Tuesday, December 01, 2009

CAPÍTULO XII DA MORTE QUE DÃO AOS CATIVOS E CRUELDADE QUE USAM COM ELLES

(Direto da História da província de Santa Cruz, do Gândavo. A citação é grandinha. Mas você é uma pessoa letrada.)

CAPÍTULO XII

DA MORTE QUE DÃO AOS CATIVOS E CRUELDADE QUE USAM COM ELLES

Huma das cousas em que estes Indios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens, he nas grandes e excessivas crueldades que executam em qualquer pessôa que podem haver ás mãos, como nam seja de seu rebanho. Porque nam tam somente lhe dam cruel morte em tempo que mais livres e desempedidos estam de toda a paixão; mas ainda depois disso, por se acabarem de satisfazer lhe comem todos a carne usando nesta parte de cruezas tam diabolicas, que ainda nellas excedem aos brutos animaes que nam tem uso de razam nem foram nascidos pera obrar clemencia.

Primeiramente quando tomam algum contrario se logo naquelle fragante o nam matam levam-no a suas terras pera que mais a seu sabor se possam todos vingar delle. E tanto que a gente da aldêa tem noticia que elles trazem o tal cativo, dahi lhe vam fazendo hum caminho até obra de meia legoa pouco mais ou menos onde o esperam. Ao qual em chegando recebem todos com grandes afrontas e vituperios tangendo-lhe humas frautas que costumam fazer das canas das pernas doutros contrarios semelhantes que matam da mesma maneira E como entram na aldêa depois de assi andarem com elle triumfando de uma parte pera outra lançam-lhe ao pescoço huma corda de algodão, que pera isso tem feita, a qual he mui grossa, quanto naquella parte que o abrange, e tecida ou enlaçada de maneira que ninguem a pode abrir nem cerrar senam he o mesmo official que a faz. Esta corda tem duas pontas compridas per onde o atam de noite pera nam fugir. Dali o metem numa casa, e junto da estancia daquelle que o cativou lhe armam huma rede, e tanto que nella se lança cessam todos os agravos sem haver mais pessoa que lhe faça nenhuma offensa. E a primeira cousa que logo lhe apresentam he uma moça, a mais fermosa e honrada que ha na aldêa, a qual lhe dam por mulher: e dahi por diante ella tem cargo de lhe dar de comer e de o guardar, e assi nam vai nunca pera parte que o nam acompanhe.

E depois de o terem desta maneira mui regalado hum anno, ou o tempo que querem, determinam de o matar, e aquelles ultimos dias antes de sua morte, per festejarem a execuçam desta vingança, aparelham muita louça nova, e fazem muitos vinhos do sumo de huma planta que se chama aipim de que atraz fiz mençam. Neste mesmo tempo lhe ordenam huma casa nova onde o metem. E o dia que ha de padecer pela manhã muito cedo antes que o sol saia, o tiram della, e com grandes cantares e folias o levam a banhar a uma ribeira. E tanto que o tornam a trazer, vam-se com elle a hum terreiro que está no meio da aldêa e ali lhe mudam aquella corda do pescoço á cinta passando-lhe huma ponta pera traz outra pera diante; e em cada huma dellas pegadas dous, tres Indios. As mãos lhe deixam soltas porque folgam de o ver defender com ellas e ali lhe chegam huns pomos duros que tem entre si á maneira de laranjas com que possa tirar e offender a quem quizer. E aquelle que está deputado pera o matar he hum dos mais valentes e honrados da terra, a quem por favor e preminencia de honra concedem este officio. O qual se empenna primeiro per todo o corpo com penna de papagaios e de outras aves de varias côres. E assi sae desta maneira com hum Indio que lhe traz a espada sobre um alguidar, a qual he de hum páo mui duro e pesado feito á maneira de uma maça, ainda que na ponta tem alguma de pá; e chegando ao padecente a toma nas mãos e lhe passa por baixo das pernas e dos braços meneando-a de huma parte pera outra.

Feitas estas cerimonias afasta-se algum tanto delle e começa a lhe fazer huma falla a modo de pregaçam, dizendo-lhe que se mostre mui esforçado em defender sua pessoa, pera que o nam deshonre, nem digam que matou hum homem fraco, afeminado, e de pouco animo, e que se lembre que dos valentes he morrerem daquella maneira, em mãos de seus immigos, e nam em suas redes como mulheres fracas, que nam foram nascidas pera com suas mortes ganharem semelhantes honras. E se o padecente he homem animoso, e nam está desmaiado naquelle passo, como acontece a alguns, responde-lhe com muita soberba e ousadia que o mate muito embora, porque o mesmo tem elle feito a muitos seus parentes e amigos, porem que lhe lembre que assi como tomam de suas mortes vingança nelle, que assi tambem os seus o hão de vingar como valentes homens e haverem-se ainda com elle e com todo a sua geraçam daquella mesma maneira.

Ditas estas e outras palavras semelhantes que elles costumam arezoar nos taes tempos, remete o matador a elle com espada levantada nas mãos, em postura de o matar, e com ella o ameaça muitas vezes fingindo que lhe quer dar. O miseravel padecente que sobre si vê a cruel espada entregue naquellas violentas e rigorosas mãos do capital immigo com os olhos e sentidos promptos nella, em vão se defende quanto pode. E andando assi nestes cometimentos acontece algumas vezes virem a braços, e o padecente tratar mal ao matador com a mesma espada. Mas isto raramente, porque correm logo com muita presteza os circumstantes a livra-lo de suas mãos. E tanto que o matador vê tempo oportuno, tal pancada lhe dá na cabeça, que logo lha faz em pedaços. Está huma India velha preste com hum cabaço grande na mão, e como elle cae acode muito depressa e mete-lho na cabeça pera tomar nelle os miolos e o sangue. E como desta maneira o acabam de matar fazem-no em pedaços e cada principal que ahi se acha leva seu quinhão para convidar a gente de sua aldêa. Tudo emfim assam e cozem, e nam fica delle cousa que nam comam todos quantos ha na terra, salvo aquelle que o matou nam come delle nada, e alem disso manda-se sarjar por todo o corpo, porque tem por certo que logo morrerá se nam derramar de si aquelle sangue tanto que acaba de fazer seu officio.

Algum braço, ou perna, ou outro qualquer pedaço de carne costumam assar no fumo, e te-lo guardado alguns mezes, pera depois quando o quizerem comer, fazerem novas festas, e com as mesmas cerimonias tornarem a renovar outra vez o gosto desta vingança, como no dia em que o mataram, e depois que assi chegam a comer a carne de seus contrarios, ficam os odios confirmados perpetuamente, porque sentem muito esta injuria, e por isso andam sempre a vingar-se huns dos outros, como já tenho dito. E se a mulher que foi do cativo acerta de ficar prenhe, aquella criança que pare, depois de creada matam-na, e comem-na sem haver entre elles pessoa alguma que se compadeça de tam injusta morte. Antes seus proprios avós, a quem mais devia chegar esta magoa, sam aquelles que com maior gosto o ajudam a comer, e dizem que como filho de seu pai se vingam delle, tendo pera si que em tal caso nam toma esta creatura nada da mãi, nem crêm que aquella immiga semente pode ter mistura com seu sangue. E por este respeito, somente lhe dão esta mulher com que converse: porque na verdade sam elles taes, que nam se haveriam de todo ainda por vingados do pai se no inocente filho nam executassem esta crueldade. Mas porque a mãi sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes quando se sente prenhe mata-a dentro da barriga e faz com que nam venha à luz. Também acontece algumas vezes affeiçoar-se tanto ao marido, que chega a fogir pera sua terra pelo livrar da morte. E assim alguns Portuguezes desta maneira escaparam que ainda hoje em dia vivem . Porem o que por esta via senam salva ou por outra qualquer manha occulta, será cousa impossivel escapar de suas mãos com vida, porque nam costumam da-la a nenhum cativo, nem desistirão da vingança que esperam tomar delle por nenhuma riqueza do mundo, quer seja macho, quer femea, salvo se o principal, ou outro qualquer da aldêa acerta de casar com alguma escrava sua contraria, como muitas vezes acontece, pelo mesmo caso fica libertada, e assentam em nam pertenderem vingança della, por comprazerem áquelle que a tomou por mulher, mas tanto que morre de sua morte natural, por cumprirem as leis da sua crueldade, havendo que já nisto nam offendem ao marido custumam quebrar-lhe a cabeça, ainda que isto raras vezes, porque se tem filhos nam deixam chegar ninguem a ella, e estam guardando seu corpo até que o dêm á sepultura.

7 comments:

Mr. Almost said...

Justos Céus!

Que crueldade dos índios maus com os bons portugueses! Isso não devia ter acontecido, é errado! Humpf!

w said...

Alguns desses que tomaram a pancada na cabeça e tiveram os miolos removidos conseguiram sobreviver --hoje são conhecidos por relativistas.

Bernardo said...

Bons selvagens.

Mr. Almost said...

Gordo! Batata! "Bons selvagens"! Que bons selvagens? Ficou maluco? Você, com nome de cachorro que socorre gente, gosta de sacrificar e comer humanos?

Podia ser você, sabia? Os índios iriam adorar essas camadinhas adiposas. Talvez fizessem salpicões...

Nicolau said...

O pior de tudo é o vinho de aipim. Isso sim é crueldade.

Anonymous said...

Há uma descrição semelhante no História de uma viagem feita na terra do Brasil, do Jean de Léry. Mas nesse caso, é interessante um 'relativismo' um tanto montaigniano quando ele compara a bárbarie ritual com a noite de São Bartolomeu na França...

Enfim, esses relatos coloniais são sensacionais.
F.R.

Mr. Almost said...

Miss Kramer:

Um homem que, boicotando o tratado de Tordesilhas, fez as fronteiras do Brasil (reivindicando para a corôa portuguesa a Amazónia):

http://aeiou.visao.pt/brasil-sessao-especial-do-senado-homenageia-portugues-pedro-teixeira-o-conquistador-da-amazonia=f539798

Por favor, assista a estes videos:

http://www.youtube.com/watch?v=Bkk4JmEIbLA

http://www.youtube.com/watch?v=tPSzB0FB0Ic