Monday, July 21, 2008

Balé e Dufay

Svetlana Zakharova, na pontinha do pé, em A filha do Faraó.


Sábado, enquanto eu via mais uma vez A filha do Faraó, fiquei pensando na beleza do corpo. Quero dizer, não a beleza estática, mas a beleza do movimento. É das coisas mais lindas do mundo um corpo executando tantos movimentos agradáveis. Ainda mais se quem estiver dançando for a Svetlana Zakharova. Mesmo com todas as críticas, eu a adoro. Assista a uma performance dela em O lago dos cisnes. Impressionante demais.

Se o nosso corpo fosse tão inferior como alguns dizem, como ele poderia se expressar desse jeito? Não faz sentido! A dança é um dos melhores argumentos contra todos os gnósticos.

Para pessoas invejosas que nem eu, tem só uma coisinha ruim de ver dançarinas como a S. Zakharova. A gente fica se sentindo umas patas chocas.

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Ouvi o Guillaume Dufay no mesmo dia. Nunca tinha escutado nada. O que escutei foram algumas chansons. Música estranha e interessante.

A música é a arte mais espiritual de todas. Como disse o Carpeaux, ela é a única que não imita nada da natureza. Acontece que até o espírito pode sofrer de velhice. É estranho, mas é uma velhice que chama bastante a atenção. Um vestuário de muitos séculos atrás, por único que seja, não causa tanta estranheza quanto uma música ultrapassada. A comparação não precisa ser tão histórica. Uma nova moda no vestuário pode causar críticas. Mas se a inovação for no campo da música, a reação comum é de franca repulsa. Mudar o gosto musical é uma das tarefas mais complicadas que existe. Será que Nietzsche estava mesmo certo quando disse que a música é a arte mais conservadora?

O caso de Dufay é um bom exemplo. Ouvir suas chansons é ter na nossa frente a sofisticada corte burgúndia do séc. XV. Donnes l'assault à la fortresse é, por exemplo, canção de amor cortês. Mas é curiosa. Ela compara a corte à dama a um ataque a uma fortaleza. A música tem contornos bélicos. Só que o efeito é bem espirituoso. (Não sei se o amor como guerra se tornou um tema recorrente na tradição musical. O que sei é que o Monteverdi compôs Madrigali guerrieri et amorosi. Sugestivo, não?) Outra coisa que vale a pena destacar é o efeito retórico. Ela é bem expressiva. Ainda mais se comparada com o que havia no terreno sacro. (O problema é que essa discussão é equívoca. Pode ser que a música profana da época fosse mais expressiva. Só que a música sacra estava mudando bastante. Ela estava incorporando elementos da própria música profana (exemplo: o Ite missa est, da Missa de Tournai). Esse fenômeno é dos mais curiosos.)

Não é culpa do Dufay que as suas chansons estejam datadas. Ele não escreveu para a gente. A própria técnica musical era diferente demais. Pode ser que ele não tenha explorado todas as possibilidades diante de si. Ou então fazer muitas cobranças nesse campo seja um exagero. Não sei. O fato é que esse estilo e talvez esse tema estão sepultados faz tempo. Você pode encontrar desdobramentos quanto ao tema que vão dar em Monteverdi. Mas a arte do italiano é bem diferente da arte do Dufay. E muitas obras do Monteverdi também são datadas demais. Enfim. As fontes que animavam o espírito flamengo, as mesmas que levaram ao gótico flamboyant, são apenas material livresco hoje. A sentença pode parecer dura, mas é verdade: essas chansons podem ser interessantes, mas são agora arte exótica para o nosso gosto. Algumas coisas que passam não voltam mais.

Que tal acabar o papo ouvindo Donnes l'assault à la fortresse? Só não me responsabilizo pela autenticidade (e nem estou criticando nada, só comentando por alto).


Saturday, July 19, 2008

O Brasil é um Banco Imobiliário sacana

Disse Carlos Krämer (não somos parentes):

Só este ano, profissional de carteira assinada que sou, fui obrigado a doar mais de cento e trinta reais para o sindicato do qual faço parte compulsoriamente. Isso é lei aqui no Brasil, o sujeito é obrigado a pagar o sindicato. E merece honrosa menção o fato de eu sequer saber o nome, o endereço ou o telefone do sindicato para o qual sou obrigado a pagar pomposas fatias dos meus modestos ganhos.


O texto é do dia 12 de maio. De janeiro até aquela data, foram R$130 só para o sindicato. Imagina o que mais não foi, juntando todos aqueles lindos impostos que ninguém nem sabe do que se trata! É que trabalhar no Brasil é como jogar uma partida sacana de Banco Imobiliário: você paga aluguel o tempo todo, os lucros ou dividendos são irrisórios, o salário só encolhe com o passar das rodadas, as cartas aleatórias sempre são cobranças, e a probabilidade de você ir para a prisão, caso arrume algum dinheiro apesar de tudo, se multiplica. O único vencedor é a banca! A menos que você ache um jeito de ser favorecido.

Sei que não é segredo nenhum essa história de neguinho ter que pagar o sindicato. Mas é o tipo de bizarrice que de tão bizarra a gente custa a acreditar. Ser obrigado a trabalhar para uma entidade que você nem sabe se existe mesmo faz parte da nossa realidade nonsense. O problema mesmo é a contribuição compulsória. Por que alguém deveria ser obrigado a arcar com os custos de um sindicato? É imoral.

Friday, July 18, 2008

Yiddish Theatre & Folk Songs

Não é que minha obsessão beethoveniana passou. Longe disso. Mas quero indicar um álbum. Ele se chama Yiddish Theatre & Folk Songs. Como você pode notar, é música judaica em ídiche. Quem canta é o talentoso Theo Bikel. Uma maravilha! O Bikel não tem apenas uma grande voz. Ele sabe interpretar mesmo cada música. O álbum foi lançado em 67 e relançado em 91.



Como exemplo, a segunda faixa, Doina. Gosto muito dessa música. Veja a letra e tente cantar!

UERJ travesti

Uerj abre banheiro feminino e lista de chamada para travesti.

Vi num filme uma drag queen dizendo: "A transvestite puts on a frock, looks like Boris Yeltsin in lipstick." Pois é, não quero ir a um banheiro que tenha um Boris Yeltsin de batom. Ainda bem que não freqüento aquelas bandas.

Agora, eu queria ser chamada de outros jeitos também. Por que esse privilégio só para travestis? Já que dizem que nós mulheres comemos o pão que os homens amassaram ao longo da história, a gente é que merece privilégios! Como sou caprichosa, quero um nome diferente em cada curso que fizer. Se estudasse filosofia antiga, eu seria Diotima. Mas se fosse história antiga, aí eu gostaria de ser chamada de Rainha Artemisa (sim, Rainha seria o primeiro nome). Caso eu pegasse harmonia ou composição, meu nome seria Anna Magdalena Clara Die Schöne Müllerin von Schumman-Bach.

Thursday, July 17, 2008

Como entrevistar um político

Uma vez o R. Jefferson, aquele gordo do mensalão, participou de uma entrevista no canal 9 (que é CNT; não sei como é nos outros países, quero dizer, estados). Quem entrevistava era um moreno gordinho. Eles não paravam de rir. O entrevistador queria ganhar a simpatia do Jefferson. Fazia de tudo para ele se sentir à vontade. Qualquer palhaçada do Jefferson era motivo de risada. Cara, que programa chulé.

Na minha opinião, político tem que ser quase humilhado em público. Entrevistador tem que rimar com terror. Tem essa de ficar puxando o saco do entrevistado não! Tem que ser sádico. Acho até que podiam adotar um estilo soviético de entrevista. Ela duraria horas. Haveria uma lâmpada bem forte na cara do político. Um revezamento dos entrevistadores. Um candidato a prefeitura do Rio? Perguntas: "Qual a profundidade máxima da Baía de Guanabara?" "Quantos índios Mem de Sá enfrentou?" "Com base na Política de Aristóteles, qual a melhor forma de lidar com o crime?" "Quantas sinfonias o Villa-Lobos compôs?" Se tivesse um público, ele teria que ser hostil. Lá fora, um carro da polícia federal, mas fake. Acho até que tinha que ter algum trote bizarro. E por aí vai.

Teve uma vez que meu sonho de ver um político sendo massacrado numa entrevista se tornou realidade. Espero que não tenha sido uma entrevista fake. Aconteceu num domingo. Eu estava na cozinha tomando suco. Minha avó começou a berrar da sala: "Tanja, vem cá correndo!" Encontrei minha avó rindo. Ela estava ouvindo um programa da rádio Tupi. Uma 10h. Mas nem precisei perguntar qual era o problema. Já comecei ouvindo o entrevistador colocar o entrevistado na parede:

- Mas que negócio é esse de o senhor querer acabar com o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora?

"Ah, aquele deputado...", pensei. Ele respondeu:

- Veja, não é bem assim, é para ela ser a padroeira só dos católicos.

Eu já estava pronta para fazer um comentário. Para quê? O entrevistador começou a reclamar:

- Que é isso, ô seu deputado? O Brasil é um país de maioria católica! Que negócio é esse?
- Mas... mas... veja bem...
- Veja bem coisa nenhuma! Você não tem nada para fazer não, ô seu deputado, em vez de ficar fazendo palhaçada?

Até eu estava surpresa. Aquilo era lindo demais. Quanto mais o deputado gaguejava, mais o entrevistador ralhava com ele. E o final? Antológico:

- Ah, seu deputado... Se tá querendo aparecer, vê se mete uma melancia no rabo! Vê se pára de encher o saco!

Perguntei na hora: "Vó, eu ouvi isso mesmo? O cara mandou o deputado meter uma melancia no rabo?" Ela, rindo: "Mandou sim. O fulano [ela disse o nome do cara; não lembro mais] é assim mesmo. Ele é meio maluco."

Meu Deus. Tive até que bater palmas. Maravilhoso demais. Espero que mais políticos participem daquele programa.

Update: Minha avó me corrigiu. Não foi na Globo. Foi na Rádio Tupi. E o cara se chama Pedro Augusto.

Monday, July 14, 2008

Lei seca

(Antes, uma explicação. Existe uma opção de programar o horário da publicação de textos no blogspot. Estou testando. Marquei para publicar às 3h30, horário de Brasília (o horário das publicações que você vê aqui são do fuso horário de Tangamandápio). Não posso entrar no blogspot do trabalho. Se você conseguir ler esse texto hoje à tarde, ficarei feliz.)

Hoje cedo escuto que vão aplicar a lei seca nos mares. Parece que está cheio de pés de cana pilotando barcos. Os bêbados são os responsáveis pela maior parte das maldades cometidas nas vias terrestres e fluviais. Cuidado. Se você estiver com bafo de onça no mar, cadeia. Só não consigo pensar em barcos em ziguezague, pilotados por bêbados perigosos, sem pensar em coisas do tipo Monty Python.

Como eu disse em outro post, os inimigos públicos são declarados conforme a conveniência. A intenção é sempre sublime. Querem nos proteger. De nós mesmos, é claro. Nem digo que os bêbados se tornaram inimigos do Estado. Hoje, o pessoal com hálito alcoolizado já vai em cana. Os gordos já foram declarados co-responsáveis pelo aquecimento global. (Deveriam censurar o Chaves. Aquele Seu Barriga, maldito porco capitalista.) Um amigo meu me disse que ouviu o ministro da Saúde do B dizer que combaterá as comidas gordurosas. Nunca pensei que eu estaria tão enrascada. Tirando o negócio de ser gordo, estou ferrada. Agora, ato de rebeldia é abrir um pacote de fandangos. Pelo menos é mais fácil ser rebelde assim do que no estilo Michael Koolhaas. (Se bem que ele queria usar o governo universal para acabar com a pouca vergonha do mundo. Esses rebeldes... Mas o dr. Lutero o persuadiu a deixar aquela vida de lado.)

(Certa vez eu disse a um amigo que hoje em dia, com as melhores das intenções, nego quer enfiar o dedo na gente para nos salvar. Mas pelo menos (é o que dizem, sei lá se é verdade) essas coisas ajudam mesmo a diagnosticar doenças. Pode ser que enfiar o dedo no seu furico ou entre suas pernas ajude a salvar mesmo a sua vida. Agora, daí a proibir, sob alegações de salvação pública, comidas, bebidas e fumo...)

Vou ser cricri. Vou repetir o que já disse várias vezes. Tudo isso tem como objetivo controlar a vida das pessoas. Tem gente que se acha superior. Outro dia mesmo, um amigo chegou para mim e disse: "Olha, as pessoas são idiotas." Perguntei se ele se achava uma pessoa. Ele riu. Então eu disse: "Melhor reformular. As pessoas, menos você..."Claro que se você sair por aí cagando regras para todo mundo, você está se achando o ó do borogodó. Esse é o pressuposto: "Olha aqui, como você é retardado, e nós chiques e formosos, a gente precisa te controlar ao máximo." Não, não. Se você é um animal racional que nem eu, você tem tantos problemas como eu. É até mais problemático se ficar se achando desse jeito. Está ficando zureta das idéias. Tem que tomar um pedala-Robinho correndo.

Agora um vídeo muito a calhar:

Thursday, July 03, 2008

Bebês politicamente incorretos

Veja o perigo macabro por que passou o bebê da foto abaixo. Ele poderia se machucar feio com essas argolas de borracha. Espero que o ministro da Saúde tome as devidas providências.




Outro caso medonho:




E esse da foto abaixo? Tanta gente sem terra ou sem ter o que comer... e ele esbanjando comida! Onde o mundo vai parar?


Wednesday, July 02, 2008

Hidra

Aqui vou dizer uma coisa sobre a reação que as pessoas têm contra fumantes. Depois vou dar um motivo para qualquer um ser contrário à campanha antitabagista. Se bem que o Pedro limpou bonito a área.

As pessoas têm o direito de detestar o que quiserem. Da mesma maneira que podem gostar do que quiserem. Se eu gosto de fumar, isso não me dá o direito de exigir que todos gostem (e nesse barco entra desde o cigarro até matemática, Platão e literatura). Se você se sente incomodado, sinta-se à vontade para não gostar. Só não pode exigir por isso que eu não fume. A gente pode até entrar num acordo. Mas por que você tem o direito de me proibir de fumar, enquanto eu não tenho o direito de te obrigar a fumar? Você é o rei da cocada-preta? Se você se acha no direito de xingar um fumante, o fumante tem todo o direito de te xingar também. Se estou fumando e alguém se acha no direito de falar que tem nojo do que estou fazendo ou faz cara de quem comeu e não gostou, me sinto no direito (e na obrigação) de dizer que essa opinião me dá nojo e de fazer a mesma cara de quem não comeu e não gostou. Tem mais. Se você passa mal, não pode ver um cigarro aceso ou coisas assim, por que você tem tanta certeza que o problema está no cigarro? O problema pode ser você. Quem disse que você não tem alguma neurose relacionada ao tabaco ou não é uma pessoa histérica? Só porque um monte de gente também tem ataques por causa do cigarro não significa que esse tipo de comportamento é correto. Última coisa. Detesto feijão. Só que eu nunca me senti no direito de chegar para alguém e dizer: "Olha, o cheiro desse feijão que você está fazendo me dá nojo." Nunca dei chilique. Fora que já cansei de visitar fulano e na hora do almoço me empurrarem feijão. O que faço? Dou pití? Não. Se não tiver como evitar, como só um pouquinho. Não vou morrer por isso. (Uma dica relevante: Plutarco, Vida de César; é o episódio no qual o César come por pura educação um tremendo bagulho que alguém lhe preparou. E não só deu o maior esporro nos caras que reclamaram como ainda por cima comeu mais para dar exemplo!) Sem contar que sempre tenho que aturar neguinho dizendo: "Nooooossa, como você pode não gostar de feijão? É tão brasileiro! Faz bem para a saúde!" Ainda que eu estivesse convencida de que feijão faz mal à saúde, nunca eu daria ataques histéricos. O máximo que eu faria é sair de perto.

Ser contra campanhas antitabagistas deveria ser de interesse geral. Se você pensa que isso é coisa de quem tem rabo preso com a indústria milionária tabagista, preciso lembrar que do outro lado estão vários burocratas montados na máquina pública com seu dinheiro, mais a indústria farmacêutica. De pobres eles não têm nada. Na pior das hipóteses, é um conflito de monstrengos. O que está em jogo não é o direito de fumar. É a liberdade individual contra a sanha regulatória dos beatos estatais. Se você concordar em ver o direito de fumar negado aos outros, não poderá reclamar se amanhã resolverem proibir alguma coisa que você goste sob alegações similares. Duvida? Leia esse post do Cláudio então. Para esses beatos estatais, você é um bebê e o mundo é uma enorme deathtrap. Eles, claro, são responsáveis. Por eles mesmos e por você. Já até imagino o dia em que vão pedir para que o Estado limpe os traseiros das pessoas. Alegação: como neguinho não tem limpado direito o forévis, cada vez mais assentos públicos estão sujos, prejudicando a saúde pública. Vai ter um fiscal de traseiro para averiguar se todo mundo anda bem limpinho (que também vai ver se as pessoas andam lavando as mãos depois de fazer xixi). Quer apostar quanto que vai ter quem concorde?

Como o problema é da liberdade, da responsabilidade e da autonomia de cada pessoa, todas essas porralouquices acabam convergindo num único ponto. Querem regulamentar a nossa vida porque nos acham um bando de idiotas que só servem para dar dinheiro. Querem regulamentar a nossa vida porque não nos consideram pessoas de verdade.

Fico pasma quando alguém diz que que combater as campanhas antitabagistas não é tão meritório quanto, sei lá, combater o aborto ou a censura. Quem pensa assim não pegou o espírito da coisa! Por trás da legalização do aborto, da censura e da proibição do tabaco, está a grande questão da limitação dos direitos individuais. E mais por trás ainda está a questão do valor da pessoa humana. Você pode não perceber, mas os caras que inventam porraloquices como essas pressupõem que a gente é menos gente do que eles. A cara-de-pau com que esses burocratas safados ignoram a sua liberdade vem desse pressuposto. Você é matéria-prima para eles. Uma coisa. É por isso que não adianta ficar pensando: "Ah, combater o aborto é mais honroso." Ou: "Sou anti-antitabagismo mas sou limpinho." Não, não. Se você é defensor da pessoa humana e da liberdade, você vai usar as mesmas armas contra o aborto e contra o antitabagismo. Não adianta nada combater num ponto e ceder todo felizão no outro. É preciso saber que estamos diante de uma Hidra. Não adianta nada cortar cada cabeça. Será vão. Os golpes têm que ser aplicados nos pontos vitais, com as armas certas.

Tuesday, July 01, 2008

Espetando a tia-avó refinada

O tema filólogos-alemães-nazistas-sabedores-de-sânscrito é batido. Mas é o melhor exemplo do que aconteceu com 5 séculos de humanismo. Não estou reclamando do humanismo, não. A idéia de ter a possibilidade de estudos que nem Platão teve dá o maior barato. Qualquer zé-mané que levou os estudos a sério conhece mais literatura que Teócrito. Pelo menos em quantidade. Pense no volume de leitura de um estudante qualquer. Compare com os estudos de um, sei lá, Virgílio. Um erudito atual é muito mais impressionante que qualquer alexandrino. Mesmo assim, a impressão é que somos mais babacas. Impressão que não é à toa.

O problema é que o humanismo meio que viciou a gente com a idéia de a cultura ser um brinco bem bonito ou uma cerejinha que enfeita o bolo. Um adorno. Faça você mesmo um teste. Pense nos motivos de a Inglaterra vitoriana ser mais civilizada que o Paraguai. Se você pensou logo na idéia de um povo refinado, pronto, você é humanista segundo o meu teste. Agora veja só que coisa curiosa. Segundo o Ortega, se o critério for a polidez, a China era muito mais civilizada que a Grécia. Enquanto o Platão quebrava a cabeça com a teoria das idéias, o chinês comia com pauzinho e usava lencinho. O Platão devia parecer, aos olhos de um chinês, um verdadeiro troglodita metendo a mão no prato para se alimentar. E se você comparar um desenho (ou "iconografia", para falar bonito) medieval com um desenho chinês do séc. XIII? Este vai parecer muito, muito refinado, enquanto o primeiro vai dar a impressão de ter saído de um filme de ficção científica (senão pior).

A gente não deve ter uma visão de cultura como se fosse coisa de tia-avó refinada. Achar que cultura é gostar de móveis vitorianos, usar roupas sofisticadas, conhecer literatura anglo-saxônica, conhecer nos mínimos detalhes Casablanca, tudo pode ser bem legal, mas não passa disso: tia-avó refinada. Para ser franca, Deus me livre e guarde. Sendo apenas isso, seria uma espécie de frivolidade. Você pode até encarar a frivolidade com dedicação, como acontece com os esportes. Mas qualquer esforço que você fizer para justificar a cultura (entendida nesse critério) não vai passar de exercício de esnobismo! Tipo caça à raposa. Uma brincadeira lúdica praticada por aristocratas. Estaria tão na periferia da vida como o futebol. Se aparecesse um Cálicles puto da vida, dizendo que a última razão da vida está no muque, uma concepção elegante de cultura seria tão útil quanto usar uma pistola d'agua como arma de intimidação. Não se engane. Os Cálicles da vida sempre surgem quando a cultura perde vitalidade. E eles parecem ter razão. A cultura só pode ser justificada na medida em que deixa de ser puro jogo e cai na área da utilidade pública. Pois é, a cultura só faz sentido quando é uma espécie de serviço. Ela tem que ter uma finalidade. Mas que tipo de serviço? É quando a gente precisa resolver as aporias da vida. Se a cultura não servir como ferramenta de salvação de cada um, ela não serve para nada. Aí o triunfo dos Cálicles da vida se concretizará. O sentido de salvação de cada um é a dimensão dramática e a justificação da cultura.

O tema é complicado. Complicado e agradável. Tratar assim tão corrido chega a doer. Mas é melhor do que não dizer nada.

(Sugestão: leiam A rebelião das massas tendo esse problema a respeito da importância da cultura em mente.)