Tuesday, March 03, 2009

Atendimento ao público

Gente, faz quase uma semana que ando gripadérrima. Fiquei vários dias sem nem olhar para o computador. Pelo menos hoje não estou mais febril. Para piorar, aconteceram umas coisas chatas demais nesses últimos tempos. Estranho como a vida continua. Enfim. Me desculpe por mais essa demora em responder alguns comentários. (Ah, e a caixa de e-mails? Da última vez que contei, eram 160. Caraca.)

Vou aproveitar o post para responder rápido aos comentários do Eduardo e do Nicolau. (Vocês vão saber do que estou dizendo, certo?)

Eduardo, eu já conhecia aquele concerto do Tchaikovsky. Nunca ouvi os outros dois concertos para piano dele. Eu também não conheço aquelas músicas do Dvorak (o Nicolau deve saber como se pronuncia certinho o nome desse cara, com aqueles acentos estranhos) e do Berlioz. Obrigada pelas sugestões!

Agora, a commedia dell'arte. Olha, não conheço lá muito bem o assunto. O que posso dizer é o seguinte. Você pode pegar informações na História da literatura ocidental do Carpeaux. Ele trata disso no último capítulo sobre barroco e classicismo. O nome do capítulo é Antibarroco. Pois é. Ela surge no barroco, mas tem características opostas a ele. As reminiscências mais antigas dela estão nas comédias do Plauto e do Terêncio (sempre esses dois caras); as mais imediatas estão na Renascença, mas de forma degenerada. Os personagens clássicos são mais ou menos parecidos com aqueles do Plauto e do Terêncio. (Não lembro do Carpeaux ter feito referência ao Menandro. Se bem que nem precisava. Todo mundo sabe que ele influenciou o Plauto e o Terêncio. Agora, uma curiosidade. O Menandro era tão famoso que até São Paulo citou o homem na Bíblia: "As ruins conversas pervertem os bons costumes". ) A diferença é que os personagens são adaptados para o cotidiano napolitano/veneziano, depois parisiense/madrilenho. Então tem o doutor picareta e o doutor imbecil (para rimar, Brasil), o criado esperto e o burraldo, o soldado brigão, o corno... As tramas são coisas do cotidiano, mais ou menos padronizadas, tratadas sempre pelos mesmos personagens/caricaturas.

Você vai saber com mais detalhes essas coisas todas lendo aquela parte do livro do Carpeaux. Acho que até eu vou reler também.

Não sei se Il pagliacci foi baseada em alguma trama da commedia dell'arte. O que sei é que o espírito dessa ópera é o do "drama popular sangrento" estilo Carmen. Você vê que se existe uma "comédia" naquela história, é no máximo aquela ironia bizarra do Canio. Mata a mulher, o amante, depois chega para o público, faca ensagüentada na mão, para dizer: "La commedia è finita!" (Lembra o Iago no Otelo do Verdi: "Tutto è burla nel mondo!")

Vou aproveitar para dizer outra coisa. O que eu acho bizarro mesmo é que até hoje brasileiro não aprendeu que essas coisas já existiam há 100 anos. Ainda hoje nego se acha lindo fazendo "drama popular sangrento". Ai.

Nicolau e aquele comentário sobre a República. Minha intenção foi mais ou menos provocativa. Na verdade, o que o Platão faz ali é o mesmo que a Igreja em assuntos "técnico-mudanos". Ela não está aqui para dar parecer técnico. O problema é de princípio. Platão faz isso também na República. Tanto é que ele descarta logo esse tipo de discussão como coisa fácil para qualquer cidadão bem formado (= detentor da verdadeira paidéia/arte de viver). Outra coisa. Discutir sobre comércio (e assuntos desse tipo) seria perda de tempo no plano em que ele coloca o tema (não seria no caso das Leis). Agora, atenção. Platão não diz que a proliferação de leis sobre a moral não faz sentido numa sociedade virtuosa. Não é bem assim. A preocupação dele na República é a psicológia moral (quer dizer, pedagogia), fundamentada numa análise da alma humana. É por isso que ele acha mais importante tratar da música e da poesia que de regulamentações comerciais e coisa e tal. Só que ele acha importante saber se deve ou não permitir a flauta. Entendeu? O problema que ele coloca é como formar cidadãos virtuosos para que a cidade seja também virtuosa. O negócio é complicado porque paidéia e politéia são duas coisas que andam juntas para todo grego (by W. Jaeger). Ele chega a deduzir regimes políticos a partir dos tipos de alma. A forma de sociedade que ele propõe é na verdade uma espécie de exteriorização da alma humana. A cidade deve ser análoga à alma (ideal/virtuosa, claro).

Liz e o Jabor. Aqui é que nem naquele filme A queda do Império Romano. Tudo está disponível para o primeiro cara-de-pau que chegar botando banca (quase um tema da commedia dell'arte). O negócio é fazer que nem você. É criar um espaço cuja simples existência seja um remédio contra esse tipo de coisa. Se a gente fosse esperar a atenção dos jornais à perseguição religiosa...

Ai, minha cabeça. Beijos a todos!

5 comments:

Nicolau said...

Esse post foi muito elegante para com seus leitores - pelo menos no que me diz respeito. E olha que eu já ia mandar um comentário do tipo "pronto, ela sumiu de novo, vou ficar mais cinco meses vendo o vídeo do judeu feliz!!".

No mérito. Sim, concordo inteiramente com você. A questão não é sobre o âmbito da legitimidade do Estado para regular a vida da sociedade, e sim, lembrando acertadamente Jaeger que você citou, a pretensão pedagógica de formação do homem e sua consequente cristalização no âmbito da pólis.

Justamente por isso é que não se pode falar nem em liberalismo nem em intervencionismo no que se refere ao pensamento político grego. Agora, outra coisa é a interpretação que se fez de Platão (deslocada do contexto jaegeriano) que pode perfeitamente redundar na legitimação de muita coisa ruim.

Excelente post. E melhoras.

Eduardo Araújo said...

Elegantíssima!

Tanja, agradeço demais a gentileza de me indicar uma obra tratando da "commedia dell'arte". Já, já procurarei o livro do Carpeaux.

A pronúncia do nome DVORAK (na origem, o R possui um acento circunflexo e o A um agudo, embora não tenha tonicidade) é complicadíssima de se transliterar. Num fórum sobre música erudita, de que participei, um descendente de tcheco comentou a respeito (pena que o referido fórum - o Allegro - tenha sido desativado). Fora do âmbito eslavo costuma-se pronunciar "divórjak" (o 'k' bem seco e breve, igual ao 'CH' de Bach; e o 'r' bem salientado, como o falar do nosso caipira). Mas, de acordo com aquele colega do fórum, a pronúncia original comporta algumas sutilezas que tornam uma transliteração fonética no máximo aproximada.

Enfim ... Cuide-se bastante. Estarei(e, com certeza os demais frequentadores do seu blog) torcendo por uma rápida e total recuperação da gripe. Firme e forte, inclusive ante as coisas chatas.

Felipe S. said...

Lindo seu ultimo texto no "Conversas Bizantinas".

Beijos

César Miranda said...

Já tá boa da gripe?

Tanja said...

Oi, gente! Agora estou boa da gripe. Do resto, só o tempo.

Beijos a todos!