Saturday, August 01, 2009

Piada sinistra

No princípio era uma piada. Não. Foi mais uma tirada. O Danilo Gentili disse assim: "King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?"

Eu nunca tinha ouvido falar nesse cara. Não até essa semana. Mas veio o horror. E tomei conhecimento da comoção que a piada causou. E o horror era a piada.

Você deve saber que o Ministério Público Federal zela pela moral e pelos bons costumes. Pois é. Todo mundo cospe na Inquisição. Mas o Estado brasileiro é igualzinho ao Estado platônico. Zela por todas as almas belas. Instituição honrada. Poço de virtude. Ela suspeitou de um conteúdo racista na piada. O aparato legal do Estado brasileiro foi posto em movimento para analisá-la. Wunderbar! É para isso que pagamos 40% do PIB em impostos. Para ver o MPF analisar piadas. Esse órgão honrado (taí a honestidade do Brasil que não deixa dúvidas) tentará jogar na cadeia o Danilo caso comprovem o conteúdo racista da piada. Ele vai para a jaula feito um macaco (como o próprio Danilo já comentou).

Nada de analisar aqui a piada. Para isso é que existe o Ministério Público Federal (que é honrado). Para isso também existem as auctoritas televisivas. Na seção Ciência e Tecnologia de um jornal qualquer (ótima escolha da seção; a Folha publicou em Informática), reproduziram a opinião do Hélio de La Peña. Ele não achou a piada boa. Mas achou exagerado abrirem um processo contra o cara. A opinião na verdade foi dada no próprio blog dele.

O Danilo resolveu escrever sobre o assunto. Flashs:

"Sinceramente acredito que todo cachorro é cachorro e que toda pessoa é pessoa."

"[S]e todas raças são iguais então a divisão por raça é estúpida e desnecessária."

"Mas o que quero dizer é que na verdade não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é? Eu sou um ser humano da cor branca. O japonês da cor amarela. O índio da cor vermelha. O africano da cor preta. Se querem igualdade deveriam assumir o termo 'preto' pois esse é o nome da cor."

"Quem propagou a idéia que 'negro' é uma raça foram os escravistas. Eles usaram isso como desculpa para vender os pretos como escravos: 'Podemos trata-los como animais, afinal eles são de uma outra raça que não é a nossa. Eles são da raça negra'. Então quando vejo um cara dizendo que tem orgulho em ser da raça negra eu juro que nem me passa pela cabeça chama-lo de macaco. E sim de burro."

"Se o assunto é cor eu defendo a idéia que o mundo é uma caixa de lápis coloridos."

"Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo 'negro' ou 'afro-descendente', tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar. Na minha cabeça você será apenas preto e eu branco, da mesma raça, a raça humana. E você nunca me verá por aí com uma camiseta escrita '100% humano', pois não tenho orgulho nenhum de ser dessa raça que discute coisas idiotas de uma forma superficial e discrimina o próprio irmão."

Disse o Hélio: "E as explicações patinam, não esclarecem nada." Hm. Cobrança de explicação de piada. Estranho. Não dizem que explicá-la faz perder a graça? Essa auctoritas aí me parece meio furada.

O Danilo malhou a humanidade inteira no fim. Ninguém se sentiu ofendido. Ser preto tem mais substância que ser humano. Mas ei, sou humana! Fiquei ofendidérrima. Não tenho culpa se alguns pretos, que por acidente são humanos (ver a aplicação especial do termo acidente em Aristóteles, Metafísica, Livro A), resolveram malhar o cara. Mas nem foram só pretos, não. Teve branco no samba. Quero dizer, branquela. Daqui a pouco mostro.

Não faltou gente sagaz para descobrir perversidades adicionais na piada. O gênio foi um tal de José Vincente (ONG Afrobras). Ele falou que o Danilo desrespeitou "todos os negros brasileiros e também a democracia." (Só do cara ser ongueiro é para a gente desconfiar. Afrobras, Afrobras. Nunca te vi. Sempre te detestei.) Vou explicar a opinião do ongueiro. Ele quis dizer que a razão comum entre o King Kong atrás de uma loira e um jogador atrás de uma loira é serem ambos pretos. Sacou? Não? Para isso é que serve a auctoritas do Hélio. Comentário da piada: "O estereótipo com o qual nós, humoristas, trabalhamos com freqüência é a do jogador negro (ou pagodeiro negro) que subiu de vida e, como tem grana, consegue pegar uma lourinha." É como se houvesse um negão oculto na piada. Casseta locuta, causa finita. O J. Vincente enxergou também um ataque maligno ao regime de governo do Brasil. É como se tivessem feito pipi na Constituição. O chavão que me ocorre é o Hitler. Ele não fez pipi nas leis. Mas a piada estaria para nossas leis como Hitler estava para a constituição de Weimar. Logo, é justo que Danilo se ferre nas mãos da justiça. Esse ongueiro é gente honrada.

Tem mulher honrada também nessa história! Mesmo sendo branca do cabelo "ruim". (Calma. Você entenderá a referência mais tarde.) Quem salva a nossa turma é a Marjorie. Ela analisou todo o texto do Danilo. Qual conclusão? Ali está cheio de clichês racistas. Ora, direi eu, vi estrelas. Releia comigo as citações que fiz acima. Leia o post do cara. O cara condena várias vezes o racismo. É evidente para mim. E para você? Não para a Marjorie. Será que o problema foi o Danilo não entender por que tem gente que se emputece quando é chamada de macaco? Ele disse que já cansaram de chamá-lo de girafa:



Falando em burro, cresci ouvindo que eu sou uma girafa. E também cresci chamando um dos meus melhores amigos de elefante. Já ouvi muita gente chamar loira caucasiana de burra, gay de viado e ruivo de salsicha, que nada mais é do que ser chamado de restos de porco e boi misturados. Mas se alguém chama um preto de macaco é crucificado. E isso pra mim não faz sentido. Qual o preconceito com o macaco? Imagina no zoológico como o macaco não deve se sentir triste quando ouve os outros animais comentando: - O macaco é o pior de todos. Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos. Ser macaco é uma coisa terrível. Graças a Deus não somos macacos. Prefiro ser chamado de macaco do que de girafa. Peça para um cientista fazer um teste de Q.I. com uma girafa e com um macaco. Veja quem tira a maior nota.


Ungeheuer!

Uma pequena volta. Isso de macaco me lembrou um negócio que li do J. O. de Meira Penna. Ele disse uma vez que o Voltaire tinha cara de macaco! Não era menção à cor do Voltaire. Claro. E aí? É racismo também? Ou só valem alusões à taxa de melanina?

(Uma nota. O mesmo Meira Penna fez uma observação interessante no livro O espírito das revoluções: "[As antigas colônias britânicas no Caribe] gozam de um PIB percapita superior ao de qualquer país ibérico da América, inclusive o Brasil. A renda média individual em Barbados ultrapassa os US$7,000 dólares!" As populações desses lugares são quase todas de origem africana. Mas ei, um momento. Preto não é sempre explorado pelo branco? Não é coitado? Capitalismo não é um troço do (licencinha às religiões afro) Exu-Caveira? Como pode haver um país capitalista/ex-colônia em que um preto ganhe tanto? Mistério. Outra coisa. O Meira Penna disse também que estudos comprovaram que os pretos dessas antigas colônias são mais inteligente em média que os pretos do Haiti. Mais até que os pretos americanos. Por que será?)

Do Meira Penna à Marjorie. Ela observou que existe algo chamado "subjugação pelo riso". (Ela desconfia que já pensaram nisso antes dela. Tem razão. Vou mostrar depois um exemplo surpreendente.) O humor é "uma das ferramentas mais poderosas de subjugação e de silenciamento." Você percebeu direitinho os termos? "Subjugação" e "silenciamento". Domínio e mordaça. A piada pode ser uma das piores formas de opressão cósmica. É por isso que os regimes totalitários são engraçados de morrer.

Ela dá duas características do lado horrendo do humor. Uma é dizer algo que não se teria de outra forma coragem de dizer a serio. Você conta alguma piada de gordo? Deve ser porque no fundo você acha mesmo o gordo bem escrotão. A outra é transmitir e reforçar idéias discriminatórias de geração para geração. Pense no que os judeus passaram no Egito. No começo tinha lá o José e tal. Tudo ok. Aí um egípcio fez uma piada/observação jocosa sobre aquele bando de habiru (é como eles chamavam os judeus). Isso se disseminou, fortaleceu preconceito. Aí um dia rolou de o Faraó levar a sério a(s) piada(s). Pronto. Aquele bando de habiru foi escravizado! A Marjorie diz que as piadas "podem (e devem) ser analisadas sociologicamente." Sociologia da piada: estudo científico do humor. Não há nada na política que não tenha sido uma piada antes.

Vamos devagar. Por que é tão ruim a piada ser a suavização do sério? É melhor fazer uma piada de gordo que dizer pra valer que gordo não presta. (Hoje em dia já acham mesmo que gordo não presta. Usam até a "ciência" como prova.) Prefiro uma piada que a ONU ou a OMS. Ter senso de humor é captar o ridículo da situação. É perceber um tipo de desproporção inócua. Ninguém precisa ter lido a Poética para saber disso. É básico! Agora, levar uma piada a sério é o contrário! É não entender o humor como humor. Como a Marjorie. Ela enxerga uma perversão oculta numa coisa que não tem nada de pervertida, nem de oculta. Faltou senso de humor. Tsc. Teria nos poupado daquela história de a piada transmitir e reforçar preconceitos ao longo da história.

Você acha possível que documentos históricos reflitam uma relação direta entre o aumento do número (e do teor agressivo) de piadas de pretos e a escravidão? A Marjorie deve achar. Eu queria ver. Seria engraçado. Será que tem gente tão retardada que confunde piada com realidade? A Marjorie eu desconfio que confunde. Mas vou pegar como exemplo os portugueses e os pretos. Português era tão burro que em certo momento começou a acreditar mesmo na substância das piadas de pretos? Que budega é essa? Fora os problemas-bônus. Piadas de pretos em Portugal subtendem algum convívio entre portugueses e pretos. O tráfico de escravos começou mais ou menos no iníco da Idade Moderna. As piadas são transmitidas ao longo das gerações. Fortalecem preconceitos. Desde quando começaram com as sacanagens? Por que só portuga sacaneava os negões? Os pretos eram velhos conhecidos dos portugueses em Portugal? Ou os portugueses já viviam há muito tempo na África Negra antes da Idade Moderna? Outra pergunta. A relação piada-escravidão funciona como um princípio auto-explicativo? Tipo, algum engraçadinho sacaneou os pretos e aí os portugas montaram um tráfico atlântico de escravos? Os pretos foram dominados na base da sacanagem cômica? A escravidão foi uma anedota no fundo? Essa explicação é em si uma piada. Piada contraditória. Veja só. Se o efeito do humor é não dizer na cara o que se pensa para valer, então é de se esperar que o aumento do humor iniba cada vez mais a seridade do que se quer falar. Pô! A diminuição do humor é que levaria a um aumento da seriedade. Não o contrário. Isso está muito cafuso.

A tosquice fica assim. Primeiro se usa um termo metafórico ("subjugação pelo riso"). Depois uma explicação causal bem maluquete (aumento de piadas ao longo da história = aumento da opressão). Aí por mágica se aplica isso a um exemplo concreto que não tem nada a ver (o caso do Danilo Gentili). Show.

Insisto. A Marjorie escreveu mesmo que alguém vai ser dominado por causa de uma piada? Escreveu. Ela acredita mesmo nisso? Ela acha mesmo que os pretos são um monte de bebês chorões? Mas imagina uma luta de vale-tudo. De um lado, um fortão. Do outro, um miudinho. Vem o fortão cheio de bronca. O miudinho começa a contar uma piada. O fortão cai chorando. É finalizado pela piada. Crível? Até já testemunhei isso de subjugação pelo riso. Sério. Foi no primário. Depois a coisa foi rareando. A própria Marjorie já foi meio que subjugada era quando pequena. Não sei se pelo riso. Veremos.

Tem uma hora que o Danilo faz meio que um esbocinho de desconstrução do racismo. Ele disse que "raça" era um conceito construído pelos dominadores para legitimar a escravidão. Então os pretos que dizem ter orgulho da própria raça estão só ressuscitando um conceito morto. Um conceito que serviu para ferrar com os pretos no passado. Burrice. A Marjorie é anti-racista também. Acontece que a muié é da pá virada. A cabeça dela funciona de um jeito doido. Como anti-racista, ela tem que concordar com o Danilo. Só que ela simpatiza ao mesmo tempo com as afirmações de orgulho racial dos pretos. Acha tudo muito lindo (mesmo sendo uma questão cultural, não-biológica). Como ela se sai dessa enrascada? Do seguinte modo. Sim, o cara está certo: "Pois é, [raça] não existe mesmo." Mas os pretos estão certos em afirmar a identidade deles. Por quê? É que a afirmação de identidade é reação legítima às escrotices que eles sofreram (e sofrem). Não dá para evitar uma pergunta filosófica. Qual o princípio de identidade de um grupo de pretos? Ela diz que é e não é a raça! Deu para sacar? Pense de outro jeito. Preto é cultura. Acontece que por acaso calhou de só gente de cor preta ser preto. O conceito de raça é produto cultural fajuto. O conceito de raça é bacana quando renega o conceito de raça... O esclarecimento dessa tronchice ela mesma dá. É que serve como pretexto político: "Afinal, se eles não se reconhecerem como um grupo com uma situação específica, obviamente não vão se posicionar politicamente contra esta situação específica." (Condição específica deve significar "ferrado"). Tudo desculpinha para fazer pressão política!

Entre os ongueiros isso se chama "ação afirmativa". Aqui em casa se chama cambalacho.

Dizer "100% branco" é racismo. Dizer "100% preto" é reagir contra "este passado de escravidão e a todas as mensagens que estimulam o negro a ter baixa auto-estima" (by Marjorie). Não é supimpa? Numa frase ela nega o sentido da idéia de raça. Supõe que não existe um conceito biológico. Na frase seguinte ela diz que é legítimo, justo. Desde que seja para conseguir ganhos políticos para os pretos. É bom quando convém. Pimenta no rabo dos outros é refresco. Ou ela é trambiqueira ou é "distraída". Considere a última hipótese. Como alguém escreve uma coisa e na frase seguinte já se esquece do que disse? Pior que ela disse que o Danilo fez "malabarismo retórico"! E ainda posa de gostosona:



Mas eu duvido que Gentilli seja burro [pode crer que é ele o burrão da história] a ponto de não compreender que um cara que se orgulha de ser negro está apenas reagindo a este passado de escravidão e a todas as mensagens que estimulam o negro a ter baixa auto-estima (entre as quais as piadas de Gentilli se incluem).


Parece que não pensa no que escreve. Eu hein.

Como é que uma anti-racista implica com um cara que afirma milhares de vezes que abomina o conceito de raças? Ah tá, é por causa da piada malvada.

Acabei de demonstrar algumas tosquices da Marjorie. Ela não pensa no que escreve. Não raciocina direito. Diz uma coisa e se esquece do que disse na frase seguinte. Leseira característica. Tirar conclusões a partir de algo que não está escrito no texto, nem mesmo de forma implícita, é outra característica. Não sei de onde ela tirou que o Danilo acha "que não existam pessoas que ainda acreditam que há raças superiores a outras". Nem sei onde ele disse que "não exist[e]m discriminações com base na 'raça'". Não tem nada disso no texto dele. Não tem nem como deduzir algo assim. O que ele disse foi: "Dividir uma espécie por raças nada mais é do que racismo." E coisas do tipo. De onde ela tirou essas idéias? Não foi a partir do texto do Danilo. É o caso clássico de analfabetismo funcional. Outra característica da leseira.

Está muito bem provado que a Marjorie é mesmo bastante seqüelada. Se bem que o trambique anda junto. Não dá para saber onde acaba o trambique e começa a seqüela. A menos que só gente iniciada não-branca perceba tanta sordidez oculta.

Gente não branca? A Marjorie disse assim num comentário a um post dela mesma: "sou branca". Mas disse também: "bom, minha mãe é negra, meu cabelo saiu 'ruim', mas no Brasil o racismo não tem divisão rígida. Tem toda uma paleta que vai do negão até o mais branquelo. " Vamos lá. Será que o cabelo "ruim" dela é que a torna autorizada a analisar o racismo dos outros? Ela diz que o Danilo só acha que não existe racismo (notinha: ele não disse nada assim) porque é branco: "Queria ver se ele fosse negro." Mas ué. Ela não disse que é branca? Por que ela pode discriminar os outros pela pele? Está de licença? O cabelo "ruim" é que dá poder? Só porque tem o cabelinho "ruim" quer tirar onda. (A propósito. Já ouviu falar em Redken? Procura um que combina. Ou vai de permanente afro.) E olha o que o branquelão racista escreveu:


Eu sei que os negros sofreram mais que qualquer raça no Brasil. Foram chicoteados. Torturados. Foi algo tão desumano que só um ser humano seria capaz de fazer igual. Brancos caçaram negros como animais. Mas também os compraram de outros negros. Sim. Ser dono de escravo nunca foi privilégio caucasiano e sim da sociedade dominante. Na África, uma tribo vencedora escravizava a outra e as vendia para os brancos sujos.


Você ainda duvida que a Marjorie excedeu o direito de ser songamonga? (E vem cá, não tinha preto sujo na história? Também não precisa agradar tanto, Danilo.)

Agora, que lance é esse de "toda uma paleta" do negão ao branquelo? Existe o negão puro e o branco puro? E entre eles um monte de misturebas? O racismo no Brasil não tem uma divisão rígida? É a negação do racismo! Se ninguém o leva muito a sério, ele vira... piada. Só que a Marjorie não acha nada disso. Ou finge não achar. Porque é tudo lorota. Não tem como não saber. Se não sabe, é maluca. E uma pergunta que não quer calar. Quem foi que pediu para ela ser defensora dos pretos? Deve ser instinto materna. Ela não acha que preto é chorão? Mamãe-ganso não quer deixar as criar desamparadas.

Pode ser que alguém tenha se perguntado: "Carácolis! Por que a Tanja dá tanta atenção para as maluquices desses freaks?" Masoquismo. Gosto de encarar essas budegas. Mas veja. Quando bati o olho no texto dela, pensei: "Taí um exemplo cristalino de como andam as coisas!" É didático. A Marjorie dá muitos indícios da (má) formação dela (e por tabela da bobice reinante). Indícios não. Testemunhos. As próprias palavras dela são muito claras. Mas nem é de hoje esse tipo de coisa, não. Nem é questão de falta de estudo. Pelo contrário. É uma tosquice estudada. Burrice intelectualizada auto-imposta. Você estuda para ficar que nem um animal. É como se você aprendesse a andar para melhor ficar de quatro. O pior é que gente mais interessante já caiu nessa. Você vai ver.

Vou mostrar a quantas anda a formação da Marjorie.

Parece que o problema dela começou na infância. Não estou de sacanagem. Ela mesma contou:



(...) A falta de diversidade na representação da beleza afeta (e muito!) as crianças. Falo por experiência própria. Em um dos meus álbuns de fotografias da infância, lá estou eu, aos cinco anos, numa festa junina. Embora eu seja morena e de cabelos chacheados, meu chapéu tinha trancinhas loiras e lisas. Ficou bizarro, claro – pena que eu não tenho scanner para postar a foto aqui.

Eu achava, no alto dos meus cinco anos, que, se usasse o chapéu com trancinhas loiras, eu VIRARIA loira. Como o cabelo preto ficaria debaixo do chapéu, pensei que todo mundo acreditaria que eu era loira de verdade — assim como a Xuxa, a Barbie, a She-ra, a Cinderella e uma menina que todas as “tias” da pré-escola paparicavam e diziam que era linda.

Certa vez, já velha, perguntei para minha mãe por que raios ela me comprou aquele chapéu. Falei: “porra, mãe, você podia ter estimulado a minha auto-estima”. Ela respondeu: “Ah, na época eu não levei tão a sério assim. Você queria porque queria o chapéu. Chorou, esperneou, fez escarcéu. Eu não queria traumatizar você”. Bem, minha mãe é ótima — temos uma relação excelente e não tenho do que reclamar. Mas o fato de eu não ter me achado bonita durante boa parte da minha vida foi muito mais “traumático” do que se eu não tivesse ganho um chapéu aos cinco anos de idade. Eu não me esqueço da luta que travei com minha aparência ao longo da infância e adolescência. De um reles chapéu, no entanto, a gente se esquece fácil.


Fiquei bastante comovida. Você não? Melaram com a infância e adolescência dela. Deve ter sido ruinzão ter se achado mocoronguinha. Ainda achou um pouquinho de culpa da mãe no cartório.

Tudo sempre começa com autovitimização, autocomplacência. Nunca vi um militante que não fosse meio emo. Ela só não é emo até a cabeça porque precisa alisar o cabelo "ruim" para fazer aquele penteadinho.

E a tal coleguinha loirinha paparicada pelas tias da escola? A Marjorie queria ser que nem ela. Não conseguiu. Tadinha. Ficou se achando mocréia. Agora esperneia contra o racismo e tal. Coisa boba. Não está na cara que ela tinha inveja da coleguinha de turma? Foi tão traumático (oh!) que ainda não superou. Agora essa bobagem está servindo para justificar as bobagens atuais. Quem precisa aturá-las? Nós. Quero dizer, nós não. O negócio é mandar pastar logo.

É uma "origem fundadora". Só não dá para deixar de notar uma coisa. Isso é o que ela quer mostrar para gente. Dá para perceber que é uma explicação furada. Não para ela. Essa "origem fundadora" dá uma espécie de sentido existencial às concepções que agora ela tem. Explicação a posteriori dos absurdos atuais. O doido endoidece a própria história. Mas é uma piração auto-imposta. Primeiro, pela falta de maturidade. Uma invejinha inocente de quando era pequena não pode servir como explicação de uma postura partidária (a Marjorie no fundo só está fazendo política). É como se eu dissesse assim: "Virei anarquista porque não me deram a Susi." Lamber o próprio passado choramingando é coisa de gente ressentida também. Nem creio que ela tenha ficado ressentida só por causa da coleguinha loirinha. Creio que tenha ficado em parte porque é mimada. Tem muita gente que fica revoltada com o cosmo porque recebeu tudo mastigado. Agora, ela dá uma vernizada intelectualóide nessa porralouquice. Só para tornar tudo mais chique. É igual a um ogro que curte caviar só para parecer bacana. Mas tem que ser bastante ogro para achar legal dizer que alguém é "branco, abastado e detentor de um pênis" (palavras dela, always). Deve achar isso lindo. Uma explicação razoável por si do ponto de vista de alguém. Razoável? É tosqueira pura. Explicação materialista bizarra. (Cara, não dá para entender como ela não fica constrangida ao dizer uns troços desses por aí. É pior que soltar um peidão no elevador. Muito sem-noção. E ainda quer julgar a atitude moral dos outros.) Minha atitude é contrária. Mas não detenho um pênis (a Marjorie também não). Não sou abastada (a Marjorie também não). Não sou branquelona (a Marjorie também não). E aí? Nem por isso tenho as opiniões mamãe-caí-de-cabeça-do-berçário dela. Pelo contrário. (Se bem que meus cabelos são bons. Os dela são ruins. Ganhei.)

Ela disse que tem "privilégios porque [é] branca". Reclamou que "[o] foda é que nenhum desses privilégios é conquistado. Você nasce e a sociedade já confere isso a você." Olha do que ela está falando:



Sou privilegiada porque minha universidade é pública — eu passei num verstibular altamente excludente. Sou privilegiada porque não tenho deficiências físicas. Sou privilegiada porque tenho um salário maior do que um mundaréu de gente nesse mundão onde um quantidade incômoda de gente vive com menos de um dólar por dia. Sou privilegiada porque sou heterossexual. Mas, embora a sociedade me diga que eu tenho mais valor por causa dessas coisas, eu sei que é balela. Porra, eu sou um ser humano como qualquer outro. Eu não fiz nada para merecer ser tratada de forma melhor ou pior por causa de cor, sexo, etc etc.


É muita injustiça ao mesmo tempo.

Tudo é colocado no mesmo saco de gatos. Dá no mesmo o que é cconquista e o que é herança. Ação e paixão não se diferem. Ninguém meteu essa doida na faculdade. Foi ela que (hm) estudou. Claro, teve ajuda da sociedade (que horror!), dos pais e tal. Ação e paixão. Ela não é deficiente física (pelo menos isso). Ganha lá uma graninha. De novo, ação própria e sociedade. Só que tudo isso para ela não passa de uma herança a partir de um direito equivocado. Direito privado. Privilégio. Vou fingir que concordo. Fica uma dúvida. É gente demais privilegiada, né? Existe muito mais gente sem deficiência e heterossexual que deficiente e bicha/sapata. A raiz desses privilégios é ela ser branca. Se fosse preta, seria sapata? Não teria braço? Estudaria num lugar porco? Seria retardada? Olha o racismo enrustido aí! Olha que quem pensa assim é filha de mão preta.

Vou fazer uma pergunta a propósito. Como foi que uma mãe preta (que deve ter sido muito sacaneada pela sociedade) conseguiu dar privilégios a uma filha branca? Como alguém cuja mãe é preta conseguiu privilégio numa sociedade racista? Só se o país for menos preconceituoso do que ela diz! Mais uma perguntinha. Se ela é branca, vai explorar algum preto? Ou a mãe preta? Ela é branquela (do cabelo "ruim"). Vive melhor que a maioria das pessos. Está numa universidade muito concorrida. É da elite. E aí? Vai ver até explora mesmo. E pior que ela acha isso mesmo. Ela não reclama de ter conseguido privilégios? Se são privilégios, são às custas dos direitos dos outros. De quem? Dos pretos? Da própria mãe?

Tadinha da Marjorie. Foi posta na elite malvada contra a própria vontade. É o clássico brasileiro sou-da-elite-mas-sou-limpinha. A variação aqui é elite=branca.

Outra coisa que ela escreveu: "Nasci na periferia, mas sempre fui classe média." A-ha! Deu para notar a sutileza do mas? Ela quis dizer assim: periferia=dureza, mas eu=conforto. Preconceito contra a periferia! Mas então. Ela é uma branca não muito branca. Mora numa periferia sem ser muito de periferia. Nasceu num país racista não muito racista. Estuda numa universidade concorrida não muito criteriosa. Êta esquisitice! Algo não bate bem. O quê? São os fatos contra as concepções de sociedade.

Dizem que o Hegel falou assim: "Se os fatos contradizem minhas idéias, pior para os fatos." A Marjorie é filhote do Hegel. Pior que tem mais coisas semelhantes ao Hegel. Mas vamos com calma.

Branca. Privilegiada. Recebeu tudo de mão beijada. Mas tem cabelo "ruim". Tem mãe negra. Nasceu na periferia. Recebeu tudo graças aos esforços de terceiros. Quem? Os pretos? Os pobres? Os pretos pobres? Neca. Foram os pais dela: "Meus pais sempre se esforçaram para pagar meus estudos e uma série de confortos, mesmo que fosse em 24 prestações." (Ela contribuiu não nascendo sem perna e gostando de homem. E fingindo estudar.) Até que enfim um momento lúcido. Ela reconhece o esforço dos pais. É uma causa real da própria existência dela. A ralação dos pais ajudou pacas. Por quê? Porque pais amam os filhos e qualquer ajuda é bem-vinda, ué! A meleca toda é que ela cisma que um ente abstrato chamado "sociedade" lhe fornece tudinho de graça. Por quê? Porque é branca... Porque é escroto! É a cisão total entre a existência concreta e a compreensão de si mesma. Entre o todo e a parte. A Marjorie é alienada de verdade.

Por um lado existe o indivíduo solto. Ele não tem existência própria. Ele (e as coisas que o cercam) é só um amontoado caótico de percepções sensíveis. Doutro lado está o sistema. É o arcabouço da realidade. É ele mesmo a realidade. O indivíduo só tem existência em função do todo (que existe por si). Não existe bem uma articulação entre o todo e as partes. Nem entre as partes. Existe é uma absorção total das partes no todo. Por si só, elas são caóticas. O todo engole as partes e joga fora o que não presta. O indivíduo tem que ser sintetizado na união com o universal. (No plano político, é a servidão da pessoa ao Estado.) A Marjorie-pessoa é um amontoado caótico. Ela não tem unidade por si. Só pode ter em função do sistema. O caos ambulante chamado Marjorie só fará sentido no transcurso de um processo dialético contínuo. É uma dialética ambulante. É por isso que ela diz e se desdiz. Mal escreve que é privilegiada, aí emenda a seguir: "Tenho raiva por ser tratada como se fosse inferior só por causa do que tenho no meio das pernas."

Você acha que ela não bate muito bem? Também acho. O incrível é que é um tipo de maluquice intelectual induzida. Veja. Ela acha que os brancos oprimem a sociedade. Ela é branca? Então ela está de alguma forma oprimindo. Mas as mulheres são oprimidas. Ela é mulher? Então ela está sendo oprimida. É muita dialética. É muito fogo no forévis hegeliano.

Às vezes nossos esforços parecem desproporcionais para o que a gente consegue. Parece que fazemos pouco para ganhar tanto. Até aí tudo bem. Normal. Devemos muito a Deus e à sociedade. Mas às vezes acontece aquilo que eu disse antes. Você fica com uma fúria cósmica porque é bem tratado. Isso vai além da ingratidão. Pode muito bem ser o desejo de ter as rédeas do sistema. Não ter o controle do jogo pode parecer um insulto à propria dignidade pessoal. É como se alguém falasse assim: "Se é para não ser semelhante a Deus, então não brinco!" Existe também o problema orteguiano do "senhorito satisfeito". É a revolta de quem recebeu tudo sem saber como. Mais ainda. É a revolta de quem acha que precisa receber do melhor porque é gostosinho. A pessoa vive na mais completa irresponsabilidade. Adora fazer exigências como se a vontade própria fosse o fundamento do direito. É petulante. O problema é dar ultimatos à sociedade quando os fundamentos dos ultimatos são dados pela própria sociedade... Querer se livrar de uma coisa necessária não deve ser lá muito legal. Pensa em como fica a cabeça de alguém cujas pretensões são cósmicas. Vai ficar ressentido até não poder mais. A pose intelectualóide é só um desabafo de alguém ressentido.

Qual é a base "intelectual" dessa concepção (anormal) de sociedade? É que a riqueza é produto da exploração maligna. A classe é produto da riqueza. O privilégio é produto da classe. Então o lance é acabar com a exploração maligna. O bem que você vai receber não será mais produto do mal. É assim que a Marjorie raciocina. Ela só dá um toque "pessoal". Quem leva na cabeça são os pretos, as mulheres (menos eu), os pobres... Mas aí tem um problema. Você pode até ser uma pessoa maravilhosa semi-divina. Mas só porque fulano foi explorado. Adianta saber que a sua culpa é indireta? Pensa aí se seria um alívio ter responsabilidade indireta no assassinato de alguém. Saber que você foi forçado a ser responsável pela morte de alguém não seria ruim também? Mesmo que você adquirisse uma coisa legal? Então. É a mesma coisa com o privilégio. É assim que a Marjorie raciocina (apesar de ser tudo invenção da cabeça tosca dela): "Então eu tenho, sim, raiva desse sistema que me dá privilégios e tira dos outros, deliberadamente e com base num motivo tosco." Qual motivo? Ser branca blá blá blá. Mas é uma brancona honrada. Foi forçada a compactuar com a elite fdp. Tipo aquele pessoal que dizia ter sido forçado a matar judeu no nazismo. Quanto mais ela for forçada a receber privilégios, mais a elite será escrota. Porque estará forçando a coitadinha a agir contra a própria vontade.

Você conseguiu entender por que não adianta nada melhorar a vida de alguém que "raciocina" desse jeito? Não adianta. Se tudo piorar, é porque ele é explorado. Se ficar na mesma, é por causa da falta de vontade da elite. Se melhorar, é graças à exploração alheia. Mas o fulano é limpinho.

Eu já disse que ela não é a única que pensa assim. Disse também que gente mais interessante compartilha dos pressupostos da Marjorie. Adivinha quem? Paulo Francis! O próprio. Acredite se quiser. Pelo menos no livro O afeto que se encerra. Ele é muito mais claro que a doida:



Todo brasileiro privilegiado sabe que é cúmplice de um crime, seja praticante (minoria), omisso (maioria), ou esbravejando (minoria). Somos todos, de certa forma, "iguais". (p.134)


(Esse é o caso clássico de passagens que não deveriam ter sido publicadas jamais. É atestado de anta. Faltou bom-senso ao P. Francis. Por muito menos o Virgílio quis que jogassem na fogueira a Eneida.)

A raivinha da Marjorie ainda é muito do tipo cósmico-primitivo. É uma força esmagadora que a obrigada a compactuar com "isso que está aí". Ela é limpinha. Já o P. Francis pressupõe a participação humana. Envolve uma dimensão a mais. O mal envolve no fundo uma responsabilidade pessoal. Só que ele identifica o mal a um certo grupo (uma minoria de brasileiros). É tanta maldade a desse grupo que até respinga em todo mundo! Para ele, a inocência acaba à medida que você é privilegiado. Perto disso, a Marjorie é uma sonsa alienada. Se você é privilegiado, você é mesmo um fdp. De algum modo, mas é.

O P. Francis até que era mais corajoso. Levou adiante essas premissas bocós. Mesmo sendo branco, tendo pênis...

É interessante como eles lidam com essa culpa. A Marjorie se acha muito boa para uma sociedade tão fdp (sociedade=privilegiados). Ela está nessa sociedade mas não é dessa sociedade. Um anjinho. Lesado, mas anjinho. O Paulo Francis se reconhece às claras como sujo. É um criminoso. A diferença entre os dois é que um deles explicita mais o sentimento de culpa. A semelhança é que projetam essa culpa em toda a sociedade (=na gente).

Os dois conseguem enxergar o conjunto. Podem entender o sistema. Sabem como as coisas funcionam. A superioridade moral é conseqüência. Uma opinião equivocada não é só besteira. É uma falha moral. Não ter a visão do todo significa metade burrice, metade mau caratismo. Marjorie: "O que me dá raiva é a cegueira de muitas pessoas em relação a esse sistema. A total cegueira. Ou a pessoa não se sensibilizar com isso, a fim de proteger a sua situação privilegiada." P. Francis:



A maioria, claro, é omissa e ignorante e se enclausura nessa ignorância, defensivamente. Noutros, bem numerosos no meio intelectual e jornalístico, é puro mau caráter, a vocação irrestrita ao egoísmo e vassalagem aos poderosos, que os faz desviar os olhos do que nos cerca, nos nossos privilégios (p.135)


Acontece que não adianta chorar. Conhecer o sistema é participar do processo cósmico. Mas participar dando as cartas. Entenda bem. O sistema é a realidade. Conhecê-lo é dominar a realidade. O intelectual esta aqui para isso. Para devorar o sistema/realidade. Só que o monstrengo é made in Earth. Foi bolado pelo homem. E tem ainda uma coisa mais impressionante. Faz parte da gente. Conhecer o sistema é incorporá-lo a si mesmo! Você vira o dono dele. É preciso alguma atitude em seguida. Também não é qualquer atitude. É preciso surfar no processo. Entendê-lo e ficar parado é que não dá. É fingimento. Desonestidade. Pior ainda se tentar forçar tudo para trás. Enfim. Ou você está aquém da humanidade ou é fdp. É mais ou menos como aquela história de não querer ver a "máquina do mundo". A diferença é que a máquina é criação nossa. E é nosso dever manipulá-la. É mistura de coragem, dever e necessidade ajeitar essa paródia de máquina do mundo. Claro que isso subtende a possibilidade de a gente ser tipo um demiurgo...

É preciso saber ter essas coisas na cabeça para entender bem a passagem seguinte do P. Francis:



Em face desse monstro é compreensível que os privilegiados que não o manipulam diretamente prefiram alienar-se na "tradicional cordura do bom humor" do brasileiro, a enfrentá-lo. [A Marjorie nunca teria suspeitado que o P. Francis já tinha escrito sobre a "subjugação do riso".] O ser humano, porém, é um bicho estranho, pois o único a pensar no que constrói (Marx). Abelhas e formigas são tão hábeis ou mais que nós. Mas não padecem da consciência do que fazem. E o intelectual é o pensante in extremis. Não pode deixar de ver o custo ao próximo, às dezenas de milhões de desgraçados, que a omissão de um cérebro vivo, capaz de formular reformas, ajuda a promover. (p.136)


Alguém se lembra da famosa tese do Marx? "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo." O intelectual exerga a realidade. Entende o sistema. Não pode ficar à margem do processo cósmico (= ação humana). Não pode fingir que não acontece a exploração. Ela existe. É um entrave. O mal do mundo. Ele tem que fazer algo.

(Uma pausa. É engraçado como neguinho (opa!) interpreta essas coisas do ponto de vista moral. Não tem moralidade nenhuma, não. O negócio é captar o processo e pronto. O que você fizer a partir daí está auto-justificado. O P. Francis estava ainda bem burguês...)

Conhecimento absoluto da realidade, primado/julgamento moral superior, ação cósmica. Tudo está junto. O intelectual é obrigado a não se alienar. Seria contraditório. Imoral. Ele se tornaria inimigo do processo histórico. Trabalho intelectual é a transformação da realidade. É o reajuste de todas as calamidades. Mas se ele se alienar, vai destruir as bases do que faz. Perderá fôlego. Vai se consumir.

A auto-destruição é na verdade uma depressão total. Fruto da incapacidade de modificar a realidade. É a rebordosa do delírio demiúrgico de modificar o cosmo. Ficar batendo o pezinho cheia de raivinha (como a Marjorie faz) é nada. A coisa pode ficar bem pior. Paulo Francis:



Então o intelectual bebe e se desespera em personalismos, na mulher amada impossível (quanto mais, melhor, aumenta a ilusão da seriedade), ou tenta, se bem pago, imitar os grão-senhores. Não dá certo. É da condição do intelectual enxergar a realidade. Esnobes sociais, Proust e Fitzgerald terminaram virando a mesa grã-fina. E daí o pessimismo crônico, as explosões alcoólicas, desproporcionais à suposta causa (...), a autodepreciação masoquista, o senso opressivo de futilidade da nossa vida intelectual.


Ser intelectual pode ser trágico... Primeiro tem o projeto megalomaníaco. Seu conhecimento serve para você absorver a realidade. Você se absolutiza à medida que entende o sistema. Você se identifica com o cosmo. Ele estará à sua disposição. Só que numa hora tudo embaça. O projeto falha. Vem a depressão. Vem o fracasso existencial. Tudo começa com uma balofice hegeliana demiúrgica. O final é a subnutrição infantil das mais terríveis. Dialética suicida.

Alienação total. Um exemplozinho? A própria Marjorie. É e não é exploradora. É e não é explorada. É e não é ajudada por gente concreta. E por aí vai. E a raiva. A única coisa que unifica tudo é a raiva. Raiva cósmica. O Hitler já tinha elogiado a força do ódio. É um sentimento unificador poderoso. O que ele não viu (ou não quis saber, mas sentiu na pele) é que o ódio extremo leva ao cúmulo do paroxismo. É um veneno alienante. A Marjorie lê coisas no texto do Danilo que não existem. Enxerga perversidades que só existem na cabeça confusa dela. Não entende a realidade em que vive. Não entende a própria cabeça. É uma personalidade toda fragmentada.

Volto a me repetir. O exemplo da Marjorie é instrutivo. Não fiz nenhuma sacação psicológica. Só explicitei o que ela própria disse de si mesma. Mas por que alguém escolhe ficar aloprado? Sei lá. O que sei é que a essas pessoas podem ter uma influência péssima. Podem nos atingir. Já estão. Olha o cara sendo ameaçado por conta de uma piadinha.

Quanto mais esses aloprados tentam consertar os males que acusam, esses males aumentam na mesma proporção. É uma coisa demoníaca.

A bagunça do país vem daí. Se não vem, é piorada demais. A depressão individual dessa gente está afundando o país!

Querem transformar a realidade nas besteiras mais escabrosas. Já estão conseguindo. Vão falhar. Duvida? O mal é parasita do bem. Só que até lá dá tempo para muita escrotice. É por isso importante deixar muito claro como as idéias dessas pessoas são malucas. Esses mulambos totalitários não podem defender numa boa a prisão de alguém por causa de uma piada. É importante mostrar também que essas pessoas são malucas. Olha essa Marjorie. Uma mimada cujo sofrimento mais profundo foi não ter sido igual à coleguinha loira de escola. Uma mimada que transformou isso num problema existencial próprio. Uma mimada que agora culpa sociedade (=nós) por isso. Uma mimada que quer apagar o fogo no rabo colando rótulos odiosos na testa dos outros. É porralouquice demais. Sobre aquele negócio de o Paulo Francis sair dizendo que todo "privilegiado" é criminoso... Nem digo nada. O cara deve estar lá no Purgatório suando frenético por comentários assim.

Não dá para tolerar. É aquilo que o Olavo chama de piada sinistra. A tentativa de impor como norma o absurdo. É o cúmulo da falta de humor...

21 comments:

Jorge Fernandes said...

Tanja,
Leio sempre os seus textos, e este, foi de tirar o fôlego...
Quem disse que o marxismo não emburrece? Faz todo mundo parecer um bando de tontos, onde não há objetividade, apenas subjetividade inconsequente, pueril.
O Gentille e a turma do CQC vivem de bajular o Lula, como a boa esquerda gosta de fazer. Agora, vai provar do próprio veneno. Ser patrulhado pelos seus "companheiros". Aliás, é algo que ainda não entendo, a capacidade esquerdista da autofagia, vide o caso Sarney, e agora, o Gentille.
No fim, o que eles querem é o caos, pois é sempre mais fácil tiranizar no caos.
Parabéns pelo post.
Abraços.

R. B. Canônico said...

Tanja, confesso que não consegui ler ainda esse post. Provavelmente um dos maiores da história do blogspot. Dá até a impressão de você ter querido tirar o atraso das semanas sem postar de uma vez só. Mas prometo que até amanhã leio tudo e faço um comentário que não seja tosco, como este.

Evelyn Mayer de Almeida said...

Oi, Amore!
Que saudades!

Olha, eu fumei uns dois cigarros lendo o post... Parece que vc pos todo seu humor e furor nestas linhas.

De fato, foi uma burrice desta Marjorie defender algo indefensável. Aquele papo da gente defender negros como se fossem indignos, incapazes... alto lá! Eles são humanos como eu! E a sociedade quer defender o antiracismo, mais cria cotas! Bah! não é isso uma prova explícita de racismo?

O Danilo faz parte do cqc, um programa da band que passa as segundas-feiras, 22hs. Eles são sempre perseguidos porque falam o que pensam e colocam os políticos em saias justíssimas! E o Gentilli trabalha em Brasília... então ta aí a perseguição. Estes dias o Deputado que se lixa pra opinião pública xingou o rapaz de bicha e viado só porque ele perguntou porque o nobre deputado não ta nem ai pra quem pos ele lá.

É nessas hs que me vejo como culpada. Puta merda, eu tento, eu leio, eu estudo, eu pesquiso e quando acho que acertei, pus um porralouca pra me representar! Blargh! Acho que vou passar a votar em branco... o duro é se o preto for me representar no lugar dele... ;-)

Luiz Felipe said...

Poucas vezes vi um esculacho tão bem dado (e merecido!). A Marjorie, em um post anterior, já contou em saga a sua luta contra o autoritarismo racista condominial. Na verdade ela se revoltou porque colocaram placas de "social" e "serviço" no elevador - um claro sinal da dominação excludente dos brancos sobre...os cães e materiais de construção?

Parabéns pelo post! Virei leitor.

R. B. Canônico said...

Tanja, agora li tudo e entendi o tamanho do post.

Sensacional. Gostei mesmo.

Às vezes eu tenho vontade aconselhar a essa gente a se entregar na delegacia mais próxima. Sim. Chegar pro delegado e falar: "Sou culpado". "Culpado de quê?". "Culpado pela pobreza dos... pobres (?) pois tneho um PC, e consequetemente dinheiro, e consequentemente exploro uma meia duzia... culpado pelo racismo, pois sou branco..." e apor aí vai. Seria, pelo menos, coerente da parte deles.

Mas essa história de que somos culpados é também popular na Europa. Estão contentes que o Lula nos governe, embora não queiram um 'Lula lá'.

E, por fim, não dá para discordar de uma linha do que vc diz. Muito menos achar que pegou no pé da Marjorie. Nem sei o que pensar dessa gente, se tneho pena ou combato, sei lá. É tão tosco que fico perplexo.

E, terminando também com Olavo, acho que muitas vezes ele responde à altura dessa gente. É o famoso "vai tomar n...". Deixa o resto pra lá!

Aline said...

Tanja, cadê o politicamente correto? Você chama o preto de preto abertamente, você diz que o cabelo ruim da menina é ruim algumas dezenas de vezes.
Adorei! :) Talvez um pouquinho agressivo demais, mas ótimo. Parabéns.
Eu nunca entendi muito bem qual é a da Marjorie. Subjugação pelo riso? Eu sempre caio na gargalhada quando leio o que ela escreve. Bad, bad Marjorie.

Eduardo Araújo said...

Atenção, caros, cuidado para não dizer que a coisa "tá preta", mesmo que a coisa esteja pretíssima.

Um amigo me apresentou um livro desses de "educação para a cidadania", eufemismo da esquerda para a doutrinação marxista. Lá, encontra-se essa pérola segundo a qual "a coisa tá preta" é uma frase de abjeto racismo.

Já, já, essas "belezas" incluirão outras no seu repertório: "fulano está vermelho de raiva" (preconceito contra os pobres índios); "sicrano amarelou" (racismo contra os orientais).

Por outro lado, podem ficar certos que nunca se lembrarão de "me deu um BRANCO"; nem de "ficou BRANCO de medo".

A coisa tá ficando preta!

Como disse a Tanja, é um esforço hercúleo para converter a realidade numa construção de besteiras as mais escabrosas.

Tanja Krämer said...

Oi, Jorge! Não só emburrece. Torna a pessoa MALUCA. Apareça sempre! Fala, Canônico! A resposta do Olavo é poética. É tudo o que a gente quer dizer com a máxima concisão. :-) Você tem razão. Seria mais coerente se essa cambada se entregasse à polícia. Mas sabe como é. Nego não é trouxa. (Levei o prêmio do "maior post ever"? :-)) Evelyn! Quanto tempo! Como vai o gurizinho? Olha, o melhor é não votar. Depois paga R$3 e uns quebrados. É como se você dissesse: "Acho que vocês não valem nem uma nota de R$5." Ah, tenho paciência com essas tosquices mais não. Ei, Luiz, a muié é doida. Militância predial anti-racista? Daqui a pouco vai defender o quê? Casamento com bicho? Não é um racismo intolerável excluirmos os animais das nossas intimidades? Pô, Aline! Cê acha que fui um pouquinho agressiva demais? Era para ter sido muito. :-) Nada comparado com as tangolomanguices dela, né? Eduardo, não é admirável o esforço dessa gente? É excesso de fogo no bumbum. Esforço hercúleo para fazer caquinha.

Foi mal pelas minhas respostas breves. Valeu, gente!

Tanja Krämer said...

Tem uma coisa que me esqueci de dizer no texto.

Pensa em forma e conteúdo. Pega um texto de seres como a Marjorie. Qual é a forma? É aquela coisa racional, equilibrada... O conteúdo? Considerar atitudes inofensivas um crime bárbaro. A contradição em si não é um choque? Você fica sem reação. "Ele está falando isso a sério?" Como numa cena de A queda. Está lá o Hitler comendo. Com a maior calma, fala da necessidade de exterminar os povos inferiores. Quero dizer, nego quer passar como razoável um absurdo atroz. Acham tranqüilo que você seja preso por anos por causa de uma piada. Bom, isso não é aceitável. Nenhum pouco.

Como se chama alguém cuja consciência é tão embotada que nem percebe a gravidade dos crimes que comete? Que, ao contrário, até acha bom cometê-los?

Não dá para só argumentar. Isso seria cair na dialética da loucura. É preciso exorcizar essas coisas.

!Sô! said...

Good
Massa
Virei leitor.
Ia lendo e o que o texto me fazia pensar, estava dito mais na frente.
Era o que faltava.
Mas, me surpreendeu, que esta mesma postura da Marjorie, eu vi colocada por alguns sabichões no twitter.
A patrulha policamente correta está praticamente muito bem armada. Ameaças não faltam.
Homofobia então, é uma palavra de significado tão vasto que, daqui a pouco vai significar a recusa pela pratica.
E as minurias crescendo, fermentando... Onde vai parar não sei. Mais, fomos todos levados para um lugar de debate que só um texto assim, muito inteligente e articulado que nem este é que pode enfrentar esta patrulha. No dia a dia, as pessoas estão todas cercadas e acuadas. Com medo de falar.
Tá bom, Tanja. Parabéns!
Deus te ilumine mais ainda
Ari

marjorierodrigues said...

Olha. A gente até poderia debater sobre. Como duas pessoas civilizadas. Tem partes do teu post que eu acho interessantes, passíveis de ser debatidas.

Mas não acho que debater seja do seu interesse. Pelo menos é essa a impressão que fica. Afinal, apesar de escrever um post enorme citando coisas que eu escrevi, vc não teve a dignidade de me avisar: "oi, sou a Tanja, escrevi um post discordando de vc".

Fosse só isso, ok. Mas tua atitude ainda é muito desrespeitosa. Extrema falta de educação. Não é nada legal clicar num link e dar de cara com um post te chamando de songamonga, de burra, dizendo que vc se acha "a gostosona", daí para baixo. Isso é horrível. Não faço isso com ninguém e acho uma pena que vc sinta ser necessário ridicularizar os outros para defender um ponto de vista, seja qual for.

Pelo visto, teu interesse é somente soltar socos virtuais. Cavar briguinha de várzea em blog. Mas, bem, já passei da idade de ter saco (e tempo) para isso.

Passar bem.

Tanja said...

Você é pura. Deve ter sido a Marjorie da outra dimensão que escreveu que:

"Walt Disney era um tremendo de um filho da puta mesmo."

"ei, você [quer dizer, quem se acha "politicamente incoreto, como você mesma diz] não está sendo subversivo porra nenhuma, mané. Você não está sendo descolado. Você está sendo é um baita de um 'conservador'. Porque é isso mesmo: está sendo igualzinho aos pais. Está sendo igualzinho aos políticos que chama de safados. Está sendo igualzinho ao que há de mais retrógrado e recalcado. 'Politicamente incorreto' é o catso — porque, na verdade, esses caras estão defendendo o mesmo 'correto' do status quo. Estão discriminando as mesmas pessoas que são discriminadas há séculos."

E o "coleguinha [que] diz uma frase tosca e preconceituosa"? É o branco-abastado-detentor-de-pênis?

Isso no post "Beleza branca" (http://marjorierodrigues.wordpress.com/2009/02/06/beleza-branca/).

Tranqüilão dizer que o carinha da piada é racista covarde, né? "Mas Tanja, a Marjorie não escreveu isso". Verdade. Acontece que ela disse com outras palavras. "Subjugação pelo riso" não é uma forma de não dizer na cara o que você quer? Isso é covardia. O cara não fez piada de preto? Racismo enrustido. Então mantenho. A Marjorie acha o cara um racista covarde.

Você dizer essas coisas dos outros pode. Está de licença. Mas alguém demonstrar as besteiras imensas que você-maravilhosa-boa-consciente-iluminada-afastada-de-briguinha-de-blog escreve não pode. Chamar alguém de safado a Marjorie-iluminada pode. Eu chamar a Marjorie de songamonga (e provando com documentação dela própria) é "extrema falta de educação". Ah, vem com esse papo-furado de coitadinha, não. Presepada total.

Tanja said...

Ah. Sou tão escrota que nem acho que quem discorda de mim tem que ir em cana. Você é tão especial/boa/maravilhosa que acha que quem discorda de você tem que ir em cana. Racismo não é crime? Manifestações racistas não são crime? Quanto é 2+2? Mas você é honrada.

Anonymous said...

Olha, temos o nosso próprio Benny Hill! Ai, tá bom, aqui jaz uma piada...ou seria jazz? (essas e outras você pode conferir diretamente do livro de piadas do Ari Toledo! garanta o seu!).

Nicolau said...

Marjorie devia organizar melhor o tempo dela e se dedicar um pouco a responder críticas consistentes, de preferência sem pose.

Tá na net tá no mundo. Falou o que queria, agora ouve.

Show, Tanja.

Beijos

Tanja said...

A afetação de superioridade é o último refúgio dos bobos. :-)

Tô dizendo o tempo todo que ela é um exemplo típico... É "senhorita satisfeita". Fala o que quer. Na hora da cobrança, chora. Agora, não é engraçado que quem quer transformar o país, que diz entender o sistema opressivo e tal, na hora que é chamada de songamonga se diz vítima de algo abominável?

Anonymous said...

Se a tal de marjorie é uma "songamonga", você é uma babaca infeliz de marca maior. vou soltar mesmo aquela máxima que todo mundo usa pra escrotizar mulher que solta os cachorros nos outros: vai dar essa boceta, isso é falta de ROLA. Rola da grossa, quente, veiúda, dura e gostosa. Falta de umas estocadas bem dadas. você só precisa disso mesmo, minha filha: ser bem comida. quem sabe assim você deixa esse "bullying" virtual de lado e pára de se horrorizar com a "quenguice" alheia, não é? então, recado dado. BLOW YOUR TAMPAX HONEY, quem sabe assim você não tem um orgasmo e se torna uma pessoa mais feliz? É cito "Priscila a Rainha do Deserto mesmo", porque algo me diz que, além de tudo, você deve ser daquelas que acha homossexuais uma "aberração".

Tanja said...

Muita coragem usar o anonimato. :-)

Outra. Pode dar seus chiliques. A Marjorie vai continuar songamonga do mesmo jeito. :-)

Três. Para quê quer saber se acho gays uma aberração? Quer me namorar. Imagina se eu botasse minha foto colorida! :-)

Última. Você deixou de ser babaca porque provou isso tudo que me indicou? Pelo visto, enrolaram você. Ainda está bem babaca. Tsc. :-)

Tanja said...

Esqueci de dizer uma coisa. Doeu tanto assim o meu texto? Ai, que peninha... :-)

Érica Coutinho said...

Tanja,

Por favor, leia o Estatuto da Igualdade Racial - a mais nova aberração do politicamente correto brasileiro - e comente-o.
Se você tiver tempo e saco para isso, claro. Com o seu fino humor, será uma obra de arte, digna de publicação para concurseiros esquerdistas (é isso mesmo?!)
rs

Parabéns pelo post!

Tanja said...

Brigada, Érica!

Mas pô. Quer me matar? Já não basta o título? :-) O estatuto combateria o racismo e tal. Mas o próprio título do estatuto pressupõe uma concepção racista. Senão não faria sentido falar de igualdade racial! Bolaram um título que desmente o objetivo expressado. Haja picaretagem!