Wednesday, June 17, 2009

Feminismo da Canção dos nibelungos

Não deixa de ser interessante que a Canção dos nibelungos possa ser encarada como feminista. Não é um feminismo enragé, dessas coisas de voto, pró-castração masculina e tal. É um feminismo em duplo sentido.

O primeiro é no sentido medieval-cavalheiresco (séc. XIII circa). Quem atrái a ação, quem é o centro da ação, é a dama. É por causa de uma dama (Kriemihild) que Siegfried é atiçado. É a existência de Brunhild que torna necessária a aliança de Gunther com Sigfried. Mas é também em decorrência da briga das duas que Siegfried é traído e morto. E se na primeira parte da história a influência de Kriemihild é mais passiva (o que não significa não ter força nenhuma, pelo contrário), na segunda ela se torna ativa. As mulheres estão no centro dos acontecimentos. Os homens são os peões.

Mas o segundo sentido é feminino de um jeito mais obscuro. A Canção dos nibelungos mostra o que a mulher tem de pior. Quando as mulheres resolvem agir, é para alterar a normalidade das coisas de tal jeito que alguém acaba sendo destruído. Não que seja uma ação desastrada. Pelo contrário! O objetivo é a destruição pura e simples. Pela inércia das coisas, era para Brunhild ter aquietado o facho. Mas não. Assim que ela se dá conta de como foi vencida, ela evita a inércia e tenta influenciar os acontecimentos. Claro, influenciar de um jeito maligno. Até que por um lado o ódio de Brunhild é mais compreensível do ponto de vista masculino. Como ela é meio moleca, é uma adolescente que quer disputar com os homens no próprio jogo deles. O jogo é no muque? Então ela vai disputar assim com eles. Essa é a disputa que ela tem com os homens. É compreensível a irritação que ela sente por ter sido vencida. Mas o negócio se complica quando ela descobre como foi vencida. Ela foi enganada. Só a venceram pelo engano. Aí entra o feminino. É a fúria de quem foi traída. Ela antes podia esmagar a cabeça do Gunther. Podia vencer de um jeito masculino. Agora, só vencerá apelando para estratagemas... femininos. O que a move é o ódio vingativo de quem não esquece jamais a injúria. Isso é feminino. O ódio por ter sido enganada é compartilhado também por Kriemihild. Toda a fúria dela é explicada por ter sido traída por Hagen Tronje. Aí entra uma coisa bastante curiosa. Se a gente parar para pensar, Hagen Tronje roubou Siegfried dela. Esse roubar foi no sentido de matar, lançando mão de artimanhas; não de conquistar para si. Não importa. O ódio feminino de Kriemihild foi posto em ação do mesmo modo. Hagen se tornou uma espécie de rival. Tanto que ela se casa com o rei Etzel só para destruir Hagen Tronje.

6 comments:

Eduardo Araújo said...

Olá, caríssima!

Gostei muito desse texto. Sei da Canção dos Nibelungos apenas por intermédio do filme de Fritz Lang, que nem mesmo posso assegurar-me de fidelidade ao original. Ainda assim, pode-se notar a importância de Kriemihild na trama.

Por outro lado, conheço razoavelmente bem a tetralogia de Wagner - O Anel do Nibelungo e impressiona-me o quanto o libreto distancia-se daquilo que sei da Cançao. No Anel, a personagem central, de fato, é Siegfried, conquanto a heroína, no fim das contas, seja Brunhilde, com a sua auto-imolação (ato que causa o crepúsculo dos deuses).

Você conhece a tetralogia wagneriana?

Caso sim, o que você acha, em termos comparativos, da narrativa do libreto de Wagner e o conteúdo da Canção?

E o filme de Lang, já assistiu?

Eduardo Araújo said...

Minha cara, ocorreu-me complementar o comentário anterior:

- em Wagner, não há a personagem Kriemihild;

- os hunos, na Canção, passam a ser os gibchungs na ópera;

- Siegfried é central (apesar "estrear" somente na terceira parte) porque tudo, de certo modo, converge para ele. Consta que o compositor tinha uma verdadeira veneração pelo herói, batizando com o nome dele o seu filho com Cosima. Para esse filho, aliás, Wagner compôs uma belíssima peça orquestral - Idílio de Siegfried - que recomendo.

Tanja said...

Oi, Eduardo!

O filme do Lang foi baseado na versão germânica da Canção dos nibelungos. É um poema épico que talvez seja do séc. XIII. Aquela divisão em cantos no filme segue a divisão do próprio poema, se bem que o filme é muito mais enxuto. O poema é bem mais extenso. (Por sinal, quem fizer a Ilíada ou a Odisséia bem que podia fazer como o Lang fez.) O poema tem uma maquiagem cristã (padres, batismo, catedral). O conteúdo tem nada de cristão. O comportamento de gente como Kriemhild na segunda parte é coisa de pagão puro. (Mexer com germânicas não devia ser muito legal.)

A versão do Wagner é nórdica. Essa tem bem menos elementos históricos que a outra. Se a primeira só tinha uma maquiagem cristã, essa não tem nem isso. Como nunca li o poema nórdico, não posso dizer se o Wagner foi muito fiel.

Os gibichunge (esse nome vem do rei Gibich, pai do Gunther) são os burgúndios. Isso nos dois poemas. São os caras que moram às margens do Reno (Baixo Reno), cuja capital é Worms. Os hunos só aparecem na versão germânica. (Agora, o que nunca entendi é que do nada os burgúndios/gibichunge são chamados de nibelungos na segunda parte da versão germânica!) O Sigfried não é aquele toscão que parece ter nascido de pata choca na ópera do Wagner. Ele é um príncipe que morava em Xanten. Acho que no filme do Lang ele aparece como se tivesse sido criado por anões, né?

A Canção acompanha até certo ponto os poemas galantes de cavalaria. Os elementos estão lá. Você encontra o cavaleiro super-deus, a dama pura, castelos, eventos fanáticos, e tal. Agora, o elemento trágico-germânico-pagão é o específico. Não sei se você encontra isso em outros poemas (estou pensando no Perceval).

Eduardo Araújo said...

Caríssima, você é demais e mais alguma coisa!:))

Muitíssimo agradecido pelas informações, as quais me esclareceram bastante. O que me causou a confusão foi justamente a disparidade entre o libreto de Wagner e o enredo do filme de Lang, isso por que não li a Canção (despertou a minha curiosidade).

Na tetralogia (especificamente em O Crepúsculo dos Deuses), os gibichunge são também associados aos nibelungos. Hagen, inclusive, é filho de Alberich, o nibellungo que roubou o ouro das ninfas do Reno e ambos têm um parentesco com Gunther.

Na ópera, é a irma deste - Gutrune - que é oferecida a Siegfried, após este ter sido dopado por Hagen. Brunhilde, então, é capturada pelo herói que a entrega a Gunther.

Tanto na ópera, como no filme de Lang, Siegfried é criado pelo anão Mime (na ópera, também nibelungo), que o ensina técnicas de forjar armas. É com uma espada poderosa, forjada pelos dois, que Siegfried mata o dragão Fafner (tanto na ópera, como no filme). Mas aí acabam os pontos comuns entre as duas obras.

Sobre os elementos cavalheirescos, você encontra-os, sim, em Perceval, lembrando que para todos eles são apresentados contrapontos: o cavaleiro super-deus contrasta com um vilão que, amiúde, domina conhecimentos de magia; as damas puras - em Perceval, com a roupagem cristã que envolve o Graal - contrapõem-se às devassas pagãs que habitam antros, por vezes sob o domínio do vilão .

Nicolau said...

Tanja, você é f%$#@oda.

(isso foi um elogio)

Excelente post.

Eduardo said...

Olá Tanja ! Espero que os comentários estejam abertos! Pois bem: Assisti o Filme "O Anel dos Nibelungos" por pura curiosidade, há umasa duas semanas num sábado de madrgada na TV Bandeirantes de São Paulo, e como você tive a mesma impressão do filme: uma metáfora feminista. Sua avaliação foi perfeita e foi exatamente o que imaginei quando terminou o filme. Eu também tenho um Blog onde escrevo muito espaçamente, mas o mantenho ativo e é curioso, qu8e sempre que estou escrevendo algum assunto, me ocorre de por acaso ver um filme que vale a pena ser citado no artigo. Pois nestes dias, estou escrevendo um artigo sobre o feminismo e um dos tópicos pretendo abrir, justamente comentando o filme "..Nibelungos...". Vai demorar um pouco, meus textos são longos e fico relendo, relendo para melhorá-los e acabo descobrindo outras coisas para incluir e apesar de escrever muito, tenho dificuldades com o uso da vírgula...sempre achi um erro.... Penso que antes so final de abril devo publicá-lo. Vejo que seu blog, cita Chesterton, pois o nome do meu Blog tem origem numa frase do intelectual inglês, que tenho como "Patrono"...Pois bem...dê uma espiada. Vou também ver o que você escreve !

Meu Blog:

www.algosolido.wordpress.com

Abraço,

Eduardo
Santo André-SP