Sunday, October 25, 2009

Influência esotérica

Então chega o professor e diz: "Porque vocês sabem... Qualquer estudo não deixa de ser uma tentativa de manipulação da sociedade. Diz muito do cara envolvido." Ok. Boa parte da aula era sobre a influência da concepção de Providência calvinista na teoria política de Althusius (1563-1638). Se o professor fosse um calvinista, beleza. Seria uma tentativa bizarra de influenciar a sociedade. Mas eu até que entenderia. Agora, o homem é ateu. Já disse mil vezes que não é ateu militante. Que tipo de influencia ele procura exercer? Para mim, é como estudar cinemática para dar um pedala-Robinho.

É um mistério. Soa como o Petrarca e o seu amor estranho. Já que não conquistou a Laura-concreta, ele vai escrever trocentos poemas sobre a Laura-idéia. Então se o cara não consegue nem se tornar síndico do prédio, ele se vingará ensinando às gerações mais jovens as idéias políticas de um calvinista holandês do tempo do ronca.

Pode ser uma manipulação às avessas. Como se dissesse: "Não quero saber nada de você, [sociedade] nojentinha." Aí o carioca vai falar sobre os diferentes usos da palavra "soma" na Grécia entre os séc. IX e IV a.C. Ou vai se preocupar com a concepção de verdade na Etiópia entre 312-528. Tudo como se estivesse se mandando para a Arcádia. Não tenho nada contra. Pelo contrário. Universidade tem que ser mesmo o abrigo do inútil. (Entenderam isso de formas um pouquinho diferentes, até pessoais. Deixa quieto.) Seria uma manipulação esquisitinha. Método passivo-agressivo? Não seria mais fácil pensar que o estudioso pesquisa sem grandes motivos ocultos? Por que se apegar ao mais inusitado? É tão maluco imaginar que alguém estuda pelo prazer do estudo?

6 comments:

MARCELO said...

Não é doideira “imaginar que alguém estuda pelo prazer do estudo”, muito pelo contrário. Entretanto, creio que exista certa hostilidade ao conhecimento pelo conhecimento, sem uma aplicação imediatista.

No meu campo, a História, este imaginário da "inutilidade" é muito forte. Buscaro passado pelo passado, pelo desejo de saber, de conhecer, de entender é quase sempre considerdo insuficiente. Há o lugar comum da indignação com a realidade atual. Necessidade imperiosa querer transformá-la. Assim a curiosidade vai agonizando... De qualquer forma sempre fui meio individualista em meus interesses e leituras.
Minha preocupação são meus alunos, tentar lhes incutir alguma disciplina intelectual (ler, interpretar, redigir corretamente, apreciar artes e leituras diferenciadas do que a mediocridade em que estão mergulhados). Eles (adolescentes e pré-adolescentes)conhecem a miséria humana. A escola deveria ser uma fuga, um portal para outras realidades.

Provavelmente seu professor não desejasse exercer influência alguma. Todavia,no ambiente da esquerda mais radical, a questão é mais capciosa. Há o famigerado papel/caráter/função social do conhecimento. Talvez entre seus pares ele tenha receio de ser (des)qualificado como “elitista”, “alienado”, “insensível a causa dos excluídos”,"racionalista", “tradicional”, “conteudista”, “positivista”, “pouco afetivo”, entre outros elogios...

De modo geral pessoas estão muito preocupadas em saber "pra que serve" este ou aquele conhecimento que adquiriram. Cada vez mais necessitam de uma justificativa funcional e pragmática para tudo que fazem. Desse modo ficam tranqüilas no contexto cultural de consumo imediato e podem explicar aos semelhantes o motivo de sua escolha. Como se apreciar o conhecimento em si fosse motivo de vergonha.

Acho que viajei um pouco. Mas é o que tenho a dizer.

Leonardo said...

Sua pergunta é muito boa. Parece-me que hoje há muitos que nem entendem isso. Se te perguntam: "pra quê você estuda isso?" e você responde "pra saber, oras bolas; tenho interesse", fica aquele ar de "alguém não entendeu". Hoje, eu, que estudo pelo prazer de estudar, me divirto com as caras e bocas dessa gente. Poxa, e esses ateus hein, sempre tentando não ser militantes, mas sendo!

Tanja Krämer said...

Marcelo, no fundo até acho que o conhecimento sempre tem uma utilidade. O problema é quando alguém diz que a utilidade é sempre política. Pior ainda quando é pressuposto algum maquiavelismo.

Oi, Leonardo! Você tem razão. Vai tentar explicar que muitas vezes a gente estuda pelo gosto de estudar! Na verdade, acho que o estudo tem uma finalidade bem concreta. Mas não tem nada a ver com ganhar dinheiro (quero dizer, a finalidade não é bem essa). A questão é que nem todo mundo sente a necessidade de estudar, ou pelo menos de estudar certas coisas.

trombone com vara said...

Viver é crescer. Estudamos para aumentar nosso conhecimento ( óbvio, né ) e esse aumento nos dá o mesmo tipo de prazer que dá o comer, o vencer ou o poder : aumento de tamanho.
Estudamos para viver mais.

Evelyn Mayer de Almeida said...

Estudar combate o envelhecimento :)

Tanja said...

Pô, tenho que estudar mais. :-D