotos 3X4? Não, isso é coisa de idiota. O comandante ficou é cheio de medo da cagada que estavam prestes a fazer.

Isso aconteceu num lugar zoneado? Mais ou menos (no caso da Palestina). Não porque faltassem leis. Os judeus é que não eram muito quietos. Mas era necessário um bilhão de leis para regulamentar tudo? Não. Aquela gente vivia dentro de um dos maiores impérios da humanidade. Ninguém achou muito necessário criar cartório em toda esquina. E olha que só na cidade de Roma parece ter havido um milhão de habitantes. Isso para a Antigüidade é gente pra dedéu! E o Império? Ele chegou a ter nos grandes dias 50 milhões. Pode ter tido até mais. Quase a população do Brasil em 1940. Sem toda a burocracia do Brasil em 1940 ou de hoje.

O interessante é que o sistema jurídico romano chegou ao apogeu nos séc. II e III (período clássico do Direito Romano). O Estado romano aumentava. Mas também chegou a se desestabilizar. O séc. III é o da "anarquia militar" ou da crise. Foi nessa época que saiu o Édito de Caracala. A cidadania foi expandida a todos os habitantes do Império. Os romanos eram cada vez mais governados por gente nascida nas províncias. Mas a burocratização e militarização do Estado vieram mesmo com o pai de Caracala, Septímio Severo. Ele disse uma coisa aos filhos bem reveladora, antes de morrer: "Fiquem unidos, paguem os soldados e desprezem todo o resto."

Isso é o Estado-monstro! A sociedade vive para ele, não o contrário. É o Estado que está aí. Hoje a coisa é ainda píor. Os meios técnicos atuais permitem uma intromissão bem maior do Estado na nossa vida. A única coisa que suaviza um pouco são os princípios de liberdade individual (e olhe lá).

Tuesday, March 03, 2009

Atendimento ao público

Gente, faz quase uma semana que ando gripadérrima. Fiquei vários dias sem nem olhar para o computador. Pelo menos hoje não estou mais febril. Para piorar, aconteceram umas coisas chatas demais nesses últimos tempos. Estranho como a vida continua. Enfim. Me desculpe por mais essa demora em responder alguns comentários. (Ah, e a caixa de e-mails? Da última vez que contei, eram 160. Caraca.)

Vou aproveitar o post para responder rápido aos comentários do Eduardo e do Nicolau. (Vocês vão saber do que estou dizendo, certo?)

Eduardo, eu já conhecia aquele concerto do Tchaikovsky. Nunca ouvi os outros dois concertos para piano dele. Eu também não conheço aquelas músicas do Dvorak (o Nicolau deve saber como se pronuncia certinho o nome desse cara, com aqueles acentos estranhos) e do Berlioz. Obrigada pelas sugestões!

Agora, a commedia dell'arte. Olha, não conheço lá muito bem o assunto. O que posso dizer é o seguinte. Você pode pegar informações na História da literatura ocidental do Carpeaux. Ele trata disso no último capítulo sobre barroco e classicismo. O nome do capítulo é Antibarroco. Pois é. Ela surge no barroco, mas tem características opostas a ele. As reminiscências mais antigas dela estão nas comédias do Plauto e do Terêncio (sempre esses dois caras); as mais imediatas estão na Renascença, mas de forma degenerada. Os personagens clássicos são mais ou menos parecidos com aqueles do Plauto e do Terêncio. (Não lembro do Carpeaux ter feito referência ao Menandro. Se bem que nem precisava. Todo mundo sabe que ele influenciou o Plauto e o Terêncio. Agora, uma curiosidade. O Menandro era tão famoso que até São Paulo citou o homem na Bíblia: "As ruins conversas pervertem os bons costumes". ) A diferença é que os personagens são adaptados para o cotidiano napolitano/veneziano, depois parisiense/madrilenho. Então tem o doutor picareta e o doutor imbecil (para rimar, Brasil), o criado esperto e o burraldo, o soldado brigão, o corno... As tramas são coisas do cotidiano, mais ou menos padronizadas, tratadas sempre pelos mesmos personagens/caricaturas.

Você vai saber com mais detalhes essas coisas todas lendo aquela parte do livro do Carpeaux. Acho que até eu vou reler também.

Não sei se Il pagliacci foi baseada em alguma trama da commedia dell'arte. O que sei é que o espírito dessa ópera é o do "drama popular sangrento" estilo Carmen. Você vê que se existe uma "comédia" naquela história, é no máximo aquela ironia bizarra do Canio. Mata a mulher, o amante, depois chega para o público, faca ensagüentada na mão, para dizer: "La commedia è finita!" (Lembra o Iago no Otelo do Verdi: "Tutto è burla nel mondo!")

Vou aproveitar para dizer outra coisa. O que eu acho bizarro mesmo é que até hoje brasileiro não aprendeu que essas coisas já existiam há 100 anos. Ainda hoje nego se acha lindo fazendo "drama popular sangrento". Ai.

Nicolau e aquele comentário sobre a República. Minha intenção foi mais ou menos provocativa. Na verdade, o que o Platão faz ali é o mesmo que a Igreja em assuntos "técnico-mudanos". Ela não está aqui para dar parecer técnico. O problema é de princípio. Platão faz isso também na República. Tanto é que ele descarta logo esse tipo de discussão como coisa fácil para qualquer cidadão bem formado (= detentor da verdadeira paidéia/arte de viver). Outra coisa. Discutir sobre comércio (e assuntos desse tipo) seria perda de tempo no plano em que ele coloca o tema (não seria no caso das Leis). Agora, atenção. Platão não diz que a proliferação de leis sobre a moral não faz sentido numa sociedade virtuosa. Não é bem assim. A preocupação dele na República é a psicológia moral (quer dizer, pedagogia), fundamentada numa análise da alma humana. É por isso que ele acha mais importante tratar da música e da poesia que de regulamentações comerciais e coisa e tal. Só que ele acha importante saber se deve ou não permitir a flauta. Entendeu? O problema que ele coloca é como formar cidadãos virtuosos para que a cidade seja também virtuosa. O negócio é complicado porque paidéia e politéia são duas coisas que andam juntas para todo grego (by W. Jaeger). Ele chega a deduzir regimes políticos a partir dos tipos de alma. A forma de sociedade que ele propõe é na verdade uma espécie de exteriorização da alma humana. A cidade deve ser análoga à alma (ideal/virtuosa, claro).

Liz e o Jabor. Aqui é que nem naquele filme A queda do Império Romano. Tudo está disponível para o primeiro cara-de-pau que chegar botando banca (quase um tema da commedia dell'arte). O negócio é fazer que nem você. É criar um espaço cuja simples existência seja um remédio contra esse tipo de coisa. Se a gente fosse esperar a atenção dos jornais à perseguição religiosa...

Ai, minha cabeça. Beijos a todos!