Você entendeu? Não? Explico. É que eles acharam esse negócio de identidade coisa para bandido. Um cidadão livre não precisaria disso.
Não sei se foi o Félix Pacheco que teve a idéia de fazer a carteira de identidade. Mas que deve ter sido obra de alguém com cara de cu como a dele, não tenho dúvida:
A carteira de identidade é mais uma forma de controle policial. Por que você acha que ela é expedida mediante secretarias de segurança pública?
Me diz uma coisa. Um cidadão livre mesmo tem que ser fichado? Por que você é obrigado a andar com um papelzinho com sua impressão digital? Qual a necessidade desse papel? Qual a necessidade da impressão?
Veja só uma coisa. Você já freqüentou alguma biblioteca universitária federal? As da UFRJ (pelo menos as de humanas) sempre são mais ou menos zoneadas. Você encontra com freqüência um livro todo carcomido (detesto livros carcomidos). Agora imagina como devem ser esses arquivões públicos, cheios de cópias das impressões digitais de zilhões de pessoas!
Você não é escravo para ter esse tipo de registro!
Entendo que seja necessário algum tipo de controle numa biblioteca. Pode ser necessário também em algum outro caso (e olhe lá). Agora, por que o governo da república federativa do Brasil, mediante os governos estaduais, exige uma identificação também? Ele já não exige 30 mil outras identificações? Mesmo que unificassem todas, o princípio continuaria babaca. Não somos gado nem criminosos. É palhaçada cadastrar pessoas livres.
Mas só estou reclamando. Tudo isso equivale a um "ai" (para não escrever mais palavrões). Quem se sente incomodado mesmo com isso? Um ou outro. Se o governo federal achar bom abaixar as calças de todo mundo para dar uma agulhada, todo mundo deixará sorrindo. Não é sempre assim nas campanhas de vacinação? E ainda por cima nego abaixa as calças se sentindo muito cidadão (que hoje significa sou-uma-pessoa-maravilhosa, mas na verdade é sou-um-trouxa-que-trabalha-quatro-meses-só-para-sustentar-burocrata). Parece que ninguém liga se tiver sempre o governo nas costas.
Fecho com o Ortega, A rebelião das massas:
Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. Quando, em 1800, a nova indústria começa a criar um tipo de homem - o obreiro industrial - mais criminoso que os tradicionais, a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Em 1810 surge na Inglaterra, pelas mesmas causas, um aumento da criminalidade, e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Governam os conservadores. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. Preferem agüentar, até onde possa, o crime. "As pessoas conformam-se em se adapatar à desordem, considerando-a como resgate da liberdade". "Em Paris - escreve John William Ward - têm uma Polícia admirável, mas pagam caro suas vantagens. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road a estar submetido a visitas domiciliárias, à espionagem e a toda as maquinações de Fouché". São duas idéias diferentes do Estado. O inglês quer que o Estado tenha limites.


