Saturday, August 30, 2008

Lugares inviáveis

Vi um trechinho de um programa sobre terrorismo. Tinha rolado mais um fuzuê num desses lugares que só tem baixaria. Gente berrando pela destruição dos EUA, fuzil na mão. Às vezes bazuca. Coisas assim. (Variação da baixaria. Um cara morre; um monte de gente fica andando na rua dando tiro para o alto.) Os policiais (ou o exército, sei lá) tinham cara de coadjuvantes do Chaves. Sobravam bigodudos. Meu Deus, não confio em bigodudos. Um diplomata dos EUA disse algo como "95% da população não é confiável."

Esse lugar não é só ruim. Ele é inviável.

Nem uma sociedade maori era viável. O canibalismo e infanticídio rolavam soltos. Uma gente ótima:

Infanticide was also widely practised because tribes wanted men to be warriors, and mothers often killed their daughters by smothering them or pushing a finger through the soft tissue of the skull. The widespread practice of cannibalism was part of a post-battle rage. 'One of the arguments is really if you want to punish your enemy killing them is not enough. If you can chop them up and eat them and turn them into excrement that is the greatest humiliation you can impose on them,' says Moon. 'The amount of evidence is so overwhelming it would be unfair to pretend it didn't happen. It is too important to ignore.'


Veja. Os maoris eram uma gente que comia os inimigos só pelo prazer de transformá-los em merda. Isso sem contar o infanticídio. Êta povinho escroto.

Outros povos eram tão escrotos quanto. Como os maias:

'Archaeologists for a long time believed the ancient Maya to be gentle and peaceful people. We now know that Maya warfare was intense, chronic, and unresolvable, because limitations of food supply and transportation made it impossible for any Maya principality to unite the whole region in an empire, in the way the Aztecs and Incas united Central Mexico and the Andes, respectively….Captives were tortured in unpleasant ways depicted clearly on the monuments and murals (such as yanking fingers out of sockets, pulling out teeth, cutting off the lower jaw, trimming off the lips and fingertips, pulling out the fingernails, and driving a pin through the lips), culminating (sometimes several years later) in the sacrifice of the captive in other equally unpleasant ways (such as tying the captive up into a ball by binding the arms and legs together, then rolling the balled-up captive down the steep stone staircase of a temple).'


E os astecas:

The practice of human sacrifice was common not just in Mesoamerica but in South America and elsewhere. The motivation was to repay the debt to the gods. Among the Aztecs, after it had been cut out by an obsidian blade, the still beating heart would be held out in front of the victim and towards the sky. Eating pieces of the victim's body afterwards was not uncommon.


Um momento. Vira e mexe alguém diz: "Os povos pré-colombianos [astecas, maias, incas] eram sofisticados. Mais que os europeus." Você leu o tipo de sofisticação deles. Por essas e outras, sempre vale a pena lembrar de Santo Agostinho. Uma passagem célebre de A cidade de Deus:

Onde não há justiça, não pode haver direito, e nenhum povo, mas apenas uma multidão que não merece o nome de povo.


Não tinham povos nas Américas. Tinham aglomerados de gente. Dá vontade de ter uma camisa do Cortés e Pizarro.

Aconteceu no séc. XX um revival maia-asteca. Pelo menos na Alemanha. As crueldades dos nazis às vezes lembram os povos pré-colombianos. Veja o exemplo da Ilse "Filha do Capeta" Koch:

During World War 2 the infamous Ilse Koch was known as the Bitch of Buchenwald for her bestial cruelty and sadistic behavior. She was the wife of Karl Koch, the Kommandant of Buchenwald, and struck fear into the inmates daily. She was especially fond of riding her horse through the camp, whipping any prisoner who attracted her attention. Her hobby was collecting lampshades, book covers, and gloves made from the skins of specially murdered concentration camp inmates, and shrunken human skulls.


A própria I. Koch se achava parecida com alguém das tribos canibais do sul:

'It is more interesting that Frau Koch had a lady's handbag made out of the same material. She was just as proud of it as a South Sea island woman would have been about her cannibal trophies.'


Não que os nazis tenham sido os únicos a adotar o estilo maia-asteca de governar. A URSS, Cuba, China e outros países comunas foram até piores. O livro negro do comunismo está repleto de fatos terríveis.

Perto dessas baixarias, a Inquisição não passava de uma reunião da Tiara Tea Society.

O Brasil pode estar cheio de escrotidões. Ok. Mas caraca! Compara com certos lugares. Uns países parecem filmes policiais de baixo orçamento. Outros parecem coisa do H.P. Lovecraft. (Tem país tão estranho que dá até para desconfiar que está cheio de zumbis, harpias, goblins, essa coisa toda.) O Brasil não chegou a esse ponto. Ainda.


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50 mil homicídios por ano no Brasil. Bem que isso nos faz "uma multidão que não merece o nome de povo". Quem anda tranqüilo na rua? A coisa anda tão feia que às vezes, quando somos roubados, tem quem diga que a culpa é nossa. "Ah, ela fica andando com celular, bem feito". Daqui a pouco, só de a gente ter dois braços e duas pernas vai ser motivo de roubo.

Vale discutir o valor da liberdade numa situação dessas? Tenho um blog chamado Conversas Bizantinas. Mas uma discussão dessas é que parece bizantina! É como debater as contribuições de Ulpiano enquanto Alarico saqueia Roma. Não dá! E por falar em romano, as palavras imortais do Cícero: "Mais vale morrer mil vezes do que não poder andar na própria cidade sem a escolta de gente armada."

É uma situação deprimente.

Se é para discutir alguma coisa, acho melhor o seguinte: é possível haver liberdade em meio ao vício? Não é uma questão beata. É um problema sério. Antes de pensar na liberdade, a gente precisa pensar na justiça.

A justiça ainda é norma no Brasil. Ainda dá para apelar à ordem. Olha o caso das bizarrices dos maoris, maias, astecas, nazis e comunistas. A justiça não valeria nada para eles. A mesma coisa naquelas buracos onde se acha bonito mandar foguetes na cabeça dos outros. A situação está feia? Está. Mas existe ainda a possibilidade de justiça.

A criminalidade é a escrotice que mais dói.

Uma historinha real para fechar a conta. Uma amiga procurava onde morar. Foi ver uma casa no Catumbi (um lugar esquisito aqui no Rio). Estava baratinha. Ela perguntou a um cara que morava ao lado:

- Moço, essa casa tá a venda?
- Tá sim.
- Aqui é tranqüilo?
- Se a senhora acha que tiroteio é tranqüilo, todo dia aqui é muito tranqüilo. A senhora não vê jornal? Aqui aparece todo dia!

Ela não quis saber mais de Catumbi nenhum.

Tuesday, August 26, 2008

Fanfarronices

O Eduardo "Lobotomizado" Suplicy é retardado. Alguma duvida? Que tal vê-lo recitando e dramatizando Racionais MC's no Senado? É lindo. O mais legal é que nem ele consegue levar a sério o que está dizendo.



Será que tem coisa pior? Se depender do PSOL, tem. É o caso do travequinho tirando a roupa na Assembléia de São Paulo. Tudo graças a um vereador mongolóide do PSOL



Você ainda leva esses caras a sério?

Sunday, August 24, 2008

Tarja Turunen

A Tarja Turanen é o Andrea Bocelli do rock. Com ou sem Nightwish, é metal brega. Eu só não sabia que ela é admiradora do Paulo Coelho: "Li quase todos os livros dele. Sua obra me influenciou bastante." Hm... Ela também reclamou da falta de divulgação da cultura brasileira na Europa. Com certeza deve achar que o P. Coelho é nosso representante máximo: "É triste que a cultura brasileira não seja muito bem difundida pela Europa. Lá nós ouvimos um artista e não sabemos se ele vem do Brasil, da Argentina ou da Colômbia." Pois é, dá tudo na mesma chumbreguice. Agora, imagina essa cultura bastante difundida. Céus.

Fico emocionadérrima quando alguém faz questão de dizer que ela é soprano. Muitos acham que canto lírico e alta qualidade formam um combo. Opinião de caipira deslumbrado. É o mesmo que pensar que É o Tchan seria mais sofisticado se a Svetlana Zakharova rebolasse no lugar da Scheila Carvalho. Se uma dessas dançarinas rebolasse num violino, com certeza não faltaria quem visse nisso uma transgressão artística, logo, arte. É o fetichismo artístico. Pior, sem um pingo de conhecimento artístico decente. Basta ter os elementos exteriores da arte para o fulano considerar o conjunto de alto valor. Tem orquestra? Vocal lírico? Logo, sofisticado. Logo, alta qualidade. Metallica caiu nessa. Embregou-se ao cometer o S&M. Até eu que gostava do Load e do Reload detestei. (Proposta de tese aos fanáticos: o paradigma metallico pós-Black Album.)

(Lembrei de uma coisa. Aconteceu numa apresentação de música clássica/erudita/ocidental. Quatro pessoas estavam perto de mim. Eram duas mulheres (uns 40 anos cada) e dois garotos (16 anos cada). Os garotos: mulatinhos, roupa humilde, bonezinho, concentrados. As mulheres: branquinhas, cara de quem fez curso de humanas, faladeiras. Pela expressão, elas pareciam ter acabado de papear com São Pedro em pessoa. Estavam MUITO satisfeitas! Não era com a música, porque a apresentação nem tinham começado. A expressão continuou igual até o fim. No intervalo e na saída, elas gesticulavam e falavam alguma coisa que eu não conseguia entender. Os olhos chegavam a brilhar. Elas não piscavam. Era um troço esquisito. Do nada a minha ficha caiu: elas trabalhavam com jovens pobres. Talvez fossem de alguma ONG. Ou malucas pedófilas. Ou tomaram ecstasy. Ou tudo junto. Sei lá. Mas era claro que elas estavam com seus pobrinhos de estimação. Elas estavam apresentando àqueles dois as vias da salvação. O "trabalho social" é fetiche. Um dever sagrado. Claro que eu achava uma graça enorme daquilo.)

Não é que eu tenha raiva do estilo musical da T. Turanen, não. Só acho um saco. É kitsch pra cacete. Quanto às letras, bem, ela gosta de Paulo Coelho, não é mesmo? Passo a régua.

Saturday, August 23, 2008

Meninos-lobos

Outro dia eu estava no ônibus quando entrou um pessoal com cara de subdesenvolvido. Nem dava para entender o que diziam. Era um negócio como "KAPUTALELÊ". Falavam alto. Logo passaram aos palavrões, "cantando". Eram Beavis e Butt-Head funkeiros, piorados e mal-encarados.

É muito difícil eu me emputecer. Naquela hora eu quase virei Mulher-Hulk. Como eu lia Camões, fiquei pensando nalgum gentil-homem dando um jeito naqueles palhaços. Nem precisava cravar a espada, não. Só uma chicotadazinha no rabo e pronto. Mas não tinha nenhum gentil-homem no ônbus. O jeito foi ter que aturar.

(E olha que o ônibus estava indo para a zona sul. Outros lugares tem pior fama. Com razão. Vou dar um exemplo. Os ônibus na Central que vão para certos lugares desolados só têm gente bizarra.)

Um amigo meu sempre diz que o Rio é a maior zona. Tem razão. Esses comportamentos horrendos já viraram rotina. Você está na sua no ônibus. De repente aparece um maluco e começa a falar merda. Isso quando não é um bando. Pior ainda quando sobra para você.

Muitos que se comportam assim têm menos de 18 anos. Sempre penso: "Professora, né? Só se me ensinarem o dim mak". Não nasci para ser domadora de bicho. É muito mais legal ficar na rua com uma placa de "compro ouro".

Tem gente que acha que escola é lugar para civilizar. Não, não. O carinha já tem que saber regras básicas de convívio social.

Do jeito que está, parece que nas escolas só tem menino-lobo. Existe condição de ensinar desse jeito?

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Imagina se eu colocasse na roda a maravilhosa tosquice escolar. Só incluiria na lista do Pedro um outro indício de nonsense. É que estudamos um produto made for kids. O mais normal é que ninguém leve adiante o que aprendeu na escola. A gente cresce e mantém opiniões, er, "intelectuais" da época da TV Colosso ou Estrela Patrine. (Se você já era burro-velho quando passavam essas coisas, não tenho culpa.) Isso só serve para dar uma falsa sensação de conhecimento. Mais atrapalha que ajuda.

Friday, August 22, 2008

Greve, passeata

O assunto cansa a minha beleza. Mas vamos lá. Outro dia rolou (de novo) uma greve dos funcionários da Cedae. Disseram que quase todos (70%) aderiram. Você sentiu alguma diferença? Não percebi nadinha. Todo mundo com quem andei conversando a respeito semana passada também não. Tinha gente que nem sabia o que aconteceu. Não notem niguém fedido na rua. Pelo menos mais que o normal.

Raciocina comigo. A empresa deu conta do recado com 30% do efetivo. O que a maioria faz por lá então?

Imagino que a rotina desse pessoal seja assim:

8h: desenho
11h: almoço
12h: sobremesa
12h30: sesta
13h30: Nintendo
15h15: trabalho
15h20: fofoca
15h24: discussão sobre a próxima greve
15h54: adiós, muchachos

Trabalhar na Cedae até parece uma colônia de férias por outros meios.

Coincidência ou não (nunca é, mas enfim), aconteceu também uma passeata de privilegiados do Estado (porque servidores somos nós, lacaios) em frente ao Palácio das Laranjeiras. Motivo: pedição de grana. Claro, com lindos adornos. Melhoria nos serviços etc. Se o governo (que também não vale nada) bate o pezinho, aí eles reclamam: "Descaso com a saúde! Descaso com a educação!" Mordomia agora tem outro nome. Me engana que eu gosto.

Procurei no jornal Inverta (que só eu e mais três pessoas lêem) alguma coisa sobre os dois assuntos. Topei com um editoral sobre a Cedae:

Greve na CEDAE

Os trabalhadores da CEDAE (Companhia de Águas e Esgotos do Estado do Rio de Janeiro) entraram em greve de 24 horas com indicativo de paralisação geral pela intransigência dos patrões em não aceitar negociar o acordo coletivo da categoria, que é sempre negociado em 1º de Maio. As questões principais para os cedaeanos são a garantia no emprego e a manutenção da jornada de trabalho de 40h semanais, ou seja, os trabalhadores querem impedir o desemprego, e, com o aumento da jornada de trabalho, maior exploração dos funcionários da empresa, já que a proposta de aumento salarial não existe. A greve tem como objetivo provocar a abertura dos canais de negociação trabalhista porque os chefões da empresa já ajuizaram nos tribunais trabalhistas suas propostas de mais exploração e garantia de desemprego a qualquer momento já que as ameaças começaram.


"Patrões", "chefões", "cedeanos". Ai, ai. Mas deixa esses termos para lá. Outra coisa é mais importante. Você pensou que peguei um editorial recente, não foi? Nada! Ele é de 2003. A mesma porcaria de antes se repete agora. Esses grevistas são robozinhos teleguiados.

Um trecho de outra matéria do Inverta:

Os trabalhadores da CEDAE estão dispostos a manter a tradição dos últimos anos e enfrentar o governo do Estado (Garotinho), a fim de evitar a continuação do sucateamento da empresa e impedir sua privatização, conquistar na luta um acordo coletivo onde: a recuperação das perdas salariais, a garantia de emprego, concurso público para melhoria dos serviços prestados à população; e somar-se à luta dos trabalhadores das empresas de saneamento básico do país inteiro, para impedir a privatização desse setor como quer o governo federal. Estas foram as falações feitas na Assembléia.


De novo, retocando aqui e ali, tudo poderia ser repetido hoje. As "falações cedaenas" (quase termo acadêmico) são de 2001. Slogans recicláveis.

A loucura tem método. Os privilegiados do Estado fazem greve como forma de pressão. Os pretextos lindos são só isso mesmo: pretextos. O que querem é desestabilizar tudo quando convém.

A verdade é que os serviços básicos estatais são ninho de comunas. Quer dizer que todo privilegiado estatal é comuna? Não. Mas os comunas sabem aproveitar as chances. Como ninguém quer saber de política, eles tomam a cabeça dos sindicatos. Outra coisa. Isso tudo significa que eles seqüestraram os serviços. Imagina um monte de fanáticos de prontidão, prestes a sabotar os serviços básicos de uma cidade a qualquer momento! Nem preciso martelar a gravidade da situação.

Pompeu dizia: "Se eu bater os pés no chão, surgiram legiões do nada para derrotar César." Depois ele tomou na cabeça... Mas quem controla essa gente do sindicato pode ser mais eficiente que Pompeu. Eles podem mesmo convocar uma cabeçada de gente do nada. Eles podem botar uma cidade como o Rio de Janeiro de joelhos. Eles são como Marco Antônio incitando a plebe a caçar os assassinos de César.

Thursday, August 21, 2008

Rússia contra Geórgia

Vídeo de uma operação humanitária russa na Geórgia. Impressionante. Cenas fortes.

Tuesday, August 19, 2008

Aviso e links legais

First things first:

Simpósio Internacional de Tradução Literária do Alemão para o Português
A tarefa do tradutor



Simpósio
25 a 28 de agosto 2008
Academia Brasileira de Letras
Av. Presidente Wilson, 203
Castelo
As mesas-redondas são abertas ao público em geral.
Entrada franca
A participação nos workshops só é permitida a convidados e ouvintes mediante inscrição por e-mail escrtrad@uerj.br entre 4 e 20 de agosto.
Informação: Tel. +55 21 3804 8204 / 2254 1510


Idealização:
Prof. Dr. Johannes Kretschmer (Departamento de Letras Anglo-Germânicas, UERJ)
Kristina Michahelles (Tradutora e jornalista)
Comissão organizadora:
Prof. Dr. Johannes Kretschmer (Departamento de Letras Anglo-Germânicas, UERJ)
Kristina Michahelles (Tradutora e jornalista)
Profa. Dra. Maria Aparecida Ferreira de Andrade Salgueiro (Escritório Modelo de Tradução / UERJ / CNPq)

O objetivo do simpósio é, além de propiciar a troca de experiências e um maior intercâmbio entre os tradutores, incentivar jovens tradutores e estudantes da área a se dedicarem ao exercício desta profissão cada vez mais importante.

O evento quer dar um passo além e ampliar a rede, propiciando o encontro do público-alvo (tradutores, editores, jornalistas, professores, estudantes) com representantes do ramo editorial, da crítica literária e da pesquisa acadêmica, bem como de escritores nas duas línguas.

Neste sentido, uma das atrações do simpósio será a presença de quatro dos mais premiados autores alemães da atualidade: Antje Rávic Strubel, Ilija Trojanow, Julia Franck e Ulrich Peltzer, expoentes da nova geração da literatura daquele país. A presença dos quatro escritores reforça também uma tendência do mercado editorial brasileiro, que aposta cada vez mais na literatura contemporânea alemã. Dois dos escritores estão sendo traduzidos para o português. A mulher do meio-dia (Die Mittagsfrau), de Julia Franck, está saindo para a 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo pela editora Nova Fronteira, com tradução de Marcelo Backes. O colecionador de mundos (Der Weltensammler), de Ilija Trojanow, também está sendo traduzido para o português e sairá pela Cia. das Letras.

O simpósio é uma continuação do Encontro de Tradutores idealizado por Ray-Güde Mertin e realizado em 1996, no Rio de Janeiro, reeditado em novembro de 2006, em Porto Alegre, bem como da série coordenada por Sarita Brandt e Kurt Scharf em Portugal e Berlim (2005, 2007).

Sala Multimídia = MM
Sala José de Alencar = JA
Teatro R. Magalhães Jr. = TRM

25 de agosto, segunda-feira

10 às 11h Saudação, rodada de apresentações, esclarecimentos sobre funcionamento do workshop (sala MM)

11 às 12h30 Workshop: encontro com Antje Rávic Strubel (sala MM)
Coordenação: Prof. Dr. Johannes Kretschmer (UERJ)
Sarita Brandt (Tradutora)

12h30 Almoço

14h30 Workshop: Das Lektorat von Übersetzungen (sala MM)
Coordenação: Kurt Scharf (Tradutor)

17h Abertura Oficial (Teatro R. Magalhães Jr.)
Cícero Sandroni (Presidente, Academia Brasileira de Letras - ABL)
Ricardo Vieiralves de Castro (Reitor, Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ)
Ivan Junqueira (Secretário-geral, Academia Brasileira de Letras - ABL)
Dr. Wolfgang Bader (Diretor do Instituto Goethe São Paulo e diretor-geral para América do Sul)

17h30 Tradução e criação (TRM)
Prof. Dr. Paulo Henriques Britto (PUC-Rio / poeta e tradutor)
Profa. Dra. Maria Aparecida Ferreira de Andrade Salgueiro (Escritório Modelo de Tradução / UERJ / CNPq)
Coordenação: Prof. Dr. Johannes Kretschmer (UERJ)

18h30 Coquetel de abertura (Teatro R. Magalhães Jr.)


26 de agosto, terça-feira

9 às 10h30 Workshop: encontro com Julia Franck (sala JA)
Coordenação: Dr. Marcelo Backes (tradutor e escritor)
Kristina Michahelles (tradutora e jornalista)

10h30 às 12h00 Workshop: O desafio dos textos curtos (sala MM)
Coordenação: Carlos Abbenseth (tradutor e professor do Instituto Goethe Rio de Janeiro e Baukurs)

12h Almoço

14 às 15h30 Workshop: encontro com Ilija Trojanow (sala JA)
Coordenação: Dennis Gerstenberger (Goethe-Institut Rio de Janeiro)
Kurt Scharf (Übersetzer)

16h Workshop: Os caminhos da qualificação profissional (sala JA)
Georgina Staneck (Biblioteca Nacional, Brasil)
Almerinda Stenzel (Goethe-Institut Rio de Janeiro)

19h Mesa-redonda: A literatura alemã contemporânea, tendências e perspectivas para a tradução I (Com tradução simultânea / Teatro R. Magalhães Jr.)
Julia Franck e Antje Rávic Strubel (escritoras)
Dr. Marcelo Backes (tradutor e escritor)
Moderação: Verena Kling (Litrix.de)

27 de agosto, quarta-feira

9 às 10h30 Workshop: encontro com Ulrich Peltzer (sala JA)
Coordenação: Reinhard Sauer (Diretor do Instituto Goethe Porto Alegre)
Kristina Michahelles (tradutora e jornalista)

10h30 às 12h Workshop (sala JA)
Coordenação: Prof. Dr. Maurício Mendonça Cardozo (UFPR)

14 às 16h Workshop (sala JA)
Coordenação: Profa. Dra. Tinka Reichmann (Universidade de São Paulo - USP)

16h15 Workshop: Contratos e direitos autorais (sala JA)

18 h Mesa-redonda: A literatura alemã contemporânea, tendências e perspectivas para a tradução II (Com tradução simultânea / Sala José de Alencar)
Ilija Trojanow e Ulrich Peltzer (escritores)
Kristina Michahelles (tradutora e jornalista)
Moderação: Verena Kling (Litrix.de)

28 de agosto, quinta-feira

9 às 10h Workshop: Rodada final e recomendações (sala MM)

10 às 12h Mesa-redonda: A traduzibilidade das culturas I (TRM)
Profa. Dra. Carlinda Nunez Fragali (UERJ)
Profa. Dra. Rosana Bines (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio)
Profa. Dra. Susana Kampff Lages (UFF)
Coordenação: Prof. Dr. Johannes Kretschmer (UERJ)

12h Almoço

14 às 16h Mesa-redonda: A traduzibilidade das culturas II (TRM)
Profa. Dra. Tinka Reichmann (Universidade de São Paulo - USP)
Profa. Dra. Maria Alice Antunes (UERJ)
Prof. Dr. Victor Hugo Klagsbrunn (UFF)
Coordenação: Profa. Dra. Henriqueta Valladares (UERJ)

16h15 às 18h Mesa-redonda: Novos rumos da mediação literária entre a Alemanha e o Brasil (TRM)
Kurt Scharf (tradutor)
Luciana Villas-Boas (Editora Record)
Prof. Dr. Pedro Süssekind (UFOP)
Coordenação: Reinhard Sauer (Diretor do Instituto Goethe Porto Alegre)

19h30 A traduzibilidade das artes: Paul Klee e a música
Katharina Kegler (Escola Superior de Música, Freiburg)
Dra. Susana Carneiro Fuentes (Baukurs)

Coquetel de encerramento na residência do cônsul-geral da Alemanha


O "traduzibilidade" é um termo lindão. Mas fala sério. Deve ser um evento legal. Mesmo para quem não sabe rin-tin-tin nenhum de alemão. Se eu não estivesse cativa em Babilônia, não deixaria de ir. Agora, esse cônsul é festeiro. Outro dia teve apresentação de música na residência dele. Ele disse que adora o Rio. Quer dizer, tirando quando foi assaltado, eu acho.

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Uns links legais agora:

*Para quem curte estudos clássicos, Bryn Mawr Classical Review. Excelente. Lá você poderá ter uma idéia do que vem sendo publicado sobre o assunto.

*Sabe quando você acorda cedinho e diz: "Caraca, que vontade de ver um mapa do Sacro Império Romano nos tempos dos Hohenstaufen"? A sua oportunidade chegou! Você pode vê-lo aqui. Agradeça ao pessoal do Perry-Castañeda Library Map Collection. Mapas, mapas, mapas...

*Lá no site da Naxos você pode aprender várias coisas sobre música clássica/erudita/ocidental/não-sei-mais-o-quê. Tem desde um breve glossário, listas de compositores, breves biografias, até uns toques de como ir a e se comportar em uma sala de concerto. Também tem um ótimo conselho: Your job is very simple: be affected by the music.

*Um link assustador. Parece que a OTAN fez uma bela cagada em Kosovo. Segundo a diocese ortodoxa sérvia de Raska-Prizren, não faltou igreja vandalizada e/ou destruída desde 1999.

*Final de luxo. Que tal ver o Glenn Gould tocando as Variações Goldberg? Legal, hein? Mas por que comeram a aria da capo? Já vi o dvd e ele toca tudinho, sim senhor. Vai entender. É bom assistir também a Emma Kirkby cantando uma ária da Paixão segundo São Mateus. Ou a Cecilia Bartoli cantando feito louca uma ária do Vivaldi. Ou o Andreas Scholl cantando uma ária de Giulio Cesare in Egitto. (Se você implica com contratenores, ouça a Larmore cantando a mesma coisa. E leva a mal não, mas essa ópera é fodona.) Ou... não ouvir nada e pronto.

Thursday, August 14, 2008

Intimidade

Essa notícia no blog da Liz me fez pensar numa coisa. É só uma coincidência existir na nossa época uma epidemia de exibicionismo, técnicas de controle mental e totalitarismo? Parecem meios diversos para demolir o homem. Três vias da escravidão total.

Monday, August 11, 2008

Outras variedades

A primeira vez que ouvi falar em Protógenes foi durante um almoço. Pensei: "Acho que estão fazendo confusão com o Protágoras. " Bateu um leve otimismo com o Brasil. O que é pior, nego fazer confusão com nomes de diálogos do Platão ou nem saber direito que ele existiu? Fora que nem sempre escuto alguém conversando sobre Platão por aí. Transcorridos 30 segundos, começaram a falar em "delegado", "corrupção" e "Lula". O horror, o horror.

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Mais tosco que isso, só um debate que rolou na oitava série. Nossa professora de história nos dividiu em pró-MST em Eldourado dos Carajás e contra. Sei lá em qual lado eu estava. Muito menos me lembro como foi a discussão. Só sei que não suportava aquela conversa.

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Por falar na oitava série, uma amiga na época estava toda enrolada para namorar. Ela gostava de um carinha. Só que os dois eram tímidos demais. Quero dizer, eram tímidos para namorar. Quando o garoto chegava perto, minha amiga saía correndo para o banheiro. Isso nas raras vezes que ele chegava perto. Já havia acontecido até de os amigos dele o arrastarem pelo colégio para que ficasse perto da minha amiga! Impressionante. Os dois ficaram nessa maluquice por uns dois bimestres.

Um dia, as duas oitavas passaram a ter algumas aulas de português juntas. Ele, a 801. Nós, a 802, ou "futuros-marginais-e/ou-funcionários-públicos. Eu e ela sentávamos uma ao lado da outra. Quando as turmas se juntavam, eu tinha que sair do meu lugar para que os dois ficassem juntos. Pelo menos eles começaram a conversar direito a partir daí. Só tinha uma certa esquisitice. No recreio, quando eles se encontravam na sala dele, minha amiga gostava de pintar a unha dele. O cara sempre topava. Não é esquisito? Sei lá se o cara já era um metrossexual na época. Claro que alguém pode pensar também: "Olha, o cara era o maior viadão! Por isso que ficava cheio de coisa para falar com a garota!" Pois é, estranhei também. Talvez fosse mesmo. Mas acho que não. Aquilo parecia mais um jeito estranho que eles encontraram para quebrar o gelo. Às vezes dá certo bolar uma doideira para quebrar o gelo. Você de repente diz uma maluquice para a pessoa e pronto! A coisa passa a fluir. É mais ou menos assim que faz uma outra amiga minha. Se ela não conhece a pessoa, ela diz assim: "Vamos fingir que a gente se conhece faz tempo." Aí eles começam a conversar como se um tivesse participado dos eventos da vida do outro. Isso sim é maluco. Mais maluco ainda é que dá certo várias vezes. Voltando aos namorados. Já que os dois eram tímidos, toparam quebrar o gelo de uma forma diferente. Era também uma desculpa para ficarem se tocando.

Isso tudo pode parecer coisa do arco da velha. Parece possível no Rio de Janeiro, 1996? Eu mesma na época achava essa história meio babaca. Mas não, não era. Pensando agora, até que foi bastante bonitinho.

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Mas então fui me encontrar com um amigo nesse domingo. Eu só queria ficar em casa. Mas ele disse tanto que precisava me encontrar... Fui. Conversa vai, conversa vem, ele me diz assim: "Olha, tenho um presentão pra você!" Sou otimista. Fiquei crente que era mesmo um negócio bem legal. Vai que era um presente de aniversário atrasado? Adivinha o que ele me deu? Uma maçaroca de propaganda eleitoral! A tia dele vai concorrer. Pior, pelo PSB. Esse partido comuna está apoiando aquela comuna do cabelo horrendo. Jandira "samambaia-abortista-comunista" Feghali. O *menos* pior é que a tia dele nem desconfia o que seja comunismo. Nem ele.

Vou repetir. O cara me encheu o saco para eu sair de casa, dizendo que tinha um presente para me dar. Qual? Um quinquilhão de propaganda eleitoral. É mole?

Como sou escrota demais, me vinguei jogando tudo na terceira lixeira que vi. Se fosse na primeira, ele podia ter visto.

Monday, August 04, 2008

Do belo

Parte do livro As grandes linhas da filosofia moral, do Jacques Leclercq, p.214-18. O título do post fui eu que bolei. As notas são minhas (para o bem ou para o mal).

O belo é também o ser, mas enquanto fonte de prazer para o espírito. Para opô-lo ao prazer sensível, qualificamos este prazer de estético. O prazer estético resulta da vista da perfeição do ser e o belo é uma propriedade transcendental do ser ao mesmo título que a verdade e o bem1. A verdade é o ser enquanto conhecido, o bem enquanto fim, o belo enquanto objeto de prazer. Quod visum placet, diz Santo Tomás, o que agrada à vista.

Toda perfeição, todo bem agrada àquele que o conhece, portanto toda verdade. Todo ser é belo, como é verdadeiro, como é bom em si mesmo. Há uma beleza em todo ser, e esta beleza é proporcionada a sua perfeição.

Acontece, pois, com o feio o mesmo que com o mal e o falso: ele é relativo, consiste numa desordem. Não se concebe o feio senão num ser composto; como o mal, consiste numa falta de harmonia, uma falta de unidade entre os seus componentes; o feio é a falsa nota, a que destoa do conjunto.

O espírito experimenta prazer em presença de toda verdade e de todo bem, isto é, em presença de todo ser. Não há fealdade em si, mas somente num conjunto e se se qualificam de feias certas coisas, se temos a impressão toda relativa, semelhante à que nos faz qualificar de más certas coisas. Qualificamos de feios certos objetos menos belos do que os que estamos acostumados a ver. Numa casa onde há quadros medíocres pendurados nas paredes, admiramos o que supera os outros; essa mesma tela, porém, não causa nenhuma impressão no meio de obras primas, num museu; e, se estamos acostumados a teatro de colégio, achamaos bem representada uma peça que o freqüentador dos grandes salões julga mal representada. Do mesmo modo, uma música medíocre tocada por uma banda popular enche de satisfação a um povo da roça, enquanto quem freqüenta os grandes concertos a julga má música.

Isto explica também que os que têm o sentido do belo acham beleza em toda parte, pois todas as coisas encerram beleza, uma pedra, uma moita de erva, um som, um pensamento, uma palavra. O sentido do belo não é mais que o sentido da perfeição do ser; todo ser testemunha uma perfeição; na mesma medida, todo ser é belo2.

O belo, porém, suscita certo número de problemas interessantes à moral e que é útil examinar desde já, para afastar algumas dificuldades.

Na linguagem corrente só se fala de beleza a respeito de certas coisas. Fala-se das belezas da natureza; ninguém acha dificuldade em qualificar de bela uma paisagem, um animal, uma planta, uma pedra, um homem. Fala-se também de beleza, quando se trata de obras de arte e a respeito destas, em particular, fala-se de prazer estético. A estética desenvolveu-se em ciência e faz-se uma Filosofia da estética que se ocupa quase exclusivamente com a beleza, enquanto esta se manifesta nas obras do homem. Mas o que se chamam obras de arte visam apenas cetas obras do homem.

Quando se fala de beleza ou de prazer estético, costumam-se excluir formas de prazer sensível que ferem muito vivamente os sentidos. Fala-se de beleza quando se trata de sons a música, a linguagem, quando se trata de formas e de cores, de prazeres da vista e do ouvido, não quando se trata do gosto, do olfato, do tato. Nestes últimos casos, fala-se de bem: diz-se um bom cheiro, um bom gosto; para o tato, fala-se dum toque agradável: um estofo é de toque agradável, não belo.

Porquê? Porque a maior parte dos homens é de tal modo sujeita aos sentidos no domínio do gosto, do olfato e do tato que lhes parece impossível elevar-se por eles a um prazer espiritual. O sentido do gosto, em particular, está de tal modo ligado ao apetite físico da fome e da sede que, à maioria das pessoas, parece ridículo procurar aí um prazer do espírito. E, no entanto, pode o espírito gozar da perfeição dessas sensações como das da vista ou do ouvido.

Qualifica-se muitas vezes o prazer estético de prazer desinteressado. Já vimos o sentido espiritual deste termo3. Aqui significa apenas prazer do espírito. O termo desinteressado evoca uma pureza moral que se julga incompatível com a grosseria dos gozos meramente carnais. É por isso que não se qualifica de desinteressado o prazer de comer e beber, enquanto assim se qualifica o prazer de ver ou de ouvir belas obras e músicas: simples usos verbais que correspondem aos juízos da opinião comum. Na realidade, tanto dum lado como do outro, busca o homem a satisfação de seu ser4.

O gastrônomo é o que vê a beleza no que agrada ao gosto. Ora, um dos adágios da ciência do 'comer bem' é que, para apreciar um bom prato, é preciso ter um pouco de fome, mas não muito. Porquê? Porque a fome e a sede são necessárias para apreciar o que lisongeia o apetite, mas uma fome e uma sede violentas obscurecem o espírito; desenvolvem apetites carnais tão violentos que o espírito não é mais capaz de exercer o seu ofício, o homem se torna como um animal e não goza mais senão de modo meramente físico5.

Isto explica o fato de achar-se natural que faça um pintor um belo quadro, pintando "naturezas mortas", carnes, frutas, legumes, frascos de vinho, quando a maioria das pessoas não são capazes de ver a beleza desses objetos, quando vistos em estado natural: é que o pintor soube destacar a beleza que eles encerram e, na presença da imagem, são os apetites físicos despertados menos vivamente do que em presença dos próprios objetos.

O sentido da beleza é, pois, um sentido espiritual; é a faculdade de ver nas coisas o esplendor do ser, a perfeição do ser, o bem: em si, é bela toda coisa, toda sensação, todo movimento dum ser, todo ato da vida. Destacar esse sentido da beleza é um aspecto do desenvolvimento espiritual.

Comumente também não se fala de beleza a propósito da verdade e do bem, isto é, a propósito dos objetos de conhecimento estritamente intelectual ou a propósito dos valores de ação. E unicamente porque, como a verdade e o bem, é a beleza um ponto de vista no ser, e porque, com relação a certos objetos, a gente se coloca geralmente sob o ponto de vista da verdade ou no ponto de vista do bem. Mas o fato de não se poder unir todos os pontos de vista é simplesmente um sinal de fraqueza da inteligência humana. De fato, toda verdade é bela e todo bem é belo, assim como toda beleza é uma verdade e um bem.

O entusiasmo que se apodera dum filósofo em presença dum belo sistema, dum matemático diante dum belo raciocínio é de natureza toda estética. Pode ser que o leigo ache isso irrisório, por não ter o espírito suficientemente desenvolvido para gozar da beleza em puras abstrações, mas o belo está presente na perfeição do raciocínio, na harmonia do sistema. Aliás a palavra belo vem espontaneamente aos lábios neste domínio do mesmo modo que nos assuntos artísticos. E todo especialista capaz de perceber a perfeição do ser nas matérias de sua competência experimenta este prazer: extasiar-se-á o cirurgião diante dum belo caso, dum belo coração ou de belos rins, assim como o açougueiro admirará uma bela carne, o mercieiro ficará cheio de admiração fazendo correr por ente os dedos belos grãos de arroz: toda perfeição desperta o prazer estético porque o belo nada mais é do que a perfeição do ser enquanto conhecido, quod visum placet, enquanto desperta no espírito a efervescência jubilosa da admiração.

Mais ainda, um homem de negócios terá a mesma admiração diante dum belo contrato, bem ponderado, bem formulado, que dá plena satisfação a ambas as partes, um advogado diante dum belo processo, um moralista ou um psicólogo diante de um belo caso.

A vida moral desperta sentimentos de admiração muito semelhantes. Uma bela ação, o espetáculo duma bela vida causa impressão muito semelhante à duma bela obra de arte. O sentimento que em nós excitam os heróis de Plutarco ou os santos do Cristianismo, os feitos dum explorador ou dum missionário, a caridade dos Irmãos de S. Vicente de Paulo, a bela vida de Tomás More, tudo isso nos dá a impressão duma harmonia, duma perfeição diante da qual o termo beleza se impõe ao nosso espírito. E, por outro lado, esses temas influenciam as obras de arte que se reproduzem; é mais fácil escrever um belo livro sobre S. Francisco de Assis do que sobre um burguês egoísta e satisfeito; um belo assunto torna mais fácil a beleza da obra, e o assunto duma vida é, antes de tudo, seu valor moral. Se um personagem não representa nenhuma nobreza, se é repugnante sob todos os pontos de vista e não há meios de se inspirar estima para com ele, dir-se-á que ele constitui um tema ingrato6.

O belo, portanto, não somente tem a mesma universalidade que o bem e a verdade: o belo é a verdade e o bem; não é senão a perfeição do ser enquanto resplandece diante do espírito. Uma vida boa é uma vida bela; uma boa ação é uma bela ação e uma bela ação é uma boa ação. Tem razão a linguagem popular, quando empega quase indiferentemente os termos bom e belo. O sentimento de admiração próprio ao prazer estético desperta-se a propósito de qualquer perfeição.



Notas

1. O belo é tão universal quanto o ser e não é distinto dele a não ser por abstração.

2. Por isso Deus julgou toda a criação boa. Gen 1,31.

3. Referência a uma passagem num capítulo anterior, na qual J. Leclercq diz que ingleses como Shaftesbury, Hume e Hutchenson julgavam que o desinteresse era o fundamento do ato moral.

4. Em Do Sentido e o sensível, Aristóteles diz que a visão é o sentido mais caro às necessidades da vida e em si mesmas. É através dela que conhecemos um maior número de sensíveis comuns (a figura, a magnitude, o movimento e o número) e em maior grau de diferença. A audição é mais preciosa para a mente, ainda que de forma indireta. Entre todos os sentidos, é ela a que mais serve à sabedoria. Graças a ela, entendemos o discurso ou o raciocínio (este a causa do aprender). Diz Aristóteles que o discurso (ou o raciocínio) "não é audível por si mesmo, senão indiretamente, pois a linguagem se compõe de palavras e cada palavra é um símbolo racional." Já na Ética a Eudemo, ele diz que a visão nos faz perceber as coisas belas, enquanto a audição nos faz captar a harmonia sonora. Aí pode estar um motivo de as obras de arte serem perceptíveis apenas por esses dois sentidos.

5. Na Ética a Eudemo, Aristóteles diz que, em relação a certos odores, sentimos um prazer intrínseco, como é o caso das flores. Isso é diferente dos prazeres associados ao comer e beber, que por sinal são compartilhados pelos animais. Aristóteles diz em seguida: "É por isso que Estratonico está certo ao dizer que o prazer do odor das plantas é belo, mais do que o da comida ou da bebida mais suave."

6. O sentimento de beleza decorrente de um exemplo é também perceptível no teatro.

Friday, August 01, 2008

Beleza esmeralda

Distraída, conversava com o céu e vi uma estrela cadente. Já tinha visto muitas outras belas, caçadora de idéias que sou, mas nenhuma tão impressionante. Parecia que o bom Deus havia resolvido presentear a abóbada celeste com um longo pingente esmeralda. Estrela cadente maravilhosa, como é difícil encontrar algo tão cheio da mais pura vida!

Ela teve uma vida tão mínima como as outras. Antes do derradeiro movimento, ela esculpiu um simulacro em meu coração. Mas... Como uma beleza tão viva pode ser tão instantânea? Como é possível ela ter gravado uma impressão tão forte em mim, eu, que ainda por cima sou apenas pó? Será a Queda uma resposta? Por ela, a beleza se tornou escorregadia. Por ela, tornarei a ser pó. Por ela, fui condenada a sempre ver a beleza me escapando.

Se não fosse uma providência misteriosa, quão trágica teria sido a condenação! Porque a beleza é fênix neste mundo. A todo instante é sacrificada, a todo instante retorna. Ela sempre se oferece às pessoas de boa vontade para que tenham uma existência luminosa. Como os minutos da grande música, que se sacrificam para que ela atinja a vida gloriosa.

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Já que mencionei música, o adágio do Quarteto de cordas em fá maior n°1 op.18 do Beethoven é bom demais. Fora que esse cara sabe expressar muito melhor que eu uma coisa bonita! Ouça. É um adágio muito, muito expressivo. Não foi à toa que o Beethoven fez questão de marcá-lo como affetuoso ed appassionato. Talvez seja um dos melhores movimentos lentos que ele já escreveu. (Dizem que ele estava pensando na cena do túmulo de Romeu e Julieta quando escreveu esse movimento. Nos primeiros esboços, parece que havia certas alusões à peça. Pode ser que ela tenha servido de inspiração inicial. Mas como ele mudou bastante a versão final, e como a própria música em si não revela muita coisa de Romeu e Julieta, a ligação com a peça não é forte.) Para quem tem espírito poético, ele é um prato cheio. Intérprete: Quarteto Alban Berg (que se apresentou aqui no Rio outro dia).