Sunday, February 22, 2009

Platão liberal

República, Livro IV, tradução do Leonel Vallandro:

- E assim educados - prossegui - tornarão a descobrir por si mesmos todas aquelas pequenas regras que seus predecessores deixaram perder-se totalmente.
- Que regras são essas?
- Refiro-me a coisas deste gênero: o silêncio que os jovens devem guardar diante de pessoas mais velhas; a obrigação de fazê-las sentar-se e ficar em pé na sua presença; o respeito aos pais; a maneira de vestir-se, de calçar-se, de aparar o cabelo, a postura do corpo - enfim, o comportamento em geral. Concordas comigo?
- Evidentemente!
- Mas seria tolice, creio eu, legislar sobre todas essas coisas. Isso não se faz em parte alguma e, supondo que se fizesse, duvido que fosse observado por muito tempo. [Sócrates tinha que conhecer um certo país, onde por lei as pessoas têm que ceder lugar a velhinhos.]
- Como seria possível?
- É provável, pois, ó Adimanto, que o caminho em que é orientado um homem pela sua educação determine toda a sua vida futura. Ou não é verdade que o semelhante atrai o semelhante?
- Como poderia ser de outra forma?
- Até que por fim, creio que não erraríamos em dizê-lo, resultará daí algo completo e vigoroso, que tanto pode ser bom como mau.
- Não se pode negá-lo.
- E por esse motivo - disse eu - não tentarei legislar sobre tais coisas.
- E com razão - volveu Adimanto.
- Mas que diremos, pelos deuses, dessas transações de mercado, dos convênios que uns cidadãos fazem com outros, ou, se quiseres, dos tratos com artesãos, das injúrias e atropelos, das citações em juízo e da escolha de magistrados, da necessidade de tais e tais exações e tributações em praças e portos - enfim, todos esses direitos comerciais, urbanos, marítimos e o mais que se segue? Achas que devemos dar-nos o trabalho de legislar sobre tais coisas?
- Não vale a pena dar tais ordenanças a cidadãos bem formados - respondeu Adimanto. - Eles próprios descobrirão facilmente o que convém regulamentar. [Só que todo mundo é trouxa no Brasil. Pelo menos é o que parece. Querem regulamentar tudinho.]
- Sim, meu amigo, se os deuses lhes permitirem conservar as leis que antes estabelecermos para eles.
- Sem a ajuda divina - disse - passarão a vida impondo e retificando normas, na esperança de alcançar a perfeição. [Hmmm. Os deuses não gostam da gente.]
- Queres dizer - tornei eu - que essa gente viverá como aqueles doentes que não sabem dominar-se e não querem renunciar aos seus hábitos de intemperança?
- Exatamente.
- E o certo é que têm um modo de viver engraçado. Estão constantemente a medicar-se, com o que não fazem mais que agravar e complicar os seus males, e sempre imaginam que vão curar-se com a última mezinha que lhes foi aconselhada.
- É, de fato, o que comumente acontece com tais doentes - disse ele.
- Sim - repliquei - e o mais encantador é que consideram como seus piores inimigos àqueles que lhes dizem a verdade, isto é: que se não deixam simplesmente suas bebedeiras, suas comezainas, suas libertinagens e sua ociosidade, não há droga, cautério, sangria, nem tampouco ensalmo, talismã ou qualquer remédio que lhes valha. [Mas o pessoal só quer saber de Carnaval, Sócrates!]
(...)
- Mas quanto aos que se prestam com tanto afã a curar essas cidades? Não admiras o seu valor e sua bondade?
- Admiro, sim - disse ele - com exceção, todavia, daqueles a quem o aplauso da multidão convence de que são verdadeiros estadistas. Esses não são dignos de admiração. [Tipo o nosso presidente atual.]
- Como assim? Não os perdoas? Quando um homem não sabe medir e muitos outros, que tampouco o sabem, lhe dizem que ele tem quatro côvados de estatura, poderá deixar de acreditá-los?
- De fato, não pode.
- Não te irrites com eles, portanto. A verdade é que são impagáveis; põem-se a legislar sobre todas as bagatelas que enumerávamos há pouco, fazendo constantemente retificações para as fraudes nos contratos e as outras patifarias de que falei, sem perceber que não fazem mais do que cortar as cabeças da Hidra. [Pois é. E você continua votando nessa gente?]
- E por certo - disse - não é outra a sua tarefa.
- Por isso - continuei - não creio que o verdadeiro legislador deva preocupar-se com esse gênero de leis e constituições, tanto na cidade bem regida como na que não o é; pois nesta não têm nenhuma eficácia e, naquela, não há a menor dificuldade em traçá-las, havendo, até, muitas que decorrem por si mesmas do sistema de vida reinante.


E ainda tem mongo que diz que o homem era totalitário... O negócio é Platão na cabeça!

4 comments:

R. B. Canônico said...

Esse post me faz lembrar do artigo do Marcelo Consentino na última Dicta, que eu gostei bastante. O assunto não é precisamente o mesmo, mas há uma ligação.

Quanto à primeira objeção, dos velhinos e lugares em ônibus, aí que mora, a meu ver, o verdadeiro drama da sociedade hoje. Quer dizer, os jovens não aprendem mais esses valores dos velhos nem de ninguém. Há uma crise na educação - em sentindo abrangente, indo desde a família, até escolas e universidade - que faz com que algo elementar, como deixar um velhinho sentar, não seja tão corriqueiro como deveria ser. Eu mesmo já presenciei cenas das mais lamentáveis. Isso, definitivamente, não justifica leis fúteis como essa, mas enfim.

Uma prova dessa futilidade é com relação a pessoas com alguma forma de limitação física, como doenças ou deficiência. Há leis que beneficiam tais pessoas, mas de que adianta? Ninguém as respeita porque os indíviduos não querem, não estão preparados a isso, não sabem lidar com diferença nenhuma. O Estado, por exemplo, fornece medicamentos caríssimos, de uso continuo, para pessoas com certas doenças poderem ter uma qualidade de vida e um mínimo de dignidade. Bom, até aí estamos no campo do bem comum. Na prática, vá pegar algum medicamento desses para vc ver... vc pode perder o DIA INTEIRO em filas, e burocraria, e milhares de relatorios, receitas... enfim... como um cara doente pode ficar horas e horas numa fila? A lei não resolve absolutamente nada, é uma 'solução' artificial. O problema que deve ser resolvido é esse de educação, no sentido mais abrangente que mencionei.

E aí volto ao artigo do Consentino, em que há um paralelo feito entre o indíviduo e as relações sociais, Estado e afins. Quando há uma crise nos indíviduos, haverá uma crise nas instituições. Isso é inevitável. E no caso brasileiro, as pessoas esperam uma solução do Estado - é a estatolatria do brasileiro, uma doença quase crônica que nossa história explica. Mas, caramba, como que o Estado vai resolver isso? Não dá; e aí vem isso que vc comenta: essa encheção de saco por parte do Estado e uma inevitável perda de liberdades por nossa parte. E isso sem resolver problema algum.

Que situação!

Tanja Krämer said...

O legal dessa lei do velhinho é que pressupõe três coisas. Primeiro, que o legislador é virtuoso. Segundo, que somos selvagens que precisam ser civilizados. Terceiro, que vale a pena usar a força do Estado em nome da virtude. Mas todo mundo não vive dizendo que é feio impor a religião? Por que impor a religião é feio, mas usar o Estado para impor boas maneiras é lindo? E olha que nem entrei no mérito de ser ou não uma coisa idiota de legislar. E é.

Pelo menos o Platão e o Aristóteles partiam do princípio de que uma cidade precisa de bons homens. Gente virtuosa. Uma pessoa é saudável quando o organismo não sofre nenhuma desarmonia. Uma cidade é boa quando também funciona em harmonia. Existe uma analogia mesmo entre a cidade e o homem. Você vê que o Aristóteles dizia que o núcleo da sociedade é a família, mas ele analisou também em que consiste um homem equilibrado na Ética. Uma cidade ordenada pressupõe uma família ordenada, que pressupõe uma pessoa equilibrada. Pensar que gente desequilibrada vai resolver os desarranjos sociais é uma idéia muito ruim. A emenda vai sempre sair pior que o soneto. E quando essa gente fala em educação, é sempre pressupondo algum tipo de "educação cidadã", pressupondo também uma ética mais ou menos esquerdizante. Pelo menos sobre "educação cidadã", essa galera precisa ler para ontem isso: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/cadernos/futuro/pedagogia%20e%20anacronismo.pdf

Nicolau said...

Oi Tanja, Platão liberal....hummm. Eu queria ver é você sendo criada numa família comunitária, e aí lá pela adolescência fazendo um teste para saber se seria uma trabalhadora, uma guardiã ou uma sábia. Tá bom, sábia. Um lance meio Bee Movie.

Falando sério. O corte que você faz em Platão está deslocado do sentido geral da política platônica. A crítica platônica à legislação abundante e desnecessária se dá no contexto de uma sociedade idealmente autoritária (a rigor: estratificada, segmentarizada, hierarquizada e comunitária). Justamente porque a sociedade e comandada por sábios, pelo filósofo-rei, tendo abaixo de si os guardiões e a ralé (todos, naturalmente, cidadãos bem formados) é que não faz sentido a proliferação de leis sobre aspectos morais. Já li gente que tenta amenizar o autoritarismo platônico, mas, sinceramente, não me convence.

Beijos

Rodrigo said...

POis é...o problema que um dos "mongos" que fala que Platão tem uma veia totalitária é liberal Karl Popper, com sua tese do A sociedade aberta e seus inimigos... Como podemos refutar a tese dele?!
Abraço!