Wednesday, December 30, 2009

Mongolian show

Deus, como gosto da Internet. Como o Youtube é legal. Teria outro jeito de ouvir um show de músicos mongóis?



Legal. E não estou zoando. Há dois anos, vira e mexe volto a procurar esse tipo de coisa no Youtube. Não costumam renovar os vídeos. Uma pena.

Disparado, o mais interessante é a estranha técnica vocal. Não sei se existe um termo equivalente em português para throat singing. O que sei é que existem vários estilos. O do vídeo a seguir é o khoomei.



(Parece que o tema das músicas é a natureza. O próprio som tenta imitar a natureza, bem estilizada.)

O legal de ver é que só assim dá para acreditar são os caras mesmo que fazem esses sons, com o instrumento só servindo de suporte!

Monday, December 28, 2009

Presente de Natal

Sempre ganho coisas legais de Natal. Mas sempre falta uma coisa. Uma só coisa.




Sempre falta o Chabal. Os anos se passam, e nada! Mas tudo bem. Como Penélope, continuarei esperando.




Se alguém souber o e-mail dele, favor avisar.

Agora, um vídeo do meu querido Chabal em ação.

Thursday, December 24, 2009

Feliz Natal

Vamos deixar (ao menos por enquanto) as bobagens de lado. Há coisas mais importantes.

Acho que eu nunca publiquei nada sobre o Natal. Não que o mundo tenha piorado por isso. Vou então ensaiar uma coisinha. Me perdoe a falta de jeito.

Quando comemoramos o Natal, às vezes nos esquecemos de uma coisinha. É uma festa religiosa! Não é encher a pança (e depois se lamentar pela gordura adquirida). Não é ficar feliz ao ganhar um presente legal. Nem se aborrecer na fila da loja, para comprar uma lembrancinha (de quê? de quê?). Não é se divertir com parentes (ou aturá-los). Muito menos dançar com o namorado! Como é o Natal? É uma festa religiosa no sentido de ser uma conversa com Deus. Conversa que se desdobra em conversão. É a hora de o coração duro ceder ao amor. É difícil abandonar os problemas, as dores de cabeça? É, pode ser. Agora, não podemos esquecer quem está conosco. Deus ordena, Jesus age, o Espírito conduz. Se os termos que usei foram felizes, não sei. O que importa é que a conversa com Deus é caminho para o convívio íntimo com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse amor íntimo é um alento. O alimento que nos salva.

O Natal é conversão, é mudança. É também memorial. Mas é também ação real de Cristo, o pão da vida. Pela mais pura graça, ele se entrega a nós.

O Natal é momento de alegria. É alegria por sermos convidados ao banquete do Senhor, mesmo não merecendo. "Felizes os convidados para a ceia do Senhor."

O Natal é comunhão com Deus. A Criancinha-Deus é o pão do céu.

O Natal é a nossa salvação, quando as trevas se dobraram ao Menino-Deus (nosso pão do céu).



Poulenc: Christus natus est.

O Natal só faz sentido se estivermos em comunhão com Deus. Ok, não somos santinhos. Sou a primeira a dizer isso! Mas... O Menino Jesus vai nascer, ora! Então nossas reclamações são mais coisa de gente velha, enjoadinha. Vamos nos dirigir alegres à missa, para ter conosco Jesus Cristo. Em meio à noite, cantemos Christus regnat, Christus vincit, Christus imperat. As trevas se dobrarão, e o Reino de Deus estará no meio de nós.

Somos uns privilegiados, enquanto membros da Igreja. Nossa procissão neste mundo sempre será triunfal.





Graças ao Nosso Senhor Jesus Cristo, podemos hoje receber um tão sublime sacramento. Hoje e sempre, e em todo lugar. Nós pecadores somos privilegiados com tão magno mistério.



Tantum ergo Sacramentum.

Eu gostaria de escrever mais, e bonito. Não tenho tempo, nem lá muita capacidade! Mas fica aí meu textinho de Natal. Não olheis para a minha tosquice, mas para minha boa vontade.

Feliz Natal a todos!

Wednesday, December 23, 2009

Sergio de Biasi e o piriri afetivo

Outro dia, escrevi um post sobre um texto do Sergio de Biasi (do Indivíduo do B). O título do meu post: De Biasi - Conselheiro amoroso. O que eu não tinha como imaginar é que ele levaria a sério a profissão! Embora autoexpressivo (ainda que o Sergio use o termo "homem médio" para se disfarçar), o texto Homens e mulheres não deixa de ter lá seus conselhos amorosos. Na verdade, ele é um produto para homens ressentidos que não conseguem namorar quem eles querem. Claro, a culpa nunca é deles. No caso, é do sistema malvadinho.

Você se lembra daquele post do S. de Biasi? A seguinte citação esclarecerá o espírito eu-me-amo do texto:

Querer ser o outro, por outro lado, nos distancia de nossas reais potencialidades e nos coloca perseguindo fantasmas, e buscando frustradamente, esquizofrenicmante (sic), mesquinhamente, futilmente, algo que só só o outro pode ser. Muito melhor é fazer as pazes com quem você é e tentar exercer essa inalienável função da melhor e mais plena forma que você conseguir.


O mesmo cara autocentrado escreveu o seguinte, em Homens e mulheres:

Então embora ambos os gêneros tendam a ter em suas mãos as ferramentas para atender às necessidades biológicas, psicológicas, emocionais e afetivas um do outro, esse enorme potencial de satisfação mútua permanece em grande parte inexplorado, fechado a cadeado por uma atitude egoísta, perdedora e miópica de “apenas as minhas necessidade importam”.


Você percebeu o problema? Ele começou com o papo do bom egoísta (como se dissesse: "Eu me basto", ou: "Eu me amo" (que nem na música do Ultraje a Rigor)). Todo pimpão. Aí depois ele me vem todo preocupado com a "atitude egoísta, perdedora e miópica de 'apenas as minhas necessidade importam'"! Como explicar essa porralouquice?

O post do S. de Biase só se torna inteligível se você se esforçar para entender a perspectiva do famoso PN (pega-ninguém). Não um PN simples, bruto, translúcido. Ele até pega alguém, mas nunca quem ele queria. Nunca como ele queria. Ele é como o Ranger verde, que só chama Dragonzord. Aí depois acaba se remoendo com o verso do A. dos Anjos: "Um urubu pousou na minha sorte!". Como não é racional reclamar da sorte, a culpa é da sociedade, das mulheres mé(r)dias...


Sergio de Biasi paquerando uma sortuda qualquer.

O texto só adquire sentido se você interpretá-lo à luz do Ranger verde. Não faltam Tommies por aí. O resto, mil palavras de racionalizações. Pretextos malucos para explicar um, digamos, desarranjo social. Uma espécie de piriri afetivo.

Então você vê que tudo não passa de um monte de blábláblá, que pode ser resumido assim: "Sou super sublime e tal. O negócio é que só pousa urubu na minha sorte! Quem eu quero, só fica com quem é mais tosco que eu. Que horrendo! Que desgosto!" É o que ele diz nessa passagem:

E se isso é extremamente frustrante para o homem médio – ter que assistir a mulheres ficando atraídas por perdedores totais que conseguem ser populares batendo no peito e dizendo uga-buga, e que claramente, obviamente vão tratá-las como lixo.


Como diria o Hölderlin, "Só agrada à turba o tumulto das feiras." O negócio é ficar com o campeão frustrado...

Agora, eis o prêmio Trecho mais embaraçoso de blog em 2010 (ou: Os sofrimentos de um jovem ressentido):

O homem médio, confuso e frustrado por um sistema que não entende e que na prática lhe nega acesso ao sexo, e que ainda por cima o trata de forma hostil quando tenta obtê-lo, acaba não raro desenvolvendo um certo nível de ressentimento com a mulher média, entre outros motivos por despejar em cima dele toda a responsabilidade de tomar qualquer iniciativa e então tratá-lo como um pervertido ou inconveniente quando tenta fazê-lo.


Barbaridade! O cara confessa que está doido para transar mas não consegue! Mas ele diz que o perdedor são os outros... Vai ver, quem sai perdendo somos nós mulheres, que preferimos "perdedores totais que conseguem ser populares batendo no peito e dizendo uga-buga". Ignoramos o sofisticado do Sergio, para namorar um jiujitero toscão. Nós, que podemos arrumar qualquer homem estalando os dedos (basta "mostrar-se minimamente receptiva a ser aproximada [que expressão esquisita!] e então dizer 'sim'” [como se as coisas fossem assim]), negamos (eu, você e o mundo/sistema) ao pobre do Sergio um fácil "acesso ao sexo". Quando ele tenta obter "acesso ao sexo", nós o tratamos de forma hostil. (Nem quero saber que tipo de coisa ele faz para ser tratado de forma hostil.) Amiga, então o negócio é o seguinte. Vamos largar os nossos homens toscos. Com tanto Ranger verde sublime e disponível, é sacanagem dificultar o "acesso ao sexo"! Seja nobre e caridosa a mulher. Facilite a vida do Sergio sublime. É a única coisa que a distinguirá das mulheres mérdias. (Faço questão aquela expressão entre aspas. Não é só porque é da lavra do Indivíduo do B. É que ela faz referência a uma coisa que o Sergio havia escrito há alguns anos. Daqui a pouco vou mostrar para você.)

Nem adianta ele afetar pose de quem só analisa o "problema" por curiosidade. Está na cara que isso é algo que ele pensa bastante. Há tempos. Mais adiante, vou dar uma indicação a respeito.

E aquela parte sobre a produção feminina? (Para quem não vive neste mundo, produção é se arrumar.) A questão-mor de quem sofre de piriri afetivo é: "Como é possível uma mulher se produzir toda e não querer dar para mim?" Pentear o cabelo? Depilação? Maquiagem? Roupa bonita? Sapatos? A menos que a gente queira pular no colo do primeiro que aparecer (ou no colo de quem estiver com piriri afetivo), qual a explicação para isso? Como os fatos femininos são esquisitos demais aos desajustados, a única racionalização que eles concebem para as derrotas seguidas que eles engolem é: "Elas só querem aparecer! Pior, para as outras! Que absurdo!" O desarranjado acaba se vendo como super-homem afetivo (ou super-homem-médio). O problema não é ele, que tem um caminhão de carinho para oferecer. O problema são as mulheres mé(r)dias. Se na realidade ele perde, dentro da cabeça dele há vitórias e mais vitórias. É a ilimitada liberdade interior do PN sublime.

(Entre os argumentos do Rousseau para a defesa da masturbação, estava o exercício da imaginação e do domínio: “esse vício, que os envergonhados e os tímidos acham tão cômodo, tem mais de um atrativo para aqueles que têm imaginação: ele os torna capazes de sujeitar todas as mulheres aos seus caprichos e faz com que a mulher bonita satisfaça o seu desejo sem o consentimento dela." Todo perdedor tem algum motivo histriônico para se gabar. Nem que seja triunfar no onanismo.)

Toda a conversa do Sergio sobre bons tratos ou "sensibilidade psicológica" é o maior papo-furado. É a superestrutura ideológica da afetividade do pega-ninguém. Como mulher, digo que já estou muito bem vacinada contra essas coisas. Não tem nada mais velho do que o golpe do homem atencioso. A estrutura real é bem outra. É a "ação direta" a serviço do sexo. Mas como ele não consegue nem isso, o triunfo se dá pela reflexão. Só faltava ele dizer: "Meu Reino não é desse mundo"!

No fundo, o pessoal da cantada do "já é" é a realização dos sonhos dos acometidos por piriri afetivo. Estes têm que aprender muito com aqueles...

Vamos voltar à história do "acesso ao sexo". Não custa lembrar que em 2007 o Sergio se deu ao trabalho de defender a prostituição. Depois de dizer que um dos efeitos da poligamia nas sociedades islâmicas é haver "homens que nunca terão esposas", ele disse o seguinte:

Aí eu pensei que uma forma de compensar (parcialmente) isso seria haver umas poucas mulheres que prestassem à sociedade o serviço público de transarem com os homens que ficassem sem esposas/parceiras. Só que tais mulheres já existem em todas as sociedades – são as prostitutas. Então em comecei a pensar sobre o papel que elas têm nas sociedades cristãs, e acabei por concluir que elas prestam um excelente e muito saudável serviço à comunidade.


Ele também disse: "Uma prostituta faz mal a alguém? Não, ela presta um serviço ardentemente desejado por seus clientes."

Como não concluir que o Sergio está advogando em causa própria? Quem deseja "ardentemente" uma puta? Aquele que fica "cavando – muitas vezes desesperadamente – uma parceira sexual"; que pensa que dar em cima de uma mulher é "extremamente estressante"; que acha "extremamente confuso e frustrante" a atitude da mulher mé(r)dia de não pular no colo dele; que se sente "extremamente injustiçado" por ser gentil e mesmo assim não pegar ninguém; quem, senão o próprio S. de Biasi, peso médio-sublime? A babaquice é tanta que ele chega a argumentar que os homens que saem com putas serão "mais sinceros e afetivos"! Você está vendo que a desculpa é sempre a mesma? Se deixassem o cara comer quem ele quisesse, ele seria feliz, maravilhoso, legal, sincero, afetuoso. Como não deixam, aí ele fica todo desesperado, maluco, aflito.

Eu já disse, mas repito. Gente boazinha é sempre uma porcaria.

O mais engraçado é que a enorme angústia do Sergio "Tommy" de Biasi é a mesma do... Sidney Silveira, do Contra Impugnantes! O Sidney não manifestou em público o nível de desespero do Sergio. Mas se confessou também um atormentado por nós mulheres. Pelo menos é o que deduzo a partir disso: "a grande apetecibilidade da beleza feminina, aos olhos do homem cristão em permanente e titânica luta contra o pecado, é que traz, para a sã doutrina, um grande risco de queda." Veja bem os termos que ele usou: "grande apetecibildiade da beleza feminina"; "permanente e titânica luta contra o pecado". O estilo rocambolesco é para tornar majestosa uma coisa bem simples. O cara (Sidney?) não pode ver um rabo de saia. Senão, endoidece mesmo. É uma confissão espantosa. A julgar pelos termos usados, a luta do Sidney para não ver foto de mulher de biquíni é tão (ou mais) brutal que a dos cruzados para defender Jerusalém. O Sergio dá um passo além. Ele não fica só doido, angustiado. Ele acha que existe uma perfídia social que lhe impede de pegar mulher bonita. Mas o ponto de partida é o mesmo do Sidney. Bem que dizem que na hora do desespero, ateu é igualzinho ao católico mais fiel.

A julgar as opiniões desses dois, vou é me vestir feito uma muçulmana a partir de hoje. Para o meu próprio bem. Se você estiver com pena deles, azar. Leva os dois para casa. Só não reclama depois.

Mulheres se preparando para lidar com homens bonzinhos.

Sunday, December 20, 2009

Razões da evasão escolar

Aprender o ciclo reprodutivo das pteridófitas ou os ciclos haplobionte, diplobionte e haplodiplobionte, cálculo de prismas, Absolutismo...

Esses assuntos fazem menos sentido que o fatality do beijo da Kitana. Por sinal, como era kitsch Mortal Kombat.

Sunday, December 13, 2009

Tuesday, December 01, 2009

CAPÍTULO XII DA MORTE QUE DÃO AOS CATIVOS E CRUELDADE QUE USAM COM ELLES

(Direto da História da província de Santa Cruz, do Gândavo. A citação é grandinha. Mas você é uma pessoa letrada.)

CAPÍTULO XII

DA MORTE QUE DÃO AOS CATIVOS E CRUELDADE QUE USAM COM ELLES

Huma das cousas em que estes Indios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens, he nas grandes e excessivas crueldades que executam em qualquer pessôa que podem haver ás mãos, como nam seja de seu rebanho. Porque nam tam somente lhe dam cruel morte em tempo que mais livres e desempedidos estam de toda a paixão; mas ainda depois disso, por se acabarem de satisfazer lhe comem todos a carne usando nesta parte de cruezas tam diabolicas, que ainda nellas excedem aos brutos animaes que nam tem uso de razam nem foram nascidos pera obrar clemencia.

Primeiramente quando tomam algum contrario se logo naquelle fragante o nam matam levam-no a suas terras pera que mais a seu sabor se possam todos vingar delle. E tanto que a gente da aldêa tem noticia que elles trazem o tal cativo, dahi lhe vam fazendo hum caminho até obra de meia legoa pouco mais ou menos onde o esperam. Ao qual em chegando recebem todos com grandes afrontas e vituperios tangendo-lhe humas frautas que costumam fazer das canas das pernas doutros contrarios semelhantes que matam da mesma maneira E como entram na aldêa depois de assi andarem com elle triumfando de uma parte pera outra lançam-lhe ao pescoço huma corda de algodão, que pera isso tem feita, a qual he mui grossa, quanto naquella parte que o abrange, e tecida ou enlaçada de maneira que ninguem a pode abrir nem cerrar senam he o mesmo official que a faz. Esta corda tem duas pontas compridas per onde o atam de noite pera nam fugir. Dali o metem numa casa, e junto da estancia daquelle que o cativou lhe armam huma rede, e tanto que nella se lança cessam todos os agravos sem haver mais pessoa que lhe faça nenhuma offensa. E a primeira cousa que logo lhe apresentam he uma moça, a mais fermosa e honrada que ha na aldêa, a qual lhe dam por mulher: e dahi por diante ella tem cargo de lhe dar de comer e de o guardar, e assi nam vai nunca pera parte que o nam acompanhe.

E depois de o terem desta maneira mui regalado hum anno, ou o tempo que querem, determinam de o matar, e aquelles ultimos dias antes de sua morte, per festejarem a execuçam desta vingança, aparelham muita louça nova, e fazem muitos vinhos do sumo de huma planta que se chama aipim de que atraz fiz mençam. Neste mesmo tempo lhe ordenam huma casa nova onde o metem. E o dia que ha de padecer pela manhã muito cedo antes que o sol saia, o tiram della, e com grandes cantares e folias o levam a banhar a uma ribeira. E tanto que o tornam a trazer, vam-se com elle a hum terreiro que está no meio da aldêa e ali lhe mudam aquella corda do pescoço á cinta passando-lhe huma ponta pera traz outra pera diante; e em cada huma dellas pegadas dous, tres Indios. As mãos lhe deixam soltas porque folgam de o ver defender com ellas e ali lhe chegam huns pomos duros que tem entre si á maneira de laranjas com que possa tirar e offender a quem quizer. E aquelle que está deputado pera o matar he hum dos mais valentes e honrados da terra, a quem por favor e preminencia de honra concedem este officio. O qual se empenna primeiro per todo o corpo com penna de papagaios e de outras aves de varias côres. E assi sae desta maneira com hum Indio que lhe traz a espada sobre um alguidar, a qual he de hum páo mui duro e pesado feito á maneira de uma maça, ainda que na ponta tem alguma de pá; e chegando ao padecente a toma nas mãos e lhe passa por baixo das pernas e dos braços meneando-a de huma parte pera outra.

Feitas estas cerimonias afasta-se algum tanto delle e começa a lhe fazer huma falla a modo de pregaçam, dizendo-lhe que se mostre mui esforçado em defender sua pessoa, pera que o nam deshonre, nem digam que matou hum homem fraco, afeminado, e de pouco animo, e que se lembre que dos valentes he morrerem daquella maneira, em mãos de seus immigos, e nam em suas redes como mulheres fracas, que nam foram nascidas pera com suas mortes ganharem semelhantes honras. E se o padecente he homem animoso, e nam está desmaiado naquelle passo, como acontece a alguns, responde-lhe com muita soberba e ousadia que o mate muito embora, porque o mesmo tem elle feito a muitos seus parentes e amigos, porem que lhe lembre que assi como tomam de suas mortes vingança nelle, que assi tambem os seus o hão de vingar como valentes homens e haverem-se ainda com elle e com todo a sua geraçam daquella mesma maneira.

Ditas estas e outras palavras semelhantes que elles costumam arezoar nos taes tempos, remete o matador a elle com espada levantada nas mãos, em postura de o matar, e com ella o ameaça muitas vezes fingindo que lhe quer dar. O miseravel padecente que sobre si vê a cruel espada entregue naquellas violentas e rigorosas mãos do capital immigo com os olhos e sentidos promptos nella, em vão se defende quanto pode. E andando assi nestes cometimentos acontece algumas vezes virem a braços, e o padecente tratar mal ao matador com a mesma espada. Mas isto raramente, porque correm logo com muita presteza os circumstantes a livra-lo de suas mãos. E tanto que o matador vê tempo oportuno, tal pancada lhe dá na cabeça, que logo lha faz em pedaços. Está huma India velha preste com hum cabaço grande na mão, e como elle cae acode muito depressa e mete-lho na cabeça pera tomar nelle os miolos e o sangue. E como desta maneira o acabam de matar fazem-no em pedaços e cada principal que ahi se acha leva seu quinhão para convidar a gente de sua aldêa. Tudo emfim assam e cozem, e nam fica delle cousa que nam comam todos quantos ha na terra, salvo aquelle que o matou nam come delle nada, e alem disso manda-se sarjar por todo o corpo, porque tem por certo que logo morrerá se nam derramar de si aquelle sangue tanto que acaba de fazer seu officio.

Algum braço, ou perna, ou outro qualquer pedaço de carne costumam assar no fumo, e te-lo guardado alguns mezes, pera depois quando o quizerem comer, fazerem novas festas, e com as mesmas cerimonias tornarem a renovar outra vez o gosto desta vingança, como no dia em que o mataram, e depois que assi chegam a comer a carne de seus contrarios, ficam os odios confirmados perpetuamente, porque sentem muito esta injuria, e por isso andam sempre a vingar-se huns dos outros, como já tenho dito. E se a mulher que foi do cativo acerta de ficar prenhe, aquella criança que pare, depois de creada matam-na, e comem-na sem haver entre elles pessoa alguma que se compadeça de tam injusta morte. Antes seus proprios avós, a quem mais devia chegar esta magoa, sam aquelles que com maior gosto o ajudam a comer, e dizem que como filho de seu pai se vingam delle, tendo pera si que em tal caso nam toma esta creatura nada da mãi, nem crêm que aquella immiga semente pode ter mistura com seu sangue. E por este respeito, somente lhe dão esta mulher com que converse: porque na verdade sam elles taes, que nam se haveriam de todo ainda por vingados do pai se no inocente filho nam executassem esta crueldade. Mas porque a mãi sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes quando se sente prenhe mata-a dentro da barriga e faz com que nam venha à luz. Também acontece algumas vezes affeiçoar-se tanto ao marido, que chega a fogir pera sua terra pelo livrar da morte. E assim alguns Portuguezes desta maneira escaparam que ainda hoje em dia vivem . Porem o que por esta via senam salva ou por outra qualquer manha occulta, será cousa impossivel escapar de suas mãos com vida, porque nam costumam da-la a nenhum cativo, nem desistirão da vingança que esperam tomar delle por nenhuma riqueza do mundo, quer seja macho, quer femea, salvo se o principal, ou outro qualquer da aldêa acerta de casar com alguma escrava sua contraria, como muitas vezes acontece, pelo mesmo caso fica libertada, e assentam em nam pertenderem vingança della, por comprazerem áquelle que a tomou por mulher, mas tanto que morre de sua morte natural, por cumprirem as leis da sua crueldade, havendo que já nisto nam offendem ao marido custumam quebrar-lhe a cabeça, ainda que isto raras vezes, porque se tem filhos nam deixam chegar ninguem a ella, e estam guardando seu corpo até que o dêm á sepultura.

La mujer barbuda

Não deixa de ser um quadro da atual situação bizarra presidencial.

Saturday, November 28, 2009

A Vidente

Amigo, pode reconhecer aí a minha vidência. Sim, senhor. Se antes fiz um post sobre a fraternidade comuno-macho-beijoqueira, um tempinho depois rolou essa história do Lula ter tentado "subjugar" (ê uso engraçado do termo) um cara numa prisão. Amor comunista. Desculpa ai, viu?

Preciso mudar o nome do blog. Seria melhor "A Vidente". Pena que terá nome de novela das seis.

Friday, November 27, 2009

Fraternidade comunista

Eles começam abolindo a diferença de classes. Depois abolem as diferenças entre homens e mulheres. No fim, chegamos à fraternidade entre os homens.


1968, a revolução do amor.


Brejnev e Honecker selando um pacto para lá de Varsóvia.

Wednesday, November 25, 2009

Breve e esotérico

Qual o problema de mulher ter cabelo curto e usar calça comprida? Masculinizam? Se confundiram você com homem, não tenho culpa. Pelo menos nunca pensaram que eu fosse de outro sexo.

Tuesday, November 24, 2009

Vídeos católicos

Nesse canal do Youtube. Uma porrada. Ao dono, obrigada.

É legal ver também o Pe. Pedro Nuñez.





Sunday, November 22, 2009

Gari aposentado

O post do Pedro me fez lembrar de uma passagem do livro Professor e universidade nos Estados Unidos, de Jacques Barzun:

Em outra ocasião, sentado num bonde junto de um chofer negro de meia-idade, tive a grata experiência de encontrar nele um excelente crítico shakespeariano. O homem estava lendo um exemplar dos Sonetos e, notando que eu também levava livros, pediu licença para saber da minha opinião a respeito de um verso que com freqüência o embaraçava. "Não lhe parece", disse ele, "que, no Soneto 23, o verso 'O, let my books be then the eloquence...' (...) deve ser 'O, let my looks...' [aspectos]?" Concordei e daí por diante passamos a conversar animadamente sobre nosso autor. (p.81)


Não importa se a interpretação foi boa ou não. O negócio é que o J. Barzun encontrou por acaso um po-pu-lar que gostava de Shakespeare. No Brasil, ele encontrá um gari (quero dizer, operador de limpeza urbana) PhD.

E olha que já tivemos um gari aposentado bastante culto.

Friday, November 20, 2009

Espírito da época

Ontem folheei (no Adobe; existe um termo mais próprio?) uma prova do Banco Central. O cargo? Não lembro. Talvez analista de alguma coisa. Eu imaginava o convencional. Português, matemática, algum conhecimento técnico... O que encontrei foram coisas como: "Observe este paralelepípedo reto-retangular. Qual das figuras abaixo corresponde ao paralelepípedo?" Em cada uma das cinco opções, uma imagem "desconstruída" do objeto geométrico. Havia também questões de lógica. O tipo de desafio que aparecia (ainda aparece?) no Segundo Caderno do O globo. Ou na revista Coquetel (dificuldade: cobrão). Bom saber que nossa economia está nas mãos de quem possui espírito lúdico.

Já ouvi falar que os autistas são bons em matemática e raciocínio lógico-abstrato. Serão mesmo? O filme O cubo (semi-clássico) parte dessa premissa. Um grupo se vê aprisionado numa armadilha mortal. Só é possível escapar se compreenderem a estrutura matemática dela. Como envolve contas complicadas, é difícil pra chuchu. Só uma pessoa sobrevive. Um autista (perdão, mentally handicapped). Logo, o mentally handicapped passaria tranqüilo para o Banco Central. A prova e o filme estão em sintonia. Ela só pode ser explicada por causa da manifestação do espírito absoluto na história. (Forrest Gump é outra manifetação. Se bem que o cara não é um autista. É retardado mesmo. Mas o sucesso do personagem (e do filme) também é sinal dos tempos.)

Outra manifestação da época? As gincanas de emprego. (Elas têm um outro nome mais elegante. Não lembro.) Não basta fazer a prova-Coquetel. É preciso desfilar como se fosse um modelo na passarela. Não pense que é retórica. Isso acontece. Nem duvido que seja possível avaliar condutas profissionais pelo método-passarela. Se é possível, então toda avaliação é possível. Assim, a questão é outra. Por que apostar todas as fichas em indícios e conjecturas indiretas? É como se avaliassem a sua capacidade profissional examinando as entranhas de um cabrito. (Não vejo motivo razoável para os avaliadores serem avaliados da mesma forma.)

Qual a relação entre tudo isso? Talvez o entretenimento ser levado a sério. Muito a sério. Tudo é uma questão de jogo. O seu futuro profissional pode depender um dia de como você se sairá numa dança das cadeiras. (Imagina se Luís XVI obrigasse os súditos dele a pular num pé só. Neguinho fez a Revolução Francesa por muito menos.)

Você pode pensar assim: "Ah, ela diz essas coisas porque está ressentida." Minha resposta poderia ser: "E por que esse ressentimento é de mão única? Vai saber se os animadores (perdão, avaliadores) não estão ressentidos com os métodos de avaliação tradicionais, sejá lá quais forem?" Acontece que nunca fiz concurso público (só vestibular). Nunca brinquei em entrevista de emprego. São apenas observações sobre o espírito da época. Sine ira et studio. Agora, tenho culpa se os métodos são... originais?

Espírito da época, ó pá.

Wednesday, November 18, 2009

José Jobson de A. Arruda

Arrumei um tempinho para passear na biblioteca. Topei com um calhamaço. A tese de doutorado de José Jobson de A. Arruda: O Brasil no comércio colonial (1796-1808): Contribuição ao estudo quantitativo da economia colonial. Fraquinha e sem um cavalheiro próximo, mal pude segurá-la. (Nem duvido que fui a primeira pessoa nesse milênio a erguê-la na biblioteca.) Do que li em três minutinhos, o quadro teórico parecia interessante. História quantitativa parece um porre, mas dá o maior barato. Esse negócio de transformar tudo em números e cruzar dados feito um condenado não é só uma coisa chique. É útil pra chuchu. Se você estiver chapado de marxismo então, as portas do paraíso parecerão arrombadas. Mas é sério. O quadro teórico (a julgar o pouquinho que deu para ler) a repeito de história quantitativa era interessante. Basta compará-lo com as explicações xaropes do Peter Burke em Escola dos Annales 1929-1989.

Deixei de ler para só folhear. Aí descobri o cheat code para transformar uma tese num calhamaço. Escreva só num lado da folha. Piche o trabalho com gráficos. (Numa história quantitativa ou serial, a exigência é óbvia.) Pronto. Você terá sua obra expandida. Se for um virtuose à la Chaunu, pode fazer uma tese de doutorado em trocentos volumes. Depois é esperar o dia em que só um halterofilista vai agüentar a sua obra. Pelo menos o trabalho vai chamar atenção.

Hip, Hip, Lupi

Alegria de pulíticu é fazer um puxadinho de estatística. Ora, vamos:

O ritmo de criação de empregos formais no Brasil deve dobrar em 2010, acompanhando a recuperação da atividade econômica, previu o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, nesta segunda-feira, 16, ao divulgar um resultado recorde para outubro.

Ele estima que em 2009 sejam geradas entre 1 milhão a 1,1 milhão de vagas líquidas com carteira assinada, número que deve subir para 2 milhões em 2010.

"A indústria vai crescer muito no próximo ano, mas (o setor de) serviços será o maior puxador de contratações, como tradicionalmente ocorre", afirmou Lupi a jornalistas.


Predições otimistas a partir de entranhas numéricas. O título (pomposo) da matéria é Emprego tem outubro recorde, Lupi vê 2 milhões de vagas em 2010. Tudo é muito belo. Mas veja esses dados pecaminosos:

O concurso para 1,4 mil vagas de gari da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) do Rio de Janeiro recebeu, até a terça-feira (20), 109.193 inscrições. Entre os inscritos, 45 afirmaram ter doutorado, 22 mestrado e 80 pós-graduação, segundo registros da Comlurb. As inscrições encerram na sexta-feira (23).


109.193 pessoas dispostas a caçar no lixo R$ 486,10 (44 horas semanais). O pior é que "a expectativa é de pelo menos 200 mil inscritos."(Eu mesma conheço gente que quis arriscar.)

Com recorde e 200 mil querendo ser gari? É lindo quando a realidade dá um puxão de orelha. Ou de repente é um surto inexplicável de vocações para lixeiro.

Monday, November 16, 2009

Exposição positivista do Rio de Janeiro III

Outro dia, me fizeram a gentileza de mostrar uma foto de um cara morto. Se fosse só a foto de um cara morto, até que daria para agüentar. O que não dá para agüentar é ver um cadáver num carrinho de supermercado. Ao redor, vários curiosos.

A cena era estúpida demais. Você sabe que gente não é coisa. Mas é como se esfregassem na sua cara: "Você está errado! As pessoas são coisas sim. Olha como tratamos esse cara!" O pior é que uma cena dessas não é rara. Certa vez, um pai desceu o morro com o filho num carrinho de supermercado. Outras vezes, é gente (ou o que sobrou) em porta-mala. Essas coisas não dão para agüentar. Mas de jeito nenhum. Por quê? Eu já disse. As pessoas não são coisas.

Isso é chocante por vários motivos. Eu queria salientar um. Entender que todos somos quem, não o quê, é fundamental. Você não chega para alguém assim: "O que é você?" O certo é: "Quem é você?" Só somos quem porque somos pessoa. Parece evidente, mas não é tão simples. Foi uma conquista histórica! Levou muito tempo para se entender que todos somos pessoas. A contribuição do cristianismo nesse ponto é fundamental. A dimensão pessoal de cada um é intocável. Deturpá-la ou negá-la é escandaloso. (O aborto é também intolerável pelo mesmo motivo. Por sinal, leia o maravilhoso artigo Uma visão antropológica do aborto, do Julián Marías. )

O mal-estar causada causado por aquela cena é um escândalo quádruplo. O mais óbvio é que ninguém merece algo assim. Mas você percebe também que vai contra todos os nossos valores básicos. É uma atitude pré-cristã. E que ela reflete uma dimensão obscura da nossa existência. É o problema do mal.

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As pessoas são mesmo trucidadas nas favelas. Com freqüência. É triste, mas somos obrigados a refletir a respeito.

Ninguém normal esquarteja ninguém. Óbvio. Mas esquartejar alguém vivo requer uma dose de crueldade extra. Olha o caso do Fernandinho Beira-Mar. Ele comandou por telefone o esquartejamento de alguém vivo. Os exemplos de brutalidade são muitos. Por que tanto ódio?

Uma explicação sócio-econômica não basta. Além do aspecto determinista, ela não basta para explicar um certo problema bem grave. Quem sente prazer ao matar é um desajustado, sem dúvida. Mas isso é constatar o óbvio. A questão é outra. O que está em jogo é o velho problema do mal. A encrenca está aqui.

Muitas explicações sobre o banditismo carioca partem de um pressuposto engraçado. É que consideram a maldade passível de explicação racional. Se a razão pode explicá-la, a razão pode transformá-la. Se você usar direitinho a razão, você encontrará a chave do enigma. O mal é (nesse caso específico) um problema social. Como problema social, basta fazer as modificações necessárias para melhorar o sujeito individual. Um bandidão se tornará um cidadão respeitável, desde que se saiba operar bem o mecanismo social. O negócio todo é que isso é muito abstrato. É lidar com esquemas mentais. O mal não é apenas um problema social. Ele tampouco é explicável. E muito menos é uma questão de falta de "iluminação". No fundo, o que está em jogo é o modo de lidar com o Pecado Original. É aqui que se torna patente como a discussão sobre o banditismo carioca é feita numa base cristã pervertida. A redenção do fulano bandido se dá pela ação de um divino agente social bem-intencionado (um sociólogo, um ongueiro, um psiquiatra, sei lá quem). O horror à pura intervenção violenta estatal (o"serviço de inteligência" da polícia é só mais um meio do aparato repressivo estatal) se explica pela crença (é mesmo questão de fé) de que a maldade pode ser consertada sim, graças à uma iluminação racional. A moda agora é "cidadania". Mas pode ser qualquer troço.

Vou me repetir (e resumir). Todas essas coisas revelam até que ponto o cristianismo se tornou algo estranho entre nós. Temos é uma versão gnóstica de cristianismo a serviço do povo. Os frutos dessa maluquice estão aí. Enquanto houver a pretensão de endireitar a natureza humana, as coisas só vão piorar.

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Se nazistas queimam um judeu, é porque são uns monstros, inimigos da humanidade. Se traficantes queimam uma vítima, é porque são uns coitados, crucificados pelo sistema.

Tuesday, November 10, 2009

Queda do muro de Berlim

No post anterior, indiquei a Declaração de Praga. (A propósito, você vai assinar quando?) Agora, começo com um trecho do Václav Klaus (um dos idealizadores da Declaração) sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim:

In the 1950’s the leading idea behind the European integration was to liberalize, to open-up, to remove barriers at the borders of individual European countries, to enable free movement of not only goods and services but of people and ideas around the European continent. It was a positive concept. It should continue and be promoted by all of those who have liberal (in European terminology), which means not statist or nationalistic, world-view or Weltanschaung.

The situation changed during the 1980´s and the decisive breakthrough was the Maastricht Treaty in December 1991. Integration had turned into unification, liberalization into centralization of decision making, into harmonization of rules and legislation, into the strengthening of European institutions at the expense of institutions in member states, into the enormous growth of democratic deficit, into post-democracy.


Por que é interessante? Justifico. Veja só as datas. Em 9/11/89, o muro caiu. Em 21/12/91, assinaram a dissolução da URSS. Legal, não? A liberdade parecia ter triunfado. Mas em 9/12/91, foram encerradas as últimas negociações para o Tratado de Maastricht. "Integration had turned into unification". Qual a relação entre as três datas? Com a palavra, sr. Vladimir Bukovsky (via The Brussels Journal):

In 1992 I had unprecedented access to Politburo and Central Committee secret documents which have been classified, and still are even now, for 30 years. These documents show very clearly that the whole idea of turning the European common market into a federal state was agreed between the left-wing parties of Europe and Moscow as a joint project which [Soviet leader Mikhail] Gorbachev in 1988-89 called our “common European home.”

The idea was very simple. It first came up in 1985-86, when the Italian Communists visited Gorbachev, followed by the German Social-Democrats. They all complained that the changes in the world, particularly after [British Prime Minister Margaret] Thatcher introduced privatisation and economic liberalisation, were threatening to wipe out the achievement (as they called it) of generations of Socialists and Social-Democrats – threatening to reverse it completely. Therefore the only way to withstand this onslaught of wild capitalism (as they called it) was to try to introduce the same socialist goals in all countries at once. Prior to that, the left-wing parties and the Soviet Union had opposed European integration very much because they perceived it as a means to block their socialist goals. From 1985 onwards they completely changed their view. The Soviets came to a conclusion and to an agreement with the left-wing parties that if they worked together they could hijack the whole European project and turn it upside down. Instead of an open market they would turn it into a federal state.

According to the [secret Soviet] documents, 1985-86 is the turning point. I have published most of these documents. You might even find them on the internet. But the conversations they had are really eye opening. For the first time you understand that there is a conspiracy – quite understandable for them, as they were trying to save their political hides. In the East the Soviets needed a change of relations with Europe because they were entering a protracted and very deep structural crisis; in the West the left-wing parties were afraid of being wiped out and losing their influence and prestige. So it was a conspiracy, quite openly made by them, agreed upon, and worked out.


E disse também Anatoliy Golitsyn:

The European Parliament might become an all-European socialist parliament with representation from the Soviet Union and Eastern Europe. 'Europe from the Atlantic to the Urals' would turn out to be a neutral, socialist Europe.

Outras pessoas têm feito análises semelhantes. Só que o Golitsyn impressiona mais, porque ele cantou a jogada com anos de antecedência. O Bukovsky apenas confirmou o que Golitsyn já havia dito. Mas o que deve ficar claro é que existe uma ligação entre a União Européia (como força política) e o projeto comunista. Isso exige uma análise da natureza do movimento comunista. Mas não vou fazer. Deixo a quem é mais sabido.

E o Muro? De novo, o Golitsyn disse com anos de antecedência:


"If 'liberalization' is successful and accepted by the West as genuine, it may well be followed by the apparent withdrawal of one or more communist countries from the Warsaw Pact to serve as the model of a 'neutral' socialist state for the whole of Europe to follow."

"If [liberalization] should be extended to East Germany, demolition of the Berlin Wall might even be contemplated."


Diante disso, não há alterntiva. Somos obrigados a reavaliar a importância da queda do Muro de Berlim. Por mais que a gente comemore o 9/11/09, a longo prazo já não dá para ser tão otimista. A vitória se transformou em melancolia. O jogo está virando. Para pior. No dia 3/11/09, um dos últimos opositores à União Européia foi vencido: "Vaclav Klaus, the Czech president, this afternoon signed the Lisbon treaty, finally completing the ratification process of the charter designed to transform Europe into a more unified and influential global player." A ameaça soviética foi trocada por um super-Estado europeu. Mas se o Golitsyn estiver certo, o super-Estado europeu é só parte do problema. No fundo, ainda há o comunismo.

A Declaração de Praga apareceu durante a luta do V. Klaus contra a assinatura do Tratado de Lisboa. Não foi à toa. Condenar o comunismo é um recado ao autoritarismo soft do projeto federalista europeu. Um é cria do outro. Acontece que o assunto não é apenas europeu. É nosso também. Os motivos são bastante óbvios. Apenas menciono o Foro de São Paulo (que o Olavo vem denunciando há muitos anos). Uma condenação total ao comunismo arruinaria o Foro. A questão é saber quando isso vai acontecer. Por enquanto, a marcha da criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Européias (URSSE) e da União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL) não vai parar.

URSS e URSSE/URSAL. Mestre e discípulo.

Monday, November 09, 2009

Prague Declaration on European Conscience and Communism

Condemn and teach about the crimes of Communism! Support the Prague Declaration.

Porque é um assunto nosso. (Ou para evitar que seja...)

Thursday, November 05, 2009

Duo seraphim

Youtube. Que beleza.



Duo Seraphim clamabant alter ad alterum:
Sanctus, sanctus, sanctus Dominus Deus Sabaoth;
plena est omnis terra gloria ejus.

Tres sunt, qui testimonium dant in coelo:
Pater, Verbum et Spiritus Sanctus;
et hic tres unum sunt.

Sanctus, sanctus, sanctus Dominus Deus Sabaoth;
plena est omnis terra gloria ejus.

Friday, October 30, 2009

Às 2h13

O Pedro mencionou o Memórias do subsolo. Conheço a fama do Dostoiésvki, afinal civilizada sou. Agora, é bom a gente ficar de olho. Desde Rousseau e as Confissões, nós (quero dizer, Paul Johnson e eu e talvez você) sabemos que falar mal de si mesmo pode ser sinônimo de golpe. Muitas vezes não deixa de ser outra forma de orgulho. (Algum santo já disse isso, não? Não lembro qual.) No caso do Rousseau, a dica é a opinião que ele tem do Pecado Original. Se a culpa não é do indivíduo, é da sociedade. Se é da sociedade, ele (Rousseau) é só uma vítima. Se a sociedade é a causa do mal, o mal pode ser combatido na sociedade. Aí chegamos num estágio bizarro, onde você pode se chamar de cocozão à vontade. Por quê? Quanto mais você se xingar, mais você estará afirmando sua inocência. Porque a culpa será sempre da societé. Malvada.

Já que o Pedro tem gostado tanto do Girard, seria legal ele comentar o Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Do ponto de vista do Rousseau, o desejo mimético (até onde pude entender as explicações do Pedro) não é natural. É causado pela civilização. (Pelo que entendi desse post, Rousseau mesmo poderia ser analisado pela a teoria do duplo angélico. Mas isso é outro assunto.)

Blogueiro

Carl Spitzweg, O poeta pobre. Ou Blogueiro preparando um post.

Sunday, October 25, 2009

Influência esotérica

Então chega o professor e diz: "Porque vocês sabem... Qualquer estudo não deixa de ser uma tentativa de manipulação da sociedade. Diz muito do cara envolvido." Ok. Boa parte da aula era sobre a influência da concepção de Providência calvinista na teoria política de Althusius (1563-1638). Se o professor fosse um calvinista, beleza. Seria uma tentativa bizarra de influenciar a sociedade. Mas eu até que entenderia. Agora, o homem é ateu. Já disse mil vezes que não é ateu militante. Que tipo de influencia ele procura exercer? Para mim, é como estudar cinemática para dar um pedala-Robinho.

É um mistério. Soa como o Petrarca e o seu amor estranho. Já que não conquistou a Laura-concreta, ele vai escrever trocentos poemas sobre a Laura-idéia. Então se o cara não consegue nem se tornar síndico do prédio, ele se vingará ensinando às gerações mais jovens as idéias políticas de um calvinista holandês do tempo do ronca.

Pode ser uma manipulação às avessas. Como se dissesse: "Não quero saber nada de você, [sociedade] nojentinha." Aí o carioca vai falar sobre os diferentes usos da palavra "soma" na Grécia entre os séc. IX e IV a.C. Ou vai se preocupar com a concepção de verdade na Etiópia entre 312-528. Tudo como se estivesse se mandando para a Arcádia. Não tenho nada contra. Pelo contrário. Universidade tem que ser mesmo o abrigo do inútil. (Entenderam isso de formas um pouquinho diferentes, até pessoais. Deixa quieto.) Seria uma manipulação esquisitinha. Método passivo-agressivo? Não seria mais fácil pensar que o estudioso pesquisa sem grandes motivos ocultos? Por que se apegar ao mais inusitado? É tão maluco imaginar que alguém estuda pelo prazer do estudo?

Saturday, October 24, 2009

Vivo sin vivir en mí

Da flor de Ávila. Modelo para todos nós.

(Versos nacidos del fuego del amor de Dios que en sí tenía)

Vivo sin vivir en mí,
y de tal manera espero,
que muero porque no muero.

Vivo ya fuera de mí
después que muero de amor;
porque vivo en el Señor,
que me quiso para sí;
cuando el corazón le di
puse en él este letrero:
que muero porque no muero.

Esta divina prisión
del amor con que yo vivo
ha hecho a Dios mi cautivo,
y libre mi corazón;
y causa en mí tal pasión
ver a Dios mi prisionero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué larga es esta vida!
¡Qué duros estos destierros,
esta cárcel, estos hierros
en que el alma está metida!
Sólo esperar la salida
me causa dolor tan fiero,
que muero porque no muero.

¡Ay, qué vida tan amarga
do no se goza el Señor!
Porque si es dulce el amor,
no lo es la esperanza larga.
Quíteme Dios esta carga,
más pesada que el acero,
que muero porque no muero.

Sólo con la confianza
vivo de que he de morir,
porque muriendo, el vivir
me asegura mi esperanza.
Muerte do el vivir se alcanza,
no te tardes, que te espero,
que muero porque no muero.

Mira que el amor es fuerte,
vida, no me seas molesta;
mira que sólo te resta,
para ganarte, perderte.
Venga ya la dulce muerte,
el morir venga ligero,
que muero porque no muero.

Aquella vida de arriba
es la vida verdadera;
hasta que esta vida muera,
no se goza estando viva.
Muerte, no me seas esquiva;
viva muriendo primero,
que muero porque no muero.

Vida, ¿qué puedo yo darle
a mi Dios, que vive en mí,
si no es el perderte a ti
para mejor a Él gozarle?
Quiero muriendo alcanzarle,
pues tanto a mi Amado quiero,
que muero porque no muero.




Bernini, O êxtase de Santa Teresa.

De torrente

Nós, pessoas-maravilhosas-amantes-de-filosofia-clássica-e-literatura-estrangeira-e-tudo-de-bom-gosto (de Bach a cristianismo highbrow), combatemos putinhas a breguice atmosférica. Os tradicionalistas de Internet fazem coisa parecida. (O seu coração queima pela missa dos tempos de Dom João Charuto? Só a Idade Média presta. A verdade está subtendida na doutrina perene implícita em todas as civilizações tradicionais. Tudo revelado nos manuscritos de Prestes João, grande intelectual. Não sabia? Pague uma Internte a cabo já. Está tudo na rede, 2009. Leia comendo chokito.)

Prestes João, nosso modelo de intelectual.

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A abstração liberal exorciza os demônios. Lá no fundo, todo demônio passou num concurso público infernal. O negócio é descer o porrete austríaco nos energúmenos, como fez A. Schwarzenegger contra o Predador. (Se o negócio for na base do vale-tudo, dá até para usar o sistema comunista. Afinal, Marx era satânico-liberal e não sabia.) Sejamos reacionários. Podemos copiar o modelo da Federação de Estados da Micronésia.

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Vamos ver de All-Star (ou não) o último filme do Q. Tarantino? Dá boas discussões sobre história. De preferência, nas comodidades do shopping. Se você preferir, podemos esperar a próxima segunda. Aí a gente desconstrói a razão usando argumentos racionais na a.k.a.demia.

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Mas o intelectual tem que passar bem a roupa. Tem que saber dobrar também. (Lavar a louça e cozinhar pegam bem.) Como preparação para a faculdade de humanas, prova de habilidade específica do lar. No exame específico, limpar a bundinha de um neném e trocar a fralda. Você acha que THEODOR LUDWIG WIESENGRUND-ADORNO passaria?

Se o cara nem sabe lavar a roupa direito, vai lá saber os mistérios ensinados por Prestes João?

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A cultura é uma gorda enorme. Ainda por cima, carregada de maquiagem. Olhando assim, ela é modelo para o quê/de quem? Qual o sentido de gastar a maior bufunfa para ficar assim? É melhor trabalhar como atendente de telemarketing. Boa tarde, o que o senhor deseja?

Cultura.


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Enquanto isso, a gente vai zoando nos blogs. Isso sim é atividade séria. Sem ironia. Quero dizer, não muita. Até acho que o Nietzsche daria um bom blogueiro.

Thursday, October 22, 2009

Menino passarinho acha que vivemos na "era da transparência"

Foi o que disse um tal de Flávio Castro, segundo o Comunique-se.

“A crise financeira aumentou a pressão para uma clareza nas empresas. Essa é a era da transparência”, declarou o jornalista Flávio Castro, especialista em gerenciamento de crise e reputação Castro, durante o evento "Efeito Obama", em São Paulo. Ele mencionou o resultado de pesquisa publicada pelo The Economist e realizada junto a executivos de grandes empresas. (A redação não é culpa minha.)


Você consegue entender o que ele quis dizer com "pressão para uma clareza"? Se ela "aumentou", significa que já havia? Mas quem pressiona/vem pressionando? (Ah, essas atribuições genéricas...) E de que crise estamos falando mesmo? Para mim, esse F. Castro está dizendo "blábláblábláblá" e ganhando prestígio com isso. Afinal, deve ser bonito ser conhecido como "especialista em gerenciamento de crise e reputação". Sem contar essa história de vivermos numa "era de transparência". Como assim? Como pode haver tanta transparência com tantas fraudes? Ou será que corrupção governamental não conta? Se houvesse tantas pressões por transparência (o jornalista acha que a gente é trouxa), por acaso o Lula continuaria com a popularidade que tem?

Na menos pior das hipóteses, o Flávio Castro é o Menino Passarinho da música do Luiz Vieira.

Exposição positivista do Rio de Janeiro II

O mais engraçado é que a contagem contínua do número dos mortos só acontece depois das ações da polícia.

Mas tem algo ainda mais estranho. (Nem é estranho. Mas vá lá.) Um problema policial é tratado como problema político. Ou então é tratado como questão educacional. Você pode até perceber que existe uma ligação entre a política, a educação e a bandidagem. Só que são domínios diferentes. Se é assim, então o método de um não serve para o outro. Você não combate o crime ensinando Camões a gente armada! Se está difícil de entender, vou dar um exemplo didático. De um lado, um bandido portando um revólver. Do outro, você e as Rimas. Se você for assaltado, recitar as Rimas não vai adiantar muita coisa. Agora, ignorar uma coisa dessas não é só questão de burrice mortal. É premeditação. Meio suicida, mas é.

Sunday, October 18, 2009

Exposição positivista do Rio de Janeiro


Traficantes abateram a tiros um helicóptero da polícia. O piloto ainda conseguiu pousá-lo num campo de futebol. Mas ele explodiu, matando parte da tripulação. A última vez que vi coisa parecida foi em Falcão negro em perigo.

Em outro ponto da cidade, atearam fogo em dez ônibus. É bom lembrar que já queimaram ônibus com gente dentro.

Enquanto isso, tem quem se preocupe com o que vão falar do Brasil. Ainda mais por causa das Olimpíadas.

Por quase três dias seguidos, houve uma série de tumultos em estações de trem. Vários feridos. O Muniz Sodré fez uma análise impressionante a respeito. Ele acha que "o acontecimento foi descrito [pela imprensa] como uma anomalia (corroborada inclusive por algumas evidências de sabotagem) dentro da factualidade urbana." Mas como esse cara é um "observador atento", ele percebeu algo a mais. O que aconteceu foi uma "ruptura de um pacto implícito entre o poder de Estado e a massa trabalhadora." Foi "um fenômeno molecular capaz de suscitar reações violentas no nível do conflito urbano continuado a que já se deu o nome de 'guerra civil molecular'." Não sei quanto a você. Com uma explicação dessas, dá vontade de sair depredando tudo mesmo.

Saturday, October 17, 2009

A Espectadora recomenda (ou não)

Num comentário qualquer, eu disse alguma coisa sobre ver uma "maratona Fassbinder". Mas não é que está rolando no Rio uma apresentação dos filmes desse cara quinta (15/10), no CCBB? Nome da mostra: Filmes libertam a cabeça. Aí você já percebe a pretensão da coisa.

Recomendar eu recomendo não. Mesmo sendo de graça. Agora, às vezes é bom assistir só para poder falar mal depois. Todo mundo precisa sofrer um pouquinho com os diretores mezzo conhecidos, mezzo cults (by Nicolau).

(Se é para recomendar uma experiência bizarra, veja Cobra verde. É do W. Herzog. Ai, meu santinho! O Klaus Kinski faz um papel de cangaceiro no séc. XIX. Vai parar na África e ainda lidera um exército de amazonas contra um rei maluco. Tudo em alemão. Cheio de pretensões artísticas. Claro que tem gente que acha o filme uma beleuza. Tive até que pedir desculpa à minha mãe quando assistimos juntas.)

Muito mais recomendável é o festival Ópera na tela, até o dia 29/10. Disponível para o pessoal do Rio, Manaus, Belém e São Paulo. Agora, se as montagens são decentes ou não... Vai na fé, amigo.

Sunday, October 11, 2009

Continuação

Mas nada de radicalismos. Não é que política não serve para nada. O que acho (é tão importante o que acho, não concorda?) é o seguinte:

1) Política é participação, não falatório. Ainda bem que não vivemos mais em Atenas (república dos barbudinhos não-petistas). Mas pelo menos a participação era ativa. Em democracias representativas de verdade, você tem várias formas de participação. Nem que seja apenas do ponto de vista local. (Opinião pública não é forma de exercer democracia. Se for por aí, até a Alemanha nazista era uma democracia. Por que você acha que os nazi se preocupavam tanto com propaganda?)

2) É preciso haver uma circulação de informações. Mas não adianta se há um consenso fundamental! Jornalismo nenhum deve funcionar na base de um credo. Nada de "unidade na multiplicidade". Jornalismo não é religião. Vou citar aqui um trecho interessante do livro Hitler, do J. Fest (o negrito é por minha conta):

Desde a primavera de 1933, a censura no meio radiofônico já era efetuada em larga medida, tanto em relação aos assuntos ventilados quanto a seus produtores e apresentadores. Dos três mil jornais em circulação (número aproximado), inúmeros foram fechados (em especial os diários regionais), fosse devido a uma pressão financeira ou a uma guerra de subscrições realizada com o apoio do governo. Outros órgãos foram confiscados. Apenas alguns grandes jornais, cujo prestígio lhes assegurava certas regalias, sobreviveram em parte, como por exemplo o Frankfurter Zeitung, até os anos da guerra. Seu campo de ação tornou-se, desde o início da tomada do poder, estritamente limitado. Um rigoroso sistema de instruções e de regulamentações de estilo, estabelecido principalmente no decorrer dos contatos diários dos jornalistas com as autoridades estatais, zelava pela manutenção da ordem política e social, e aboliu, por assim dizer, nas entrelinhas, toda liberdade de imprensa. Ao mesmo tempo, Goebbels estimulava, apesar de tudo, as diferenças formais e estilísticas e tratava de minimizar o monopólio estatal, ou melhor, de disfarçá-lo por meio da variedade e quantidade de jornais editados. Como ocorria com a cultura em geral, a imprensa devia, segundo a palavra de ordem que lhe fora dada, ser "uniforme em suas intenções, multiforme na apresentação dos objetivos".

3) A política não deve ser um assunto "macro". Só em exceções muito bem justificadas (como invasão estrangeira). Ela serve é para resolver problemas pontuais. Fora disso, o governo vai se comportar como uma entidade abstrata impondo normas a sujeitos concretos. Mas não deveria ser o contrário? Como é que uma entidade abstrata pode se achar no direito de concretizar o que quer que seja? Quem deve determinar o Estado é uma pessoa! Uma execução do governo federal sempre tende a ser um mandamento arbitrário do ponto de vista do indivíduo. Pode ter certeza que ele não pedirá para você licença. Se você não obedecer, tá ferrado;

4) As leis precisam ser claras. Quanto mais gerais, mais simples. Uma constituição federal não pode ter mais de quinze páginas. Se um camarada não conseguir decorar a constituição federal, então ela não presta! A constituição será concretizada de duas formas. Uma é pelas instâncias inferiores de administração. A outra é pelos usos e costumes. O metrô está lotado de tarados? Está mesmo. Agora, tarados de metrô são mais toleráveis que burocratas legislando sobre comportamento. Falando de outro jeito, o legislador tem que legislar a contragosto. Toda lei tinha que começar com um pedido de desculpas;

5) Para mim, a coisa mais linda é o direito natural a não querer saber de coisa nenhuma. Por que você se acha tão importante a ponto de eu ser obrigada a votar em você?

Saturday, October 10, 2009

Honduras

Outro dia me perguntaram: "Como é que você pode ignorar o que está acontecendo em Honduras?" Oxe! Até uns três meses atrás, ninguém sabia bereguendém nenhum sobre Honduras. Eu só sabia que a capital se chama Tegucigalpa (sempre fui boa para gravar o nome de capitais). E que fica na Am. Central. Por que agora sou obrigada a ter uma opinião sobre a política de El Salvador? Não preciso saber nada sobre o tal do Zelaya. Eu sempre soube que todo bigodudo é picareta.

"Porque o Brasil está envolvido". Ah tá. Brasil. Na verdade, "governo federal". Aquilo que nos governa, mesmo lá do quinto dos infernos. Olha bem. Minha influência nas decisões do governo federal são nulas e/ou irrelevantes. O máximo que faço é (ser obrigada a) apertar um botão a cada quatro anos. Tem gente que ama fazer isso. Eu não dou a mínima. Tanto que sequer paguei ainda a multa por abstenção da última eleição (para prefeito, é verdade).

Agora, já me preocupei bastante com política. Já cansei de discutir sobre. Hoje em dia, meu interesse está mais na base de: a) curiosidade mórbida; b) gandaia.

(Acho maligno o interesse por administração pública. Tem quem goste. Taí o Visconde de Cairu que não me deixa mentir. Mas participar de discussões sobre Petrobrás e tal... Mesmo uma seqüência de filmes do W. Fassbinder é melhor.)

Só acredito em participação política se o governante estiver a um tiro de flecha. Se até um monstro como o Ipupiara podia ser atacado, como é que o político não pode? Como é que você pode ser governado por alguém que nunca viu cara a cara? Que nem se dá ao trabalho de dar uma satisfação! "Ah, mas não tem como. O Brasil é enorme." Então pior para o Brasil. Ou para o governante. Senão é como ser governado pelo (e discutir sobre as ações do) Diabo do Inferno, inimigo da Patrine.


Esse homem pode ser o verdadeiro governante do Brasil, sabia?


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Só uma coisa é pior que discutir sobre a política do Diabo do Inferno. É ler A escrita da história do Michel de Certeau. Li só um capítulo. Quê? I-le-gí-vel. Deve ser por isso que tem quem goste. Sou mais jogar Super Punch-Out.

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Cheguei a chamar Honduras de El Salvador. Para você ver como estou por dentro do assunto. Já corrigi. Valeu.

Monday, September 28, 2009

Essencial

O que é essencial, para mim? Um bom condicionador. Cuidar do olhar. Sessões eternas de Händel-Bach-Couperin. Tentar ser menos asna para Deus. Rir sem perder a reverência. Amigos melhores que eu. Trabalhar. Ao Goethe, suspiros. Ao Rousseau, zoação. Nem conto o resto.

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Se sou insignificante para a macro-história do mundo (não é, seu Braudel?), não estou nem aí. Azar. Azar total. Se a História se faz de superior para cima de mim, tem problema não. Me faço de superior para cima dela também. Quem risca com um giz o círculo da minha vida sou eu. Quem lida com meus problemas sou eu.

Ela pode ser a cheerleader dos devaneios adolescentes de muitas pessoas. Pode até ser da beleza idéia, uma linda e pura semidéia. Supimpa. Agora, é musa de papel. Por isso, sou mais eu. Clio é uma adaptação dos homens. É um problema mais ou menos conveniente. Eu já existo sem querer saber de você, um problema muito maior que qualquer história-problema.

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Um homem que tende a ser determinado. Isso que é um homem atraente. Essencial.

Sunday, September 20, 2009

Originalidade artística

Quanto mais ouço compositores dos idos do séc. XVIII, mais me convenço de que esse negócio de arte "original", "radical", escolha-o-epíteto-que-você-acha-mais-bacaninha, é a maior furada. Esses critérios são a maior bolha de sabão. É transformar a arte num monte de intuições mais ou menos destrambelhadas.

Os músicos dos idos do séc. XVIII eram verdadeiros mestres-artesãos. Formavam linhagens de músicos. Pega aí os Couperin, os Bach, os Scarlatti, os Purcell... A arte deles era muito bem trabalhada, clara. Mas a criatividade não era por isso prejudicada. Nenhum pouco. Pelo contrário! Sobrava inventividade. Afinal, é importante ter imaginação. Eles sabiam explorar muito bem as variações melódicas, sem deixar de criar harmonias muito legais (e dissonâncias ainda mais interessantes). Tudo dentro das possibilidades da técnica. É muito instrutivo que tantos virtuoses tenham surgido enquanto a arte da música se consolidava de forma cada vez mais clara. Estão aí as sonatas do D. Scarlatti (um mundo musical espantoso!) que não me deixam mentir. Claro que esgotar uma música em combinações de variações* não esgota, por sua vez, as próprias possibilidades da música. Por isso, aos poucos o leque técnico se expandiu. Daí veio (para dar um exemplo) a sonata-forma. Isso só foi possível graças a um espírito de experimentação intensa. Não deixa de ser interessante esse contraste, o trabalho artesanal bem claro e a experimentação constante. Só depois vieram as regras "clássicas" da música, com as sistematizações práticas (Bach, Cravo Bem-temperado) e teóricas (Rameau, Tratado de harmonia). Pode ser que aí sim a experimentação se tornasse cada vez mais complicada. Mas na arte, a prática é abusada por natureza! (Tenho vontade de fazer algumas considerações sobre duas coisas bacanas, cuja articulação seria bastante útil para entender a criação artística. Uma é a idéia orteguiana da formação da ciência como problema pessoal. A outra é a expansão de um domínio artístico, graças a um auctor (em latim mesmo, para conservar o sentido de aumento de possibilidades). Fica para depois.)

Para exemplifica o que eu disse, a Sonata em sol maior K 141, do D. Scarlatti.



Agora, a originalidade. Os músicos daquela época não ligavam tanto para isso. Não como nós. Ninguém tinha muita vergonha de reaproveitar temas. Até mesmo os dos outros! Às vezes, certas melodias que tinham se tornado "patrimônio público" eram retrabalhadas por todo mundo. Foi o caso famoso do tema da Folia. Ele foi tantas vezes visitado que se tornou quase um gênero musical. Igual a mulher fácil, todo mundo alguma vez na vida se meteu com ela. Outra coisa interessante (que com certeza influenciava a produção musical) era tanto a necessidade de produzir bastante, como não haver muitas reapresentações (tirando alguns casos). A liberdade artística possuía limites circunstanciais bem claros.

Um exemplo famoso de reaproveitamento? Ouça a ária "Zion hört die Wächter singen" e o coral Wachet auf, ruft uns die Stimme.





Na verdade, tudo é um problema religioso. Você não pode pensar em originalidade, radicalidade ou individualidade absolutas. Não na arte! Tudo é feito a partir de algo que já existe, por meios que (pelo menos em princípio) já estão dados. Nesse domínio, nada surge do nada, nem possui uma existência única em absoluto, não-comunicável com (nem compreensível por) nada mais. Nem é possível que a arte seja em si o dispêndio mais gratuito de energia, a negação de tudo o que pareça estático. Essas coisas só fazem sentido se você pressupor ser um deus, agindo que nem deus e compreendido (talvez, não importa) por outro deus. Me desculpe, mas isso não faz sentido nenhum. É só o mais puro fogo no rabo.


*Acho que os tópicos "variação" e "improvisação" são relacionados. São tantos os grandes improvisadores que compuseram grandes variações, que não dá para negar que uma coisa deve ter relação com a outra. Como na música barroca (mas não só nela) a capacidade de improvisar fazia parte do métier, talvez por isso as variações acabaram se tornando uma parte integrande das músicas. Tanto a capacidade de improvisar como a de variar exigem bastante inteligência musical. Nem preciso dizer nada sobre o nível de inteligência exigido para articular vários temas. Aliás, por essas e outras Beethoven é um gênio tão imenso que chega a ser inacreditável. A mesma coisa com Haydn, embora sob outros aspectos (não menos espantosos). Música é mesmo uma coisa boa demais.

Grimmelshausen

Hans Jakob Christoffel von Grimmelshausen. Não parece meio doidinho?


Olha só que legal. Saiu uma tradução do O aventuroso Simplicissimus, do Grimmelshausen. É um clássico romance barroco alemão. O pior é que já tem quase um ano que foi traduzido. Só agora fui saber. Nem preciso dizer muito sobre o assunto. A barroquice do título ajuda: O aventuroso Simplicissimus, isto é: A descrição da vida de um singular vagante chamado Melchior Sternfels von Fuchsaim, onde e com que aspecto ele veio a este mundo, o que nele viu, aprendeu, experimentou e sofreu, e também por que voluntariamente o abandonou. De leitura sumamente divertida e a todos proveitosa. Dado a lume por German Schleifheim von Sulsfor. A tradução é de Mario Luiz Frungillo. (Obrigada, Seu Mario e UFPR.)

Monday, September 07, 2009

Conversa com N.

O Nicolau escreveu há semanas um texto sobre a relação entre arte e comida, que continuava o que discutíamos aqui. Vamos lá.

(É só uma resposta, que não caberia na caixinha de respostas do blogger e nem, acho eu, combinaria muito com o meu blog, de modo que resolvi fazer isso aqui só para que eu possa, com mais vagar, pensar em algumas boas provocações suas.)

Ele abriu um blog chamado Conversas com T. Vamos deixar as coisas bem claras. T é de Tanja. Não pensem besteiras!

Há uma pegadinha na discussão. Na verdade há duas discussões simultâneas. Uma é a relação entre comida e religião e outra é o possível status de “arte” que se pode dar à comida. Mas as duas discussões se resolvem numa única questão: qual o valor que se pode dar à comida.

Vou começar discordando. Desculpe mas o vinho não foi utilizado por Cristo à toa. Não poderia ter sido qualquer outra bebida. No way. Toda a vida de Cristo é símbolo. O vinho pode muito bem ser símbolo de sangue pura e simplesmente. Desde que seja vinho tinto, e ninguém nunca soube qual é a cor do vinho que se bebia…porque a tintura do vinho depende de um processamento posterior à sua própria fermentação (o vinho tinto fica tinto porque depois se acrescenta a casca da uva – antes disso todo vinho é branco). É possível que o vinho que Cristo tenha bebido fosse menos tinto do que se imagina, provavelmente mais marron, e certamente doce e com alto teor alcóolico.

Como diria o cancioneiro do rock brasileiro, opa, peraí, caceta. Tem uma coisa precisa ser esclarecida logo. Me incomoda dizer que "toda a vida de Cristo é símbolo". Talvez tenha faltado um "também". Pode ser. Bom, na missa do domingo passado, fizeram a leitura do Evangelho segundo São Marcus. A passagem foi aquela sobre a cura do surdo-mudo. Claro que dá para extrair dela um monte de imagens/símbolos/metáforas/alegorias/sei lá o quê. Você pode até fazer uma interpretação simbólica da saliva de Cristo no ouvido do surdo-mudo. Mas o fundo é histórico. É preciso martelar essa idéia. Toda a vida de Cristo não é símbolo (ou só um símbolo). Faço questão de enfatizar isso. Se você perder de vista esse ponto fundamental, os evangelhos perdem o sentido! A vida de Cristo foi um acontecimento, ponto. Jesus Cristo não simboliza nada. É Ele a fonte de tudo. Faço questão de bater nesse ponto, porque daí para maluquices esotéricas é um pulo.

Sobre Caná. Você não pode se esquecer que o sentido do sacrifício de Cristo é salvífico. Se é salvífico, é motivo de júbilo. O sangue de Cristo é motivo de alegria! O banquete nas Bodas de Caná é um presságio do banquete celeste. Mas só seremos convidados se provarmos o sangue de Jesus Cristo. Essa interpretação ("sacrificial") ajuda a entender até porque Jesus disse assim à Santa Maria, depois que ela falou que tinha acabado o vinho: "Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou." Como assim, "minha hora não chegou"? É que Ele está se referindo ao sacrifício, que preparará o banquete celeste. Mas é bom eu dizer também que o vinho sempre teve valor sacrificial mesmo entre os judeus também.

Não é novidade nenhuma a relação que existe, desde sempre, entre comida e religião. Das cerimônias antropofágicas da polinésia às orações dos cristãos antes de cada refeição, a sacralidade da comida está presente. Você consegue se imaginar almoçando uma lasanha à bolonhesa da Sadia no Domingo de Páscoa? Duvido. Não sabia do suco de cacau. Mas muitas bebidas rituais são fermentações sem coloração escura – até porque os duplos fermentados (aguardentes de um modo geral) são claros ou no máximo amarelados. Nem sempre a simbologia é o sangue. Mas sempre há simbologia.

Ah, sim, já ia esquecendo: a champagne é uma invenção dos monges. Monges que eram craques em produzir, além de vinho, cerveja da melhor qualidade.

Alguém que adora cerveja (de qualidade) outro dia fez uma alusão aos monges cervejeiros. Católicos gostam de boa vida também, como disse o M. Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo.

Acho que a separação entre sagrado e profano era desconhecida até 1789. Só não vou defender cheia de manha essa idéia porque a ouvi só por alto.

Mas ok, agora vou concordar com você: a relação entre a comida e o sagrado, inclusive no cristianismo, não autoriza a conclusão de que qualquer lanche tenha que ser uma revelação divina ao paladar. Comida pode ser fútil. Mas literatura e música também. Quem gasta R$ 1.000,00 numa garrafa de vinho pode ser tão idiota quanto quem vai ao Louvre e passa batido pelas pinturas góticas só para ver a Gioconda. Toda futilidade é ridícula, mas a futilidade, que você com toda razão critica, não é culpa da comida e da bebida, é culpa da quem bebe e come.


Olha, não sei se dei a entender que só o que proporciona prazer sublime presta. Se dei a entender, quero desfazer esse mal-entendido. A história demonstra que quando você começa defendendo uma filosofia do sublime, no fim você acaba penteando o cabelo para frente, tem aparência andrógina e chora à toa no quarto. Literatura e música não são passwords para se chegar ao último estágio da realidade. Nem Goethe nem Schubert são vacinas contra a estupidez. O que mais tem é retardado que lê muito.

O paladar não é um sentido especialmente rico. O olfato é riquíssimo – quase como a audição. Os dois sentidos, porém, se misturam no cérebro. Você, quando se alimenta, sente, na verdade, uma mistura de paladar e olfato – por isso que, quando você está gripada (e com o olfato prejudicado), a comida não tem gosto, ou melhor, você só sente os gostos básicos: salgado, doce, amargo e azedo (e olhe lá).


O que interessa aqui é o "quase". Fiquei já satisfeita. Se você encara a audição num patamar mais alto que o olfato, beleza. Por que é assim? Aí é outra discussão.

Claro que comida não é arte. Comida é, antes de mais nada, uma função vital, biologicamente falando. Fiquei pensando sobre isso e achei um paralelo com o sexo (um parelelo nada original, confesso). Sexo também é uma função vital. Por melhor que se faça – sexo e comida -, nenhum dos dois jamais poderá alcançar um status artístico, estritamente falando, é lógico, mas nem por isso devem ser relegados a funções subalternas na vida. Aí é que esta.


Mas a preparação de um prato é uma arte. No sentido antigo, mas é. A culinária é uma forma de arte. A satisfação proporcionada por um bom prato é enorme! Se você sai feliz depois de uma boa macarronada, então é um prazer não só físico. Toca o espírito. A razão de ser da culinária foi cumprida. É a perfeição! Veja como não acho tão caidaço assim o papel da comida como prazer espiritual! Com o sexo, até acontece coisa parecida. Vou me explicar melhor mais a frente.

Comida e sexo são também tecné. Ambos estão intimamente relacionados com a Cultura, e ambos possuem possibilidades materiais que podem alcançar maior ou menor, hummm…..digamos, perfeição. Mas vamos falar só de comida porque senão eu vou ficar constrangido.


Se você acredita em instinto, basta tê-lo (e capacidade física) para estar apto. Do ponto de vista dos sentidos, o sexo está na ordem do tato. Tato por tato, até uma minhoca tem. E convenhamos que os objetos captados pelo tato não são lá muito variados. Lógico que não estou julgando o prazer obtido pelo tato. É bom receber o abraço de um amigo. Agora, o detalhe que eu deixei para comentar agora é que não acho que exista uma "técnica" para se fazer sexo. Não mesmo! Pelo menos não no sentido de techné. Só se for num sentido muito figurado. Isso de "profissional do sexo" é só uma figura de linguagem. O que seria a "arte do sexo"? O conhecimento bem fundamentado de regras gerais de um domínio específico, cuja aplicação é prática por excelência. É como se houvesse um manual, que você seguisse tintim por tintim. Isso não ocorre com o sexo. Até o senso comum diz que o sexo não é assim! Aqui está a diferença com a culinária. Ela sim é uma techné. Do ponto de vista do conhecimento, ela está um degrau acima. Não é à toa que um chef bem-sucedido deve ganhar mais que uma "profissional do sexo" bem-sucedida! No máximo, sexo é uma questão de experiência. (Para muita gente, é questão de memória. E chega desse assunto.)

Comida nunca pode ser arte não pela questão sensorial, nem pela questão técnica, mas pela limitação óbvia na sua expressividade. Comida não expressa porra nenhuma. Comida pode até implicar lembranças, sentimentos, passagens, mas não expressa nada. Sim, comida é para se alimentar porém não é só para se alimentar. Ter comida à mesa é motivo de agradecimento a Deus. E acho pouco provável que Deus tenha colocado à disposição do Homem tantos belos ingredientes à toa, convenhamos.


"Comida não expressa porra nenhuma." Meu Deus, como ri ao ler isso. Mas olha só. Arte também não pode ser só expressão. Expressão por expressão, um orangotando berrando (orangotando berra?) é mais expressivo que O grito do Munch. Na arte, a técnica é dos princípios fundamentais. Até porque ela permite que você manuseie os meios de expressão. Então meio que inverti as coisas. A comida pode ser objeto artístico no sentido de produção técnica. De resto, tenho o que discordar não.

Portanto, o valor que se pode dar à comida e à bebida nunca será um valor artístico stricto sensu. Mas não precisa ser um valor vulgar e ordinário, no contexto daquilo que, à falta de uma palavra melhor, se chama de Cultura. E repito: a frivolidade não é culpa da comida e da bebida. Não é porque neguinho gosta de tirar onda dizendo que pagou uma fotuna para comer o Pato Laqueado do Mr Lan que o Pato Laqueado tem culpa na história.


Não impliquei antes, porque eu quis implicar agora. Entendo que comida e sexo estejam relacionados à cultura (por que o C?). Agora, em que sentido? Só falta me dizer que sexo e comida são produções culturais!

Sim, sim. Frivolidade não é culpa da comida e da bebida. Mas eu disse que comida e bebida são coisas frívolas? O máximo que eu disse foi que "nem tudo que é bom precisa de profundidade." Quando critico o Amaury Jr's way of life, é no sentido de neguinho inverter o senso das coisas. Não estou desmerecendo os maravilhosos chefs do mundo, nem as boas comidas. Nem quero dizer que só presta o que for grandioso/sublime. Só quis dizer duas coisas. Existe uma hierarquia das coisas e tudo tem a sua perfeição.

E sim, um peixe bem feito é uma dádiva!! Hehehe, nada demais em Cristo ter multiplicado os peixes. Até porque (a) praticamente não havia carne de boi naquela região e (b) os judeus tinham restrição à carne de porco. Seria complicado se Cristo tivesse multiplicado os porcos….mas sem provocações. Concordo com você que frivolidade não é uma atitude cristã – nem com comida, nem como literatura, nem com música, nem com nada.

Beijos

PS. Acho que ficou meio confuso, e, bem, meu tempo é meio corrido. E olha que eu nem falei do lado romântico da coisa, comida e amor, do prazer social de cozinhar para a família – de preferência ouvido Pergolesi…


Eu lá vou jogar a primeira pedra em confusões alheias? Mas que tal você falar das suas audições gastronômicas de La serva padrona? Só não vai me dizer que envolve sexo. Por favor.

Beijos!

Update, 08/08/ 20h: Uma pessoa boazinha me corrigiu. Meti um Van Gogh aloprado na autoria de O grito. Corrigi já. Como diria Tati Quebra-Barraco, eu devia estar boladona quando escrevi. Boladona, boladona.

Up-Update, 20h55: Um indivíduo já tinha escrito uma coisa muito legal sobre arte. Mas que texto bom. Como é que essas coisas não se propagam, pô?