Monday, November 16, 2009

Exposição positivista do Rio de Janeiro III

Outro dia, me fizeram a gentileza de mostrar uma foto de um cara morto. Se fosse só a foto de um cara morto, até que daria para agüentar. O que não dá para agüentar é ver um cadáver num carrinho de supermercado. Ao redor, vários curiosos.

A cena era estúpida demais. Você sabe que gente não é coisa. Mas é como se esfregassem na sua cara: "Você está errado! As pessoas são coisas sim. Olha como tratamos esse cara!" O pior é que uma cena dessas não é rara. Certa vez, um pai desceu o morro com o filho num carrinho de supermercado. Outras vezes, é gente (ou o que sobrou) em porta-mala. Essas coisas não dão para agüentar. Mas de jeito nenhum. Por quê? Eu já disse. As pessoas não são coisas.

Isso é chocante por vários motivos. Eu queria salientar um. Entender que todos somos quem, não o quê, é fundamental. Você não chega para alguém assim: "O que é você?" O certo é: "Quem é você?" Só somos quem porque somos pessoa. Parece evidente, mas não é tão simples. Foi uma conquista histórica! Levou muito tempo para se entender que todos somos pessoas. A contribuição do cristianismo nesse ponto é fundamental. A dimensão pessoal de cada um é intocável. Deturpá-la ou negá-la é escandaloso. (O aborto é também intolerável pelo mesmo motivo. Por sinal, leia o maravilhoso artigo Uma visão antropológica do aborto, do Julián Marías. )

O mal-estar causada causado por aquela cena é um escândalo quádruplo. O mais óbvio é que ninguém merece algo assim. Mas você percebe também que vai contra todos os nossos valores básicos. É uma atitude pré-cristã. E que ela reflete uma dimensão obscura da nossa existência. É o problema do mal.

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As pessoas são mesmo trucidadas nas favelas. Com freqüência. É triste, mas somos obrigados a refletir a respeito.

Ninguém normal esquarteja ninguém. Óbvio. Mas esquartejar alguém vivo requer uma dose de crueldade extra. Olha o caso do Fernandinho Beira-Mar. Ele comandou por telefone o esquartejamento de alguém vivo. Os exemplos de brutalidade são muitos. Por que tanto ódio?

Uma explicação sócio-econômica não basta. Além do aspecto determinista, ela não basta para explicar um certo problema bem grave. Quem sente prazer ao matar é um desajustado, sem dúvida. Mas isso é constatar o óbvio. A questão é outra. O que está em jogo é o velho problema do mal. A encrenca está aqui.

Muitas explicações sobre o banditismo carioca partem de um pressuposto engraçado. É que consideram a maldade passível de explicação racional. Se a razão pode explicá-la, a razão pode transformá-la. Se você usar direitinho a razão, você encontrará a chave do enigma. O mal é (nesse caso específico) um problema social. Como problema social, basta fazer as modificações necessárias para melhorar o sujeito individual. Um bandidão se tornará um cidadão respeitável, desde que se saiba operar bem o mecanismo social. O negócio todo é que isso é muito abstrato. É lidar com esquemas mentais. O mal não é apenas um problema social. Ele tampouco é explicável. E muito menos é uma questão de falta de "iluminação". No fundo, o que está em jogo é o modo de lidar com o Pecado Original. É aqui que se torna patente como a discussão sobre o banditismo carioca é feita numa base cristã pervertida. A redenção do fulano bandido se dá pela ação de um divino agente social bem-intencionado (um sociólogo, um ongueiro, um psiquiatra, sei lá quem). O horror à pura intervenção violenta estatal (o"serviço de inteligência" da polícia é só mais um meio do aparato repressivo estatal) se explica pela crença (é mesmo questão de fé) de que a maldade pode ser consertada sim, graças à uma iluminação racional. A moda agora é "cidadania". Mas pode ser qualquer troço.

Vou me repetir (e resumir). Todas essas coisas revelam até que ponto o cristianismo se tornou algo estranho entre nós. Temos é uma versão gnóstica de cristianismo a serviço do povo. Os frutos dessa maluquice estão aí. Enquanto houver a pretensão de endireitar a natureza humana, as coisas só vão piorar.

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Se nazistas queimam um judeu, é porque são uns monstros, inimigos da humanidade. Se traficantes queimam uma vítima, é porque são uns coitados, crucificados pelo sistema.

4 comments:

Jorge Fernandes Isah said...

Tanja,

Muito boa reflexão.

o problema passa certamente pela cosmovisão da sociedade. Quando se perde o referencial absoluto de Deus e Sua Lei Moral, perde-se tudo, e o homem estará entregue à própria sanha suícida (primeiro manifestada através do ataque ao próximo; mas o objetivo principal é a auto-destruição).

Por isso, o Cristianismo é tão combatido, não na periféria, mas no cerne da sua mensagem (há muitos arremedos de Cristianismo por aí, essencialmente humanista e conivente com o homem e o mal) a qual é desprezada assim como a revelação especial, a Bíblia.

No mundo onde Cristo e seu Evangelho foram banidos (infelizmente, por muitos cristãos) após séculos de racionalismo e liberalismo, o que temos?

O homem relegado ao ponto de ser mais insignificante do que uma ameba (nenhuma ong se apercebeu do "massacre" que esses animais celulares sofrem?), e como tal, revela-se toda a rejeição do homem ao próprio homem.

Culto à deusa Gaya, a Mamon, a Vênus, substituiram a forma de amor simples entre as pessoas.

Esta é uma discussão longa, com vários pormenores, mas, em geral, o erro está na cosmovisão. Quando se afasta do teocentrismo e parte-se para o antropocentrismo, quem perde é o próprio homem. Sempre.

Abraços.

trombone com vara said...

Eis uma discussão que me interessa e muito ! O homem é desequilibrado por natureza. Encontramos exemplos de crueldade em bons selvagens, no cidadão comportado e no doutor cientista.
O que me dá nojo é me obrigarem a ver a violência. Tratarem como show.
Sempre fomos violentos. Assistíamos a guilhotina, estuprava-se a torto e direito, escravos eram postos no pelourinho, duelos, amputações, queimavam-se hereges, torturava-se livremente.
A diferença é que se podia passar uma vida inteira ignorando toda essa imundicie. A violência era comum ( nem é bom lembrar do que se fazia aos animais ) mas não era exibida dentro de minha casa.
Quanto aos doutores sociólogos... eu gostaria de saber para que serve um sociólogo !

w said...

Não faz muitos anos, fotos assim eram exclusividade do extinto Notícias Populares, jornaleco do qual se dizia que "se espremer sai sangue". Essa foto foi exibida nos grandes portais e nos blogs de política --parece que todos se reduziram ao NP.

bloke in blue said...

Eu acho que isso não tem nada a ver com perder a referencial em Deus (coitado dos que forem ateus), o fato é que os homems em seu estado mais puro, como já dito acima, tem na sua essência o gosto pelo sangue. Se hoje em dia o homem médio não externa isso é porque sabe que se não cumprir as regras que lhe são impostas pela coletividade vai para a cadeia, vai sofrer sanções.

Nada mais natural, portanto, que em um gueto, à margem da sociedade, como as favelas, a ausência de regras gere um estado de barbárie por parte de alguns. Se o Estado não reprime, não assiste, não está presente, a revolta grassa, nem que seja para dar uma justificativa e chamar a atenção para a existência de vidas carentes em tudo.

Educação+Repressão+Liberação