Wednesday, August 19, 2009

Balé

Vai rolar um Giselle em algum lugar do Rio. Quem puder ir, vá.

Não sei se a montagem e a coreografia serão o de sempre. Só sei que Giselle é aquele tipo de balé que de tão clássico virou ortodoxia. Todo balé precisa ser assim. Mas caraca. O balé (or-to-do-xo) é recente demais para dar uma de velho lambreta. Não existe motivo para se petrificar. Mas em arte, sabe como é. Somos conservadores demais.

Se bem que às vezes nego exagera na reforma. O problema clássico do séc. XX é que a reforma de uma técnica traz quase sempre um auê sem precedentes. De lambuja, surge uma arte-sem-arte. Quero dizer, é quando a falta de técnica se torna a técnica. Que o digam os macacos-pintores.

O problema é o velho passo maior que as pernas. Quando fazem uma coisa legal, logo querem fazer mais. Aí emporcalham tudo. É que nem um cara que não sabe jogar xadrez. Pode até fazer ótimos lances e tal. Mas quando ele se empolga, faz burrada.

Mas Giselle é diversão "conservadora". Você não vai ser (mal) surpreendido. Se você nunca viu um balé na vida, veja esse. (Ainda mais se você for morador mesmo do Rio. Um balé desses vai servir como terapia contra a tosquice da cidade.) Nem digo que se não gostar desse, não vai gostar de mais nada. Vamos dizer que o balé se tornou mais variado desde 1850, apesar dos ortodoxos... Mas as coisas clássicas estão ali. Tem a história romântica fantástica bem no estilo séc. XIX, tem a música suave, as roupitchas, a graça... É tudo feito para agradar bastante. E agrada. Substância? Nem tudo que é bom precisa de profundidade. Exemplo? Eu podia citar os Impromptus do Schubert. Mas uma goiabinha serve. Qual é a goiabinha mais perfeita? A mais gostosinha. Pronto. Ela não precisa desvendar quem é o Primeiro Motor Imóvel. Talvez você pense assim: "Ei, um balé é mais complexo que uma... goiabinha!" Ok, ok, seu chato. Concordo. Treinar passos, manter postura, posições do pé, devem envolver um nível maior de dificuldade. Mas o balé e a goiabinha fazem parte das artes do prazer. As diferenças básicas são três. O próprio tipo de prazer é uma. A goiabinha agrada mais ao paladar. Claro que isso pode nos dar uma satisfação espiritual. Mas o prazer do paladar é mais básico e os objetos dele não são muito diferenciados. O balé nos dá uma satisfação mais espiritual. Claro que pode causar um prazer físico também. Mas é um prazer menos básico e os objetos dele são muito diferenciados. Como o prazer do paladar é mais comum, talvez por isso existem mais pessoas que gostem de goiabinha que de balé. Até porque a educação exigida para se apreciar um docinho é menos trabalhosa que para se apreciar uma obra de arte. A outra diferença é o seguinte. Como a goiabinha é uma comida, ela está mais próxima da necessidade que o balé. Se você raciocinar em termos aristotélicos, a coisa fica ainda mais clara. Como a necessidade é o que nos atormenta de cara, satisfazê-la vem em primeiro lugar. O entretenimento vem depois. Ele não é ditado pela necessidade. Está um patamar acima. A última diferença eu meio que já falei. A técnica do balé é mais complexa. (Para falar a verdade, nem faço idéia de como se faz uma goiabinha. Mas não acho que deve ser um troço mais difícil que dançar direito Giselle.)

No fundo, no fundo, legal é ver balé comendo docinho. Vai lá pegar lalguma coisa, porque vou mostrar o Mikhail "super-deus" Baryshnikov. Aposto que ninguém nem deu muita bola no dia para a Giselle! Mas também... Pô, o cara é foda. Veja.



Acabou de comer o docinho? Pega mais. Agora você vai ver a Alina Cojocaru no final do primeiro ato. É quando a Giselle se mata. Tá certo que ela mete a espada em si mesma e sai dançando e tal. Isso é arte, ok? Suspension of disbelief, cupadi. (As tias do séc. XIX acharam o suicídio pesado demais. Mudaram. Ela passou a morrer de piripaque. Mas nós somos mais descolados. Tem essa de ser pesado não. Se fosse no Brasil, ela morreria nos porões da Ditadura. Ou metralhada pelo tráfico.)

7 comments:

Nicolau said...

É no Teatro João Caetano, hoje é o último dia. Mas eu sempre confundo Giselle com Coppelia.

Ainda vamos discutir essa questão da comida como possibilidade artística de elevação espiritual. Ok, não propriamente artística, mas não tão vulgar assim.

Suponho que vá ser uma discussão difícil, mas tudo bem. Lembre-se de que Cristo multiplicou o vinho e não a laranjada.

Beijos

Tanja said...

Mas rolava laranjada na Galiléia? (Não foi uma pergunta sacana :-))

Como você pode confundir os balés? Coppelia é o da Swanilda e os bonecos alucinados (bom nome de banda). Não tem como esquecer um nome desses! :-)

Nicolau said...

Ok, então sejamos historicamente rigorosos: Cristo multiplicou o vinho e não o açaí com acerola. Se bem que devia mesmo rolar um suco de damasco com mel por aquelas bandas.

É que eu confundo muitas coisas, Tanja. Dê um desconto.

(Essa é aquela hora em que eu sempre acho que você ficará assídua por aqui - até o próximo sumiço. Mas estou me acostumando.)

Beijos

Tanja said...

(O Layout da página fica bagunçado com você também? Ou é só comigo?)

Pô, mas Cristo multiplicou foi o pão. O milagre do vinho ele criou quando acabou lá nas bodas de Caná. Mas beleza. Acho que entendi o seu ponto. Agora, o vinho ganhou um "tcham" a mais em Caná porque... se tornou um símbolo de algo que vai além do próprio vinho! O milagre das bodas de Caná não existiu só porque o vinho dava um barato. Nem porque era gostosinho ou chique. É pelo vinho deixar de ser o que é (se bem que conservando lá suas propriedades) que ele se torna uma coisa sagrada. Mas poderia ser outra bebida. Aqui na América, dizem que entre os astecas (de repente era outro povo, posso estar enganada) a bebida sagrada era o cacau! Mas também não é porque chocolate é mais legal que, sei lá, aipim (vamos fingir que exista um suco (bem eca) de aipim). Era pela semelhança com o simbolizado. O quê? O sangue, daí sacrifício. Então o paralelo entre o vinho da missa e o cacau na América é semelhante. Mas não pelo vinho ou cacau em si.

Agora, veja o pão e o peixe. Por que logo eles? Não tinha uma comida mais gostosinha, não? Cristo não pensou numa comida chique.

Pô, não sumo porque sou uma pessoa maligna, não. Maligno é o Faraó, que me oprime com manhas. :-)

Nicolau said...

Não me segurei. Veja a resposta aqui:

http://olivierinicolau.wordpress.com/


Beijos

Tanja said...

Nicolau, pense que gostei da sua resposta não! Ando sem tempo que só... Assim que eu puder, respondo!

Nicolau said...

Sei. Vai pesquisando aí. Se não tiver citação em alemão eu nem vou ler.