Friday, November 20, 2009

Espírito da época

Ontem folheei (no Adobe; existe um termo mais próprio?) uma prova do Banco Central. O cargo? Não lembro. Talvez analista de alguma coisa. Eu imaginava o convencional. Português, matemática, algum conhecimento técnico... O que encontrei foram coisas como: "Observe este paralelepípedo reto-retangular. Qual das figuras abaixo corresponde ao paralelepípedo?" Em cada uma das cinco opções, uma imagem "desconstruída" do objeto geométrico. Havia também questões de lógica. O tipo de desafio que aparecia (ainda aparece?) no Segundo Caderno do O globo. Ou na revista Coquetel (dificuldade: cobrão). Bom saber que nossa economia está nas mãos de quem possui espírito lúdico.

Já ouvi falar que os autistas são bons em matemática e raciocínio lógico-abstrato. Serão mesmo? O filme O cubo (semi-clássico) parte dessa premissa. Um grupo se vê aprisionado numa armadilha mortal. Só é possível escapar se compreenderem a estrutura matemática dela. Como envolve contas complicadas, é difícil pra chuchu. Só uma pessoa sobrevive. Um autista (perdão, mentally handicapped). Logo, o mentally handicapped passaria tranqüilo para o Banco Central. A prova e o filme estão em sintonia. Ela só pode ser explicada por causa da manifestação do espírito absoluto na história. (Forrest Gump é outra manifetação. Se bem que o cara não é um autista. É retardado mesmo. Mas o sucesso do personagem (e do filme) também é sinal dos tempos.)

Outra manifestação da época? As gincanas de emprego. (Elas têm um outro nome mais elegante. Não lembro.) Não basta fazer a prova-Coquetel. É preciso desfilar como se fosse um modelo na passarela. Não pense que é retórica. Isso acontece. Nem duvido que seja possível avaliar condutas profissionais pelo método-passarela. Se é possível, então toda avaliação é possível. Assim, a questão é outra. Por que apostar todas as fichas em indícios e conjecturas indiretas? É como se avaliassem a sua capacidade profissional examinando as entranhas de um cabrito. (Não vejo motivo razoável para os avaliadores serem avaliados da mesma forma.)

Qual a relação entre tudo isso? Talvez o entretenimento ser levado a sério. Muito a sério. Tudo é uma questão de jogo. O seu futuro profissional pode depender um dia de como você se sairá numa dança das cadeiras. (Imagina se Luís XVI obrigasse os súditos dele a pular num pé só. Neguinho fez a Revolução Francesa por muito menos.)

Você pode pensar assim: "Ah, ela diz essas coisas porque está ressentida." Minha resposta poderia ser: "E por que esse ressentimento é de mão única? Vai saber se os animadores (perdão, avaliadores) não estão ressentidos com os métodos de avaliação tradicionais, sejá lá quais forem?" Acontece que nunca fiz concurso público (só vestibular). Nunca brinquei em entrevista de emprego. São apenas observações sobre o espírito da época. Sine ira et studio. Agora, tenho culpa se os métodos são... originais?

Espírito da época, ó pá.

6 comments:

Nicolau said...

Mas os medievais também eram muito lúdicos. Com um outro pano de fundo, claro.

A associação entre autismo e habilidades matemáticas não é necessária, mas existe. Imagine que uma pessoa, com o QI preservado, não tenha rigorosamente nenhuma preocupação com o "eu" - aliás, para o autista, o "eu" não existe. Imagine que essa pessoa usasse toda a sua inteligência para pensar em números, associações numéricas, listas telefônicas, etc. É por aí.

Mas autistas não são capazes de abstrações. Eles sequer tem muito a noção de "passado".

Ah, sim, outra observação. Não existe exatamente "autismo", o que existe é um lance chamado espectro autístico, uma série de características que podem ou não estar presentes de forma mais ou menos intensa.

Perdão. Falei só sobre questões laterais do post, tipico de quem não pegou bem o espírito da coisa. Mas você já me conhece, e sabe que adorei.

Beijos

sol-moras-segabinaze said...

Gostei daqui. Linkei lá no meu.

:-)

Tanja Krämer said...

Mandei um "pixe" no outro post. Pô, que mico. :-)

Ei, Nicolau, sabe o que pensei depois de ler seu comentário? Para um professor meu, todo mundo era autista antes do séc. XVII-XVIII. É que não havia idéia do eu... Hmpf. Mas a minha hipótese sobre o lúdico está muito ruim. Mas deixa quieto. O resto é só para fazer graça. :-)

Oi, Sol! Bom que você gostou. Apareça mais!

Nicolau said...

Credo, mas você também tem cada professor.

Anonymous said...

"aliás, para o autista, o "eu" não existe"

Com o perdão do comentario, mas essa idea esta profundamente errada. Afirmar que as caracteristicas cognitivas do espectro autista implicam na falta de noção do eu é uma conclusão insustentável.

http://www.wired.com/medtech/health/magazine/16-03/ff_autism

Nicolau said...

Tá bom. O autista tem "eu". Quem não tem "eu" - ao que parece - é o digno comentarista que preferiu o anonimato, e cuja assertividade e sólida certeza se baseiam numa profunda e bem documentada pesquisa baseada num vídeo do youtube.

(Tanja, foi ele quem começou!!)