Thursday, January 22, 2009

Carteira de identidade

Um tempinho atrás vi um filme chamado Gandhi. Uma parte me chamou a atenção. Os indianos estavam emputecidos com o tratamento sofrido na África do Sul. Até aí normal. Não deve ser nada gostosinho ser tratado feito jumento (ou pior). Agora, uma das coisas mais divertidas foi ver os indianos reclamando da exigência de cadastramento (com impressão digital e tudo).

Você entendeu? Não? Explico. É que eles acharam esse negócio de identidade coisa para bandido. Um cidadão livre não precisaria disso.

Não sei se foi o Félix Pacheco que teve a idéia de fazer a carteira de identidade. Mas que deve ter sido obra de alguém com cara de cu como a dele, não tenho dúvida:

Félix "Ass Face" Pacheco

A carteira de identidade é mais uma forma de controle policial. Por que você acha que ela é expedida mediante secretarias de segurança pública?

Me diz uma coisa. Um cidadão livre mesmo tem que ser fichado? Por que você é obrigado a andar com um papelzinho com sua impressão digital? Qual a necessidade desse papel? Qual a necessidade da impressão?

Veja só uma coisa. Você já freqüentou alguma biblioteca universitária federal? As da UFRJ (pelo menos as de humanas) sempre são mais ou menos zoneadas. Você encontra com freqüência um livro todo carcomido (detesto livros carcomidos). Agora imagina como devem ser esses arquivões públicos, cheios de cópias das impressões digitais de zilhões de pessoas!

Você não é escravo para ter esse tipo de registro!

Entendo que seja necessário algum tipo de controle numa biblioteca. Pode ser necessário também em algum outro caso (e olhe lá). Agora, por que o governo da república federativa do Brasil, mediante os governos estaduais, exige uma identificação também? Ele já não exige 30 mil outras identificações? Mesmo que unificassem todas, o princípio continuaria babaca. Não somos gado nem criminosos. É palhaçada cadastrar pessoas livres.

Mas só estou reclamando. Tudo isso equivale a um "ai" (para não escrever mais palavrões). Quem se sente incomodado mesmo com isso? Um ou outro. Se o governo federal achar bom abaixar as calças de todo mundo para dar uma agulhada, todo mundo deixará sorrindo. Não é sempre assim nas campanhas de vacinação? E ainda por cima nego abaixa as calças se sentindo muito cidadão (que hoje significa sou-uma-pessoa-maravilhosa, mas na verdade é sou-um-trouxa-que-trabalha-quatro-meses-só-para-sustentar-burocrata). Parece que ninguém liga se tiver sempre o governo nas costas.

Fecho com o Ortega, A rebelião das massas:

Convém que aproveitemos o ensejo desta matéria para fazer notar a diferente reação que ante uma necessidade pública pode sentir uma ou outra sociedade. Quando, em 1800, a nova indústria começa a criar um tipo de homem - o obreiro industrial - mais criminoso que os tradicionais, a França apressa-se a criar uma numerosa Polícia. Em 1810 surge na Inglaterra, pelas mesmas causas, um aumento da criminalidade, e então os ingleses percebem de que não têm Polícia. Governam os conservadores. Que farão? Criarão uma Polícia? Nada disso. Preferem agüentar, até onde possa, o crime. "As pessoas conformam-se em se adapatar à desordem, considerando-a como resgate da liberdade". "Em Paris - escreve John William Ward - têm uma Polícia admirável, mas pagam caro suas vantagens. Prefiro ver que cada três ou quatro anos se degola meia dúzia de homens em Ratclife Road a estar submetido a visitas domiciliárias, à espionagem e a toda as maquinações de Fouché". São duas idéias diferentes do Estado. O inglês quer que o Estado tenha limites.

9 comments:

Mário said...

Já ouvi falar que até hoje os ingleses não admitem ter documento similar à carteira de identidade, sendo a de motorista o único documento que levam na carteira. Gostei do blog!

Vinícius de Oliveira said...

Pobresinho do Seu Félix. Ele podia ser seu bisavô! O fato é que o Brasil se esmera na burocracia como nenhum lugar do mundo, e é em parte por isto que não vai para frente. Já leu o livro "A Sociedade de Confiança" (Alain Peyrefitte)? O Brasil é o contrário, é uma sociedade de desconfiança. Por isto o Estado se enche de precauções as mais estapafúrdias. Em vez de confiar nos cidadãos, desconfia-se dos mesmos, e cabe a prova de que são honestos.

Caí neste blog por acaso. E gostei bastante.

Tanja Krämer said...

Vindo da Inglaterra é bem possível que seja verdade, Mário. Ei, Vinícius, só conheço esse livro de "ouvir falar". Você tem toda a razão. O que nos torna brasileiros é sermos considerados por lei trombadinhas em potencial. Aí depois nego ferra com a educação, o pessoal fica mais bárbaro e isso serve de argumento retroativo para mais leis bizarras. Tem até decreto para examinarmos cozinhas de restaurantes aqui no Rio. Cidadão, já exerceu esse direito? :-)

Gente, obrigada pelos elogios. Voltem sempre, por favor!

Anonymous said...

Certamente que volto, Tanja, e adorei que ver de novo seus escritos!
Carla

Igor T. said...

linque bem oportuno:
http://www.no2id.net

Campanha inglesa.

André Aires said...

Gostei deste Blog. E mais ainda do outro que você tem.

Bom, sobre a polêmica da identidade. Posso acrescentar que estive na Inglaterra e assim que pus os pés por lá, tive que me apresentar na delegacia para fazer meu registro. Até aí tudo bem, afinal sou estrangeiro, para não dizer Brazuca.

Só que em verdade todos lá também são prisioneiros. Porque todo o cidadão britânico precisa apresentar um documento chamado: National Insurance Card, que nada mais é do que umá espécie de CPF em que, através dele, é possível pesquisar você.

Não. Não acredito que um mero documento seja uma "prisão". Prefico encarar como um controle social. E toda sociedade urbana precisa de um pouquinho de segurança sem que se peque no excesso de vigilância. embora, por outro lado, não consido deixar de me sentir um prisioneiro dentro do Rio de Janeiro, especialmente. he,he...

Mudando o assunto... recebi um comentário de uma pessoa que se apresentou como a espectadora. Ela entrou no meu Blog e disse que uma pessoa estava plagiando meus textos. E de fato estava. Portanto... se você for a espectadora, deixo aqui meu sincero agradecimento. MAs se não for... gostei de visitá-la sem ser convidado. Espero não ter invadido a sua... "liberdade".

rs...
Bjs.

Tanja Krämer said...

Igor, adorei esse link. Põe oportuno nisso.

André, muito obrigada! Agora, sobre controle social, penso igualzinho àquele trecho do Ortega. O bizarro é comparar com o Brasil. A gente tem uma polícia ruim e paga caro pelas desvantagens. :-) (O Rio de Janeiro se tornou um Bangu II ampliado.) Olha, deve ter sido alguma irmã gêmea minha que te avisou do plágio. :-) E aqui tem essa de invadir minha liberdade não. Esteja à vontade!

Anonymous said...

Quem tem que ter carteira de identidade é bandido e não pessoas comuns.Espero que um dia as pessoas se revoltem contra isso. Os tiranos que criam carteira de identidade devem conhecer um ditado que diz:"A água sustenta o navio, mas também pode afundá-lo." Aqui no Brasil tem carteira de identidade e é um país cheio de assassinos,ladrões e bandidos de colarinho branco,e a carteira de identidade serve para ajudá-los. Que os tiranos não se esquecem também da Queda da Bastilha pode acontecder de novo.
Meu nome é Claudinei Amaral dos Santos e se alguém quiser trocar idéias comigo meu e-mail é: camaralsantos@bol.com.br

Saturnino Estrada said...

Realmente é de se indignar. Pelos motivos expostos nesta postagem e pelo medo que grassa na rua.
Certa feita, pelas 19:00 horas saí ingenuamente pela minha cidade ( 300.000 hab.) com uma câmera fotográfica para fazer alguns clics. Escolhi um prédio cheio de neons azuis que dão um efeito interessante. Quando me aproximei havia dois homens tomando cerveja meio escondidos atrás dos carros do estacionamento. Era sexta feira.
Pedi permissão e posicionei meu tripé. Reparei que havia uma esfera fumê daquelas que ocultam cãmeras de vigilãncia bem na frente do lugar que havia escolhido para "sacar" minha foto.
Segundos depois,um dos homens se aproximou e pergunou se eu tinha algum documento, dizendo que a segurança o havia instruído para isto. Poderia ser R.G. ou C.P.F.
Como estava sem lenço e sem documento tive que ouvir do cara:
"E como é que você anda sem documentos por aí?"
Pronto. Recolhi meu tripé e saí calmamente do local.
Confesso que fiquei indignado com o pedido pois me senti invadido em minha privacidade. Com que autoridade aquele cara me pedia documentos?
Mesmo se estivesse carregando não teria fornecido a ele.