Sunday, October 11, 2009

Continuação

Mas nada de radicalismos. Não é que política não serve para nada. O que acho (é tão importante o que acho, não concorda?) é o seguinte:

1) Política é participação, não falatório. Ainda bem que não vivemos mais em Atenas (república dos barbudinhos não-petistas). Mas pelo menos a participação era ativa. Em democracias representativas de verdade, você tem várias formas de participação. Nem que seja apenas do ponto de vista local. (Opinião pública não é forma de exercer democracia. Se for por aí, até a Alemanha nazista era uma democracia. Por que você acha que os nazi se preocupavam tanto com propaganda?)

2) É preciso haver uma circulação de informações. Mas não adianta se há um consenso fundamental! Jornalismo nenhum deve funcionar na base de um credo. Nada de "unidade na multiplicidade". Jornalismo não é religião. Vou citar aqui um trecho interessante do livro Hitler, do J. Fest (o negrito é por minha conta):

Desde a primavera de 1933, a censura no meio radiofônico já era efetuada em larga medida, tanto em relação aos assuntos ventilados quanto a seus produtores e apresentadores. Dos três mil jornais em circulação (número aproximado), inúmeros foram fechados (em especial os diários regionais), fosse devido a uma pressão financeira ou a uma guerra de subscrições realizada com o apoio do governo. Outros órgãos foram confiscados. Apenas alguns grandes jornais, cujo prestígio lhes assegurava certas regalias, sobreviveram em parte, como por exemplo o Frankfurter Zeitung, até os anos da guerra. Seu campo de ação tornou-se, desde o início da tomada do poder, estritamente limitado. Um rigoroso sistema de instruções e de regulamentações de estilo, estabelecido principalmente no decorrer dos contatos diários dos jornalistas com as autoridades estatais, zelava pela manutenção da ordem política e social, e aboliu, por assim dizer, nas entrelinhas, toda liberdade de imprensa. Ao mesmo tempo, Goebbels estimulava, apesar de tudo, as diferenças formais e estilísticas e tratava de minimizar o monopólio estatal, ou melhor, de disfarçá-lo por meio da variedade e quantidade de jornais editados. Como ocorria com a cultura em geral, a imprensa devia, segundo a palavra de ordem que lhe fora dada, ser "uniforme em suas intenções, multiforme na apresentação dos objetivos".

3) A política não deve ser um assunto "macro". Só em exceções muito bem justificadas (como invasão estrangeira). Ela serve é para resolver problemas pontuais. Fora disso, o governo vai se comportar como uma entidade abstrata impondo normas a sujeitos concretos. Mas não deveria ser o contrário? Como é que uma entidade abstrata pode se achar no direito de concretizar o que quer que seja? Quem deve determinar o Estado é uma pessoa! Uma execução do governo federal sempre tende a ser um mandamento arbitrário do ponto de vista do indivíduo. Pode ter certeza que ele não pedirá para você licença. Se você não obedecer, tá ferrado;

4) As leis precisam ser claras. Quanto mais gerais, mais simples. Uma constituição federal não pode ter mais de quinze páginas. Se um camarada não conseguir decorar a constituição federal, então ela não presta! A constituição será concretizada de duas formas. Uma é pelas instâncias inferiores de administração. A outra é pelos usos e costumes. O metrô está lotado de tarados? Está mesmo. Agora, tarados de metrô são mais toleráveis que burocratas legislando sobre comportamento. Falando de outro jeito, o legislador tem que legislar a contragosto. Toda lei tinha que começar com um pedido de desculpas;

5) Para mim, a coisa mais linda é o direito natural a não querer saber de coisa nenhuma. Por que você se acha tão importante a ponto de eu ser obrigada a votar em você?

3 comments:

Evelyn Mayer de Almeida said...

Amiga, sabe o que é pior? É que ninguém entende de política, mas se acha no direito de votar porque "fulano fez".
Não me canso de lembrar com gastura quando em minha cidade natal o candidato à prefeitura era um salafrário, sem-vergonha que havia detonado a prefeitura roubando tudo, parou nos noticiários nacionais e foi preso. "Ah, ele roubou, mas fez muito pelo pobre. Construiu hospital, casas..." Dai eu pergunto se eu roubasse uma geladeira depois de limpar a casa da patroa se eu deveria ser presa? Ué, mas eu não fiz o que tinha pra fazer?

Brasileiro não entende nada de política. Se entendesse não votava em qualquer caca e teríamos candidatos decentes.

PS: dei uma atualizada no blog. entra lá! bjus!

Nicolau said...

Eu sei que não é o ponto, mas cuidado quando pensamos naquilo que "deve ser" uma sociedade. Toda idéia de como devem se dar as discussões políticas, a ordem econômica, a Constituição, acaba levando a um determinado "modelo" que poucas vezes é realizável. O "erro" e as imperfeições (como o mal) são constitutivos de qualquer organização. A propósito, a Constituição da Suíça tem 197 artigos, alguns dos quais muito curiosos:

Art. 79 Pêche et chasse

La Confédération fixe les principes applicables à la pratique de la pêche et de la chasse, notamment au maintien de la diversité des espèces de poissons, de mammifères sauvages et d’oiseaux.

Abraços

Tanja said...

Acho que o problema na verdade são dois (embora correlatos). Um se refere a princípios básicos. Certas coisas não podem faltar (ou não podem existir). O outro se refere à generalidade da proposta. Num país moderno, leis privadas não fazem sentido. (Esse segundo problema não deixa de ser um princípio básico.) Uma constituição (inteligente) de um país moderno tenta dar conta dos dois problemas. Uma constituição maníaca é que vai buscar tapar todos os buraquinhos imagináveis da sociedade. Será um "totalitarismo normativo" (by M. Reale).

Fui muito breve, mas espero ter explicado. Beijos!