Friday, October 30, 2009

Às 2h13

O Pedro mencionou o Memórias do subsolo. Conheço a fama do Dostoiésvki, afinal civilizada sou. Agora, é bom a gente ficar de olho. Desde Rousseau e as Confissões, nós (quero dizer, Paul Johnson e eu e talvez você) sabemos que falar mal de si mesmo pode ser sinônimo de golpe. Muitas vezes não deixa de ser outra forma de orgulho. (Algum santo já disse isso, não? Não lembro qual.) No caso do Rousseau, a dica é a opinião que ele tem do Pecado Original. Se a culpa não é do indivíduo, é da sociedade. Se é da sociedade, ele (Rousseau) é só uma vítima. Se a sociedade é a causa do mal, o mal pode ser combatido na sociedade. Aí chegamos num estágio bizarro, onde você pode se chamar de cocozão à vontade. Por quê? Quanto mais você se xingar, mais você estará afirmando sua inocência. Porque a culpa será sempre da societé. Malvada.

Já que o Pedro tem gostado tanto do Girard, seria legal ele comentar o Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Do ponto de vista do Rousseau, o desejo mimético (até onde pude entender as explicações do Pedro) não é natural. É causado pela civilização. (Pelo que entendi desse post, Rousseau mesmo poderia ser analisado pela a teoria do duplo angélico. Mas isso é outro assunto.)

4 comments:

Pedro Sette-Câmara said...

De um lado, vale dizer que a obra de Dostoiévski é ficcional, e que o narrador não pretende angariar a simpatia do leitor. Ele pretende, com sua história, mostrar que os filósofos ingleses estão errados; que o desejo de ser independente é mais forte do que o desejo de aumentar a própria satisfação (ou "ser feliz"). O interessante é que ele mostra que o desejo de diferenciar-se é maior do que o desejo de preservar-se. Isso, aliás, pode ser uma base para explicar o suicídio de um Werther (e nem entro em casos reais).

Sobre o Rousseau, basta observar que para ele a civilização é que é um bode expiatório de seus males pessoais. Na verdade, a civilização é a maneira que os seres humanos encontraram para lidar com a violência.

trombone com vara said...

A civilização é o modo como os humanos lidam com o medo da aniquilação. Nos civilizamos para tentar ( inutilmente ) vencer a morte.
O desejo de se diferenciar é o desejo de ser inesquecível. O diferente radical tem a ilusão de ser superior ao esquecimento. Na verdade ser diferente seria também um prazer.
O homem busca ausência da dor, o que é diferente do puro prazer.
Tolstoi e Montaigne é que sabiam das coisas.

F said...

É possível ser sincero escrevendo sobre si mesmo ??

Sim, é verdade que Memórias é um livro de ficção, mas eu suspeito que seja o livro de Dostoiévski com maiores referências auto-biográficas.

Girard observa que grupos pré-civilizados também lidavam com a violência através de rituais sacrificiais, etc. "Civilização" pode querer dizer muita coisa, como por exemplo banheiro limpo e analgésicos nas farmácias, definição talvez não muito científica porém suficiente para me fazer ser muito grato por ter nascido no atual estágio do "Processo Civilizatório".

Beijos

Tanja said...

Oi, Pedro! Me diz uma coisa. O desejo de aumentar a própria satisfação é um motivo de coesão social? (Isso parece paradoxal. Não é. Mas agora não quero entrar nesse problema.) E o desejo de diferenciar-se não? Porque se for assim, a tendência ao desarranjo é maior que a do arranjo social!

Trombone, isso que você disse sobre fama é bem antigo. Que o diga Aquiles, né? :-) Mas acho que o Pedro está dizendo outra coisa. Ele entende o "diferenciar-se" como um "originar-se". Quero dizer, é a idéia de que você é o fundamento de si mesmo (ou pelo menos o fundamento último).

Senhor F, até acho que sim. Mas o negócio é saber a quem você está escrevendo. Ok, isso está soando obscuro. É que penso nas Confissões do Santo Agostinho. Ou se você for algum spoudaios. Do contrário, escrever sobre si mesmo vai ser pura enrolation ou espetáculo circense. :-)