Wednesday, December 23, 2009

Sergio de Biasi e o piriri afetivo

Outro dia, escrevi um post sobre um texto do Sergio de Biasi (do Indivíduo do B). O título do meu post: De Biasi - Conselheiro amoroso. O que eu não tinha como imaginar é que ele levaria a sério a profissão! Embora autoexpressivo (ainda que o Sergio use o termo "homem médio" para se disfarçar), o texto Homens e mulheres não deixa de ter lá seus conselhos amorosos. Na verdade, ele é um produto para homens ressentidos que não conseguem namorar quem eles querem. Claro, a culpa nunca é deles. No caso, é do sistema malvadinho.

Você se lembra daquele post do S. de Biasi? A seguinte citação esclarecerá o espírito eu-me-amo do texto:

Querer ser o outro, por outro lado, nos distancia de nossas reais potencialidades e nos coloca perseguindo fantasmas, e buscando frustradamente, esquizofrenicmante (sic), mesquinhamente, futilmente, algo que só só o outro pode ser. Muito melhor é fazer as pazes com quem você é e tentar exercer essa inalienável função da melhor e mais plena forma que você conseguir.


O mesmo cara autocentrado escreveu o seguinte, em Homens e mulheres:

Então embora ambos os gêneros tendam a ter em suas mãos as ferramentas para atender às necessidades biológicas, psicológicas, emocionais e afetivas um do outro, esse enorme potencial de satisfação mútua permanece em grande parte inexplorado, fechado a cadeado por uma atitude egoísta, perdedora e miópica de “apenas as minhas necessidade importam”.


Você percebeu o problema? Ele começou com o papo do bom egoísta (como se dissesse: "Eu me basto", ou: "Eu me amo" (que nem na música do Ultraje a Rigor)). Todo pimpão. Aí depois ele me vem todo preocupado com a "atitude egoísta, perdedora e miópica de 'apenas as minhas necessidade importam'"! Como explicar essa porralouquice?

O post do S. de Biase só se torna inteligível se você se esforçar para entender a perspectiva do famoso PN (pega-ninguém). Não um PN simples, bruto, translúcido. Ele até pega alguém, mas nunca quem ele queria. Nunca como ele queria. Ele é como o Ranger verde, que só chama Dragonzord. Aí depois acaba se remoendo com o verso do A. dos Anjos: "Um urubu pousou na minha sorte!". Como não é racional reclamar da sorte, a culpa é da sociedade, das mulheres mé(r)dias...


Sergio de Biasi paquerando uma sortuda qualquer.

O texto só adquire sentido se você interpretá-lo à luz do Ranger verde. Não faltam Tommies por aí. O resto, mil palavras de racionalizações. Pretextos malucos para explicar um, digamos, desarranjo social. Uma espécie de piriri afetivo.

Então você vê que tudo não passa de um monte de blábláblá, que pode ser resumido assim: "Sou super sublime e tal. O negócio é que só pousa urubu na minha sorte! Quem eu quero, só fica com quem é mais tosco que eu. Que horrendo! Que desgosto!" É o que ele diz nessa passagem:

E se isso é extremamente frustrante para o homem médio – ter que assistir a mulheres ficando atraídas por perdedores totais que conseguem ser populares batendo no peito e dizendo uga-buga, e que claramente, obviamente vão tratá-las como lixo.


Como diria o Hölderlin, "Só agrada à turba o tumulto das feiras." O negócio é ficar com o campeão frustrado...

Agora, eis o prêmio Trecho mais embaraçoso de blog em 2010 (ou: Os sofrimentos de um jovem ressentido):

O homem médio, confuso e frustrado por um sistema que não entende e que na prática lhe nega acesso ao sexo, e que ainda por cima o trata de forma hostil quando tenta obtê-lo, acaba não raro desenvolvendo um certo nível de ressentimento com a mulher média, entre outros motivos por despejar em cima dele toda a responsabilidade de tomar qualquer iniciativa e então tratá-lo como um pervertido ou inconveniente quando tenta fazê-lo.


Barbaridade! O cara confessa que está doido para transar mas não consegue! Mas ele diz que o perdedor são os outros... Vai ver, quem sai perdendo somos nós mulheres, que preferimos "perdedores totais que conseguem ser populares batendo no peito e dizendo uga-buga". Ignoramos o sofisticado do Sergio, para namorar um jiujitero toscão. Nós, que podemos arrumar qualquer homem estalando os dedos (basta "mostrar-se minimamente receptiva a ser aproximada [que expressão esquisita!] e então dizer 'sim'” [como se as coisas fossem assim]), negamos (eu, você e o mundo/sistema) ao pobre do Sergio um fácil "acesso ao sexo". Quando ele tenta obter "acesso ao sexo", nós o tratamos de forma hostil. (Nem quero saber que tipo de coisa ele faz para ser tratado de forma hostil.) Amiga, então o negócio é o seguinte. Vamos largar os nossos homens toscos. Com tanto Ranger verde sublime e disponível, é sacanagem dificultar o "acesso ao sexo"! Seja nobre e caridosa a mulher. Facilite a vida do Sergio sublime. É a única coisa que a distinguirá das mulheres mérdias. (Faço questão aquela expressão entre aspas. Não é só porque é da lavra do Indivíduo do B. É que ela faz referência a uma coisa que o Sergio havia escrito há alguns anos. Daqui a pouco vou mostrar para você.)

Nem adianta ele afetar pose de quem só analisa o "problema" por curiosidade. Está na cara que isso é algo que ele pensa bastante. Há tempos. Mais adiante, vou dar uma indicação a respeito.

E aquela parte sobre a produção feminina? (Para quem não vive neste mundo, produção é se arrumar.) A questão-mor de quem sofre de piriri afetivo é: "Como é possível uma mulher se produzir toda e não querer dar para mim?" Pentear o cabelo? Depilação? Maquiagem? Roupa bonita? Sapatos? A menos que a gente queira pular no colo do primeiro que aparecer (ou no colo de quem estiver com piriri afetivo), qual a explicação para isso? Como os fatos femininos são esquisitos demais aos desajustados, a única racionalização que eles concebem para as derrotas seguidas que eles engolem é: "Elas só querem aparecer! Pior, para as outras! Que absurdo!" O desarranjado acaba se vendo como super-homem afetivo (ou super-homem-médio). O problema não é ele, que tem um caminhão de carinho para oferecer. O problema são as mulheres mé(r)dias. Se na realidade ele perde, dentro da cabeça dele há vitórias e mais vitórias. É a ilimitada liberdade interior do PN sublime.

(Entre os argumentos do Rousseau para a defesa da masturbação, estava o exercício da imaginação e do domínio: “esse vício, que os envergonhados e os tímidos acham tão cômodo, tem mais de um atrativo para aqueles que têm imaginação: ele os torna capazes de sujeitar todas as mulheres aos seus caprichos e faz com que a mulher bonita satisfaça o seu desejo sem o consentimento dela." Todo perdedor tem algum motivo histriônico para se gabar. Nem que seja triunfar no onanismo.)

Toda a conversa do Sergio sobre bons tratos ou "sensibilidade psicológica" é o maior papo-furado. É a superestrutura ideológica da afetividade do pega-ninguém. Como mulher, digo que já estou muito bem vacinada contra essas coisas. Não tem nada mais velho do que o golpe do homem atencioso. A estrutura real é bem outra. É a "ação direta" a serviço do sexo. Mas como ele não consegue nem isso, o triunfo se dá pela reflexão. Só faltava ele dizer: "Meu Reino não é desse mundo"!

No fundo, o pessoal da cantada do "já é" é a realização dos sonhos dos acometidos por piriri afetivo. Estes têm que aprender muito com aqueles...

Vamos voltar à história do "acesso ao sexo". Não custa lembrar que em 2007 o Sergio se deu ao trabalho de defender a prostituição. Depois de dizer que um dos efeitos da poligamia nas sociedades islâmicas é haver "homens que nunca terão esposas", ele disse o seguinte:

Aí eu pensei que uma forma de compensar (parcialmente) isso seria haver umas poucas mulheres que prestassem à sociedade o serviço público de transarem com os homens que ficassem sem esposas/parceiras. Só que tais mulheres já existem em todas as sociedades – são as prostitutas. Então em comecei a pensar sobre o papel que elas têm nas sociedades cristãs, e acabei por concluir que elas prestam um excelente e muito saudável serviço à comunidade.


Ele também disse: "Uma prostituta faz mal a alguém? Não, ela presta um serviço ardentemente desejado por seus clientes."

Como não concluir que o Sergio está advogando em causa própria? Quem deseja "ardentemente" uma puta? Aquele que fica "cavando – muitas vezes desesperadamente – uma parceira sexual"; que pensa que dar em cima de uma mulher é "extremamente estressante"; que acha "extremamente confuso e frustrante" a atitude da mulher mé(r)dia de não pular no colo dele; que se sente "extremamente injustiçado" por ser gentil e mesmo assim não pegar ninguém; quem, senão o próprio S. de Biasi, peso médio-sublime? A babaquice é tanta que ele chega a argumentar que os homens que saem com putas serão "mais sinceros e afetivos"! Você está vendo que a desculpa é sempre a mesma? Se deixassem o cara comer quem ele quisesse, ele seria feliz, maravilhoso, legal, sincero, afetuoso. Como não deixam, aí ele fica todo desesperado, maluco, aflito.

Eu já disse, mas repito. Gente boazinha é sempre uma porcaria.

O mais engraçado é que a enorme angústia do Sergio "Tommy" de Biasi é a mesma do... Sidney Silveira, do Contra Impugnantes! O Sidney não manifestou em público o nível de desespero do Sergio. Mas se confessou também um atormentado por nós mulheres. Pelo menos é o que deduzo a partir disso: "a grande apetecibilidade da beleza feminina, aos olhos do homem cristão em permanente e titânica luta contra o pecado, é que traz, para a sã doutrina, um grande risco de queda." Veja bem os termos que ele usou: "grande apetecibildiade da beleza feminina"; "permanente e titânica luta contra o pecado". O estilo rocambolesco é para tornar majestosa uma coisa bem simples. O cara (Sidney?) não pode ver um rabo de saia. Senão, endoidece mesmo. É uma confissão espantosa. A julgar pelos termos usados, a luta do Sidney para não ver foto de mulher de biquíni é tão (ou mais) brutal que a dos cruzados para defender Jerusalém. O Sergio dá um passo além. Ele não fica só doido, angustiado. Ele acha que existe uma perfídia social que lhe impede de pegar mulher bonita. Mas o ponto de partida é o mesmo do Sidney. Bem que dizem que na hora do desespero, ateu é igualzinho ao católico mais fiel.

A julgar as opiniões desses dois, vou é me vestir feito uma muçulmana a partir de hoje. Para o meu próprio bem. Se você estiver com pena deles, azar. Leva os dois para casa. Só não reclama depois.

Mulheres se preparando para lidar com homens bonzinhos.

18 comments:

Luís Guilherme Fernandes Pereira said...

Quer casar comigo? :P

Excelente, excelente demais!!

Cesar said...

Quer sair comigo? Vou arrancar suas vestes muçulmanas antes de vc. entrar no meu Fusca 73.

Βδελυκλέων said...

Para entender os Indivíduos tem que se compreender a lógica do ultra-liberalismo. Para os ultra-liberais tudo se resume a mercado e, portanto, cada pessoa tem um preço simbólico que deve ser pago com o seu preço simbólico, se eu quero "pegar" uma guria de 3000 reais, mas eu só valho 1200, eu devo estudar/ir à academia/fazer curso de boas maneiras/virar uma celebridade da internet. Para uma celebridade de internet com seu preço simbólico supostamente anabolizado, ele não "comprar" uma guria e vê-la sendo comprada por um pitboy de 600 reais é uma falha intevencionista no mercado...

Luís Guilherme Fernandes Pereira said...

Bdelykleon resolveu a questão. Só não lembro de que peça de Aristófanes é Bdelykleon...

Βδελυκλέων said...

As Vespas, as Vespas. :-)

HenriqueSantos said...

Querida,

Ri demais deste post, e também refleti. Quantas vezes caí, e ainda caio, nesta de "sou tão bom, por que ela não quer dar para mim."...

Candidato a Melhor Post do Ano. Ranger Verde, A imagem final e a referência ao seu post mais antigo, impagáveis. Excelente.

Gosto muito destes 2 blogs teus, estão entre os meus favoritos.

Beijos,

Feliz Natal e um ótimo ano novo.

Tanja Krämer said...

Gente, eu queria responder aos comentários, mas não posso. Não tenho tempo!

Feliz Natal a todos! (Até mesmo ao César tosco. Veja como estou santa hoje. :-))

trombone com vara said...

Que texto hilário !
Será que ele realmente gosta de mulher ? Ou ele quer apenas se livrar de uma necessidade biológica ?
Desde zilhóes a/c leva a fêmea o homem mais dotado. Os demais fazem bossa-nova.

Luís said...

Nossa, quanto ódio! Ele foi seu namorado?

Tanja Krämer said...

Por que quer saber, Luís? Quer alguma dica para quando você for paquerá-lo?

Eliane said...

Não conheço a peça As Vespas, mas antes de ler esse post ( eu não conhecia o blog ) e depois de passar pelo Indivíduo, um enxame de vespas foi a imagem que me veio ao pensar nas habituais mil palavras de racionalização dos textos do Sergio.

Que maravilha poder responder com tanta criatividade e humor.

Adorei!

Anonymous said...

caraca... o qeu o cara te fez de mal? =/

Anonymous said...

oque ele fez para ela? antes não sei, mas após esse do ranger verde..

http://www.oindividuo.org/2009/12/30/tanja-kramer-e-a-assombrosa-falta-de-autocritica/

Luciano P. Garrido said...

Você é linda maravilhosa e inteligente, vai perder tempo com esse Conselheiro Acácio de galocha?

Batman é Proust said...
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Batman é Proust said...

Fantástico, de fato. Ri como uma criança. Excelente, delicioso texto. Engraçado que cheguei aqui pelo próprio Sérgio, devido a um link do Multiply de uma amiga...

Um abraço.
Fui com a sua cara mesmo.

VYG said...

Não concordei com tudo dos textos do Sérgio. Mas o seu é realmente muito superficial, desculpa a sinceridade. Primeiro, confunde autor e narrador. Depois, coloca as mulheres como uma categoria uniforme. Quem não consegue "uma mulher bonita" é necessitado, etc. Como se existisse um mundo dos geneticamente perdedores e dos geneticamente ganhadores. A mim, nem os homens são pobres vítimas do que Biasi chama de mulher média, nem afirmar-se como mulher fatal é uma grande coisa.
(Não meu bem, não sou nenhuma mulher feia ressentida, antes que também confunda isso)

живаго said...

Contra-argumentar seria ir muito além do seu método discursivo denegrativo fêmea-alfa. O coitado do Sérgio deve ter se desiludido de tanto pegar gente como você por aí.