Tuesday, February 17, 2009

Pasmaceiras de Guilherme Fiuza

Guilherme Fiuza resolveu dizer pasmaceiras sobre a Suíça. Só babaquice.

Antes, uma coisa. Brasileiro tem uma habilidade fora do comum de falar mal dos outros países. O pior é que muitas vezes fala enquanto aproveita das comodidades alheias. O que conheço de neguinho que malha o país que o recebeu é uma coisa de louco! (Isso quando não fala na cara do sujeito do outro país.) Só vi coisa parecida com palestinos nos EUA. Não é o caso (até onde sei) do G. Fiuza. Só que é ridículo demais dar uma de gostosão morando no muquifo em que mora.

Pergunta: esse cara não se enxerga? Não sabe onde vive? É melhor esclarecer. É quase proibido ter armas no Brasil. Você não pode sequer beber um pouco. Precisa de milhões de documentos. Tudo tem que ser carimbado, autenticado. Quase metade do suor do seu rosto é para sustentar burocratas. As pessoas aqui acham normal o Estado obrigar todo mundo a estudar, a votar... Acham até que o Estado deveria obrigar todo mundo a tomar vacina. Existe lei para você conferir a cozinha de restaurantes e lanchonetes. Existe lei para mulher entrar em determinado vagão. Tem lei que diz até que qualquer um pode entrar em qualquer elevador! Sem contar a história desse país. Por quantos anos houve ditaduras? E ditaduras fascistas? E quando ele reclama da corrupção suíça? Desculpe, mas puta que pariu. Como é que um brasileiro pode reclamar enfezadinho de corrupção? Ainda mais da Suíça!

Tudo isso já torna ridículo qualquer brasileiro que diz com nariz empinado: "Ai, credo, esse país tem ranço fascista!" Agora, tem que ter merda na cabeça, mas merda demais, para dizer que a Suíça é um país de "inclinações totalitárias". Será que esse cara já consultou ao menos uma enciclopédia no verbete "Suíça"? Cara, em que universo esse G. Fiuza mora? A Suíça não quis entrar na União Européia por temer restrições à liberdade. (Bom, isso se os socialistas de lá não levarem também o país para o buraco.) Lá é um país multicultural para valer, com três ou quatro línguas (diferente do "multiculturalismo" brasileiro, que na verdade é tudo, menos multicultural). Cada um dos cantões varia bastante. Isso por razões históricas. Ela está mais para uma confederação (se bem que isso é mais do ponto de vista histórico e cultural). Até o nome oficial deixa isso claro: Confoederatio Helvetica. Está bem longe de ser uma nação homogênea.

A Heritage Foundation diz que a Suíça é, do ponto de vista econômico, um dos países mais livres do mundo. É o 9º mais livre do mundo:
Switzerland's economic freedom score is 79.4, making its economy the 9th freest in the 2009 Index. Its score is basically unchanged from last year. Switzerland is ranked 3rd out of 43 countries in the Europe region, and its overall score is much higher than the world average.
Switzerland's openness to global commerce has allowed its small economy to be one the most competitive and flexible in the world. With an efficient business environment and well-maintained macroeconomic stability, Switzerland has long benefited from vibrant entrepreneurial activity.
The average tariff rate is low, and commercial operations are protected under the regulatory environment and aided by a flexible labor market. Inflation is extremely low. Foreign investment is welcome, and screening applies to only a few sectors. Both foreign and domestic investors have access to adequate sources of credit. The national financial sector leads the world and is both protective of privacy and open to foreign institutions. The judiciary, independent of politics, enforces contracts reliably. Corruption is virtually nonexistent.
Destaquei em negrito o que mais interessa: 1) é uma das economias mais livres do mundo; 2) está aberta a negócios estrangeiros e é segura; 3) judiciário independente da política; 4) corrupção quase zero. Como é que um país de "inclinações totalitárias" pode ser assim? Sò falta dizer que a Heritage Foundation defende países totalitários!

E o Brasil? Sabe qual a colocação nossa, segundo o mesmo ranking da Heritage Foundation? 105º numa lista de 179 países! Isso mesmo. Atrás de Botsuana (34º), Mongólia (69º), Guatemala (87º) e Butão (100º). Mas ok. Vencemos Mali (114º), Tajiquistão (122º), Timor Leste (149º), Chade (161º) e Venezuela (174º). Somos da turma dos "mostly unfree". Veja o que diz a Heritage Foundation sobre a nossa posição entre países da América Latina:


Brazil is ranked 21st out of 29 countries in the South and Central America/Caribbean region, and its overall score is well below the regional average.


Lindo. Também eles dizem: "Starting a business takes about four times the world average of 38 days, and obtaining a business license takes more than the global average of 225 days. Closing a business is difficult"

E nossa corrupção? Segundo o Corruption Perceptions Index: 80º (a lista tem 180 países). Estamos empatados com: Burkina Faso, Marrocos, Tailândia e Arábia Saudita. Na nossa frente: Suriname (72º), Cuba (65º), Butão (45º), Botsuana (36º). E a Suíça, aquele "paraíso mundial da corrupção" (by Fiuza)? Está entre os cinco países menos corruptos do mundo, empatada com a Finlândia. Bacana é a gente. 75 posições atrás.

E a acusação de xenofobia? Outro absurdo. Como é que um país multicultural pode ser ao mesmo tempo xenófobo, caraio? Mas o G. Fiuza não é o único, er, "jornalista" a dizer esse tipo de coisa. Vira e mexe aparece algum jornal bobo lá fora dizendo a mesma coisa. Na cabeça dessa gente, xenofobia é gostar do próprio país, ser cristão e não querer participar da União Européia. Se um dia você puser os pés na Suíça (ou conversar com algum suíço normal), vai ver que essa acusação de xenofobia é mentira. O máximo que você vai ver é orgulho patriótico (ainda mais em certos cantões históricos, tipo Uri). Mais uma coisa. Como é que um país xenófobo aceita zilhões de instituições internacionais no próprio território? Isso sem contar outra coisa. É que não lembro o número exato, mas quase 20% da população é de estrangeiros. Qual a proporção de estrangeiros aqui no Brasil mesmo? País tão hospitaleiro...

De onde o G. Fiuza tirou essas idéias bobocas? Sei que vieram da merda que ele tem na cabeça. Mas onde ele arrumou toda essa merda? Não dá para entender todo esse preconceito mané. E por que ele usou um caso policial ainda sob investigação para malhar a Suíça?

Esse cara já foi editor da sessão de política no O Globo. Parece até que comprou o cargo!

Coisas assim fazem o Olavo dizer que a única resposta possível nessas situações é mandar o cara para aquele lugar.

4 comments:

Marcelo De Polli said...

Na verdade, acho que existe algo a mais por trás das pasmaceiras do Fiuza. It goes deeper.

Muitos brasileiros têm o ímpeto de chamar de "xenofóbica" ou "preconceituosa" a reação de outros países a qualquer coisa relacionada ao Brasil, sim. Mas isso não é mais que incapacidade (ou falta de disposição) de encarar algo muito pior: a possibilidade de que o preconceito seja realmente justificado.

Todo mundo sabe como os brasileiros se comportam fora e dentro do Brasil. Quer dizer, todo mundo fora do Brasil, porque os brasileiros têm o hábito de serem cegos às próprias faltas. Pode-se lamentar que a reputação dos brasileiros seja tão ruim, mas é muito idiota lamentar que os brasileiros TENHAM uma reputação. Só que isso é exatamente o que o Fiuza está fazendo.

As coisas funcionam assim: se determinado país só consegue produzir gente que não obedece às leis, é pouco profissional e adora fazer coisas desagradáveis em público, vai chegar uma determinada hora em que os outros países vão começar a achar que essas pessoas são exatamente do jeito que são. E, para o Brasil, essa hora já chegou.

É óbvio que isso não diz nada sobe a Paula Oliveira. Ela pode perfeitamente não ter nenhum dos defeitos atribuídos ao país de onde ela veio. Mas a reputação do país a precede, e isso não é preconceito. É indução. Se A = X, B = X e C = X, qual o valor de D?

O mais engraçado é que nós demonstramos a nossa falha de caratér até mesmo nesse caso da Paula Oliveira. É só ver como nós atribuímos com a maior facilidade uma reputação às pessoas de outros países (não é apenas isso que o Fiuza está fazendo?), mas somos incapazes de admitir que nós mesmos tenhamos uma reputação. Pode haver demonstração mais clara da cegueira brasileira?

Quando você fede muito, todo mundo sente o cheiro ruim, menos você mesmo.

Sabino Verdureiro said...

Tanja,

Concordo que o Fiuza exagera. Ele "verborragiza" e joga para a platéia.

No entanto, acho que vc deixou passar alguns pontos importantes da crônica, entre eles, o eterno complexo de vira-latas do brasileiro.

O fato de que se possa ignorar a presunção de inocência por causa da fama de um povo não é só injusto, é ilegal.

Se as leis existem, devem ser para todos, independendo de povo, credo ou raça... Acho que esse é o ponto válido do Fiuza.

A Suíça faz um pré-julgamento a partir dos nossos "hábitos", e os brasileiros concordam passivamente. As duas atitudes são condenáveis...

O fato da Suíça ser mais desenvolvida que o Brasil, não a impede de cometer injustiças. Assim como o Brasil ser menos desenvolvido, não o obriga a cometer injustiças o tempo todo (apesar de não ser este o caso).

Abraços,
Sabino Verdureiro

Tanja Krämer said...

Sabino, vou citar o que o Marcelo disse:

O mais engraçado é que nós demonstramos a nossa falha de caráter até mesmo nesse caso da Paula Oliveira. É só ver como nós atribuímos com a maior facilidade uma reputação às pessoas de outros países (não é apenas isso que o Fiuza está fazendo?) mas somos incapazes de admitir que nós mesmos tenhamos uma reputação. Pode haver demonstração mais clara da cegueira brasileira?

O G. Fiuza reclama do "complexo de vira-lata" e de "preconceito". Ao mesmo tempo, ele diz que os suíços possuem "tendências totalitárias" e são o "paraíso mundial da corrupção". O caso está sob investigação ainda. Ninguém tem certeza do que aconteceu (nem a família). Mas o G. Fiuza tem certeza de que os suíços curtem um nazismo e são ultra corruptos. O macaco não olha o próprio rabo! Isso não é verborragia. É demonstração de pura falta de caráter. A questão é que no Brasil o acanalhamento está se tornando comum. Ler esse tipo de coisa não está mais chocando. A gente pensa: "Nossa, que cara consciente! Exagerado, mas consciente." Reclamar de preconceito sendo ULTRA preconceituoso é o Oscar da canalhice! "Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz" ( by Lênin). Isso é coisa de gente ressentida. Está virando coisa típica do brasileiro médio. Medíocre.

Você vê que não comentei o caso em si. Está sendo investigado, não é? O ponto é o que disse o Marcelo:

Pode-se lamentar que a reputação dos brasileiros seja tão ruim, mas é muito idiota lamentar que os brasileiros TENHAM uma reputação. Só que isso é exatamente o que o Fiuza está fazendo.

Reclamar dos suíços nesse aspecto não faz o menor sentido.

Sabino Verdureiro said...

Continuo achando que a crônica é bem mais interessante de ser discutida por outros aspectos. Mas concordo com vários pontos que vc lentantou.

Um deles, é o fato do próprio Fiuza se encaixar na crítica levantada por sua própria crônica.

Note também que eu não quis em momento algum, lhe passar a impressão de que acho o Fiuza um "cara consciente" ou "pra frentex"... Concordo plenamente que ele trata o assunto de forma leviana.

Mas, mesmo que ele não seja imparcial, e a maior parte dos argumentos usados sejam toscos, existem outros argumentos (como por exemplo, os que comentei anteriormente), por isso acredito que a crítica (e não o crítico) é válida.

Abraços,
Sabino Verdureiro