Sunday, September 20, 2009

Originalidade artística

Quanto mais ouço compositores dos idos do séc. XVIII, mais me convenço de que esse negócio de arte "original", "radical", escolha-o-epíteto-que-você-acha-mais-bacaninha, é a maior furada. Esses critérios são a maior bolha de sabão. É transformar a arte num monte de intuições mais ou menos destrambelhadas.

Os músicos dos idos do séc. XVIII eram verdadeiros mestres-artesãos. Formavam linhagens de músicos. Pega aí os Couperin, os Bach, os Scarlatti, os Purcell... A arte deles era muito bem trabalhada, clara. Mas a criatividade não era por isso prejudicada. Nenhum pouco. Pelo contrário! Sobrava inventividade. Afinal, é importante ter imaginação. Eles sabiam explorar muito bem as variações melódicas, sem deixar de criar harmonias muito legais (e dissonâncias ainda mais interessantes). Tudo dentro das possibilidades da técnica. É muito instrutivo que tantos virtuoses tenham surgido enquanto a arte da música se consolidava de forma cada vez mais clara. Estão aí as sonatas do D. Scarlatti (um mundo musical espantoso!) que não me deixam mentir. Claro que esgotar uma música em combinações de variações* não esgota, por sua vez, as próprias possibilidades da música. Por isso, aos poucos o leque técnico se expandiu. Daí veio (para dar um exemplo) a sonata-forma. Isso só foi possível graças a um espírito de experimentação intensa. Não deixa de ser interessante esse contraste, o trabalho artesanal bem claro e a experimentação constante. Só depois vieram as regras "clássicas" da música, com as sistematizações práticas (Bach, Cravo Bem-temperado) e teóricas (Rameau, Tratado de harmonia). Pode ser que aí sim a experimentação se tornasse cada vez mais complicada. Mas na arte, a prática é abusada por natureza! (Tenho vontade de fazer algumas considerações sobre duas coisas bacanas, cuja articulação seria bastante útil para entender a criação artística. Uma é a idéia orteguiana da formação da ciência como problema pessoal. A outra é a expansão de um domínio artístico, graças a um auctor (em latim mesmo, para conservar o sentido de aumento de possibilidades). Fica para depois.)

Para exemplifica o que eu disse, a Sonata em sol maior K 141, do D. Scarlatti.



Agora, a originalidade. Os músicos daquela época não ligavam tanto para isso. Não como nós. Ninguém tinha muita vergonha de reaproveitar temas. Até mesmo os dos outros! Às vezes, certas melodias que tinham se tornado "patrimônio público" eram retrabalhadas por todo mundo. Foi o caso famoso do tema da Folia. Ele foi tantas vezes visitado que se tornou quase um gênero musical. Igual a mulher fácil, todo mundo alguma vez na vida se meteu com ela. Outra coisa interessante (que com certeza influenciava a produção musical) era tanto a necessidade de produzir bastante, como não haver muitas reapresentações (tirando alguns casos). A liberdade artística possuía limites circunstanciais bem claros.

Um exemplo famoso de reaproveitamento? Ouça a ária "Zion hört die Wächter singen" e o coral Wachet auf, ruft uns die Stimme.





Na verdade, tudo é um problema religioso. Você não pode pensar em originalidade, radicalidade ou individualidade absolutas. Não na arte! Tudo é feito a partir de algo que já existe, por meios que (pelo menos em princípio) já estão dados. Nesse domínio, nada surge do nada, nem possui uma existência única em absoluto, não-comunicável com (nem compreensível por) nada mais. Nem é possível que a arte seja em si o dispêndio mais gratuito de energia, a negação de tudo o que pareça estático. Essas coisas só fazem sentido se você pressupor ser um deus, agindo que nem deus e compreendido (talvez, não importa) por outro deus. Me desculpe, mas isso não faz sentido nenhum. É só o mais puro fogo no rabo.


*Acho que os tópicos "variação" e "improvisação" são relacionados. São tantos os grandes improvisadores que compuseram grandes variações, que não dá para negar que uma coisa deve ter relação com a outra. Como na música barroca (mas não só nela) a capacidade de improvisar fazia parte do métier, talvez por isso as variações acabaram se tornando uma parte integrande das músicas. Tanto a capacidade de improvisar como a de variar exigem bastante inteligência musical. Nem preciso dizer nada sobre o nível de inteligência exigido para articular vários temas. Aliás, por essas e outras Beethoven é um gênio tão imenso que chega a ser inacreditável. A mesma coisa com Haydn, embora sob outros aspectos (não menos espantosos). Música é mesmo uma coisa boa demais.

7 comments:

Cláudio said...

Theodore Dalrymple escreveu algo interessante a respeito aqui:

http://www.newenglishreview.org/custpage.cfm/frm/30265/sec_id/30265

"Originality is not, therefore, a virtue in itself, moral or artistic; and a man who sets out to be original without both the technical ability to express something new, and (most important of all) the possession of something worthwhile new to express, is merely egotistical. That is why the art critics, who are inclined to praise works as being original, path-breaking, taboo-breaking and transgressive, without any reference to their transcendent worth, are wrong, and Roger Scruton is right."

Fernanda said...

Furada total, Tanja. E é por isso, é vendo os Bachs, os Couperin e todos os outros que você chamou acertadamente de artesãos, que eu fico fula quando ouço essas gentes-originais dizerem que precisamos revolucionar tal campo, ou que tal forma (como a ópera! Acredite, a ópera!) está esgotada. Pffui.

Ah, e adorei a comparação de tema reaproveitado com mulher rodada! :^)

Eduardo Araújo said...

Cara Tanja, conforme você mencionou, houve linhagens de músicos, famílias numerosas, como os Bach.

A propósito, já ouviu falar dos Benda? Essa família, de raízes tchecas, é notável inclusive porque seus músicos continuam sendo proeminentes ainda nos dias atuais. Eu tenho um cd com sinfonias (muito interessantes, aliás) de Jiri Anton Benda - um compositor do século XVIII - sob a leitura de um tataraneto dele, o maestro Christian Benda. Legal, não?

Mesmo quando não eram numerosos numa família, muitos compositores daquela época tinham pelo menos um parente também compondo: os Sammartini, os Stamitz, os Mozart (pai e filho), os Haydn (idem) ... E muito interessante a criatividade neles. Cito, por exemplo, o Michael Haydn, filho do Joseph. Ele compôs concertos para instrumentos como o trombone alto e sinfonias bastante competentes (não é à toa que uma delas por muito tempo foi atribuída a Mozart, catalogada como a de nº 37; exatamente por esta razão, esse número não existe mais no rol das sinfonias de Wolfgang Amadeus).

Eduardo Araújo said...

Corrigindo-me: Michael era irmão - e não filho - de Joseph Haydn.
Grato

Leonardo said...

Muito bom este seu texto! No momento tenho lambido os beiços com as Fugas de Bach, um músico que me fascina cada vez que o ouço. Mas também gosto do Mahler, que foi o "último" dos músicos a compor obras em cima de temas-teses, fazendo delas quase filosofias musicais...
Merci.

Tanja said...

Claudio, oi! Quem começou com isso de originalidade foi (até onde eu sei) o Kant. É engraçado pensar em como a coisa toda acabou. Acho que ele ficaria muito irritado com esses críticos de arte. E olha que pensar em Kant irritado não é fácil. :-) Por que fui falar do Kant? Porque acho que ele concordaria com tudo o que o Dalrymple disse... exceto a primeira frase! :-) Quando eu tiver estudado melhor essas coisas, vou escrever a respeito.

Fernanda, isso de dizer que a ópera já morreu não dá mesmo! Logo uma das artes mais recentes. A originalidade esteriliza, isso sim. Agora, se já não bastasse o culto à originalidade, temos que aturar o culto à revolução!

Só conheço o Benda de nome, Eduardo. Obrigada pela dica! Mas olha só que coisa interessante. O músico estava muito mais integrado na sociedade. Você tinha uma função para desempenhar. Hoje em dia não é mais bem assim. Ser artista se tornou uma função em si. Como ser artista passou a ser algo atrelado ao original/genial, deixou de ser comum haver um monte deles numa família. Não é mais encarado com tanta normalidade como antes. Bom para o ego, ruim para o espírito. Essa alienação não ocorreu só com o artista, não. Foi um fenômeno mais geral. Traumático mesmo! Neguinho ser considerado "excêntrico" é bastante moderno.

Leonardo, eu que agradeço! :-) Esse aspecto do Bach sempre me faz lembrar o que o Worringer disse sobre a expressividade gótica. Uma vez até escrevi a respeito: http://aespectadora.blogspot.com/2007/08/arte-gtica.html

trombone com vara said...

As pessoas têm confundido arte com tomate. Tomate para ser bom precisa ser novo, fresco, recém colhido. A arte não precisa disso. O mercado faz os desavisados acreditarem que ser novo, "original", recém criado, é um valor em sí.
Música não tem prazo de validade, não é pão de forma. O valor da arte está exatamente em seu caráter fora de época, em sua transcendência.