Friday, February 06, 2009

Revisionismo*

Começo com John Lukacs: "A disciplina histórica é revisionista por excelência". Chamar certos estudos sobre o nazismo de "revisionistas" é um equívoco. Esse termo não tem (ou não deveria ter) nada de maligno. Qualquer estudo que reavalie o atual estado de conhecimento de um determinado assunto é revisionista. Só é possível o trabalho científico a partir da confrontação de teses. Trabalho de análise crítica. Mas a história é ainda mais revisionista ainda. Ela é sempre uma confrontação de interpretações a partir de tal ou tal dado. Ela não é só uma confrontação de dados.

A história também é persuasão. Acho que foi o J. Lukacs que disse também que fazer história não é igual a ser advogado ou juiz. Ser advogado também tem a ver com persuasão. Acontece que não existe "veredicto da história". O juízo histórico é uma sentença que pode ser sempre recorrida. Ela é sempre provisória. É como a vida humana. Ela é provisória porque é um problema constante. "A vida não nos foi dada pronta"; "Não nos foi dado um roteiro a seguir na nossa vida" (by Ortega). Essa é a condição da vida humana. Como a história também parte da vida humana, ela não poderia ser diferente. O máximo que você pode fazer é ter uma espécie de arte para a vida e para a história.

O nosso conhecimento do passado é sempre problemático. O passado em si tem consistência de coisa (again, by Ortega). Ele é um simples dado. É por isso que ele é vital num sentido relativo. É vital enquanto parte constitutiva nossa. O problema é como lidar com ele. Como interpretá-lo. Isso não tem nada a ver com relativismos. Tem quem acha que a "verdade" não se aplica à história porque tudo é passível de interpretação. Neca. Acontece com história igualzinho o que o Aristóteles falou da metafísica. Uma das definições que ele deu da metafísica foi: "ciência que estamos sempre buscando". É assim com a história também! O que faz alguém historiador não é o domínio pleno do passado. Nem é o domínio "técnico" do passado. É quase a fé na busca pela compreensão mais correta do que aconteceu. Até porque nem seria possível subjugar o passado**. O nosso conhecimento histórico é sempre indireto e abstrativo.

A história trabalha com coisas. Mas trabalhar com coisas exige um impulso para movimentá-las. Esse impulso vem com a crítica (ou revisão). Fugir da crítica engessa o trabalho histórico. É o que existe de mais anti-vital em termos de pesquisa histórica. Mas o consenso histórico também pode adquirir aspecto de coisa. Ele mesmo pode ser tomado como dado histórico. Por isso o historiador precisa sempre revivificá-lo.

Um exemplo. O Henri Pirenne foi um dos responsáveis pela tese de que a Idade Média era um sistema auto-suficiente, sem circulação monetária e tal. Mais tarde o Marc Bloch chegou e disse: "Calma lá, amigo! Não foi bem assim!" Havia sim comércio, circulação monetária... O que houve foram flutuações de época em época. A tese do H. Pirenne ganhou notoriedade? Sim. Tanto é que até hoje em dia ela está na boca do povão. Mas o M. Bloch tem mais razão à luz dos dados. Como ele conseguiu isso? Crítica de fontes. Revisando. Ele acabou reorientando os estudos sobre Idade Média graças a isso (e outras coisas também).

Não interessa qual é a motivação do pesquisador. Descobrir as motivações ocultas é trabalho de psicólogo. O que importa é o resultado do trabalho. A obra é científica? Então deve ser criticada como obra científica. Não pode ser jogada no lixo porque "Nós o Consenso não concordamos" ou "ela mostra coisas que a gente acha feio". Agir assim é transformar a autoridade científica numa tirana.

*Citações de cabeça. Não estou com vontade de subir e descer milhares de livros da estante.

*Só para evitar outro equívoco. Entendo "subjugar o passado" no sentido de dominar por inteiro cada uma das partes dele (ou qualquer coisa parecida com uma "causa primeira histórica"). Seja qual for a abrangência do período estudado. Pode ser a Antigüidade inteira. Pode ser o período Clássico. Pode ser uma instituição democrática atenisense. Pode ser o processo material de escrita na Academia entre os anos 349-332. Pode ser o último dia de vida do Alexandre. Tanto faz. Digo isso porque o Ortega entende outra coisa por "subjugar o passado". Isso significa para ele "estar à altura dos tempos". "Se não dominarmos o passado, ele nos subjugará" (by Ortega). É mais ou menos aquilo que o Olavo fala sobre os patamares de conhecimento. A diferença é que o Ortega também enfatiza o aspecto vivencial (melhor, vital) de se "estar à altura dos tempos". O que a gente pode vir a ser é inesgotável. A única condição é que não podemos ser de novo o que já fomos. Sem contar que qualquer "retorno" (ou só um engessamento) seria uma catástrofe civilizacional.

4 comments:

lpereira said...

Você leva J. Lukács a sério? Sua reaça!!!

:)

Eu li uma entrevista muito bacana do Lukács há algum tempo, saiu na finada Primeira Leitura, em que o entrevistador pergunta pra ele algo do naipe de "você, um historiador conservador, bla bla bla", e ele responde, ofendido:

-- Conservador não, reacionário!

Do Lukács eu li a orelha de um livro dele, publicado pela Civilização Brasileira (ou outra editora lefty qualquer), em que eles fazem o leitor orelhudo crer porque crer que o livro é uma crítica ao Bush e sua política. Até é, mas é uma crítica "de direita" ao Bush, o que o orelhógrafo jamais suspeitaria!

Tanja Krämer said...

Vem cá, esse livro aí que você leu a orelha foi um traduzido pelo Emir Sader?

Já li todos os livros dele sobre II Guerra (tirando A última guerra européia). Mas isso de esquerdista entender errado ou o contrário do que nego diz parece normal. Teve uma entrevista do Jô Soares com o R. Azevedo em que o Jô diz a maior merda sobre um livro do Lukács. Ele não citou o autor, mas se referiu a O duelo. O Jô entendeu o oposto do juízo de valor que o J. Lukács dá ao Churchill. Não sei de onde ele tirou que o Lukács fez a caveira do Churchill. Foi o contrário! Molto bizarro!

Mário said...

Uma bizarrice desse tipo (na verdade foi má fé mesmo, mentira pura!) foi o infame artigo do Niemeyer na Folha de São Paulo a respeito do livro O Jovem Stalin, de Simon Sebag Montefiore. Niemeyer afirmou que o livro fazia "grande sucesso na Europa" e que era uma reabilitação da figura Stalin, “grande líder soviético, tão deturpada e injustamente combatida pelo mundo capitalista”. O velho mamute siberiano nem sequer sabia que o livro já fora publicado no Brasil pela Companhia das Letras. O pior é que passa longe de ser uma reabilitação, muito pelo contrário, mostra que Stalin sempre foi um criminoso frio, um gangster, um conspirador, um terrorista. O título do artigo é um verdadeiro monumento ao cinismo e à doença dessa gente: "Quando a verdade se impõe". Lastimável.

Eduardo Araújo said...

Há uma máxima italiana que reza "traduttore, tradittore".

Emir Sader é um perfeito exemplo que ilustra o aforismo, como bem o demonstrou ao verter Alain Besançon para o português. Um episódio que poderia se intitular A infelidade de "A Infelicidade do Século".